Questões sociocientíficas na prática docente: ideologia, autonomia e formação de professores
18 Contribuições da abordagem de questões sociocientíficas (QSC) para a prática docente dos professores de Ciências em serviço
18 – Contribuições da abordagem de
questões sociocientíficas (QSC) para
a prática docente dos professores de
Ciências em serviço
Realizaremos uma análise específica de alguns episódios tomados
da entrevista focal que foi realizada aos PP ao final da disciplina
Ensino de Ciências com Enfoque CTSA a Partir de QSC para depois
estabelecer algumas generalidades sobre as contribuições
apontadas pelos professores sobre a abordagem de QSC em sua
prática docente.
Nas linhas 5 a 9 do Episódio 43, apreciamos que a professora
Angélica manifesta uma considerável afinidade (modalidade
subjetiva) com a abordagem das QSC e a perspectiva CTSA, uma
vez que essa abordagem lhe permitiu trabalhar uma pedagogia e
uma didática diferentes.
Episódio 43 (EF Grupo 5)
1. PU: [...] Gostaria que falassem em que
contribuiu a disciplina [Ensino de Ciências
com Enfoque CTSA a Partir de QSC], ou
melhor, que falassem em que lhes permitiu
repensar sua prática docente, se lhes permitiu
ou não e por quê.
5 2. Angélica: Permitiu-me, sim! [repensar a
prática docente]. Vimos, como professores de
Ciências Naturais, que a abordagem de QSC
e a perspectiva CTSA oferecem a
oportunidade de trabalhar uma pedagogia e
uma didática diferente e, portanto, inovadora
em nossas escolas e em nossa prática. Tinha-
lhes falado [aos colegas] de umas leituras
prévias
10 sobre CTSA, mas essas ficaram no discurso.
Depois de desenvolver esta proposta [CTSA]
no currículo, não se tinha apresentado a
oportunidade. É uma proposta muito
interessante para trabalhar com os
estudantes, assim como para trabalhar com
os colegas da área. Então podemos pensar
que se geram tensões, mas podemos dizer
que o mesmo interesse faz com que
15 essas tensões diminuam. Também, eu tive a
oportunidade de trabalhar com outros, porque
agora temos estagiários [na escola] da
licenciatura em Química, então eles estão
fazendo o TCC. Muito interessante como a
universidade [menciona o nome de uma
universidade pública de Bogotá] está
desenvolvendo esta abordagem e como eles
trabalham as QSC, que
20 não é nada diferente do que estamos
trabalhando aqui. Por exemplo, os professores
[dessa universidade] tiveram a oportunidade
de fazer seus doutorados na Espanha.
Olhávamos os artigos e a abordagem que
estamos trabalhando e, na verdade, estão
falando do mesmo. Não importa que a
professora que orienta o componente didático
da Química na Espanha tenha mostrado uma
leitura aos estagiários. E o que nós estamos
fazendo aqui, então, é como algo muito
grande, e isso pode ser uma dificuldade. Mas
quando a aproprio para mim [a abordagem de
QSC] e também a aproprio para meus alunos,
é interessante. No começo eles a perceberam
como estranha [a abordagem de QSC], mas
na medida em que tiveram um descanso
foram apropriando a QSC, e lhes tem parecido
interessante.
Da linha 15 à linha 28 do Episódio 43 apreciamos que a professora
Angélica estende sua afinidade subjetiva com a abordagem de QSC
às experiências desenvolvidas por estagiários e por outros
professores que parecem estar trabalhando com a mesma
abordagem, o que é interessante, porque talvez expresse
potencialidades da abordagem de QSC não apenas em seu
trabalho, mas também no trabalho de outros professores em
formação inicial.
Também identificamos na fala da professora Angélica um
fortalecimento de seu ethos, pois valora positivamente as
contribuições da perspectiva CTSA, na medida em que seja
articulada com sua prática docente, pois dessa forma ela percebe
que a abordagem de QSC tem sentido quando é desenvolvida por
suas próprias convicções. O encorajamento da professora não é
apenas valorizado pela forma como ela considerou as contribuições
da abordagem de QSC em sua prática, mas principalmente pela
forma como ela apontou as limitações e dificuldades enfrentadas
com seus alunos e colegas a respeito dessa abordagem.
