Seu amigo esteve aqui
Rodas juvenis
NA VIRADA DOS ANOS 1950 para 1960, Belo Horizonte era uma cidade de 400 mil habitantes que
transpirava política por cantos e poros. Embalada na euforia do governo Juscelino Kubitschek – um
presidente de Minas –, dividia com o Rio de Janeiro as glórias do poder. Berço do desenvolvimentismo,
Belo Horizonte também exportava, para todo o país, inteligência e arte. Uma geração de mineiros
brilhantes – Joaquim Cardoso, Rodrigo Melo Franco de Andrade, Carlos Drummond de Andrade,
Fernando Sabino, Hélio Pellegrino – afirmava um Brasil progressista, nacional, moderno. E o que era
Brasília, afinal, senão um triunfo de Minas?
Foi nesta Belo Horizonte em evidência no cenário nacional que Beto chegou em 1956. Novamente
reunida, a família vai morar num apartamento de três quartos e sala na rua Espírito Santo, no Centro da
cidade, onde Jayme e Alice viveriam até morrer, na esperança de ver o filho perseguido pelo regime
militar voltar, para dormir em seu quarto – mantido intocado, altar sagrado de sua memória. Mas essa é
uma história para depois.
Naqueles anos de 1950, Beto volta à cidade natal e logo encontra sua turma. Uma turma de rua,
estudantes secundaristas entre quinze e dezoito anos, a maioria de escola pública – a principal delas o
Colégio Estadual Central, um caldeirão de agitação estudantil. Moravam no mesmo bairro, a curta
distância uns dos outros. Jovens de classe média, tinham poder aquisitivo semelhante, com pequenas
variações. Uns podiam mais, outros menos, mas nada que os impedisse de andar sempre juntos, ir aos
mesmos lugares. O jornalista Cláudio Galeno de Magalhães Linhares traça a geografia daquela amizade:
– Nosso point era a esquina da rua Tupis com a Rio de Janeiro. Na Tupis, morava o Guido Rocha e,
um pouco mais abaixo, a Inês Etienne Romeu. Na Rio de Janeiro, morava a Maria do Carmo Brito. E o
Beto morava na Espírito Santo, também ali.
Eram tempos ingênuos, ainda. Tempos de esquina e barzinho, dos animados bailes de orquestra no
Sindicato dos Bancários, onde os rapazes iam paquerar as meninas e investiam em pequenos avanços,
dançando de rosto colado. Beto dançava muito bem e fazia sucesso com as moças. Estas, por sua vez,
sofriam com o moralismo de uma cidade altamente conservadora. Eram educadas para casar – virgens,
obviamente. Vestido sem manga era proibido, o que tornava o bolerinho um acessório corrente. Na
Sibéria, a butique mais bacana da capital (onde Vânia Bambirra tinha crediário), havia uns modelos
lindos, de organdi. Até mesmo o banho de piscina era vigiado. Maiô duas-peças, nem pensar!
– Uma vez, eu quis ir a uma excursão a Água Limpa, um balneário pertinho de Belo Horizonte. Aí,
pedi emprestado um maiô duas-peças. Quando minha mãe me viu, me deu uma surra, que era pra eu nunca
mais esquecer. Ô! A família mineira, se soubesse que a menina não era virgem, Nossa Senhora! A nossa
geração rompeu com isso – conta Vânia.
Nesse ambiente de controle e repressão, a casa de Angelina Dutra de Oliveira era o céu na terra. Mãe
de Maria do Carmo, Walkiria e Lótus, Angelina era uma mulher fora dos padrões da época. Ferroviária,
militava no Movimento de Mulheres. Cultuada pela juventude e criticada pela tradicional família
mineira, ela era também uma mãe diferente. As meninas, adolescentes, recebiam uma educação liberal e a
casa vivia cheia de amigos. Beto, colega de Maria do Carmo, quase todo dia almoçava na casa de dona Angelina. E quando, por alguma razão, não podia chegar a tempo do horário marcado para as refeições,
avisava a empregada: “Isabel, guarda o meu prato que eu vou chegar mais tarde.”
– Beto era um encanto, uma alegria! Estava sempre conosco, conversando, batendo papo, fazendo
piada. Ele gostava muito de gemada! Eu ficava batendo ovo e depois botava um vinho em cima, vinho do
Porto. Era chique – relembra, com saudade, dona Angelina, vozinha baixa, já nos seus 87 anos.
O apartamento da rua Rio de Janeiro era amplo e a sala tinha uma cortina no meio, que separava os
ambientes de estar e de jantar. Perfeito para uma farra.
– A Inês e o Beto usavam a sala de palco, pra fazer graça. A gente ria muito com eles. A casa da
mamãe era o único lugar em que se podia colocar o pé no sofá, dançar, tudo era permitido, com ela ali
tomando conta – revela Maria do Carmo.
Quando a situação política já estava mais do que pesada, em 1970, e Maria do Carmo, a Lia da
Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), foi banida do país junto com outros companheiros, em troca
da libertação do embaixador alemão sequestrado pela organização do capitão Carlos Lamarca, Angelina
foi ter com ela, na Argélia.
– Quem entregou o passaporte pra eu sair do Brasil foi o Beto. Ele falou: “Vai embora, a senhora não
fica aqui não. Deixa isso pra nós” – lembra Angelina.
– Mamãe, quem te entregou o documento foi Inês! O Beto estava na VAR. Nem tinha mais contato com
a gente – corrige Maria do Carmo.
– Maria, a Inês pode ter encomendado o documento, mas quem me entregou foi o Beto. Eu me lembro
de abrir a porta, me lembro do Beto me entregando o documento e falando: “Vai embora.” Eu me lembro
perfeitamente – responde, com firmeza, dona Angelina.
