Questões sociocientíficas na prática docente: ideologia, autonomia e formação de professores
13 A ideologia do currículo tradicional e as possibilidades de mudança na abordagem de questões sociocientíficas (QSC)
13 – A ideologia do currículo
tradicional e as possibilidades de
mudança na abordagem de questões
sociocientíficas (QSC)
No item “Aproximações dos professores de Ciências à perspectiva
CTSA e às QSC” discutimos algumas dificuldades sobre o ensino
tradicional de conteúdos de Ciências e sua necessária
reconfiguração na abordagem de QSC. Assim, buscaremos
compreender melhor os motivos que dificultam a problematização
do ensino tradicional de Ciências que ainda perdura nos currículos,
sejam escolares ou universitários.
No Episódio 7, referente à socialização do trabalho em grupo que foi
realizado no primeiro encontro da disciplina Ensino de Ciências com
Enfoque CTSA a Partir de QSC, identificamos que os professores
convergem em ensinar vários conteúdos disciplinares de Ciências.
Algumas justificativas salientadas pelos professores para ensinar
esses conteúdos em primeiro lugar se referiam ao currículo oficial, o
qual é estipulado pelo Ministerio de Educación Nacional (MEN) da
Colômbia. Em segundo lugar se referiam às orientações e ao
currículo determinado pela escola.
Episódio 7 (GE ) 1
1. PU: […] Então podemos começar com o primeiro ponto [do
trabalho em grupo]: “refletindo sobre nossa prática docente”. O
primeiro aspecto deste ponto era que tipo de conteúdos
ensinaram no último período acadêmico do ano passado.
Então, quem gostaria de começar?...
2. Antônio: Sobre o primeiro item: “que conteúdos ou temas
ensinaram no último período acadêmico do ano passado? Em
convergências, duas pessoas [professores] indicaram
Bioquímica para a 3a série de ensino médio. Em divergências,
[temas] de Biologia, e sete [professores] falaram de pô-las na
parte da Física, e outra pessoa falou de temas variados de
Química.
3. Pedro: Neste ponto o grupo convergiu que se trabalharam
temas tais como matéria, propriedades da matéria, tabela
periódica, ligação química, nomenclatura, soluções. E como
divergências se trabalharam temas como ligação química,
balanceio de equações químicas e estequiometria.
4. David: Em convergências, [os colegas] apontaram [os temas]
reações químicas, balanceio, pH, exercícios, sistemas de
medição, magnetismo, farmácia e biomoléculas.
5. Fátima: Bom! Em nosso grupo, então, houve pontos
convergentes: tabela periódica, ligação química, balanceio de
equações e grupos oxigenados. E como pontos divergentes
encontramos misturas, matéria, modelo quântico, estado
gasoso, nomenclatura de grupos funcionais em Química
Orgânica e ciclo de Krebs.
6. Adriana: Em convergência, na 2a série de ensino médio
trabalhamos Bioquímica, metabolismo, sistema digestório,
sistema circulatório. Em divergências, a colega de 6a série de
ensino fundamental trabalha temas sobre legislação ambiental
e nomenclatura de compostos orgânicos.
7. Oliva: Em convergências trabalhamos gases e soluções. Em
divergências, [trabalharam] estequiometria, ligação química. Um
colega é coordenador acadêmico e não está dando aula neste
momento.
8. PU: Está bom! É o último grupo? [os professores respondem
que é]. Então continuamos com o seguinte ponto: por que
trabalharam esses conteúdos ou temas?
9. Antônio: Em convergências, três colegas indicaram que
levaram em consideração os padrões curriculares estabelecidos
pelo Ministério de Educação. Nós escolhemos a ordem dos
temas. Muitas vezes não se conseguiu passar os temas
estipulados pela falta de tempo ou pela realização de outras
atividades.
10. Pedro: Em nosso grupo, em convergências, porque é uma
política do Ministério de Educação. Porque está estipulado no
currículo, pois há uma sequência de conteúdos que também
são pré-requisito de outros [temas que serão abordados em
outras séries]. Em divergências, políticas educativas da escola
e porque estabelecemos um enfoque social [para o currículo].