No Episódio 44 também caracterizamos afinidade (modalidade
subjetiva) na fala do professor Paulo a respeito da abordagem de
QSC. No entanto, nesse caso a modalidade está acompanhada de
uma polidez negativa, pois ele tenta resguardar sua autoestima de pesquisador no momento em que se refere à perspectiva CTSA
como algo que conhecia e com que trabalhava antes de participar
dos encontros da disciplina (linhas 4 e 5).
Episódio 44 (EF Grupo 2)
1. PU: [...] Então, vamos conversar um
pouquinho. O trabalho desenvolvido durante a
disciplina lhes permitiu repensar sua prática
docente? Permitiu-lhes ou não lhes permitiu?
E como lhes permitiu repensar sua prática
docente?
5 6. Paulo: Para mim, não tem sido algo novo [a
abordagem de QSC], porque eu já tinha
trabalhado a perspectiva CTS. Em relação ao
trabalho que tinha feito antes com o trabalho
que fizemos agora [na disciplina], realmente
avançamos muito, não somente na disciplina,
mas também no mestrado. Como tal,
avançamos na pesquisa. Eu já
10 tenho outros conceitos, devemos evoluir no
discurso com leituras escritas. Por que
continuar trabalhando da mesma forma? Esta
disciplina me tem aberto os olhos para
conhecer outros grupos de pesquisa do Brasil
que o professor [PU] trabalhou, pois eu
somente estava com a leitura da Espanha [de
autores da Espanha], então isso
15 foi muito bom para mim como pesquisador,
porque sempre tenho considerado que meu
papel em sala de aula é o de pesquisar. Tem
sido produtivo [o trabalho realizado com a
abordagem de QSC]. Meus alunos dizem:
“Professor, eu trouxe isto, temos que fazer a
saída de campo [pedagógica]”. Mas é
complicado, porque a escola em que trabalho
é tradicional, e então a diretoria pensa que os
estudantes estão perdendo tempo. Isso
desanima. Se não mudar essa situação, é
complicado. Mas, igual, os estudantes
percebem esse tipo de coisa e continuam
desenvolvendo as coisas, coisas legais.
Apesar de o professor Paulo tentar mitigar o efeito da polidez
negativa estabelecendo uma comparação entre o trabalho que vinha
realizando sob a perspectiva CTS e o trabalho desenvolvido sobre
essa perspectiva na disciplina (da linha 5 à 10), ele confirma em sua
fala a modalidade negativa ao referir que as contribuições
oferecidas na disciplina são apenas parte da formação oferecida no
curso de mestrado (linha 6).
A forma como o professor valoriza, mas ao mesmo tempo expressa
certa prevenção sobre o trabalho realizado na disciplina é
interessante, porque fortalece seu próprio ethos, de modo que na
última parte de sua fala (Episódio 44, da linha 10 à 12) ele salienta
suas próprias experiências docentes, que, apesar das dificuldades
enfrentadas, o têm ajudado em sua formação como pesquisador de
sua prática.
Se compararmos a fala da professora Angélica com a do professor
Paulo, poderemos estabelecer duas formas diferentes de perceber a
abordagem de QSC em suas práticas. No caso da professora
Angélica, existe uma alta afinidade com a abordagem de QSC e um
fortalecimento de seu ethos, na medida em que essa abordagem
tem sentido quando está articulada com a realidade escolar e com
seu próprio ensino.
No caso do professor Paulo, a abordagem de QSC é percebida
como um aspecto complementar de sua própria formação como
pesquisador de sua prática, o que foi caracterizado conforme a
polidez negativa expressada por ele.
No Episódio 45 observamos que a fala da professora Roberta “eu já
estava desenvolvendo um trabalho alternativo com os estudantes,
que não era necessariamente tradicional” representa uma forma de
mitigar as contribuições oferecidas pela abordagem de QSC, dado
que ela expressa que, antes de conhecer o tema das QSC,
trabalhava de forma diferente. No entanto, o avanço apontado por
ela estaria no processo de sistematização de seu trabalho (linha 7).