Quem há de contestar tão inabalável senhora?
AOS 21 ANOS, quando entra para a Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas
Gerais (UFMG), onde vai estudar sociologia e política, Beto já é homem-feito. Porte atlético nos seus um
metro e oitenta centímetros de altura e dono de um estonteante par de olhos verdes, arranca suspiros das
garotas ao passar. Inteligente, bem-humorado, gosta de andar bem-vestido, chama a atenção por isso. É
um tipo amável, fácil de lidar, que se adapta rapidamente aos novos ambientes. Em pouco tempo, torna-se
popular. Todo mundo o conhece na UFMG, a primeira escala de uma trajetória revolucionária que o
levaria, em dez anos, à condição de desaparecido político da ditadura militar brasileira.
– O Beto era uma pessoa que se destacava muito, de personalidade. Quando tinha greve operária, a
gente ia lá pra praça Sete. O Beto agitava. Subia no caixote. Literalmente: orador de caixote. Ele era
muito bom nisso. Muito bom agitador e com carisma próprio. Todo mundo gostava dele – resume o
sociólogo Regis Antonio Duarte Gonçalves, amigo de faculdade.
O ano era 1961 e o Brasil encontrava-se em ebulição. O paulista Jânio Quadros, eleito presidente da
República com um discurso anticorrupção, ao som do jingle “Varre, varre, vassourinha”, não esquentou a
cadeira. Renunciou meses depois de empossado, alegando pressões de “forças ocultas”, não sem antes
escandalizar os setores conservadores do país por condecorar Ernesto Che Guevara, herói de Cuba, com
a Ordem do Cruzeiro do Sul, então a principal honraria do governo brasileiro. Seu vice e sucessor de
direito, o gaúcho João Goulart, do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), que se encontrava em viagem ao
exterior, por pouco não assumiu o cargo. Foi preciso que o governador do Rio Grande do Sul, Leonel
Brizola, conterrâneo e correligionário, denunciasse os rumores de golpe e liderasse, com outros cinco
governadores, a Cadeia da Legalidade, garantindo, assim, a posse de Jango.
Herdeiro político de Getulio Vargas, Jango costurou alianças com sindicatos, trabalhadores rurais e
estudantes em torno das chamadas Reformas de Base, propostas pelo economista Celso Furtado. Mas governava na corda bamba, primeiro sob o regime parlamentarista, dividindo poder com o primeiro-
ministro, Tancredo Neves, e, depois, com um presidencialismo minado por uma taxa anual de inflação
que caminhava para os cinquenta por cento.
Do outro lado do mundo, fortes ventos de independência sopravam, com a ascensão do comunista Ho
Chi Minh, líder de um Vietnã vitorioso que humilhara os franceses na Guerra da Indochina e desafiava os
Estados Unidos de John Kennedy, em defesa da reunificação de seu país. Na América Latina, a palavra
“integração” evocava resistência e liberdade. Cuba era a inspiração e Che Guevara, o exemplo a seguir.
É nessa fonte que Beto vai banhar sua utopia. Em Minas, a UFMG era o reduto de ideólogos e de
organizações que nasciam no terreno adubado pela Revolução Cubana. Ali ele conheceu e conviveu com
um grupo importante para a sua formação: Theotonio dos Santos, Simon Schwartzman, Guido Rocha,
Juarez Guimarães Brito e Vinícius Caldeira Brant estavam entre os bolsistas da “chocadeira de gênios”,
como eram chamados os alunos brilhantes que recebiam apoio financeiro do governo para estudar,
privilégio de poucos.
Entre os grupos políticos que emergiram no campus, a Organização Revolucionária Marxista –
Política Operária (ORM-Polop) era a trincheira de intelectuais críticos à cartilha reformista do Partido
Comunista Brasileiro (PCB), o Partidão, que propunham a fundação de um Brasil socialista com a
radicalização do movimento de massas. Formada sobretudo por estudantes e professores articulados ao
movimento operário e à luta dos trabalhadores rurais, a Polop apresentava-se como uma organização
marxista-leninista, de vanguarda, clandestina, estabelecida em células, com poucos quadros. Beto será
um deles.
Tratava-se de uma elite política. Para serem admitidos na Polop, Beto, Vânia Bambirra, Élvio
Moreira e Regis Gonçalves precisaram, primeiro, passar por um cursinho básico sobre Marx, Lenin,
Trotsky, Rosa Luxemburgo. Recebiam de duas a três horas de aulas diárias de preparação política e as
reuniões aconteciam na sede do Partido Socialista Brasileiro (PSB).
Essa rígida formação teórica era o que diferenciava a Polop das outras organizações de esquerda da
época, como o próprio PCB e as juventudes católicas – a Juventude Estudantil Católica (JEC) e a
Juventude Universitária Católica (JUC) –, que logo formariam a AP. Militante da Polop estudava sempre.
Beto, embora gostasse de estudar, não se encaixava exatamente nesse perfil. O negócio dele eram as
ações práticas do movimento estudantil e das greves de trabalhadores. Na faculdade, ele disputava o
Diretório Acadêmico, agitava a agenda cultural, recrutava novos simpatizantes para a organização. Era
um cara da linha de frente. Não por acaso, quando a Polop foi convidada a enviar dois delegados à
Conferencia de Los Pueblos, que se realizaria em Havana, Cuba, em janeiro de 1962, Beto foi
imediatamente indicado pelos companheiros. Com ele, irá o amigo Élvio Moreira, da Veterinária da
UFMG.