Seu amigo esteve aqui
Um Beto e cinco Brenos
– Meu nome é Beto.
– Alberto ou Roberto?
– Beto. Beto mesmo.
Este é um diálogo de rotina para Beto Ferreira Martins Vasconcelos, filho de Gilberto Vasconcelos, o
Giba, companheiro de Breno na Polop, na Colina e na VAR. Mas apesar do trabalho que dá ter de
explicar que o apelido é seu nome de verdade, ele não reclama. Muito pelo contrário. Enche o peito de
ar, em sinal de orgulho. Seu nome é Beto em homenagem a Carlos Alberto Soares de Freitas.
– Nunca tive problema de ter um apelido como nome. De tanto explicar, pensei até em mudar meu
registro civil para “Beto Mesmo Ferreira Martins Vasconcelos” – comenta, bem-humorado.
Mineiro de Uberaba, formado em direito, aos 35 anos de idade esse jovem advogado circula no
primeiro escalão da República. É secretário executivo da Casa Civil da Presidência da República, uma
carreira que ele construiu com esforço próprio, sem a ajuda do pai, também advogado e amigo da
presidente Dilma Rousseff, e sem que ela própria soubesse quem ele era, embora por um bom tempo os
dois tenham trabalhado muito próximos. Ela, na época, no posto de ministra-chefe da Casa Civil e ele,
como subchefe de Assuntos Jurídicos da pasta. Dilma só soube muito tempo depois que Beto era filho de
Giba e que seu nome era uma homenagem ao amigo desaparecido. E, ao sabê-lo, decidiu confiar-lhe a
missão de coordenar o Grupo de Trabalho criado para transferir os arquivos da ditadura guardados na
Agência Brasileira de Inteligência, a Abin, para o Arquivo Nacional Regional, de Brasília.
– Você vai transferir tudo pra lá – comunicou-lhe a então ministra da Casa Civil.
– Mas como é que eu vou fazer isto? – indagou Beto.
– Você vai coordenar o Grupo de Trabalho.
– Em quanto tempo vamos fazer isto, ministra?
– Vinte dias! E… ó: honra teu nome, viu?
A advertência era desnecessária. Desde sempre ele sabe a força do nome que carrega:
– Meu pai sempre falou do Beto como um grande amigo, um irmão mais velho que lutou com ele num
período cruel e nefasto da história do país e que perdeu a vida nesse processo. A imagem que tenho na
cabeça é a de uma pessoa agradabilíssima, encantadora, de conversas longas e profundas, com reflexões
sobre várias coisas. Um homem bonito, charmoso, que não mudava a postura por causa disso. Pra mim,
esse nome é razão de um orgulho extremo!
Beto não exagera. A homenagem de Giba Vasconcelos ao companheiro desaparecido não parou no
primogênito. Ao segundo filho ele deu o nome de Breno. Breno Ferreira Martins Vasconcelos, 31 anos, é
mineiro de Uberaba e trabalha, também como advogado, em São Paulo. Como o irmão, ele sente “um
orgulho tremendo” por poder dizer que o Breno que homenageia foi um idealista que arriscou a própria
vida por um Brasil melhor:
– O Carlos Alberto pra mim não tem uma cara, só a emoção da relação que meu pai teve com ele, de
companheirismo, amizade, lealdade. A carga é gigantesca. Saber que o que você tem de mais valioso na
sua vida é o seu nome. E o que é o meu nome? Eu não segui um caminho político, mas muito do que meu pai e vocês todos passaram pra mim foi um certo inconformismo. Desde moleque eu fico inconformado
com a injustiça. Até por isso eu quis seguir o direito – comenta Breno Vasconcelos.
