Questões sociocientíficas na prática docente: ideologia, autonomia e formação de professores
Parte II – Formação crítica de professores de Ciências no contexto da perspectiva ciência, tecnologia, sociedade e ambiente (CTSA)
Parte II – Formação crítica de
professores de Ciências no contexto
da perspectiva ciência, tecnologia,
sociedade e ambiente (CTSA)
4 – Contexto sobre a formação de professores de
Ciências
Porlán, Rivero e Martín (2000) destacam que as pesquisas sobre a
formação de professores de Ciências estiveram focadas, desde a
década de 1980, em três aspectos:
1) Crenças ou concepções dos professores sobre a natureza do
conhecimento científico.
2) Concepções pedagógicas relacionadas com os processos de
ensino de aprendizagem.
3) Relações entre conhecimento do professor e contextos
escolares.
As pesquisas sobre esses aspectos contribuíram na compreensão do
conhecimento profissional dos professores de Ciências como um
elemento importante para o melhoramento das práticas docentes, bem
como com o melhoramento do saber profissional adjacente aos
processos de formação inicial e continuada de professores de
Ciências.
Mellado e González (2000) consideram que o conhecimento
profissional para ensinar Ciências é complexo, porque integra saberes
docentes epistemologicamente diferentes do professor, de acordo com
as experiências vivenciadas em cada momento de sua preparação
profissional. Denominações tais como atualização docente, aperfeiçoamento profissional ou reciclagem são inadequadas para
caracterizar o processo permanente de crescimento pessoal e social
dos professores.
O desenvolvimento do professor na sua atividade de ensino, bem
como em suas relações coletivas com outros agentes da escola e da
sociedade, abrange uma heterogeneidade de valores, saberes e
conhecimentos em relação às disciplinas objeto de ensino, bem como
aos aspectos pedagógicos envolvidos em sua atividade.
A formação inicial e continuada de professores constitui-se de
processos dinâmicos e inter-relacionados, uma vez que a questão da
formação do professor tem a ver com as experiências, as práticas, os
saberes e os conhecimentos desenvolvidos ao longo da vida do
professor, incluindo suas vivências antes de começar a carreira
docente nos cursos de licenciatura. Assim, a formação de professores
constitui um amplo campo de pesquisa.
A formação de professores é a área de conhecimentos,
investigação e de propostas teóricas e práticas que, no âmbito da
Didáctica e da Organização Escolar, estuda os processos através
dos quais os professores – em formação ou em exercício – se
implicam individualmente ou em equipa, em experiências de
aprendizagem através das quais adquirem ou melhoram os seus
conhecimentos, competências e disposições, e que lhes permite
intervir profissionalmente no desenvolvimento do seu ensino, do
currículo e da escola, com o objetivo de melhorar a qualidade da
educação que os alunos recebem. (Marcelo, 1999, p.26)
Levando em consideração o objetivo deste trabalho, focaremos a
atenção na formação continuada do professor, a qual é entendida
nesta pesquisa como um processo permanente de reflexão crítica
sobre a prática docente, no intuito de sua correspondente
transformação. A formação continuada é um processo contínuo e
complexo que constitui a construção da profissão docente em termos
sociais.
A formação continuada de professores de Ciências não pode ser
reduzida a um processo individual. Pelo contrário, faz parte de um processo contextualizado de acordo com a dinâmica da escola e de
sua complexa organização (relações entre aluno-professor,
aprendizagens dos alunos, currículo, ensino etc.).
Para que a formação continuada seja contextualizada socialmente, é
necessária a participação ativa dos professores e o desenvolvimento
de uma cultura de colaboração que valorize significativamente a
autonomia escolar em termos da tomada de decisões sobre processos
organizacionais, profissionais, curriculares e de ensino.
Um aspecto importante da formação continuada de professores está
relacionado com o profissionalismo docente historicamente
influenciado pelo conservadorismo ideológico e o controle político.
