Questões sociocientíficas na prática docente: ideologia, autonomia e formação de professores
9 A questão do poder e da ideologia na análise de discurso crítica (ADC)
9 – A questão do poder e da ideologia
na análise de discurso crítica (ADC)
Segundo Wodak (2003a), os textos raramente são criados por uma
pessoa. Na verdade, seu conteúdo obedece a processos de
negociação de acordo com diferenças de poder que se acentuam
parcialmente codificadas no discurso e determinadas por ele
mesmo, bem como pela variedade discursiva. Em consequência, os
textos são terrenos de disputa que mostram vestígios dos discursos
e as ideologias que se enfrentam e competem por seu predomínio.
A unidade entre linguagem e relações sociais implica que a
linguagem esteja vinculada com o poder, de forma que a linguagem
classifica o poder e o expressa nos diferentes contextos sociais.
Embora o poder não derive da linguagem, ela pode ser utilizada
para desafiar aquele ou subvertê-lo.
Fairclough (2001a) analisa criticamente os trabalhos de Michel
Foucault (1926-1984) sobre o discurso com o objetivo de constituir
um embasamento sociológico para a ADC no que diz respeito à
produção do poder e à ideologia. Embora o trabalho de Foucault
seja importante para estruturar uma teoria social do discurso em
temas como a ordem do discurso e a construção discursiva de
sujeitos sociais e do conhecimento, Fairclough não segue uma
perspectiva foucaultiana sobre o poder, estabelecendo as limitações
do trabalho de Foucault e valorizando suas contribuições no que diz
respeito à ordem de discurso.
As fraquezas relevantes no trabalho de Foucault têm a ver com
as concepções de poder e resistência, e com as questões de
luta e mudança [...]. Não é que Foucault ignore tais questões:
ele está interessado na mudança [...]. Mas na totalidade de seu
trabalhado e nas análises principais, a impressão dominante é a
das pessoas desamparadamente assujeitadas a sistemas
imóveis de poder. Foucault certamente insiste que o poder
necessariamente acarreta resistência, mas ele dá a impressão
de que a resistência é geralmente contida pelo poder e não
representa ameaça. (ibidem, p.82)
Concordamos com Fairclough (ibidem) que o problema de Foucault
tem a ver com a concepção de prática que não estaria propriamente
articulada a ações concretas e reais de sujeitos em determinados
contextos sócio-históricos, o que é importante para a ADC. De forma
diferente, refere-se à prática quando introduz a ideia de prática
discursiva entendida como regras que subjazem a um sistema de
“regras anônimas”, reduzindo o termo “prática” a seu inverso,
“estruturas”. Dessa forma, os trabalhos de Foucault
permanentemente focam nas estruturas.
Para a ADC, as práticas não são reduzidas a estruturas, pois a
questão central está na compreensão da relação entre linguagem e
ação, a qual é entendida de forma dialética, o que possibilita
considerar que as estruturas são reproduzidas por meio de
discursos, mas também podem ser transformadoras na prática. As
transformações podem acontecer ou não, dependendo do estudo
das relações de equilíbrio do poder entre os que lutam em um
domínio particular de prática, tal como a escola ou o lugar do
trabalho.
Levando em consideração as limitações da teoria de Foucault sobre
o poder, Fairclough (ibidem) fundamenta a ADC na concepção de
Antonio Gramsci (1891-1937) sobre o poder em termos de
hegemonia e luta hegemônica. Nessa concepção, o poder é
considerado como um processo de dominação ou controle em
permanente instabilidade, em virtude de que sua existência sempre
está articulada a disputas e lutas sociais. Tal concepção sobre o
poder é importante para fundamentar os estudos sociais voltados à
compreensão da mudança discursiva na sociedade contemporânea.
A hegemonia representa o exercício do poder de uma classe,
pessoa ou grupo social determinado em aliança com outras forças
sociais com o objetivo de impor uma determinada forma de vida material e de pensamento, e, graças a essas alianças com várias
forças sociais, a hegemonia é aceita e reproduzida por grandes
camadas da população. No entanto, a própria natureza da
hegemonia implica uma relativa estabilidade que pode ser alterada
permanentemente por disputas e lutas desenvolvidas por grupos
subordinados ou inclusa por grupos que estabelecem alianças com
o(s) grupo(s) ou classe(s) dominante(s). Por essa razão, a
hegemonia nunca é absoluta, mas envolve uma disputa
permanente, o que pode ser caracterizado como luta hegemônica.