11. David: Em convergências, os colegas disseram que por
acordos na área [de Ciências Naturais] se desenvolve o
trabalho por ciclos e por projetos. Em divergência, se ensinaram
esses temas como preparação para o Exame Nacional de
Ensino Médio.
12. Oliva: Em convergências, os colegas indicaram ensinar
esses conteúdos pelos padrões curriculares do Ministério de
Educação, e em divergências, porque está estabelecido no
currículo da escola.
13. Adriana: Em convergências, também se trabalharam esses
temas pelos padrões curriculares do Ministério de Educação, e
em divergências, pela legislação laboral que contempla cada
escola.
14. Fátima: Todos os membros do grupo concordaram que
foram ensinados esses temas porque estão estabelecidos no
currículo.
Os motivos que foram citados pelos professores para ensinar
determinados conteúdos disciplinares se referem a diretrizes
externas dos professores, o que representa um indício da ideologia
tecnicista do currículo tradicional, que reduz o trabalho docente a uma questão metodológica, na qual o professor define como
ensinar, mas não tem ingerência na definição do que ensinar.
A ideologia tecnicista do currículo tradicional reduz o ensino à
transmissão de conteúdos disciplinares que são abordados de forma
desinteressada e investidos de uma aparente neutralidade política,
de modo que os professores acabam reproduzindo essa ideologia
focando o ensino na transmissão desses conteúdos, e dessa forma
deixam em segundo plano as questões do por que, para que e para
quem ensinar Ciências.
A crítica sobre a instrumentalização do trabalho docente por parte
do currículo tecnicista tem sido alvo de críticas desenvolvidas por
vários autores (Apple, 2002a; 2002b; Giroux, 2003a; Contreras,
2002). Algumas das críticas questionam a aparente neutralidade dos
conteúdos curriculares, desvelando os interesses e as ideologias
ocultas em seu correspondente estabelecimento.
No Episódio 8 podemos observar que alguns professores aceitam a
ideia de seguir um currículo preestabelecido e apontam as maiores
possibilidades de seu trabalho na definição de metodologias para
ensinar os conteúdos que foram definidos por outros.
Episódio 8 (GE ) 1
31. Fernanda: Bom! Observo que existem divergências nos
conteúdos que estamos trabalhando, isso em virtude de que
trabalhamos em diferentes contextos que têm diferentes
necessidades, embora exista um currículo já definido pelo
Ministério de Educação. Mas cada professor vai adequando-o
conforme o tempo, o número de estudantes e as necessidades
que surgem do contexto.
32. Oliva: Apesar de seguir o plano de ensino preestabelecido,
evidencia-se que a caracterização da população é algo
relevante, por isso se realizam as avaliações de diagnóstico e
de conceitos prévios.
33. Paulo: Parece-me interessante que no grupo uma
convergência era que o plano de ensino preestabelecido
[currículo preestabelecido] nos diz o que ensinar no último
período acadêmico sobre o qual estávamos falando. No
entanto, vimos uma grande divergência na maneira como
estamos ensinando. Então isso é muito significativo, porque
sempre nos queixamos de que devemos seguir o currículo de
nossa escola, mas podemos desenvolver os conteúdos de
muitas formas, e eu acredito que esse foi o ponto no qual mais
tempo ficamos discutindo, porque falávamos sobre muitas
coisas que estamos realizando. Então gostaria que
discutíssemos um pouco sobre isso. O currículo
preestabelecido é uma camisa de força, mas não é porque
existem muitas maneiras de ensinar e muitas coisas que podem
ser consideradas nesse currículo.
A partir do turno 1 do Episódio 7 até o turno 33 do Episódio 8,
somamos dezessete turnos, dos quais cinco (9, 10, 12, 13, 31)
relacionam diretamente o MEN como um ator social responsável
pela definição do que deve ser ensinado. Também no turno 11
menciona-se indiretamente esse mesmo ator na expressão
“preparação para o Exame Nacional de Ensino Médio”, sendo
definido pelo Instituto Colombiano para el Fomento de la Educación
Superior, instituição regida pelo MEN.
