Questões sociocientíficas na prática docente: ideologia, autonomia e formação de professores
2 A perspectiva histórica da Filosofia da Ciência como crítica à visão cumulativa do progresso científico
2 – A perspectiva histórica da
Filosofia da Ciência como crítica à
visão cumulativa do progresso
científico
Fleck é um dos precursores das análises históricas e sociológicas
sobre a construção das ciências da natureza. Para ele, as condições
sociais e culturais dos atos de conhecer o mundo possibilitam a
compreensão e a apropriação de outras visões junto à visão das
ciências naturais.
Segundo uma perspectiva histórica, Fleck realiza uma análise sobre
o surgimento e a evolução do conceito da sífilis, desde o século XV
até o século XX, destacando a cooperação e a oposição como
processos importantes para o entendimento atual da doença.
De acordo com Fleck (1986), os estudos sobre a sífilis abrangeram
várias visões, algumas de tipo místicas, que assumiam a doença
como um mal venéreo, e outras de tipo empírico – terapêuticas
relacionadas com o uso de substâncias químicas para o tratamento
da doença.Os estudos empíricos iniciais sobre a sífilis utilizaram
mercúrio como tratamento da doença. No entanto, nenhuma das
duas visões constituiria uma explicação definitiva para entender a
doença. Na verdade, todas elas, de alguma forma, abrangeriam
esboços histórico-evolutivos da compreensão atual da doença, o
que seria denominado por Fleck como protoideais. Cada visão
constituiria um sistema de pontos de vista bem estruturados
capazes de resistir aos ataques de outras visões, de modo que,
nesse processo de estruturação, eram delineados determinados
estilos de pensamento sobre a doença.
Assim, o já conhecido influenciava fortemente o novo conhecimento,
e esse novo conhecer expande, renova e dá sentido ao conhecido. Por essa razão o conhecer não é um processo individual de uma
teoria, mas é o resultado de uma atividade social, dado que o
estado de conhecimento de cada momento excede a capacidade de
qualquer indivíduo. O caso da sífilis mostra que as protoideias, ou
ideias iniciais, influenciaram bastante na criação do conceito que é
aceito atualmente sobre essa doença.
O conhecer estaria relacionado à constatação dos resultados
impostos por determinadas pressuposições dadas, as quais estão
relacionadas ativamente e formam a parte do conhecimento que
pertence ao coletivo. Os resultados equivalem a conexões passivas
e formam o que se percebe como realidade objetiva. O ato de
constatação é especialmente uma contribuição do indivíduo. Assim,
os três fatores que participam do conhecimento são o indivíduo, o
coletivo e a realidade que envolve o que está por ser conhecido.
Esses fatores não são entidades metafísicas, pois estão
relacionados intrinsecamente.
Conforme Fleck (1986), desconhecer o papel do coletivo na
constituição de um estilo de pensamento significa acolher uma
epistemologia dogmática e fechada. Um coletivo bem organizado
possui um saber que supera a capacidade de qualquer indivíduo.
Fleck evidencia em seu estudo histórico sobre a construção do
conceito de sífilis a ideia de coletivo em cada um dos momentos que
levaram à construção de uma visão determinada sobre a doença.
O estilo de pensamento de um coletivo é um perceber orientado
pela criação intelectual do percebido. Caracteriza-se também pelos
rasgos comuns dos problemas que interessam ao coletivo do
pensamento e pelos juízos que emprega como meio de
conhecimento. Esse estilo é reforçado socialmente e está ligado a
um desenvolvimento independente através das gerações, coibindo
até certo ponto os indivíduos e condicionando-os a determinados
pensamentos. Assim, esses indivíduos passam longos períodos de
tempo dominados por um determinado estilo até que se apresente
alguma mudança. No entanto, o estilo continua existindo, mesmo
em uma posição de desvantagem.
Conforme Shäfer e Schnell (1986), podemos dizer que Fleck
desvirtua a teoria do conhecimento individualista por ser inadequada
para entender a construção do conhecimento científico, diante da
qual propõe a ideia de coletivo do pensamento para referir-se à
comunidade de cientistas de um campo determinado orientados por
um estilo de pensamento sob o qual constroem sua estrutura
teórica.
Fleck (1986) e Kuhn (2001) concordam que a natureza da ciência
pode ser caracterizada como um empreendimento comunitário e
social. Para esses autores a ciência é construída de forma
comunitária, pois os cientistas trabalham em grupos constituídos por
uma determinada especialidade científica. De fato, todos os
membros tiveram que passar por um processo de iniciação
profissional semelhante, no qual apreenderam os pressupostos e as
regras básicas do grupo.
A comunidade científica está constituída por diversos grupos que
podem entrar em competição ou em disputa quando não partilham
os pressupostos teóricos e/ou empíricos estabelecidos tradicionais
do grupo correspondente a alguma especialidade. No entanto, na
maior parte dos casos, essas anomalias são resolvidas
rapidamente, e o progresso científico é garantido em uma
determinada tradição.
