Questões sociocientíficas na prática docente: ideologia, autonomia e formação de professores

19 Novas compreensões sobre o enfoque CTSA a partir de questões sociocientíficas

19 – Novas compreensões sobre o

 

enfoque CTSA a partir de questões

 

sociocientíficas

 

Outro aspecto explorado na entrevista focal realizada ao final dos

encontros da disciplina Ensino de Ciências com Enfoque CTSA a Partir

de QSC foi a construção de novas compreensões dos professores de

Ciências em serviço sobre a perspectiva CTSA. Essa perspectiva tem

sido abordada no decorrer deste trabalho como uma perspectiva de

ensino alternativa ao ensino tradicional de Ciências, e por essa razão

consideramos relevante valorizar até que ponto a abordagem de QSC

possibilitou compreender a perspectiva CTSA.

 

Da mesma forma como foi feita a análise das contribuições da

abordagem de QSC para a prática do professor, orientaremos a

análise neste ponto desenvolvendo, em primeiro lugar, uma análise de

algumas falas de professores em termos de modalidade e polidez,

para depois estabelecer algumas generalidades conforme a discussão

global das falas dos professores.

 

No Episódio 46 identificamos nas falas de Antônio e Ricardo uma

afinidade positiva com a perspectiva CTSA. As expressões “o trabalho

que temos desenvolvido”, “podemos dizer”, “nos deve permitir”

utilizadas por Antônio, bem como as expressões “eu acho que”, “eu o

aplico e o entendo”, “eu continuo insistindo”, são marcas textuais da

modalidade subjetiva. Embora nos dois casos a afinidade seja positiva,

interpretamos nas falas duas formas de compreender a perspectiva

CTSA.

 

Episódio 46 (EF Grupo 4)

 

48. PU: Bom! [...] A partir do trabalho que temos

desenvolvido sobre abordagem de QSC, como

vocês estão entendendo as relações entre a

ciência, a tecnologia, as sociedades e o

ambiente? [risadas dos professores]

 

5 49. Antônio: O trabalho que temos desenvolvido

nos tem permitido até certo ponto aplicar o

currículo CTSA. Antes de tudo, ao fazer esta

autoavaliação, podemos dizer que houve uma

mudança para avaliar.

Chamou-me a atenção que apliquei um

instrumento no qual perguntava [para os

estudantes] o que é CTSA. Eles me diziam que

a

 

10 ciência se desenvolve na sociedade e o

ambiente e que estas dimensões estão muito

ligadas.

50. Ricardo: Eu acho que ao fazer uma revisão

histórica se entende a preocupação do porquê

de surgir todo esse movimento [CTSA] a partir

de umas problemáticas determinadas. Eu o

aplico e o entendo [o

 

15 movimento CTSA] como essa preocupação que

tenho neste momento para a formação de

nossos alunos. Eu continuo insistindo na

formação integral. A ciência é ensinada de

forma rigorosa e descontextualizada, e na

educação rural isto é mais marcado, por causa

de muitas situações.

 

A tecnologia, nós já sabemos como se encontra

[no contexto rural].

 

20 [Dizem] Vamos trabalhar no computador, porque

isso é tecnologia e não mais. A parte do

ambiente a trabalhar a Biologia e não há uma

relação. [Ciências] Sociais aborda a parte social,

mas não estamos relacionando. No momento

em que começamos a fazer uma relação CTSA,

começamos a perceber que os estudantes

também percebem que tudo está relacionado, e

a ideia é que os estudantes desenvolvam suas

competências e habilidades para que eles

analisem as situações, dessa forma o ensino é

integral, e não descontextualizado.

 

51. Antônio: CTSA nos deve permitir solucionar

um problema, não somente com exemplos, mas

algo mais.

 

No caso do professor Antônio, a perspectiva CTSA é compreendida

como um enfoque didático que lhe possibilita trabalhar com seus

alunos o estabelecimento de relações entre a ciência e a sociedade

(turno 49, linhas 4 e 5). Por sua vez, o professor Ricardo compreende

a perspectiva CTSA como um movimento que trouxe novas reflexões

sobre problemáticas sociais que podem ser atreladas à formação

integral de seus alunos. Desta maneira, o professor salienta a

fragmentação das relações CTSA na realidade escolar ao indicar que

a tecnologia é somente vista como a informática ou o uso de

computadores, o ambiente é tratado pela Biologia e a sociedade é

tratada pela área de Ciências Sociais. Diante de tal fragmentação, ele

considera que o trabalho com a perspectiva CTSA permite relacionar

essas dimensões em sala de aula, oferecendo novas possibilidades

para que seus alunos desenvolvam habilidades que lhes permitam

contextualizar a ciência.

