Questões sociocientíficas na prática docente: ideologia, autonomia e formação de professores
10 A intertextualidade como dimensão central da análise de discurso crítica (ADC)
10 – A intertextualidade como
dimensão central da análise de
discurso crítica (ADC)
Fairclough (2001a) aponta que o termo “intertextualidade” foi
introduzido por Júlia Kristeva no final da década de 1960 a partir dos
trabalhos de Bakhtin, pois esse autor, embora não tivesse usado o
termo, já apresentava seu significado em sua obra.
A intertextualidade envolve a heterogeneidade de discursos
presentes em um determinando texto, e sua correspondente análise
busca entender as diferentes maneiras como esses discursos são
produzidos, distribuídos e consumidos por determinados atores
socais em determinados contextos, de modo que os discursos
podem estabelecer relações de cooperação, competição ou
dominação. Nesse sentido, um texto pode envolver vários discursos
que, em determinados casos, competem e estabelecem relações
antagônicas, nas quais um deles se legitima por meio da negação
do outro.
Intertextualidade é basicamente a propriedade que têm os
textos de ser cheios de fragmentos de outros textos, que podem
ser delimitados explicitamente ou mesclados e que o texto pode
assimilar, contradizer, ecoar ironicamente, e assim por diante.
Em termos de produção, uma perspectiva intertextual acentua a
historicidade dos textos [...]. Em termos da distribuição, uma
perspectiva intertextual é útil na exploração de redes
relativamente estáveis em que os textos se movimentam,
sofrendo transformações predizíveis ao mudarem de um tipo de
texto a outro [...]. E em termos do consumo, uma perspectiva
intertextual é útil ao acentuar que não é apenas “o texto”, nem
mesmo apenas os textos que intertextualmente o constituem,
que moldam a interpretação, mas também os outros textos que
os intérpretes variavelmente trazem ao processo de
interpretação. (ibidem, p.114)
As diferenças entre os discursos são importantes porque têm uma
base ideológica, na qual a força de uma parte do texto é seu
componente acional e a parte de seu significado interpessoal é a
parte da ação social que realiza. Tudo isso constitui um elemento
fundamental do componente ideológico dos textos.
Segundo Bakhtin e Volochínov (1988), o signo é considerado como
parte da realidade que a representa e a constitui de formas
particulares, de tal forma que pode instaurar, sustentar ou superar
determinadas relações de dominação. É por essa razão que todo
signo envolve uma conotação ideológica, e, portanto, toda
modificação da ideologia desencadeia uma modificação da
linguagem. Ao contrário da filosofia psicologista, que interpreta a
ideologia em termos de consciência, a filosofia da linguagem a
interpreta em termos semióticos, dado que a própria consciência
existe mediante sua materialização em signos criados socialmente.
O potencial móvel e evolutivo do signo envolve confrontos sociais,
pois um grupo ou uma pessoa que toma o lugar de outra pessoa ou
grupo é obrigado a usar seus próprios pensamentos, de tal forma
que os represente como os únicos razoavelmente válidos, isto é,
precisamente a forma como a ideologia opera na sociedade.
Bakhtin (2000) entende a ideologia como constituinte das práticas
sociais fundamentadas em perspectivas particulares que suprimem
contradições em virtude de seus interesses e projetos de
subordinação ou dominação.
Se entendermos a palavra como signo social, poderemos
compreendê- la articulada a todo processo de criação ideológica.
Toda refração ideológica do ser em processo de formação, seja
qual for a natureza de seu material significante, é acompanhada
de uma refração ideológica verbal como fenômeno
obrigatoriamente concomitante. (Bakhtin; Volochínov, 1988,
p.38)
Para Bakhtin, a comunicação verbal entrelaça-se a outros tipos de
comunicação e, devido a isso, ela sempre é acompanhada de atos
sociais de caráter não verbal, dos quais às vezes ela é apenas um
complemento.