Hegemonia é um foco de constante luta sobre pontos de maior
instabilidade entre classes e blocos para construir, manter ou
romper alianças e relações de dominação/subordinação, que
assume formas econômicas, políticas e ideológicas. A luta
hegemônica localiza-se em uma frente ampla, que inclui as
instituições da sociedade civil (educação, sindicatos, família),
com possível desigualdade entre diferentes níveis e domínios.
(ibidem, p.122).
As limitações da teoria de Foucault com respeito às práticas sociais
e sua visão estruturalista também restringem as possibilidades do
conceito de luta na análise de discurso, porque para esse autor a
luta representaria processos de resistência incapazes de gerar ou
favorecer transformações nas estruturas sociais.
Outra discrepância entre a visão de Foucault e a ADC tem a ver
com as propriedades constitutivas do discurso, pois, embora os
objetos e os sujeitos sociais sejam moldados pelas práticas
discursivas tal como é proposto por Foucault (1987), essas práticas
são perturbadas (constrangidas) pelo mundo material da sociedade,
de modo que a ADC considera os processos constitutivos do
discurso de forma dialética, na medida em que a prática discursiva
depende da realidade constituída historicamente. Assim, a
constituição dos sujeitos tem lugar dentro de dinâmicas interativas
entre vários “eus” que não são simplesmente posicionados no
mundo de forma passiva, pois eles têm a capacidade de ser agentes, seja para reproduzir, contestar ou negociar seu
relacionamento com diversos tipos de discurso.
A questão da ideologia constitui outro elemento teórico da ADC,
relacionado com o estabelecimento e a conservação de relações
desiguais de poder, mas que se constroem e transmitem
significados por meio de formas simbólicas.
Formas simbólicas não são meramente representações que
servem para articular ou obscurecer relações sociais ou
interesses que são constituídos fundamental e essencialmente
em um nível pré-simbólico: ao contrário, as formas simbólicas
estão, contínua e criativamente, implicadas na constituição das
relações sociais como tais. Por isso, proponho conceitualizar
ideologia em termos das maneiras como o sentido, mobilizado
pelas formas simbólicas, serve para estabelecer e sustentar
relações de dominação: estabelecer, querendo significar que o
sentido pode criar ativamente e instituir relações de dominação;
sustentar, querendo significar que o sentido pode servir para
manter e reproduzir relações de dominação através de um
contínuo processo de produção e recepção de formas
simbólicas. (Thompson, 2000, p.78)
Segundo a concepção gramsciana do poder, a ADC considera que o
campo das ideologias constitui formações conflitantes sobre
diferentes visões e propostas que podem ser estudadas como
complexos ideológicos que são estruturados, reestruturados,
articulados e desarticulados de diferentes formas. Essa concepção
de ideologia foca em processos de mudança buscando transcender
a visão reproducionista da ideologia defendida por Louis Althusser
(1918-1990).
É claro que para a ADC a ideologia tem existência material nas
práticas discursivas de sujeitos e instituições e pode ser
reestruturada ou transformada, pois faz parte de relações de poder
que podem ser desequilibradas, dependendo do desenvolvimento
das disputas e forças sociais existentes.
Prefiro a concepção de que a ideologia está localizada tanto
nas estruturas (isto é, ordens de discurso) que constituem o
resultado de eventos passados como nas condições para os
eventos atuais e nos próprios eventos quando reproduzem e
transformam as estruturas condicionadoras. É uma orientação
acumulada e naturalizada que é construída nas normas e nas
convenções, como também um trabalho atual de naturalização
e desnaturalização de tais orientações nos eventos discursivos.
(Fairclough, 2001a, p.119)
Existe uma relação dinâmica entre conteúdo, sentido e forma
porque os textos podem ser investidos ideologicamente, de várias
maneiras podendo ser naturalizados e automatizados. Por essa
razão, a ADC destaca a crítica dos processos ideológicos do
discurso para que as pessoas se comprometam com a análise de
sua própria prática e questionem as pretensões ideológicas de
discursos manipuladores.
A ADC questiona a ideia de que os sujeitos sejam simplesmente
assujeitados por determinados dispositivos ideológicos, tal como é
proposto por Althusser, pois os sujeitos também podem ser capazes
de agir criativamente no sentido de questionar as práticas e
ideologias às quais são expostos. Assim, os sujeitos podem
posicionar-se de diferentes formas, o que é caracterizado por
Fairclough (2001a, p.121) como um “equilíbrio entre o sujeito efeito
ideológico e o sujeito agente ativo”.