 

Os professores Antônio e Ricardo identificam em sua fala a voz dos

estudantes diretamente relacionada com o trabalho que

desenvolveram com a perspectiva CTSA, deixando entrever que,

assim como eles avançaram em estabelecer relações entre a ciência e

a tecnologia na sociedade, seus alunos também avançaram na mesma

direção.

É interessante que o professor Ricardo representa indiretamente a voz

de seus colegas de escola. Observamos que nas linhas 13, 14, 15, 16

e 17 no Episódio 46 o professor Ricardo desenvolve uma crítica ao

ensino de Ciências descontextualizado da sociedade, a qual é

afirmada no contexto rural no qual ele trabalha. Quando ele se refere à

área de Ciências Sociais, percebemos que está se referindo aos seus

colegas dessa área. Assim, interpretamos em sua fala que a crítica é

clara sobre o trabalho fragmentando que é realizado entre os

professores de sua escola a respeito da tecnologia, do ambiente e da

sociedade. Justamente na linha 17 do mesmo episódio o professor

Ricardo estabelece uma polidez negativa com respeito aos colegas

que favorecem a fragmentação do conhecimento, e em consequência

ele se posiciona a favor da perspectiva CTSA, que contribuiria para

transcender a fragmentação. A crítica exposta pelo professor Ricardo

sobre o ensino que foca nas disciplinas é ratificada na linha 18, na qual

ele afirma implicitamente que o estabelecimento de relações CTSA

contribuiria para a formação integral de seus alunos e para a

contextualização social do ensino desenvolvido por seus colegas.

 

O fato de o professor Ricardo questionar o ensino tradicional

representando outras vozes da escola implica uma constituição de seu

ethos de maneira diferente daquela do professor Paulo, pois parece

expressar um encorajamento mais claro de seu trabalho docente

embasado na perspectiva CTSA, enquanto o professor Paulo deixa

entrever certa aplicação da perspectiva CTSA sem levar em

consideração maiores considerações pedagógicas.

 

No Episódio 47 também identificamos, nas falas das professoras

Fernanda, Roberta e Fátima, a modalidade subjetiva, porque elas

expressam afinidade com a perspectiva CTSA, na medida em que esta

possibilitou que elas trabalhassem conteúdos de Ciências conforme

suas implicações sociais.

 

Episódio 47 (EF Grupo 2)

 

37. PU: Bom! Em primeiro lugar, de acordo com

as respostas que vocês indicaram sobre ciência

e a tecnologia, no primeiro trabalho que fizemos

[Apêndice C] vocês concordavam com o

exposto naquele momento e vocês indicavam

que a tecnologia era a aplicação da ciência.

Bom!

 

5 Diante disso, gostaria que vocês falassem como

estão entendendo a relação entre a ciência, a

tecnologia, a sociedade e o ambiente.

38. Fernanda: Bom! É uma relação recíproca,

na qual consideramos as implicações sociais da

ciência e da tecnologia. Não somente eu

considero essas implicações, mas também os

estudantes. Por exemplo,

 

10 na QSC que estou trabalhando, as concepções

que eles tinham sobre a tecnologia estavam

relacionadas com um computador, um iPod ou a

internet, e pensavam que a ciência e a

tecnologia sempre beneficiam o mundo. Mas

depois de ir trabalhando alguns debates, eles

foram se sensibilizando e mudando sua visão

positiva ou negativa. Então essa

 

15 relação é recíproca e é difícil de separar, porque

o tempo todo se relaciona. Agora paramos para

pensar nas implicações e também paramos para

pensar sobre qual é nosso papel. Eles se

enxergam no futuro e o que podem fazer, e eu,

o que posso fazer como docente.

39. Paulo: As relações CTS implicam entender

que a ciência e a tecnologia

 

20

são o resultado uma da outra e implicam

também uma postura ética, política e

econômica. Aí está a questão de que o PU

falava; considerar benefícios e riscos, pois tem a

ver com PIB [produto interno bruto do país] e

com muitas coisas. Na verdade, não é uma

relação tranquila, implica um ponto de vista.