A contribuição de Bakhtin para a ADC é fundamental, em termos de
estudarmos os atos de fala (enunciações) de forma coletiva e
isolada em permanente interação, isto é, atos de fala na vida e na
criação ideológica. Assim, Bakhtin nos propõe uma concepção
dialógica e polifônica da linguagem, segundo a qual mesmo os
discursos aparentemente não dialógicos, tais como os monólogos
ou textos escritos, sempre são parte de uma cadeia dialógica, na
qual respondem a discursos anteriores e antecipam discursos
posteriores da várias formas. A interação discursiva é, antes de
qualquer coisa, uma operação polifônica que retoma vozes
anteriores e antecipa vozes posteriores (Resende; Ramalho, 2006).
A intertextualidade em termos dos processos de produção
discursiva alude à historicidade dos textos na medida em que eles
conformam acréscimos das cadeias verbais estudadas por Bakhtin
(2000). Para ele, todas as esferas da vida social estão relacionadas
com a língua, que se manifesta por meio das enunciações não só
por seu conteúdo temático, estilo verbal (recursos lexicais,
fraseológicos e gramaticais), mas também por sua composição que
se funde no enunciado.
Para Bakhtin e Volochínov (1988), o ato de fala, ou exatamente seu
produto, que seria a enunciação, não pode ser considerado somente
em termos das condições psicofisiológicas do sujeito falante, pois,
apesar de não podermos prescindir dessas condições, a enunciação
é de natureza social, e para compreendê-la é necessário entender
que ela sempre acontece em uma interação.
Assim, a linguagem é constituída fundamentalmente pelo fenômeno
social da interação verbal, realizada por meio das enunciações. A linguagem vive e evolui historicamente na comunicação social
concreta e abrange uma verdadeira totalidade da vida humana, e
seu estudo não pode ser reduzido somente aos aspectos
linguísticos, é necessário incorporar os aspectos contextuais.
Em termos da distribuição de textos, a intertextualidade é
interessante para estudar a forma como os textos se movimentam
sofrendo determinadas transformações de um para outro. E, em
termos de consumo de textos, a intertextualidade ajuda a entender
que o significado não está constituído apenas pelo texto
interpretado, mas também pelos outros textos que o(s) intérprete(s)
utiliza(m) para dar sentido ou interpretar o(s) texto(s) em questão.
Fairclough (2001a) diferencia intertextualidade manifesta da
intertextualidade constitutiva ou interdiscursividade. A
intertextualidade manifesta implica a constituição heterogênea de
textos que são claramente diferenciáveis entre si, enquanto a
interdiscursividade implica tipos de discurso que estão envolvidos
em práticas sociais ou discursivas.
Na intertextualidade manifesta, outros textos estão implicitamente
presentes no texto objeto de análise, de tal maneira que estão
manifestamente marcados ou indicados por marcas tais como as
aspas. Já a interdiscursividade é configurada de convenções
discursivas (por exemplo, ordens de discurso), que entram em sua
produção e não estritamente em outros textos explícitos, o que pode
abranger processos particulares de tradução entre os textos
envolvidos.
A ADC apropria a ideia de ordem de discurso proposta por Foucault
(1987; 1996) para estudar os processos de interdiscursividade,
sugerindo que as ordens de discurso têm primazia sobre os tipos
particulares de discurso que são analisados na ordem societária e
institucional, bem como em suas próprias particularidades
discursivas. No entanto, de acordo com a concepção gramsciana da
ADC, as ordens de discurso são reinterpretadas como elementos
internamente heterogêneos, intertextuais e instáveis, o que permite pensar que as ordens do discurso podem ser desarticuladas ou
rearticuladas nos processos de luta hegemônica.