Assim, as expressões utilizadas pela professora Roberta da linha 6
até a linha 8 são marcas da polidez negativa empregada por ela.
Mas em comparação com a fala do professor Paulo, a polidez é
mais moderada, porque valoriza sua autoestima como professora da
escola prestando especial atenção ao trabalho desenvolvido com
seus alunos, e não apenas à sua preocupação pessoal em se
formar como pesquisadora.
Episódio 45 (EF Grupo 2)
1. PU: [...] Então, vamos conversar um
pouquinho. O trabalho desenvolvido durante a
disciplina lhes permitiu repensar sua prática
docente? Permitiu-lhes ou não lhes permitiu?
E como lhes permitiu repensar sua prática
docente?
5 5. Roberta: Eu penso que tem sido
interessante trabalhar com esta metodologia,
embora eu já estivesse desenvolvendo um
trabalho alternativo com os estudantes, que
não era necessariamente tradicional.
10 Eu tenho trabalhado bastante com a pergunta,
sempre tento tomar em consideração a
opinião do estudante, mas agora esse
processo está mais sistematizado, e isso tem
me permitido realizar uma autorreflexão do
processo. Uma coisa que tem sido muito difícil
de vencer na turma é a atitude e seus próprios
interesses [dos estudantes], que são
colocados por cima do interesse acadêmico.
15 Isto tem sido um processo de tensões, eu
cedo um pouco para avançar. Tem sido um
processo de negociação, não explícita, mas
implícita. No entanto, eu tenho gostado do que
temos feito. Gostei porque consegui vincular
as meninas ao processo, era algo que não se
podia. As meninas não se vinculavam, só
falavam os meninos, mas falavam sem se
importar com as opiniões dos outros. Às vezes
falavam coisas interessantes, mas não
necessariamente pertinentes. Neste processo
temos vinculado as meninas, temos
aumentado sua autoestima. Isto já se percebe
na dinâmica da discussão.
Da mesma forma como analisamos a fala das professoras Angélica
e Roberta, bem como a do professor Paulo, foi analisada a de
outros professores que participaram da entrevista focal, e a partir
dessa análise elaboramos os quadros 20 e 21, nos quais
apresentamos alguns recortes de falas dos professores que
expressam contribuições da abordagem de QSC nas práticas
docentes dos professores em termos dos seguintes aspectos: a) a
inovação do ensino; e b) a formação para a pesquisa.
Quadro 20 – Contribuições da abordagem de QSC para prática dos
professores em termos da inovação do ensino
Elementos Entrevista focal Entrevista focal Entrevista focal
de análise Grupo 1 Grupo 2 Grupo 3
Modalidade 4. Adriana: A 2. Edith: [A 3. Camila: Sim!
QSC me abordagem de [A abordagem
chamou a QSC] Me tem de QSC]
atenção e me ajudado Permitiu-me
tem permitido a bastante em pensar muitas
inovação... termos de minha coisas da prática
6. Lucas: [A prática docente, docente, mas
abordagem de pois gosto de também do
QSC] Me inovar e fazer ponto de vista
possibilitou coisas que temos sobre
desenvolver o diferentes. Agora os conceitos,
rigor do currículo questiono muitas pois muitos
com outro coisas, “no como estamos
enfoque. Dessa entero” [esta submetidos às
forma, os expressão se políticas
estudantes refere à atitude [curriculares] da
podem da professora de escola, que
considerar que a não ensinar obrigam a gente
engenharia não conforme o que a ancilosar-se,
somente tem a outros dizem], de modo que
ver com pois chego [na sempre estamos
aspectos sala de aula] prestando
econômicos, com problemas. atenção para
mas também Na verdade, me cumprir um
tem a ver com tem motivado currículo. Então,
implicações muito, assim tentar sair dessa
sociais. como também situação é muito
7. Maurício: tem motivado os interessante e
Enfocava-me só estudantes. muito produtivo.
na parte Também tem Eles [os
científica, mas chamado a estudantes]
há uma parte atenção dos podem ser
social colegas. Tem fatores
importante. A sido muito importantes
parte do interessante nesse processo,
desenvolvimento como docente. porque a maioria
de pensamento 4. Fátima: não tem essa
crítico e a Serviu-me para consciência.
tomada de perceber que Serviu-me para
decisões são estava pensar essa
importantes. trabalhando de prática docente.