 

25 40. Fátima: Eu acho que é um novo

microcurrículo que permite interpretar muitas

coisas. É muito importante a pesquisa, a parte

social e, logicamente, o conteúdo [de Ciências].

Algo que detectei foi que tive certa apatia sobre

a dimensão social, então [porque] meus

conceitos bioquímicos ficavam por lá

[afastados], e não sabia que tão pertinente [era

 

30 a perspectiva CTSA]. A gente deve estar muito

atenta para enfrentar CTSA, para que meus

conceitos bioquímicos não fiquem afastados. O

professor deve estar preparado para delimitar

muito bem a QSC. 41. Roberta: Penso que

nessa abordagem [CTSA] a gente tem a

oportunidade de ver a relação ciência e

tecnologia, e eu tenho descoberto nas

 

35 análises mais aprofundadas com os estudantes

o tipo de conhecimentos que produz cada um

deles. Percebo que na tecnologia os

conhecimentos são mais aplicáveis, e os

conhecimentos científicos fazem parte de um

campo de profundização mais especializado.

Tecnologias são aqueles campos especializados

que a ciência produz. Gostaria de colocar

 

40

algo relacionado com o dito pela Fátima, e

quando trabalhamos uma questão

[sociocientífica], o conhecimento disciplinar [das

Ciências] é muito importante, porque a gente

pode trabalhar a questão em muitos aspectos, e

o que eu tenho sentido é que fiquei muito no

macro [no geral] e tenho chegado pouco ao

micro [o particular], porque precisamente as

 

45 coisas sociais se consideram desde o macro,

então ainda não consegui chegar ao micro.

Essa fundamentação teórica e esse limite

devem ser considerados em algum momento, e

a gente não pode ficar nessas coisas tão

amplas, porque tem o risco de não ter tempo.

42. Paulo: Essa é uma discussão muito ampla e

é precisamente um

 

50 tema de pesquisa da perspectiva CTSA que tem

a ver com o grau de conhecimentos que

favorecem a formação de cidadãos, porque para

50 a formação de cidadãos eu trabalharia mais

a parte da tomada de decisão sobre situações

ambientais, para que eles se preparem para

participar. Mas também implica a formação de

cientistas de que

 

55 precisa a sociedade. Então é o cuidado que a

gente precisa ter para saber qual é o âmbito que

desejo favorecer. Então, se eu quero favorecer a

formação de cidadãos, devo pensar em que tipo

de conhecimentos são necessários.

 

Por sua vez, identificamos, no mesmo episódio, na fala do professor

Paulo (turno 39) a modalidade objetiva, porque, embora ele expresse

afinidade com a perspectiva CTSA, o faz como se fosse algo externo

ao seu próprio trabalho. Observamos que a fala do professor é

construída na terceira pessoa e não há marcas textuais de modalidade subjetiva, em contraste com as falas das professoras Fernanda,

Roberta e Fátima. No entanto, apesar de o professor parecer perceber

a perspectiva CTSA como algo externo, ele acaba valorizando

positivamente essa perspectiva e ainda alerta sobre a dificuldade

envolvida no estabelecimento de relações entre a ciência e a

tecnologia na sociedade, constituindo, dessa forma, uma polidez

positiva, alertando que as relações CTSA não são algo tranquilo ou

fácil, pois exigem um ponto de vista determinado.

 

A crítica sobre a visão tradicional de tecnologia nasceu na década de

1970 e tem se estendido até nossos dias. O fundamento da crítica teve

foco na aparente autonomia e neutralidade do progresso tecnológico

que foi questionada, uma vez que foram valorizados os aspectos

sociais e os valores adjacentes à mudança tecnológica, de modo que a

tecnologia não era mais um empreendimento autônomo, mas uma

atividade humana desenvolvida em determinados contextos sociais,

econômicos e políticos.

 

No Episódio 48 também identificamos na fala da professora Natália

uma compreensão tradicional da tecnologia, desta vez relacionada

com a construção de artefatos. Essa compreensão é construída no

cotidiano da professora, uma vez que a sociedade está saturada de

artefatos que fazem parte da vida das pessoas, e por essa razão a

professora considera que é difícil mudar essa compreensão tradicional

de tecnologia. No entanto, o fato de ela refletir sobre a dificuldade de

superar o percebido no cotidiano representa um indício de que as

discussões desenvolvidas com a professora contribuíram de alguma

forma para pensar essa visão sobre a tecnologia.