Nesse sentido, a profissão docente é prejudicada pela burocratização,
a proletarização e a intensificação do trabalho dos professores, o que
leva a um maior controle, diminuindo a autonomia e a capacidade de
tomar decisões e favorecendo ou aumentando as tarefas dos
professores nas escolas sem modificar as condições laborais. Tais
aspectos não podem ser desconsiderados na formação continuada de
professores, que também está relacionada com boas condições
laborais, maiores índices de autonomia e fomento de trabalho
colaborativo entre os professores das escolas.
Outro elemento relacionado com a formação continuada de
professores é a relação desta com o currículo e a política curricular,
tendo em consideração as concepções que podem subjazer a esses
aspectos. Assim, uma política e a concepção de currículo técnica vão
gerar processos de preparação técnica dos professores, os quais são
orientados por agentes externos (editoras de textos ou especialistas),
que favorecem a aquisição de determinadas competências e
informações. Embora esses processos possam ser eficazes em
termos produtivos, correspondem a uma racionalidade instrumental,
em comparação a outras propostas que consideram o professor como
agente de desenvolvimento curricular, inserindo-o em processos de
pesquisa sobre sua própria prática (Elliott, 1997).
A preparação dos professores em serviço tem se transformado ao
longo do tempo. Por exemplo, houve uma época em que a perspectiva
comportamentalista foi dominante nos processos de profissionalização dos professores, provendo-lhes do papel de assimilar conhecimentos
produzidos por outros. No entanto, novas perspectivas mudaram o
conceito de ensino como mera ciência aplicada pelo ensino como
atividade prática e deliberativa, sendo um claro componente ético.
Assim, nasceu a ideia de formação continuada de professores,
entendida como um conjunto de processos que facilitam a reflexão
dos professores sobre sua prática, permitindo-lhes a construção de
conhecimentos coerentes com a reflexão teórica e a reconstrução de
suas experiências docentes. Assim mesmo, o papel do formador de
professores mudou de mero especialista a colaborador, dando apoio e
comprometendo-se com a pesquisa escolar.
Para Gimeno (1998), o campo de estudo do currículo está relacionado
com o ensino, seja em termos macrocurriculares ou microcurriculares.
O macrocurricular se refere às questões sociais, filosóficas e
organizativas do ensino na escola, e o microcurricular consiste nas
análises didáticas das disciplinas específicas. Dessa forma, o currículo
implica as perguntas pelo que, por que, para quem e quando ensinar.
De acordo com Porlán (1997) e Porlán, Rivero e Martín (2000),
caracterizamos no Quadro 3 quatro enfoques curriculares atrelados à
prática docente dos professores de Ciências.
Quadro 3 – Enfoques curriculares atrelados à prática docente dos
professores de Ciências
Aspectos Enfoques curriculares
estudados
Tradicional Tecnicista Espontâneo Alternativo
Conteúdo O conteúdo O O O
escolar é uma conhecimento conhecimento conhecimento
reprodução escolar é escolar é escolar tem
simplificada de uma uma em
conhecimentos adaptação do adaptação do consideração
disciplinares. conhecimento conhecimento diferentes
disciplinar. do cotidiano fontes sociais
dos e
estudantes. disciplinares.
Metodologia Fundamentada Os objetivos Os interesses A pesquisa
na de ensino são dos em sala de
transmissão o fio condutor estudantes aula
verbal de das são o fio fundamenta o
conhecimentos atividades. condutor das trabalho
por parte do atividades. docente.
professor, e os
estudantes
realizam
atividades
práticas para
aplicar o
conhecimento
transmitido
pelo professor.
Avaliação A avaliação é A avaliação A avaliação A avaliação
reduzida a mede o grau como como
notas de obtenção participação processo de
estabelecidas de objetivos. dinâmica em pesquisa
a partir de sala de aula. sobre os
provas. aprendizados
alcançados.
Fonte: Martínez (2010). Quadro adaptado a partir de Porlán (1997) e
Porlán, Rivero e Martín (2000).