O progresso científico seria caracterizado pela evolução de um
período pré-paradigmático para um período pós-paradigmático. No
primeiro período predominam as disputas entre os membros ou
grupos da comunidade pelo estabelecimento de um campo científico
bem definido, assim os grupos ou escolas concorrentes são
reduzidos a uma escola. O segundo período é uma ciência normal
caracterizada por uma prática científica “esotérica”, embora mais
eficiente para garantir o sucesso de seus praticantes.
A ciência normal abrange as atividades que os cientistas realizam
na prática durante a maior parte do tempo, de acordo com os
pressupostos estabelecidos pela comunidade científica à qual
pertencem. Sob tais pressupostos, compreendem o mundo no qual vivem. É certo que a ciência normal garante o sucesso do
empreendimento científico da comunidade, fortalecendo o
crescimento de seus conhecimentos assegurados a uma
determinada tradição, mas ela apresenta o problema de perpetuar
suas construções resistindo a qualquer tentativa de mudança, de tal
forma que a emergência de permanentes anomalias ameaça o
progresso “natural” da ciência normal. No entanto, as anomalias
serão as precursoras de pesquisas inovadoras, que, nos melhores
casos, terminarão estabelecendo novas formas de orientar as
práticas dos profissionais dedicados ao empreendimento científico.
Precisamente, uma das contribuições mais significativas de Kuhn
para a compreensão da ciência, de acordo com nosso ponto de
vista, foi o oferecimento de uma compreensão transformadora do
progresso científico, em contraste com o progresso cumulativo
característico da ciência normal. Kuhn (2001) conceitua as
revoluções científicas como “os episódios extraordinários” nos quais
a tradição da ciência normal é fortemente questionada, de modo que
ocorrem grandes alterações nos compromissos dos profissionais
associados com o ofício da ciência.
[...] consideramos revoluções científicas aqueles episódios de
desenvolvimento não cumulativo, nos quais um paradigma mais
antigo é total ou parcialmente substituído por um novo [...]. As
revoluções políticas iniciam-se com um sentimento crescente,
com frequência restrito a um segmento da comunidade política,
de que as instituições existentes deixaram de responder
adequadamente aos problemas postos por um meio que
ajudaram em parte a criar. De forma muito semelhante, as
revoluções científicas iniciam-se com um sentimento crescente,
também seguidamente restrito a uma pequena subdivisão da
comunidade científica, de que o paradigma existente deixou de
funcionar adequadamente na exploração de um aspecto da
natureza, cuja exploração fora anteriormente dirigida pelo
paradigma. (Kuhn, 2001, p.125-6)
Kuhn (2006) discutiu com clareza a ideia das revoluções científicas
apoiado em uma análise histórica de três casos importantes da
ciência, quais sejam: a invenção da segunda lei de Newton, a
invenção da pilha elétrica por Alessandro Volta e o problema do
corpo negro discutido por Max Planck. Nos três casos, Kuhn
caracterizou a mudança revolucionária como holística, o que
significa que ela não pode ser realizadas gradualmente, como é
usual nas mudanças normais que acrescentam uma única
generalização. Assim, na mudança revolucionária é necessário
conviver com a incoerência ou revisar em sua totalidade várias
generalizações inter-relacionadas.
Kuhn considera que a mudança não é o que caracteriza em si a
revolução científica, pois na ciência normal também se altera a
forma como os termos se ligam à natureza, de tal modo que a
revolução científica envolve mudanças de várias das categorias
taxonômicas estruturais das descrições e generalizações científicas,
dado que essas mudanças abrangem também vários modos e
situações relacionadas com mais de uma categoria, que, ao serem
interdefinidas, implicam uma alteração holística de tipo linguístico.
A mudança em uma revolução científica também implica uma
transformação do modelo, metáfora ou analogia adjacente ao novo
empreendimento científico, de tal maneira que a característica
essencial tem relação com uma alteração da linguagem científica.
[...] a característica principal das revoluções científicas é que
elas alteram o conhecimento da natureza intrínseco à própria
linguagem, e que é, assim, anterior a qualquer coisa que seja
em absoluto caracterizável como descrição ou generalização
científica ou cotidiana [...]. Suponho que a mesma resistência
por parte da linguagem seja a razão para a mudança de Planck
de “elemento” e “ressoador” para “quantum” e “oscilador”. A
violação ou distorção de uma linguagem científica
anteriormente não problemática é a pedra de toque para a
mudança revolucionária. (Kuhn, 2006, p.44-5)
Assim, o trabalho de Kuhn nos oferece uma compreensão histórica
e dinâmica da natureza da ciência, o que contribui para o
questionamento da visão impessoal e linear do progresso científico
ainda presente no ensino de Ciências.
Se entendermos a natureza da ciência como um empreendimento
social em permanente construção e suscetível a sofrer grandes
mudanças, é pertinente orientar o ensino de Ciências à análise das
questões sociais da ciência desvelando suas implicações políticas,
ideológicas, culturais e ambientais. A seguir oferecemos uma
fundamentação mais específica sobre a proposta ciência,
tecnologia, sociedade e ambiente (CTSA) no ensino de Ciências sob
um olhar crítico, explorando as potencialidades da abordagem de
questões sociocientíficas (QSC).