 

Episódio 48 (EF Grupo 6)

 

46. PU: Vocês, em suas respostas expressas no primeiro trabalho

que realizamos [Apêndice C], indicavam que trabalhavam as

implicações da ciência e da Tecnologia na sociedade, entendendo

a tecnologia como uma aplicação da ciência. Vocês, como estão

entendendo a tecnologia e suas relações com a ciência, a

sociedade e o ambiente?

47. Laura: Chamou-me a atenção que eu mudei essa visão,

porque a tecnologia não é simples aplicação [da ciência], não é só

o aparelho, é uma construção coletiva. É a construção de um

conhecimento.

 

48. Cristina: Por exemplo, eu pedi para eles [os estudantes], em

uma atividade que se chama “Características de habilidades que

registrassem aspectos sobre a máquina a vapor”... lógico que não

podemos conseguir isso [a máquina] e não porque seja

funcional... estaria a tecnologia, aí há uma construção. Então [a

tecnologia] é como essa construção de pensamento.

 

50. Natália: A tecnologia é para construir um conhecimento, mas

está vinculada a equipamentos ou aos aparelhos que

necessitamos no dia a dia e que sem eles não poderíamos viver.

A internet, as ligações. Ah! Por exemplo, tinha que ligar para

avisar que não assistiria a um encontro e demorei, gastei dinheiro,

a mensagem voltava, enfim. Para mim, a tecnologia é

imprescindível para as escolas, para as políticas e para as

pessoas. Uma pessoa que não tenha celular, como que fica

parada! É difícil, para mim, mudar essa concepção da tecnologia e

pensá-la em termos de construção social, eu a relaciono com

aparelhos.

 

51. Roberto: Basicamente, eu entendo a tecnologia relacionada

com o currículo e a necessidade de melhorar a qualidade

acadêmica. Então eu considero a tecnologia com a necessidade

de dar resposta a um problema do cotidiano, e nesse cotidiano

está a construção de conhecimento, não somente na ferramenta

[nos instrumentos, aparelhos etc.], mas em termos de pesquisa,

pois eles [os estudantes] devem elaborar um projeto final. Então a

tecnologia nós trabalhamos a partir desse ponto de vista, em

termos da solução de um problema prático que deviam dar conta

ao final do ano. E como o faço? Fazendo uma pesquisa educativa

formativa.

 

Em contraste com a compreensão tradicional de tecnologia

caracterizada nas falas das professoras Roberta e Natália, nós

identificamos na fala do professor Roberto (turno 51, Episódio 48) uma compreensão diferente sobre a tecnologia relacionada com a

resolução de problemas práticos por parte de seus alunos. Ele entende

a questão da tecnologia vinculada a processos educativos, nos quais

aquela não pode ser vista como simples artefatos, mas como

processos criativos nos quais os estudantes podem se engajar para

desenvolver um determinado projeto sobre um problema prático.

 

Interpretamos na fala do professor Roberto uma compreensão de

tecnologia como uma atividade humana orientada à solução de

problemas práticos, o que também pode incluir a elaboração de

artefatos ou produtos como consequência de um processo técnico,

mas que não é reduzida a esse processo.

 

No turno 47 do Episódio 48 apreciamos que a professora Laura

questiona a ideia de tecnologia entendida como aplicação da ciência e

expressa entendê-la com uma construção coletiva de pensamento, da

mesma forma a professora Cristina (turno 48) considera a tecnologia

atrelada à construção de pensamento.

 

As falas do professor Roberto e das professoras Laura e Cristina nos

indicam a compreensão de tecnologia de uma forma diferente, que em

termos históricos, segundo López, González e Luján (ibidem),

incorporaria tanto os aspectos técnicos da visão tradicional quanto os

aspectos culturais e sociais da tecnologia. Assim, a tecnologia é vista

como processo e produto: politicamente constituída e socialmente

contextualizada. Essa nova visão da tecnologia está aberta à inovação

e à intervenção ambiental, o que envolve uma recontextualização da

tecnologia focada nos aspectos organizativos e culturais dos sistemas

tecnológicos e dos artefatos, vistos como produtos de interações

sociais.