Também que uma forma 4. Edvaldo:
considerem [os errada, estava Serviu-me para
estudantes] a trabalhando com ter uma visão
parte formal [da a mesma mais ampla das
disciplina de metodologia. O diferentes
Química]. processo [da metodologias
8. Cláudia: abordagem de para o ensino de
Trabalhar com o QSC] me tem Ciências e para
enfoque [CTSA servido para considerar que
a partir de QSC] observar se os as formas como
me ajudou a estudantes estão ensinamos não
pensar e apreendendo os são únicas, que
apreciar bem o conceitos, pois sempre as
que estou não estavam coisas estão
fazendo [em aprendendo evoluindo.
sala de aula]. nada. Agora a Assim, o fazer
Apesar de que abordagem da pedagógico é
fiquei com mais QSC através de enriquecido e ao
trabalho. O casos clínicos mesmo tempo
trabalho serve permitiu não também
para que os somente sermos podemos pensar
estudantes mais amigos dos a partir de um
mudem de estudantes, mas olhar político. A
atitude. conhecê-los... educação está
relacionada com
as políticas, e
elas afetam a
docência. De
que forma nós
podemos ir para
a sala de aula
com bases
sólidas,
ressaltando o
caráter
epistemológico,
pois a filosofia
se relaciona com
a sociedade. É
muito importante
que este
trabalho seja
estendido para
outros docentes,
assim será mais
forte e mais
produtivo para o
país.
Polidez 5. Roberta: Eu 5. Simone:
penso que tem Então, eu já
sido interessante estava
trabalhar com trabalhando algo
esta disso [a
metodologia, abordagem de
embora eu já QSC] no meu
estivesse TCC de
desenvolvendo graduação,
um trabalho então penso que
alternativo com consideramos
os estudantes, mais a
que não era sociedade. No
necessariamente encontro anterior
tradicional. Eu estávamos
tenho trabalhado falando de incluir
bastante com a a participação de
pergunta, todos [os
sempre tento estudantes]. Eu
levar em estou
consideração a trabalhando com
opinião do a questão da
estudante, mas água, então eles
agora esse estão
processo está participando
mais mais. Então tem
sistematizado, e sido muito
isso tem me produtivo para
permitido os estudantes
realizar uma em termos
autorreflexão do educativos.
processo. Muito
enriquecedor
para nós.
Modalidade 4. Ricardo: A 2. Angélica: 4. Roberto: [...]
gente se Permitiu-me, Sem dúvida a
preocupa muito sim! [repensar a disciplina tem
em ensinar um prática docente]. sido útil para
conteúdo, mas Vimos, como pensar a prática
essa relação professores de docente.
CTS mostra que Ciências Qualquer coisa
se pode Naturais, que a que seja
desenvolver [os abordagem de realizada nesse
conteúdos] de QSC e a sentido
outra forma. Por perspectiva oferecerá
exemplo, me CTSA oferecem benefícios à
tem servido para a oportunidade prática.
considerar com de trabalhar uma Especificamente
meus colegas pedagogia e a disciplina das
como podemos uma didática QSC ofereceu a
construir nosso diferente e, possibilidade de
modelo portanto, análise de
pedagógico. inovadora em aspectos
Então, a partir nossas escolas econômicos e
da prática que e em nossa sociais, pois se
realizei nos prática. Tinha- estava
processos de lhes falado [aos trabalhando a
construção do colegas] de parte científica,
projeto umas leituras mas
pedagógico da prévias sobre desconsiderando
escola, propus CTSA, mas a parte social e
para meus essas ficaram no os atores que
companheiros a discurso. Depois intervêm nos
realização de de desenvolver processos. O
várias atividades esta proposta trabalho
integrais. Uma [CTSA] no realizado com os
das atividades currículo, não se colegas sobre as
era embasada tinha QSC ajuda a
em CTSA, pois apresentado a considerar qual
temos a oportunidade... é o impacto de
preocupação cada um dos
com a formação atores
integral... participantes.