A ADC reconhece a função social da ideologia nos processos de
dominação embasados em diferenças de classe social, gênero, raça
e grupo cultural, mas também reconhece que os seres humanos
podem transformar tais relações de dominação que estão investidas
ideologicamente. Por isso, é possível transcender a ideologia, o que
difere da teoria althusseriana, segundo a qual a ideologia é
inseparável da sociedade. O fato de os discursos serem investidos
ideologicamente não significa que invistam na ideologia da mesma
forma, porque existem diferentes graus e formas de apropriação,
reprodução ou contestação subjetiva das ideologias.
A ADC fundamentada na teoria social crítica da era dos meios de
comunicação de massa estuda os modos por meio dos quais a
ideologia opera na sociedade, de acordo com os postulados teóricos
sobre a ideologia propostos por Thompson (2000). Para esse autor,
o conceito de ideologia pode ser reformulado a partir de três
aspectos: o sentido, a dominação e as maneiras como o sentido
pode servir para estabelecer e sustentar relações de dominação.
O sentido nas questões ideológicas tem a ver com as formas
simbólicas que estão circulando em diferentes cenários sociais. Tais
formas simbólicas são constituídas por ações, falas, imagens e
textos produzidos por determinados sujeitos e que podem ser
analisados de forma intencional, convencional, estrutural, referencial
ou contextual.
Dependendo do posicionamento dos sujeitos em um campo social
ou institucional, eles podem compartilhar determinados graus de
poder para tomar decisões ou realizar seus interesses. Quando as
relações de poder são estabelecidas sistematicamente por um
indivíduo ou um grupo de maneira permanente, sendo inacessível a
outros sujeitos ou grupos de pessoas, podemos dizer que é
estabelecido um processo de dominação ideológica.
Os conceitos de sentido e dominação levam a pensar os inúmeros
modos pelos quais o sentido pode manter ou questionar
determinadas relações de poder em determinadas condições sócio-
históricas. A produção de sentido também pode estar relacionada
aos modos como a ideologia opera nos processos de construção
simbólica.
Conforme Thompson (ibidem), elaboramos a Figura 1, na qual
apresentamos os modos gerais por meio dos quais a ideologia
opera, mediante a legitimação, a dissimulação, a unificação, a
fragmentação e a reificação.
Figura 1 – Formas gerais como a ideologia opera na sociedade
segundo o trabalho de Thompson (2000)
Fonte: Martínez (2010). Figura adaptada a partir de Thompson
(2000).
A legitimação ideológica pode embasar-se em determinadas regras
sociais que foram constituídas racionalmente ou, em outros casos,
em tradições que com o tempo foram sacralizadas. Também pode
fundamentar-se em valores individuais que apelam à autoridade de
certo indivíduo. Essa forma de dominação ideológica e, portanto,
simbólica utiliza as estratégias da racionalização, universalização ou
naturalização. A racionalização implica a construção de uma rede de
raciocínios coerentes voltados a defender, justificar determinado tipo
de relações sociais e, dessa forma, busca persuadir um amplo
público social de que determinada pretensão deve ser digna de
apoio. Por sua vez, a universalização é uma estratégia que serve
para apresentar interesses de um indivíduo ou grupo determinado
como interesses de todos.
A naturalização é outra estratégia utilizada nos processos de
dominação ideológica. Ela trabalha histórias do passado para tratar
do presente como parte de uma tradição eterna e aceitável. A dissimulação é outra forma como a ideologia opera, na qual as
relações de dominação são ocultadas, negadas ou obscurecidas,
para o que se vale das estratégias de deslocamento, eufemização e
tropo.
O deslocamento é utilizado para transferir conotações positivas ou
negativas de um objeto ou pessoa para outro objeto ou pessoa com
o intuito de disfarçar as concretas intenções de um indivíduo ou
grupo.
A eufemização é uma estratégia que implica a dissimulação
ideológica de determinadas relações sociais, ações ou instituições
visando favorecer uma visão positiva diante de determinadas
situações ou aspectos sociais. Por exemplo, o termo
“biocombustíveis” pode dar a impressão de produção de
combustíveis “limpos” e, portanto, pode levar a pensar que não
causam poluição alguma. No entanto, essa forma de energia
alternativa envolve impactos ambientais não necessariamente
associados com a emissão de CO2(g), mas relacionada com a
alteração do ciclo biogeoquímico do nitrogênio. Outros exemplos
podem ser a descrição de prisões ou campos de concentração
como centros de reabilitação.
O tropo corresponde ao uso figurativo da linguagem, que pode ser
utilizado para dissimular determinadas relações de dominação,
inverter as formas linguísticas de sinédoque, metonímia e metáfora.