As frases “Levaram em consideração os padrões curriculares
estabelecidos pelo Ministério de Educação”, “Porque é uma política
do Ministério de Educação”, “Também pelos padrões estabelecidos
pelo ministério” e “Embora exista um currículo já definido pelo
Ministério de Educação, mas cada professor vai adequando-o
segundo o tempo” evidenciam a força da voz do MEN nas falas dos
professores, que em momento algum é questionada por eles, o que
podemos considerar como uma forma de legitimar a ideologia
tecnicista do currículo tradicional, que estabelece uma relação de
subordinação entre os “fazedores” de política curricular e os
professores, que devem aplicar suas definições.
A legitimação dessa ideologia nas falas dos professores ocorre de
forma racional, na medida em que eles aceitam como necessário o
desenvolvimento do currículo estabelecido pelo MEN. O problema
curricular estaria simplificado em definir diferentes formas de ensinar
aos estudantes conteúdos de Ciências preestabelecidos. A
legitimação racional da ideologia do currículo tradicional pode ser
identificada nos padrões curriculares incentivados pelo MEN
(Colômbia, 2004), os quais justificam ou persuadem os professores
a aceitar esses padrões como um mandato de lei que garante o
direito de todas as crianças e jovens a receber uma educação de
qualidade. No entanto, segundo Bustamante (2003), não está
demonstrado que a qualidade da educação melhore porque sejam
efetuados os ditos padrões. Trata-se de uma afirmação utilizada
ideologicamente para promover uma política educacional que acaba
sendo imposta pelo fato de que é necessária sua realização, porque
a lei 1 o estabelece dessa forma, mas pouco se diz sobre o fato de
que a política educacional também concede a autonomia para que
as instituições educativas (escolas, universidades) definam seu
projeto político-pedagógico e curricular.
Bustamante (ibidem) salienta também que, a partir da criação da Lei
Geral de Educação (Ley 115 de 1994), suas regulamentações têm
promovido a autonomia escolar como um aspecto sempre
dependente das normas técnicas produzidas pelo MEN, e quando
se reivindica o espírito da autonomia estabelecido na lei, em termos
de liderança política das instituições, isso é percebido como uma
forma de contestação que deve ser controlada.
A ideologia tecnicista do currículo tradicional ainda presente em
instituições educativas e materializada em práticas docentes pode
constituir uma dificuldade a ser enfrentada por professores e
pesquisadores interessados em desenvolver propostas curriculares
críticas que levem em consideração as questões ideológicas,
políticas e culturais do ensino. Precisamente, a perspectiva ciência,
tecnologia, sociedade e ambiente (CTSA) implica uma concepção
crítica do currículo de Ciências, ao considerar que a ciência e a tecnologia são construções humanas e históricas, as quais têm
relação com ideologias e interesses.
Nos primeiros encontros realizados com os professores na disciplina
Ensino de Ciências com Enfoque CTSA a Partir de QSC,
percebemos que o currículo tecnicista representava um desafio para
repensar a prática docente dos professores em termos da
abordagem de QSC. Dessa maneira, fomos identificando falas dos
professores que se movimentaram entre a linguagem da denúncia
sobre a reprodução de estruturas curriculares tradicionais e a
linguagem da possibilidade fundamentada pelo trabalho docente.
A linguagem da denúncia limita-se a estabelecer aspectos que
evidenciam a escola como um espaço de reprodução social e
cultural, ligando sua função social a ideologias e práticas de
dominação, sem dar maior importância às possibilidades que
oferece a cultura escolar para contestar essas ideologias e, dessa
forma, desencadear processos de reconstrução curricular, que
emergem das experiências docentes. A linguagem da possibilidade,
conforme Giroux (1997), resgata a linguagem da denúncia, mas a
transcende, no sentido de oferecer novas oportunidades para
pensar transformações curriculares e docentes.
Identificamos na fala do professor Lucas, Episódio 9, a dificuldade
que impõe o currículo tradicional para que se trabalhem aspectos de
Ciências voltados à cidadania, uma vez que os tempos e os
espaços são reduzidos para atender a conteúdos previamente
programados. Da mesma forma, no turno 20 desse episódio, o
professor Lucas denuncia a inexistência de espaços de participação
para desenvolver outras propostas de ensino. Por sua vez,
identificamos na fala da professora Roberta a possibilidade de
trabalhar a questão da cidadania por meio de espaços de
participação construídos com os estudantes. Assim, apreciamos
uma preocupação em superar os desígnios do currículo tradicional,
na medida em que todos os espaços sempre seriam possíveis
enquanto existisse vontade por parte do professor para fomentar a
participação.