Pode-se considerar uma ordem de discurso como a faceta
discursiva do equilíbrio contraditório e instável que constitui
uma hegemonia, e a articulação e rearticulação de ordens de
discurso são, consequentemente, um marco delimitador na luta
hegemônica. Além disso, a prática discursiva, a produção, a
distribuição e o consumo (como também a interpretação) de
textos são uma faceta de luta hegemônica que contribui em
graus variados para a reprodução ou a transformação não
apenas da ordem de discurso existente (por exemplo, mediante
a maneira como os textos e as convenções prévias são
articuladas na produção textual), mas também das relações
sociais e assimétricas existentes. (Fairclough, 2001a, p.123)
Dado que a intertextualidade abrange a identificação da diversidade
de textos existentes em um texto, a ADC foca em caracterizar os
níveis e as relações simples e complexas que são estabelecidas
entre esses textos. Da mesma forma, as relações intertextuais
podem ser difusas ou ocultas, o que pode indicar a ambivalência
dos textos, na medida em que diferentes sentidos podem coexistir, e
em determinados casos resulta bastante difícil determinar o sentido
do texto como um todo.
Em um texto constituído no decorrer de uma interação verbal, as
falas dos agentes secundários, com respeito ao locutor principal,
podem ser representadas por meio do discurso indireto, o que pode
denotar ambivalência. Por exemplo, na frase “os ambientalistas do
Greenpeace disseram o quanto eles concordam com o
desenvolvimento sustentável” existe uma ambiguidade, pois não se
pode afirmar se as palavras podem ser atribuídas realmente aos
ambientalistas do Greenpeace que são representados ou se
representam a voz de outro ator social interessado em mostrar que
os ambientalistas concordariam com o desenvolvimento sustentável.
Esse exemplo nos mostra que os elementos de um texto podem ser
escritos ou ditos de determinadas formas para ser interpretados de diferentes modos, o que constitui uma característica da
intertextualidade manifesta e da interdiscursividade.
Uma forma de estudar a representação de um discurso direto
consiste em analisar a forma como são estabelecidos os relatos por
parte de autores de textos ou interlocutores de uma conversação,
particularmente quando estão se referindo a relatos que outros
disseram.
Também é útil caracterizar o tipo de intertextualidade manifesta no
texto ou conversação objeto de análise, a qual pode ser sequencial,
na medida em que diferentes textos ou tipos de discursos se
alternam de diferentes formas.
O caso em que em um texto o discurso esteja claramente contido
dentro (da matriz) de outro texto se denomina intertextualidade
manifesta encaixada, ou também pode ser mista, quando os textos
ou tipos de discurso estão fundidos de forma mais complexa e,
portanto, são dificilmente separáveis, o que pode ser interpretado de
melhor forma em termos de interdiscursividade.
Fairclough (ibidem), embasado em Bakhtin, considera que as vozes
ou textos presentes em um texto envolvem relações dinâmicas do
discurso representado e do discurso representador. Em alguns
casos as vozes se fundem, se sobrepõem ou permanecem
diferenciadas. Por essa razão, é importante analisar até que ponto
estão definidos os limites entre o discurso representador e o
discurso representado, ou em que extensão o discurso é traduzido
na voz do discurso representador.
A pressuposição é outro elemento para analisar a maneira como se
incorporam os textos de outros em um texto. Consiste em
proposições tomadas pelo produtor do texto como estabelecidas ou
dadas, o que pode ser interpretado em termos de textos prévios do
produtor do texto. Essas pressuposições podem ser estabelecidas
de forma sincera, desonesta ou com a intenção de manipular. As
pressuposições podem ser formas efetivas de manipular as
pessoas, porque são difíceis de desfiar. Também requerem sujeitos interpretantes com experiências e suposições particulares em textos
anteriores, de tal forma que contribuem na construção ideológica
das pessoas.
Finalmente, podemos dizer que a interdiscursividade e a
intertextualidade manifesta possibilitam constituir novos âmbitos de
ação, os quais podem ser caracterizados como fragmentos das
práticas sociais que contribuem para constituir e configurar o marco
social do discurso.