A sinédoque abrange a junção semântica da parte e do todo e pode
ser utilizada para dissimular relações sociais por meio da confusão
ou da inversão entre coletividades e suas partes, entre grupos e
estruturas sociais e políticas mais amplas. A metonímia consiste em
designar um objeto por meio de uma palavra dependendo de
determinadas relações de causalidade (trabalho-obra). A metáfora
implica transferência de uma palavra para um âmbito semântico que
não corresponde ao âmbito que a designa.
É importante precisar que o uso da linguagem figurativa não é
sempre ideológico, mas é uma maneira de mobilizar o sentido das pessoas em determinados contextos e ela pode ser utilizada para
criar ou reproduzir relações de dominação.
Outro modo pelo qual a ideologia opera corresponde à unificação,
que de forma simbólica liga pessoas em uma identidade coletiva,
independentemente das diferenças que possam separá-las. A
unificação utiliza a padronização e a simbolização da unidade como
estratégias para seu desenvolvimento.
A padronização implica o estabelecimento ou a adaptação de uma
forma simbólica única pela qual são regidas as formas simbólicas
dos indivíduos. Essa é uma estratégia bastante utilizada pelas
autoridades dos Estados para desenvolver a linguagem nacional, a
despeito da existência de diferenças culturais presentes entre
diversos grupos sociais de uma mesma nação.
A simbolização da unidade é uma estratégia de unificação que
implica a adoção de símbolos por parte de um grupo para garantir
sua unidade e a criação de uma identidade coletiva, mas em
determinadas circunstâncias pode contribuir ao estabelecimento de
relações de dominação com grupos diferentes que não partilham os
símbolos adotados. Essa estratégia pode estar articulada à
narrativização de histórias aceitas pelo coletivo com respeito ao
símbolo adotado.
A fragmentação é outro modo pelo qual a ideologia opera,
embasada na divisão daqueles indivíduos ou grupos que desafiam o
poder estabelecido. As estratégias utilizadas nesse modo de
operação da ideologia são a diferenciação e o expurgo do outro,
focando nas divergências dos grupos ou indivíduos opositores, o
que desencadeia sua divisão para evitar colocar em perigo o poder
estabelecido.
O expurgo do outro é uma estratégia que implica a construção de
imagem simbólica negativa de um indivíduo ou um grupo, que passa
a ser visto como “inimigo” ou como um ser ameaçador, diante do
que se criam ações coletivas para expurgá-lo.
A reificação é um modo pelo qual a ideologia opera e que denota o
estabelecimento de relações de dominação por meio da retratação
de uma situação histórica e transitória como algo natural ou
permanente, eliminando dessa forma o caráter histórico dos
processos sociais. A reificação utiliza a naturalização, a
eternalização e a nominalização como estratégias de construção
simbólica.
Finalmente, a naturalização faz o uso de situações históricas como
se fossem acontecimentos naturais e, portanto, inevitáveis. De
forma semelhante, a eternalização esvazia os fenômenos históricos
de seu conteúdo sócio-histórico, sendo estes apresentados como
imutáveis e recorrentes. Por sua vez, a nominalização concentra a
atenção em certos termos, gerando prejuízos a outros, apagando
atores de acontecimentos, e dessa forma passa a impressão de que
esses acontecimentos são desenvolvidos com a ausência de
sujeitos.
Thompson (2000) salienta que as estratégias simbólicas
(racionalização, universalização, narrativização, deslocamento,
eufemização, naturalização, entre outras) de construção de sentido
não são ideológicas em si mesmas, pois adquirem esse papel
quando são utilizadas para estabelecer e sustentar relações de
dominação. No entanto, essas estratégias também podem servir, de
determinada forma e em determinadas relações sociais e históricas,
para subverter relações de dominação. Esta função dupla das
estratégias de construção simbólica pode ser entendida a partir da
ADC sobre as formas atuais como as pessoas produzem sentidos
em determinados contextos.
De acordo com todo o exposto anteriormente sobre ideologia e
poder, salientamos que a ADC não pretende somente descrever e
explicar as diferentes formas como a linguagem é usada na
sociedade, mas também busca desvelar ideologias e interesses que
restringem a liberdade humana e as possibilidades de sua
realização subjetiva e intersubjetiva. Dessa forma, a ADC está
interessada em favorecer processos de emancipação dos sujeitos, de modo que eles estabeleçam processos permanentes de
crescimento e amadurecimento pessoal e social que os encoraje a
superar a dependência de qualquer tipo de pensamento totalitário e
alienante.