Episódio 9 (GE ) 2
20. Lucas: Eu vejo um problema. Cada pessoa considera de
acordo com seu ponto de vista, cada pessoa tem uma visão
totalmente diferente do que se deseja formar como cidadão,
então é algo bastante complicado. Também depende do lugar
onde trabalhamos, porque não é igual trabalhar em ensino
fundamental e trabalhar na universidade, pois deveríamos levar
em consideração as diretrizes que nos regem, os espaços que
nos dão para trabalhar com eles [os estudantes]. É muito
complicado construir espaços. Em meu caso, ministro a
disciplina de Físico-Química aos estudantes de primeiro
semestre de Engenharia Industrial. É muito complicado, porque
o tema é bastante extenso para estudá-lo em seis meses, e é
bastante específico. Para trabalhar temas de Tecnologia e
Sociedade, o complicado é o espaço. O horário está muito
reduzido, e não posso dizer “encontramo-nos em tal hora para
trabalhar estes temas”. Então é bastante complicado, pois todos
os espaços são diferentes.
21. Roberta: Eu considero, de acordo com meu ponto de vista,
que todos os espaços são possíveis, se a abordagem da
questão que desejo trabalhar se faz com certo nível de
participação. Então a participação, aqui, é fundamental. Quando
sou capaz de perguntar para meus alunos, isto é, em geral: o
que poderíamos estudar e o que a universidade pensa que
deveríamos estudar? Assim eu consigo que os estudantes
façam parte de um trabalho e que a participação em um
contexto se desenvolva. [...] O trabalho do currículo a partir do
planejamento do currículo é a concretização do planejamento
com os estudantes, gerando espaços de cidadania participativa,
e isto tem relação com a forma como me posiciono diante da
versão de ciência que desejo ensinar e diante da posição de
cidadania que tenho [...].
Também identificamos a linguagem da denúncia na fala do professor
Ernesto, no Episódio 10, referida à falta de “vontade política” de professores e funcionários públicos de instituições governamentais
para desestabilizar a “estrutura de um currículo rígido”, que limitaria
o desenvolvimento da perspectiva CTSA com seus alunos, pois eles
encontrariam os mesmos obstáculos para apoiar processos de
inovação curricular. De forma diferenciada são colocadas as falas da
professora Simone e do PU, as quais resgatam a linguagem da
possibilidade em termos da transformação curricular que seria
possível alcançar a partir do “fazer pedagógico”, a participação na
elaboração de políticas educacionais, a articulação da perspectiva
CTSA às práticas docentes e a vinculação dos estudantes às
dinâmicas curriculares.
Episódio 10 (GE ) 2
63. Ernesto: [...] Diante do tema das relações entre CTSA, me
leva a pensar sobre a política multilateral. Vocês lembram que
há um documento da Unesco [United Nations Educational,
Scientific and Cultural Organization] no qual se propõe uma
orientação para melhorar a didática das Ciências da Natureza,
Química, Biologia etc. Se fala sobre interdisciplinaridade, o
pensamento complexo, os paradigmas. Sabemos que o
conceito de Educação Ambiental é um conceito de política de
Estado. Falar de Educação Ambiental implica limitar-nos a isso.
Preocupa-me isso, entendendo que há políticas internacionais
sobre o tema, entendendo que no âmbito nacional, desde o
Ministério do Meio Ambiente e do Ministério de Educação, há
escritórios responsáveis pela Educação Ambiental. [...] Mas
quero indicar que neste momento entendo a estratégia básica
de orientar a ação participativa, a liderança, os direitos etc. [...]
somos uns desses atores, dentro da vida educativa e formativa,
mas não somos os únicos, e me preocupa a falta de
participação ativa e organizada de todos os educadores para
trabalhar tais temas mundiais. Mas em que medida os
funcionários do Estado, as instituições que nós representamos
no âmbito educativo, quebram a estrutura de um currículo
rígido? [...] Desde que não exista vontade política dos diferentes
atores deste processo, vai ser mínimo o desenvolvimento social
e educativo deste país.
