Seu amigo esteve aqui

Cristina Chacel · Capítulo 8 de 26

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Seu amigo esteve aqui

Beto, por ele mesmo

 

NOS 98 DIAS EM QUE ESTEVE PRESO, Beto fortaleceu suas convicções e sua oposição ao regime instalado à

força da baioneta. Aos 25 anos, era um jovem cheio de sonhos e certezas. Tinha orgulho de ser quem era

e do lugar em que se encontrava – o da resistência à ditadura. Ali, naqueles dias intermináveis na

Colônia Penal Magalhães Pinto, em Neves, não se distraiu um só instante. Leu, estudou, escreveu. “A

história não se faz fugindo-se aos riscos”, rabiscou no pequeno caderno de espiral, com capa de

xadrezinho azul e branco e folhas pautadas, marca “Estudante”, que o acompanhou na cadeia e que sua

irmã Addi, a primogênita, guarda intacto até hoje.

Os dilemas estavam escancarados. Beto não tinha dúvida sobre de que lado estava. O mundo que lhe

interessava era o mundo dos estudantes, dos operários, dos camponeses, dos intelectuais, dos “homens de

bem que cultuam a liberdade”. Para ele, a vida era feita de lealdade e compromisso, de palavra dada e

cumprida. Era, sobretudo naquele instante de violência e arbítrio, feita de luta.

“Não nego minha responsabilidade e enfrentarei c/ as armas do povo os carcereiros do povo”,

escreveu Beto, em carta endereçada ao jornalista Edmundo Moniz, do Correio da Manhã, conhecido por

suas ideias de esquerda e pela militância trotskista. Na carta, ele conta o episódio de sua prisão:

No dia 26 de julho, às 1,30 horas da manhã, fui preso pela polícia mineira. Havia sido denunciado por um porteiro de um edifício como responsável pela colação de etiquetas alusivas à Revolução Cubana, não negando, em meu depoimento, minha responsabilidade, conforme pode ser constatado na cópia anexa. Meu crime: crime de opinião política, direito assegurado pela Constituição. Foi a maneira de fazer ouvir o meu protesto contra a agressão descabida ao povo de Cuba por imposição dos mentores da quartelada de 1º de abril. Estou preso na Colônia Penal de Neves há quase quarenta dias e ainda não fui ouvido pelas autoridades militares, à disposição e por ordem das quais me encontro. É quase impossível recuperar as aulas e provas perdidas.

 

Curiosamente, Beto apostava na possibilidade de o Correio da Manhã, que, dias antes do golpe,

publicara editoriais raivosos intitulados “Fora” e “Basta”, pedindo a deposição de João Goulart, assumir

sua defesa na Justiça Militar:

Por intermédio desse jornalista reivindico ao Correio da Manhã o patronato de minha causa. Não posso contratar um advogado para dar entrada no pedido de habeas corpus (anexo) e acompanhá-lo no STM. Espero que, em defesa das liberdades democráticas, esse órgão da imprensa aceite o apadrinhamento de minha causa e ingresse na JM c/ a minha petição.

Por fim, conclui, em sua defesa:

Jovem, sem maiores pretensões e sem rasgos de heroísmo, mas membro de uma juventude que não se cala nem se afina com as injustiças, nem encampa as arbitrariedades que a revolta, protestei, como podia, contra o que repugna a consciência da nossa juventude não comprometida com interesses dos monopólios e dos belicistas. Este o meu crime, o crime dos universitários, dos operários, dos camponeses, dos intelectuais, … dos homens e mulheres honestos deste país que cultuam a liberdade e são capazes de por ela lutar ….

 

O diário escrito na reclusão de Neves é, decerto, um dos poucos documentos encontrados em que Beto

discorre sobre si mesmo. Ali, ele rascunhou pensamentos, selecionou textos teóricos, registrou letras de

música, fichou livros. Ali, deixou um punhado de fragmentos que compõem um autorretrato eloquente do

estudante destemido, inequivocamente comprometido com a doutrina socialista. Um compromisso

atravessado pela poesia revolucionária do russo Eugênio Evtuchenko (“Tenho orgulho de não ser um

simples observador, mas de participar da luta heroica de meu povo pelo futuro”), pela ética do

“Berimbau”, de Vinicius de Moraes e Baden Powell (“O dinheiro de quem/ não dá,/ é o trabalho de quem/ não tem”), pela filosofia existencialista de Jean-Paul Sartre (“Se o judeu não existisse, o

antissemita o inventaria”) e pela dialética do desenvolvimento de Celso Furtado (“Não existe uma moral

dos intelectuais por cima de quaisquer escalas de valores, as quais estão necessariamente inseridas

nalgum contexto social”).