Nunca tinha feito
isso; considerar
quais são os
efeitos causados
em qualquer
tomada de
decisão.
5. Pedro: Para
mim tem sido
fundamental,
sobretudo
porque eu
trabalho na
educação a
distância. Então
se trabalha com
desenvolvimento
de habilidades
de pensamento
crítico quando
interajo com os
estudantes...
6. Natália:
Permitiu-me,
como dizem
alguns,
reconsiderar
minha prática
docente, e
também eu me
focava muito nos
problemas,
agora me tem
permitido
vivenciar mais
coisas com eles
[os estudantes],
e eles [também
vivenciam
coisas] comigo.
Polidez 3. Antônio: 4. Carol: Eu 3. Cristina: A
Primeiro penso que respeito de se a
gostaria de fazer trabalhamos um disciplina nos
uma avaliação modelo na permitiu
do processo disciplina repensar a
antes e depois. [Ensino de prática docente,
Considero a Ciências com temos que
QSC como uma Enfoque CTSA a considerar que
ferramenta para Partir de QSC], na escola há
a prática, uma assim como uma dinâmica
forma mais também acadêmica, na
funcional para trabalhamos qual devemos
desenvolver umas leituras na considerar vários
aprendizados de disciplina de aspectos.
conceitos do outra professora Parece-me que
currículo. Em do curso do às vezes não
termos mestrado. enxergava de
profissionais, é Temos que forma
[a abordagem desenvolvido articular a parte
de QSC] uma esse modelo conceitual, mas
forma mais com os me permitiu
prática de estudantes, mas, compreender as
trabalhar em como sempre, QSC e penso
sala de aula. tem sido muito que me tem
difícil mudar o gerado uma
modelo de uma inquietação
aula tradicional, muito grande
então aí está o para articular
que PU falava. este trabalho a
Então me senti partir das
mal, porque na Ciências.
experiência
tentei sair com
os estudantes
para analisar o
entorno, e o
contraste entre o
trabalho
realizado fora e
dentro sobre o
tema de
misturas me
serviu para
entender que
devo mudar o
modelo, de tal
forma que me
tem permitido
fazer mais
coisas, e na
medida em que
eu faço isso vou
considerar os
saberes que eles
têm [os
estudantes]...
Fonte: Martínez (2010).
Quadro 21 – Contribuições da abordagem de QSC para a prática
dos professores em termos da pesquisa escolar do professor
Elementos Entrevista Entrevista Entrevista
de análise focal Grupo focal Grupo 2 focal
1 Grupo 3
Modalidade 8. Vinícius: 3. Fernanda: 7. Isabel:
Pareceu-me Para mim tem Além das
interessante sido muito coisas ditas
a enriquecedor. pelos
relacionada Também, como colegas,
com o diz Edith, temos
pensamento porque tenho criado uma
crítico. Isso percebido que discussão
me levou a em meu fazer importante
fazer um pedagógico os sobre
trabalho estudantes têm metodologia
com a maior motivação e pesquisa
comunidade. [...]. Em relação e temos
A ao meu trabalho esclarecido
relacionada de pesquisa, e avançado
com o tema penso que o sobre essas
de pensamento coisas.
tabagismo é crítico e as QSC
muito boa, podem ir juntos.
pois Eu falava
pensava em algumas vezes
fazer isso sobre a Ciência,
em minha mas esquecia
pesquisa de de formar
mestrado, cidadãos com
mas me uma
falaram que fundamentação
não podia. teórica. Como
vou fazer?
Como posso
melhorar?
6. Pablo: [...] Eu
já tenho outros
conceitos.
Devemos
evoluir no
discurso com
leituras escritas.
Por que
continuar
trabalhando da
mesma forma?
Esta disciplina
me tem aberto
os olhos para
conhecer outros
grupos de
pesquisa do
Brasil que o
professor [PU]
trabalhou, pois
eu somente
estava com a
leitura da
Espanha [de
autores da
Espanha].