64. PU: Para dar continuidade à discussão, nós estamos de
acordo que o desafio é esse. Durante a disciplina temos falado
sobre a marginalização da perspectiva CTSA nos currículos.
Precisamente, falamos da impossibilidade que temos de
desenvolver propostas concretas para trabalhar esta
perspectiva diariamente. Então este é o desafio da disciplina:
que nós pudéssemos articular esta perspectiva em nossas
práticas, primeiro desde um ponto de vista pessoal, subjetivo e
formativo, mas também desde uma perspectiva coletiva e
social. Na medida em que pensemos nesses processos
formativos com os sujeitos que estamos trabalhando, eles
também vão entrar em um processo intersubjetivo e, portanto,
vão começar a trabalhar. Então este é o desafio. A pretensão
não é transformar totalmente a instituição, porque isso obedece
a outros tipos de dinâmicas sociais, mas a partir de nossa
profissão, com todas as limitações que possamos ter [...],
podemos possibilitar outros processos...
65. Simone: [...] Nós, a partir de nosso fazer pedagógico e com
todas as limitações que possuímos, até que ponto nós
podemos? Que política podemos fazer? É essa uma das
perguntas que queremos discutir, porque definitivamente nós
devemos fazer parte das políticas educacionais. [...] Primeiro, a
cidade está mudando constantemente. Segundo, nós fazemos
parte da sociedade, mas sob outra perspectiva. Então, quem
tem a perspectiva do que devemos procurar para ajudar no
ensino de Ciências? Então a pergunta é: até que ponto nós
fazemos parte dessas políticas e como fazemos para que os
estudantes possam interagir com esta dinâmica curricular?
A partir das análises realizadas sobre as falas dos professores
apresentadas nos episódios 9 e 10, salientamos a emergência da
linguagem da possibilidade como um elemento importante para a
construção de uma concepção crítica do currículo, a qual questiona o pessimismo e o imobilismo do professor que não visualiza
espaços para a necessária renovação de seu ensino.
Se compararmos as falas dos professores apresentadas nos
episódios 7 e 8 com as falas apresentadas nos episódios 9 e 10,
perceberemos um avanço na forma como os professores
representam o currículo de Ciências. De um lado o currículo é
percebido como instrumento de transmissão de conteúdos, e de
outro é entendido como uma construção social que envolve
dificuldades e possibilidades.
Esse avanço não representa necessariamente um abandono da
ideologia tecnicista do currículo tradicional, pois essa ideologia está
atrelada à dinâmica social e escolar, da qual participam os
professores. Mas o avanço representa um elemento importante na
formação continuada de professores de Ciências, porque mostra
que o currículo pode ser repensado e reconstruído, possibilitando,
dessa forma, o desenvolvimento de um discurso emancipatório, no
qual o poder não é simplesmente exercido por pessoas ou grupos
que procuram controlar outros indivíduos, mas entendido como um
processo discursivo por meio do qual se constitui um espaço de luta
hegemônica que desencadeia processos permanentes de
instabilidade do próprio exercício do poder.
Nesse sentido, o currículo pode ser entendido como um campo
cultural que abrange a produção de significações diversas
constituídas em determinadas relações de poder, de tal maneira que
o que interessa, conforme os teóricos críticos do currículo (Apple,
1999b; 2006; Giroux, 1997), é saber por que alguns conteúdos são
considerados como legítimos em detrimento de outros considerados
como ilegítimos. Assim, é questionada a visão tradicional de
currículo, que aprecia o conteúdo como algo acabado e verdadeiro.
Os autores também questionam a ideologia tecnicista do currículo
por limitar o ensino a metodologias eficazes.
A linguagem da possibilidade como um elemento fundamental da
formação de professores como intelectuais transformadores (Giroux,
1997) entrelaça-se com a pretensão da abordagem CTSA de formar para ação responsável, de tal forma que o ensino de Ciências
transcende o discurso da retórica e propende para o discurso da
ação refletida envolvido na abordagem de QSC, a qual oferece
grandes oportunidades para trabalhar em sala de aula polêmicas
sobre ciência e tecnologia na sociedade contemporânea.
1 O marco legal da educação colombiana tem como base a
Constitución Política de 1991 (Colômbia, 1991) e a Ley General de
Educación – Ley 115 de 1994 (idem, 1994).