Beto e Breno Vasconcelos integram o time de filhos de militantes, todos, hoje, na casa dos trinta anos,
que carregam, no nome, a força de um afeto. Pela experiência fraterna de seus pais, evocam a história de
resistência, utopia e barbárie que marcou o período da ditadura militar no Brasil. Nesse time estão Breno
Brown, Breno Câmara e Breno Freitas. E estaria, também, Breno Gustavo Batista, filho de Ana e Jorge
Batista, militantes de Minas, se a tragédia não tivesse abatido a família numa curva da BR-050, próxima
ao trevo de Uberaba, no dia 24 de dezembro de 1986, véspera de Natal. No desastre de automóvel, Jorge
e Ana morreram na hora. Breno, então com onze anos, chegou consciente ao hospital, a tempo de dar
informações sobre parentes que podiam ser avisados do acidente, mas não resistiu. Em depoimento
gravado na cerimônia de batizado de Breno, Jorge Batista deixou para o filho um registro comovente
sobre as razões de seu nome, composto por dois codinomes de Carlos Alberto Soares de Freitas:
Eu preciso dizer uma coisa pro Breno, pra ficar guardada. O nome dele, de Breno Gustavo, foi escolhido pelo tanto de significado que ele tem pra nós. Breno Gustavo era exatamente o nome de um amigo fraternal meu, um cara com o qual eu vivi muitos momentos da minha vida, que se meteu dentro do mundo com uma sede de melhorar o mundo… E que há mais ou menos três anos atrás caiu preso neste país… Porque ele queria essencialmente a libertação do povo brasileiro, sobretudo das massas exploradas… E que, sendo preso, foi torturado até a morte. Então a gente entendeu que cabia fazer renascer esse companheiro dentro desse filho da gente. A vontade que a gente tem é que ele seja um amigo dos homens, um amigo da libertação do povo desta terra.
Como o mineiro Beto, que é Beto mesmo, Breno Nascimento Brown Leão, 33 anos, volta e meia é
obrigado a explicar seu nome. Filho de Rafton Nascimento Leão com a inglesa Maria Brown, ele nasceu
na Inglaterra, onde vive e trabalha – é executivo do mercado financeiro – e onde seu nome, além de
incomum, é difícil de pronunciar: B-R-E-N-O, ele soletra, com frequência, para entendimento de seus
interlocutores. Desde pequeno, ele soube que seu nome era uma homenagem a um amigo do pai, morto
pela ditadura. Mas foi aos dezoito anos, quando passava férias no Rio e ganhou de Rafton o livro O que é
isso, companheiro?, de Fernando Gabeira, que ele conheceu melhor a história do período:
– Tenho muito orgulho do meu nome. Mas a ligação maior é com a vida do meu pai, sua história. O
nome é mais uma forma de estar mais junto dele. Na Inglaterra é um nome diferente. Mas gosto disso, de
ser diferente – diz Breno Brown.
Filho dos militantes Olga D’Arc Pimentel e Claudio Câmara, que foi dirigente do comando nacional
da VAR, Breno Pimentel Câmara, 39 anos, é sociólogo, a profissão que Carlos Alberto Soares de Freitas
escolheu e não conseguiu exercer. Breno Câmara trabalha como coordenador-adjunto do Observatório de
Conflitos Urbanos do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR), da UFRJ. Ele
admite que a aura que cerca seu nome influenciou suas escolhas:
– Meu primeiro contato com a história do Breno foi ainda criança. Eu devia ter uns sete anos. O cartaz
com as fotos dos desaparecidos ficava pendurado na parede da casa dos meus pais. E Breno era um
deles. Fui tomando conta daquilo. Meus pais tentavam me explicar, mas conforme fui crescendo, fui
ressignificando. Tive um sentimento infantil de vingança.
Na vida adulta, Breno Câmara engrossa a luta política pelo direito à verdade. Tem a consciência de
que carrega o nome de uma pessoa brutalmente assassinada, por quem os pais tinham profunda
admiração, pela bravura e coragem. Quer ver contada a história de Breno e de seus pais. A ele faz coro
Breno de Santa Cruz Freitas, 39 anos, filho de Marcia Santa Cruz e José Eudes de Freitas, sobrinho de
Rosalina Santa Cruz e de Fernando Santa Cruz, este último também um desaparecido político.
– Minha tia Rosa foi quem insistiu para meu nome ser Breno, em homenagem ao Carlos Alberto. E
meu sobrenome é Freitas, como o dele. Impossível não acompanhar sua história. É também a história da
minha família. Da minha avó, que lutou a vida inteira para encontrar meu tio Fernando. Hoje ela tem
noventa anos. Ainda não achou.