Então isso foi
muito bom para
mim como
pesquisador,
porque sempre
tenho
considerado
que meu papel
em sala de aula
é o de
pesquisar.
Polidez 6. Paulo: [...]
Em relação ao
trabalho que
tinha feito antes
com o trabalho
que fizemos
agora [na
disciplina],
realmente
avançamos
muito, não
somente na
disciplina, mas
também no
mestrado.
Como tal,
avançamos na
pesquisa.
Fonte: Martínez (2010).
A inovação do ensino
Conforme o Quadro 20, identificamos nas falas dos professores a
afinidade positiva com a abordagem de QSC, na medida em que
contribuiu para a inovação do ensino dos professores de várias
formas. Em primeiro lugar, possibilitou-lhes repensar o currículo e o
ensino tradicional, na medida em que reconheceram novas formas
de ensinar, especialmente articulando aspectos sociais envolvidos
no ensino de conteúdos de Ciências (Lucas, Edvaldo, Ricardo,
Angélica, Roberto e Natália).
Em segundo lugar, vários professores destacaram que a abordagem
de QSC lhes possibilitou melhorar a aprendizagem e as atitudes de
seus alunos, bem com mostrar coisas diferentes para eles (Cláudia,
Fátima, Camila e Pedro).
Podemos caracterizar a inovação experimentada pelos profesores
conforme suas falas, que indicam um processo de dinamização de
suas práticas escolares, em razão de que a abordagem de QSC
representa, de alguma forma, uma possibilidade de renovação do
ensino tradicional de Ciências.
Os processos de inovação apontados pelos professores foram
emergindo de um processo sistemático de reflexão experimentado
durante o desenvolvimento da disciplina Ensino de Ciências com
Enfoque CTSA a Partir de QSC, que incentivou a reflexão teórica e
metodológica a respeito do trabalho realizado pelos professores em
sala de aula sobre a abordagem de QSC. Nesse sentido,
concordamos com Terrazzan (2007) que a inovação em um espaço
educativo exige ações consistentes e bem suportadas, bem como a
participação efetiva dos professores e acompanhamento
pedagógico permanente, que implica o comprometimento dos
professores universitários engajados na formação continuada de
professores de Ciências, em virtude de que eles têm a
responsabilidade social de enriquecer as experiências docentes dos
professores em serviço, bem como de aprender junto com eles
novas formas de inovar o ensino de Ciências.
Outro aspecto que foi destacado pelos professores corresponde aos
ganhos que eles tiveram em termos de contextualizar socialmente o
ensino de conteúdos específicos de Ciências por meio da
abordagem de QSC. Nas falas das professoras Cristina, Fátima e
Camila, bem com nas dos professores Roberto, Pedro, Lucas e
Maurício, identificamos uma afinidade importante desses
professores com a abordagem de QSC, dado que esta lhes
possibilitou abordar conteúdos de Ciências sob uma perspectiva
pedagógica que valorizou o estudo das implicações sociais da
ciência e da tecnologia. Tais resultados nos oferecem evidências
empíricas que confirmam as considerações de outros trabalhos de
pesquisa (Pedretti, 1997; 2003) que apontaram a abordagem de
QSC como uma forma concreta de avançar na formação cidadã de
estudantes e professores.
A abordagem de QSC pode contribuir na formação para a cidadania
dos estudantes, em razão de servir para trabalhar com estes a
natureza interdisciplinar do conhecimento científico contemporâneo,
transcendendo a lógica disciplinar que tem caracterizado o ensino
de Ciências tradicional.
Ainda que a abordagem de QSC implique a problematização dos
conteúdos disciplinares das Ciências, isso não significa de forma
alguma que não exista a preocupação com o ensino desses
conteúdos, pois uma das pretensões dessa abordagem consiste em
valorizar de maneira diferente tais conteúdos para que sejam
estudados de maneira tal que ajudem os estudantes a estruturar
pontos de vista próprios, que lhes permitam participar
criteriosamente na sociedade.