 

Nesse sentido, a perspectiva CTSA oferece uma forma diferente de

entender a tecnologia, uma forma que valora impactos, riscos e outros

aspectos sociais associados ao progresso tecnológico. Baseados em

López, González e Luján (ibidem), realizamos o Quadro 22, no qual

apresentamos as características da perspectiva tradicional da

tecnologia e apontamos a nova forma de entender a tecnologia sob a

perspectiva CTSA.

Quadro 22 – Contribuições dos estudos CTSA sobre uma nova

compreensão da tecnologia e suas relações com a ciência e a

sociedade

 

Impacto e Aspectos Variação e Viabilidade

riscos sociais e seleção social e

técnicos regulação

 

Perspectiva- Os - Parte-se da - A variação e- A

tradicional impactos e distinção a seleção na viabilidade

riscos são absoluta entre mudança social da

inerentes à aspectos sociais tecnológica tecnologia

tecnologia. e tecnológicos. são depende de

concebidas sua

como eficiência

processos interna.

independentes.

Perspectiva- Os - Os interesses - Os processos- A

CTS impactos e sociopolíticos e de variação e viabilidade

os riscos econômicos seleção da tecnologia

das influem no tecnológica depende de

tecnologias desenvolvimento estão aspectos

devem ser da tecnologia. conectados sociais,

abordados Da mesma com o fim de organizativos

de acordo forma, as que a e

com estruturas informação flua institucionais.

percepções, sociais estão nas etapas das- A

significados definidas pela mudanças viabilidade

e atitudes tecnologia. tecnológicas. social de um

de vários projeto

grupos tecnológico

sociais. não depende

- A somente dos

avaliação critérios

de riscos definidos por

depende de especialistas,

fatores mas também

como da aceitação

equidade

social e dos

ameaças cidadãos.

das

liberdades

individuais.

 

Fonte: Martínez (2010). Quadro realizado baseado em López,

González e Luján (2002).

 

Da mesma forma como analisamos as falas das professoras

Fernanda, Roberta, Fátima, Natália, Laura e Cristina e as dos

professores Paulo, Roberto, Antônio e Ricardo, analisamos as falas de

outros professores, e a partir dessa análise elaboramos o Quadro 23,

no qual apresentamos algumas falas que nos permitiram caracterizar o

tipo de afinidade estabelecido pelos professores sobre a perspectiva

CTSA em termos de modalidade subjetiva e objetiva.

Quadro 23 – Afinidade dos professores com a perspectiva CTSA

 

Elementos Entrevista Entrevista focal Entrevista focal

de análise focal Grupo 1 Grupo 2 Grupo 3

Modalidade 36. PU: [...] 37. PU: [...] 32. PU: Como

Gostaria que Gostaria que vocês estão

vocês vocês falassem compreendendo

falassem como vocês as relações

como vocês estão CTSA depois de

estão entendendo a ter abordado

entendendo a relação entre a suas QSC?...

relação entre a ciência, a 33. Simone: É

ciência, a tecnologia, a como um ciclo.

tecnologia, a sociedade e o Por quê? A

sociedade e o ambiente. ciência vai

ambiente. 38. Fernanda: atrelada à

37. Maurício: Bom! É uma tecnologia, que

[...] A parte da relação tem sido

Química, a recíproca, na produtiva na

parte qual sociedade. Uma

experimental consideramos coisa vai dentro

estava, mas as implicações da outra em

não estava a sociais da beneficio de

dimensão ciência e da melhores

humana, então tecnologia. Não condições de

avancei em somente eu vida. Se nós

considerar as considero essas conseguirmos

consequências implicações, fazer entender

da ciência. mas também os [aos estudantes]

Então nessas estudantes. [...] que cada coisa

relações Agora paramos [CTS] faz parte

[CTSA] vai a para pensar as do ciclo, será

dimensão implicações e bastante

humana. também produtivo.

38. Vinícius: paramos para 34. Camila: Eu

Eu as pensar sobre mudaria a

considero [as qual é nosso palavra “ciclo”

relações papel. Eles se pela palavra

CTSA] em enxergam no “integração”,

meu projeto. futuro que porque penso

Antes as podem fazer, e que temos

considerava eu, que posso conseguido essa

como disse o fazer como compreensão de

Maurício [na docente. integração para

parte 39. Paulo: As trabalhá-la com

disciplinar das relações CTS os estudantes...