* * *
A noite do Réveillon de 1971 para 1972 foi de uma tristeza funda para a militante mineira Vera Lígia
Saavedra Durão. Há um ano presa em uma solitária da Penitenciária Estêvão Pinto, em Belo Horizonte,
Vera lembrou-se de Beto. Com lápis e papel contrabandeados para a cela, fez para ele o seu lamento.
In memoriam
Por que se foi assim,
Sem despedida
Sem bom-dia
boa-tarde,
boa-noite,
adeus…
Dos lábios cerrados jorrou sangue,
Adubo cruel do novo.
Corpo vigoroso se estiolou de repente.
Grito que ninguém ouviu,
Agonia que ninguém viu, ninguém contou.
Morte sorrateira, violenta,
Silêncio de boca tapada.
Se perdeu, ou engolido foi?
Ainda te procuram, BETO…
* * *
Quase quinze anos passados de seu desaparecimento, Carlos Alberto Soares de Freitas permanecia vivo
na lembrança de companheiros como Regis Gonçalves, amigo de faculdade e de militância. No Carnaval
de 1985, quando o Brasil negociava a volta à democracia na conciliação política que ficou conhecida
como Nova República, e que tinha o mineiro Tancredo Neves como o presidente nomeado do país, Regis
escreveu este poema-panfleto, criticando o acordo. Nele, menciona Beto e outros dois companheiros
mortos por agentes da repressão. Pretendia distribuí-lo nas ruas de Belo Horizonte no dia da posse que,
afinal, não aconteceu. Com Tancredo morto, Regis amargou o encalhe dos panfletos.
Enredo para uma Nova República
Dentro do banheiro escuto ainda
o papagaio insistir: “Tancredo já”
e tento dar um jeito
nos restos da minha ressaca cívica.
Ao olhar pela janela deste décimo
concluo que preciso mesmo de água fria.
Na rua a enxurrada arrasta papéis
pecados, lavando a alma
e as esperanças dessa suada
trancredance.
O país real a gente vê
pela TV
levar sua dose
de videocassetada: rock
in Rio, inundação em Belô
o pau comendo em Guariba
e a folia colegial de Brasília
sem nenhum boia-fria.
Assim a Nova República pede passagem
saudada por um coro
de pastorinhas e metaleiros
num movimento que ameaça implodir
a barriga da velha mãe
autoritária.
Não foi a violência, ainda uma vez,
a parteira dessa História
que meu papagaio não entendeu?
Para esses vinte anos de gestação
com seu cortejo de silêncio
e sombras, peço um flashback.
Quero saber onde andam Beto, Zé Júlio,
Juarez e todos os filhos prematuros
de outras repúblicas abortadas.
“Cordiais saudações”
ensaia malandramente o louro
e era outro o refrão meses atrás.
Constituinte, Diretas
esse molho picante será capaz
de temperar o pacto social?
No entanto, navegar é preciso
com esperança, a mais antiga
profissão de brasileiro.
E o papagaio
Talvez aprenda agora o refrão
que vamos cantar
verdeamarelando de novo
a Praça dos Poderes do Povo.
* * *
Em 1985, quinze ruas e duas praças do Recreio dos Bandeirantes ganharam nomes de militantes mortos
pela repressão no regime militar, em decreto assinado por Marcello Alencar, então prefeito do Rio de
Janeiro. Entre os homenageados está Carlos Alberto Soares de Freitas.
Em 1993, o vereador Betinho Duarte, da Câmara Municipal de Belo Horizonte, aprovou projeto de lei
que dá a logradouros públicos da cidade o nome de conterrâneos de Minas que tombaram na luta contra a
ditadura. A antiga rua Dezesseis, do bairro Itapoã, passa a se chamar rua Carlos Alberto de Freitas.
Em 1995, o Estado brasileiro reconhece e assume a responsabilidade pelo desaparecimento de
militantes políticos durante o regime militar. O nome de Carlos Alberto Soares de Freitas consta no
Anexo I da Lei n.9.140/95, a lista oficial. A partir desse reconhecimento, a família entrou com pedido de
reparação financeira da anistia e recebeu, dez anos depois, o ressarcimento pecuniário, em parcela única,
de 96 mil reais.