Beto se apropriou da crítica ácida de Otto Maria Carpeaux para desprezar uma imprensa corrupta que

“usa em vez de tinta, nas suas rotativas, o petróleo”; se alinhou a Nelson Werneck Sodré para condenar o

autoritarismo de Estado: “Inquéritos policiais não constituem ambiente adequado à fixação ou ao debate

de problemas de ciências e não firmam verdades, mas geram o medo.” Encontrou-se em Florestan

Fernandes: “A liberdade intelectual, a objetividade e o amor à verdade resumem os apanágios do

universitário e do homem de ciência autênticos.”

Resistente, não se deixou abater. Apoiou-se numa disciplina férrea, incomum nos jovens de sua idade,

para, diariamente, praticar sua inteligência. Na cadeia, escreveu uma longa carta endereçada ao então

reitor da UFMG, Aloisio Pimenta, protestando contra seu apoio público à extinção da UNE. Nela, ele

denuncia o terror cultural:

Afirmamos, com fatos à mão, a existência do terror cultural. Ele se materializa na perseguição aos líderes estudantis, na prisão de um mestre como Florestan Fernandes, a quem nos acostumamos a respeitar de longe e a admirar pela sua obra. Ou na sua demissão, juntamente com a de professores do quilate de Mário Schemberg, João Cruz Costa, João Villanova Artigas, Isaías Raw e Fernando Henrique Cardoso, homens que valorizam e orgulham qualquer universidade, desde que não esteja dominada pelo espírito medieval que procura lançar à fogueira quantos ousem debater problemas de ciência e pôr em dúvida verdades sem nenhuma correspondência com a realidade.

 

Na mesma carta, Beto protestava contra a prisão do antropólogo Marcos Magalhães Rubinger, seu

professor na UFMG:

Em Minas, esse estado de perseguição se faz sentir na prisão ilegal de dezenas de mestres, soltos, mas “afastados” de suas cadeiras, e na detenção, já há seis meses, do professor Marcos Magalhães Rubinger, acusado por militares e glorificado pelos alunos da Faculdade de Ciências Econômicas como o melhor professor do ano.

 

Preso, Beto sonhava com a liberdade. Mas não a queria apenas para si. Antes de mais nada, a queria

para as classes mais pobres do Brasil. Ali, atrás de grades, cercado de influências, escreveu

compulsivamente sobre a responsabilidade pungente de sua existência:

Nunca, como agora, a responsabilidade da juventude brasileira foi tão grande. E, em especial, dos universitários, que vinham se colocando na vanguarda da luta do nosso povo rumo à emancipação.

Ali buscou entender o processo histórico que vivia:

O golpe de 1º de abril veio obstar a revolução brasileira em franco processo de desenvolvimento. Os militares que assumiram o poder, com o beneplácito das classes dominantes apavoradas com a perspectiva caótica da ascensão popular, cometem os maiores desmandos e arbitrariedades, entregam o país de mãos atadas ao imperialismo americano, mentor e escora do golpe militar, numa tentativa suicida de impedir o avanço da nação rumo ao futuro e às transformações estruturais que tornem possíveis as soluções, na base, dos problemas que angustiam nosso povo e travam o desenvolvimento do país.

 

Nos três meses em que o regime procurou silenciá-lo, Beto não silenciou. “Orgulho-me de fazer parte

da resistência democrática da Nação. Silenciar é consentir, é desertar, é tornar-se conivente”, escreveu,

em seu diário, inspirado na célebre declaração de Miguel Unamuno, reitor da Universidade de

Salamanca, durante a Guerra Civil Espanhola, que rabiscou a lápis em seu diário: “Todos me conhecem e

sabem que sou incapaz de me calar. Há momento em que calar é mentir. Porque o silêncio pode ser

tomado por aquiescência.”

Por isso Beto gritou contra o arbítrio de sua prisão, reclamou o sagrado direito constitucional de

opinião, denunciou os primeiros rumores de tortura e espancamento nas cadeias brasileiras, sentiu raiva e

desprezo, e esperou:

Espero a liberdade. Mas esta esperança não pode e não deve ser confundida. Não a imploro. Imploraria, se pudesse, a liberdade para o meu povo. Mas esta não pode e não deve ser implorada. Tem que ser conquistada.

Quando deixou Neves, Beto já era um revolucionário.