Contudo, não podemos desconhecer que existe um conflito entre o
currículo focado nos conteúdos disciplinares de Ciências e o
currículo focado na perspectiva CTSA. Nesse sentido, concordamos
com Aikenhead (2005a; 2002b) que esse conflito curricular implica
necessariamente um posicionamento e uma intervenção política
crítica em termos de negociação de interesses e do poder outorgado
aos conteúdos científicos, que são colocados em um nível de
superioridade em relação a outros conteúdos curriculares
humanísticos. Ignorar a dimensão política no ensino de Ciências é
uma forma de desconhecer as implicações sociais da ciência e da
tecnologia.
Se aceitarmos a ideia de que o ensino de Ciências deve transcender
a transmissão de conteúdos específicos de Ciências, valorizando as
implicações éticas, sociais, políticas e ambientais desses conteúdos,
estaremos reconhecendo que a ciência e a tecnologia não podem
ser divorciadas de propósitos, responsabilidades e valores sociais.
Vista dessa forma, a contextualização social dos conteúdos de
Ciências pode favorecer a valorização dos benefícios trazidos pelo
progresso científico e tecnológico, em termos da melhoria da
qualidade de vida das pessoas, bem como pode favorecer a valorização das limitações e prejuízos desencadeados por esse
progresso em termos sociais e ambientais.
A formação para a pesquisa
Outro aspecto caracterizado nas falas de professores na entrevista
focal refere-se à afinidade manifestada por alguns deles sobre a
formação para a pesquisa de acordo com a abordagem de QSC.
No Quadro 21 observamos que as professoras Isabel e Fernanda e
os professores Paulo e Vinícius salientam de diferentes formas os
ganhos alcançados pela abordagem de QSC em termos de sua
formação como pesquisadores de sua prática. As falas desses
professores constituem um indício de que a abordagem de QSC
pode enriquecer a pesquisa escolar realizada pelos professores em
serviço.
A formação do professor como pesquisador não ocorre de forma
individual ou isolada, pois o trabalho colaborativo entre professores
em serviço resulta em importante forma para o melhoramento de
seu ensino.
Conforme as falas dos professores Roberto e Ricardo e a da
professora Edith registradas no Quadro 20, a abordagem de QSC
também contribuiu para valorizar o trabalho entre os professores
das escolas, de modo que eles salientaram que o trabalho realizado
com as QSC em sala de aula tem gerado em outros colegas o
interesse em realizar um trabalho coletivo entre os professores,
voltado à realização de atividades docentes que inovem o ensino de
Ciências nas escolas.
Todos os esforços que apontem ao fortalecimento pessoal e social
dos professores devem ser potencializados, especialmente quando
esses esforços envolvem a participação ativa desses professores,
pois, apesar da ampla pesquisa realizada nas últimas décadas na
área de ensino de Ciências, poucas são as mudanças registradas
em termos de programas de ensino que visem à superação da racionalidade técnica, ainda dominante na educação continuada de
professores de Ciências (Maldaner; Zanon; Auth, 2006).
Concordamos com Gauche et al., (2007) e Maldaner (2007) que é
importante transcender a pesquisa academicista que mantém a
fragmentação entre a formação teórica de âmbito universitário e o
pensar-agir próprio das práticas docentes realizadas em sala de
aula.
Nesse contexto, a formação ou é reduzida a saberes acadêmicos
esvaziados de contextos práticos ou é reduzida a um ofício
esvaziado de reflexões teóricas. Por essa razão, propostas que
potenciem a pesquisa dos professores em serviço articulando suas
experiências a reflexões teóricas devem ser potencializadas na
formação continuada dos professores de Ciências.
Da mesma forma como tem sido salientado por vários autores (Carr;
Kemmis 1988; Zeichner, 1998; Contreras, 2002; Gimeno; Pérez-
Gómez, 1998; Tardif, 2000b; 2006; Maldaner; Zanon; Auth, 2006),
pensamos que é importante investir maiores esforços em articular a
dimensão teórica e prática da formação do professor como
pesquisador de sua prática, para que, dessa forma, sejam autores
de seu trabalho docente, e não apenas executores de reformas ou
de currículos elaborados por agentes externos ao seu trabalho.