Ciências], implicam 35. Edvaldo:

porque entender que a Sim! Não são [a

desconhecia ciência e a ciência, a

essa forma de tecnologia são o tecnologia e a

trabalhar. 38. resultado uma sociedade]

Lucas: da outra e excludentes,

Considero implicam mas

essa também uma complementares,

perspectiva postura ética, e podemos ver

[CTSA] para política e que através da

trabalhar os econômica... história as três

componentes 40. Fátima: Eu coisas vão de

éticos. A gente acho que é um mãos dadas,

percebe que novo elas vão

não existem microcurrículo integradas.

somente os que permite

benefícios [da interpretar

ciência], mas muitas coisas. É

também se muito importante

percebe que é a pesquisa, a

necessário parte social e,

gerar uma logicamente, o

mudança. conteúdo [de

Ciências]...

41. Roberta:

Penso que

nessa

abordagem

[CTSA] a gente

tem a

oportunidade de

ver a relação

ciência e

tecnologia, e eu

tenho

descoberto nas

análises mais

aprofundadas

com os

estudantes o

tipo de

conhecimentos

que produz cada

um deles....

Polidez 40. Fátima: [...]

Algo que

detectei foi que

tive certa apatia

sobre a

dimensão social,

então [porque]

meus conceitos

bioquímicos

ficavam por lá

[afastados], e

não sabia que

tão pertinente

[era a

perspectiva

CTSA].

41. Roberta:

Gostaria de

colocar algo

relacionado com

o dito pela

Fátima, e

quando

trabalhamos

uma questão

[sociocientífica],

o conhecimento

disciplinar [das

Ciências] é

muito

importante,

porque a gente

pode trabalhar a

questão em

muitos aspectos,

e o que eu tenho

sentido é que

fiquei muito no

macro [no geral]

e tenho chegado

pouco ao micro

[o particular].

Modalidade 48. PU: Bom! 50. PU: Como 51. Roberto:

[...] A partir do entendem a Basicamente, eu

trabalho que relação da entendo a

temos tecnologia com tecnologia

desenvolvido a ciência e a relacionada com

sobre a sociedade? o currículo e a

abordagem de 51. Angélica: É necessidade de

QSC, como uma relação melhorar a

vocês estão dinâmica que se qualidade

entendendo as está renovando acadêmica.

relações entre a cada Então eu

a ciência, a momento. É considerei a

tecnologia, a uma relação que tecnologia com a

sociedades e não está necessidade de

o ambiente? desvinculada dar resposta a

[risadas dos dos um problema do

professores] posicionamentos cotidiano, e

50. Ricardo: políticos, nesse cotidiano

Eu acho que econômicos e está a

ao fazer uma sociais que a construção de

revisão gente conhecimento,

histórica se evidenciou não somente na

entende a durante o ferramenta [nos

preocupação desenvolvimento instrumentos,

do porquê de da questão aparelhos etc.],

surgir todo sociocientífica. mas em termos

esse Por exemplo, o de pesquisa,

movimento posicionamento pois eles [os

[CTSA] a partir do professor tem estudantes]

de umas um papel devem elaborar

problemáticas importante. um projeto final.

determinadas. 52. Isabel: Eu Então a

Eu o aplico e o vejo essa tecnologia nós

entendo [o relação como trabalhamos a

movimento uma construção partir desse

CTSA] como social entre a ponto de vista,

essa ciência e a em termos da

preocupação tecnologia, é um solução de um

que tenho trabalho problema prático

neste colaborativo. que deviam dar

momento para Uma não se conta ao final do

a formação de pode desligar da ano. E como

nossos alunos. outra, nem se faço? Fazendo

51. Antônio: pode dar mais uma pesquisa

CTSA nos importância a educativa

deve permitir uma, elas têm a formativa.

solucionar um mesma

problema, não importância.

somente com

exemplos,

mas algo

mais.

Polidez 49. Antônio: O

trabalho que

temos

desenvolvido

nos tem

permitido até

certo ponto

aplicar o

currículo

CTSA. Antes

de tudo, ao

fazer esta

autoavaliação,

podemos dizer

que houve

uma mudança

para avaliar.

 

Fonte: Martínez (2010).