O primeiro enfoque curricular é caracterizado como tradicionalista e
foca na transmissão de conhecimentos por parte do professor de
Ciências e sua correspondente aprendizagem mecânica por parte dos
estudantes. O enfoque está fundamentado em uma concepção
positivista que considera a ciência como um corpus de conhecimentos
verdadeiros constituídos a partir de observações que são livres de
interesses, valores e apreciações subjetivas.
Os conteúdos das disciplinas científicas são a fonte central do
currículo tradicional, de tal forma que os objetivos e as metodologias
de ensino são definidos em função da aprendizagem estrita dos
conteúdos disciplinares, sem levar em consideração as características
dos estudantes e seus contextos sociais e culturais.
O enfoque tecnicista do currículo se diferencia do tradicional em sua
ênfase no estabelecimento de objetivos que determinam o ensino
eficaz. Dessa forma, as metodologias de ensino são orientadas a
alcançar esses objetivos, e a avaliação é estabelecida como um
parâmetro de medida, geralmente quantitativa, da aprendizagem dos
estudantes. A racionalidade técnica fundamenta o desenvolvimento
desse enfoque curricular, privilegiando o planejamento do ensino por
parte de agentes externos à escola dedicados a estabelecer o que
deveria ser ensinado conforme determinadas disciplinas (Schön,
2000).
O enfoque espontâneo do currículo tentou contribuir com uma
proposta diferente da oferecida pelos enfoques tradicional e tecnicista,
focando a seleção de conteúdos de ensino nos interesses dos
estudantes. Os objetivos e metodologias de ensino não eram mais
determinados pela lógica das disciplinas acadêmicas, mas pelas
expectativas dos estudantes e por sua realidade, evitando a
indesejável aprendizagem mecanicista. O problema desse enfoque,
conforme Porlán (1997), radicou em inverter os papéis do professor e
do estudante no currículo, pois nos enfoques tradicional e tecnicista o
centro do processo educativo era o professor, enquanto o enfoque
espontâneo centrou-se nos estudantes, desconhecendo a necessária reflexão sistemática sobre os processos de ensino desenvolvidos em
sala de aula.
O enfoque curricular denominado por Porlán (ibidem) como alternativo
ou focado na pesquisa do professor (Porlán; Rivero; Martín, 2000)
assume os conteúdos de ensino como construções culturais. Dessa
forma, a construção do currículo implica uma seleção cultural de
diferentes fontes, que abrangem as características dos estudantes, as
necessidades sociais e políticas da época, bem como as estruturas
das disciplinas escolares.
A ideia de construir um currículo alternativo foi destacada pelos
teóricos críticos do currículo, que, além de considerarem a dimensão
da pesquisa como um elemento relevante para a definição de
conteúdos de ensino, incorporaram outras perguntas centrais sobre a
função social e os interesses que orientam o estabelecimento de
determinados conteúdos.
O currículo entendido sob um ponto de vista crítico transcende a
preocupação pelos conteúdos de ensino e questiona os aspectos
ideológicos e políticos adjacentes ao planejamento curricular. Assim,
as perguntas não são simplesmente pelo que ensinar, mas por que
ensinar, para quem ensinar e quando ensinar, uma vez que toda
proposta curricular é produto da seleção de alguém ou de algum
grupo que determina o conhecimento legítimo de ser ensinado
(Kemmis, 1993; Apple, 2002a; 2002b; 2002c).
Todos os aspectos que foram expostos anteriormente atrelados à
formação de professores nos oferecem um contexto teórico para
estruturar nosso ponto de vista crítico sobre a formação continuada de
professores de Ciências. A seguir especificaremos as reflexões
teóricas sobre a perspectiva ciência, tecnologia, sociedade e ambiente
(CTSA) e a formação dos professores em serviço, e posteriormente
exporemos nossa opção teórica pela formação de professores sob
uma perspectiva crítica.