 

De acordo com os registros sistematizados no Quadro 23, podemos

dizer que um considerável número de professores (Fernanda, Fátima,

Camila, Edvaldo, Maurício, Vinícius, Paulo e Lucas) expressou a

afinidade subjetiva (modalidade subjetiva) com a perspectiva CTSA em

termos de valorizar as contribuições dessa perspectiva para o

estabelecimento de relações entre a ciência e a tecnologia na

sociedade. Os professores (Antônio, Roberta e Fátima) que

expressaram a afinidade objetiva (modalidade objetiva) também

valorizaram externamente as contribuições da perspectiva, pois

valorizavam em parte a perspectiva CTSA como se fossem

avaliadores desta, e não como professores que se encorajavam

subjetivamente em seu desenvolvimento.

 

Alguns professores ainda compreendem a perspectiva CTSA como

uma forma pedagógica de contextualizar socialmente os conteúdos de

Ciências, o que representa um avanço, mas os esforços podem ser

mais bem encaminhados para que a perspectiva CTSA não seja vista

apenas com uma forma de contextualização social, mas como uma

abordagem interdisciplinar e problemática do ensino de Ciências que

parte de QSC.

 

Na medida em que o ensino de Ciências embasado na perspectiva

CTSA parta de QSC, serão oferecidas maiores possibilidades para

abordar as implicações sociais e políticas da ciência e da tecnologia.

Contudo, a abordagem dessas questões na prática dos professores de Ciências em serviço representa um desafio, porque os professores

enfrentam a incerteza de ter de deixar de trabalhar conteúdos

específicos de Ciências que eles consideram que devem ser passados

para seus alunos. No entanto, a fala da professora Fernanda (Episódio

49) serve de exemplo para ilustrar que é possível trabalhar os

conteúdos específicos de Ciências durante a abordagem de QSC, mas

que esse trabalho tem sentido desde que seja realizado

transversalmente.

 

Episódio 49 (EF Grupo 2)

 

11. Fernanda: [...] Eu deveria ter terminado de abordar o tema de

genética no primeiro período [acadêmico], mas eu continuo

[trabalhando] com genética. Vou continuar com o tema. Eles estão

interessados [os estudantes], e devo abordar outros temas, mas

aos poucos eu vou articulando-os com a mesma QSC [a

experimentação com animais]. Além de abordar os outros temas,

é necessário que os estudantes possam desenvolver suas

habilidades [de pensamento crítico] e possam interpretar seu

contexto. Com isso, eu fico tranquila, porque não me incomoda se

não abordo todos os temas. Igual, tenho um ano para abordá-los.

O que me interessa é o que fica no estudante, então não tenho

essa posição [de abordar todos os conteúdos estabelecidos no

currículo], e seria interessante que os colegas [da escola] olhem

que é uma estratégia boa [a abordagem de QSC] e que a possam

desenvolver, porque é enriquecedora. A única professora que tem

gostado do meu trabalho é a professora de Espanhol, porque os

estudantes lhe dizem: “Vamos argumentar”. Então eles começam:

a razão é tal, a análise é tal, a conclusão é tal. Ou seja, eles estão

desenvolvendo o que têm trabalhado comigo. Então com ela [a

professora de Espanhol] posso realizar um trabalho interdisciplinar

que me parece muito importante.

 

A fala da professora Fernanda também é um exemplo da construção

crítica de sua autonomia, na medida em que seu trabalho docente é

valorizado em virtude da formação de seus alunos e do possível

trabalho coletivo que poderia ser realizado com seus colegas.

Assim, concordamos com Solomon (1993), Aikenhead (1994) e

Pedretti et al. (2008) que a perspectiva CTSA não coloca em perigo o

ensino dos conteúdos de Ciências. Ao contrário, pode ajudar a

aumentar o interesse dos estudantes e também pode fomentar a

construção de novos valores que favoreçam melhores aprendizados

coletivos de Ciências.

 

O importante, talvez, seja enfrentar o desafio proposto pela

perspectiva CTSA de transformar a forma como tradicionalmente se

tem ensinado Ciências, e tal desafio educacional envolve uma

preocupação principalmente prática. Por essa razão a abordagem de

QSC abre novas possibilidades para encorajar os professores em

processos de inovação e transformação de sua prática na medida em

que essas transformações são alcançadas coletivamente.