Seu amigo esteve aqui
Viva Cuba!
A VIAGEM NO TURBO-HÉLICE da Viação Aero Cubana, que decolou do aeroporto Galeão, na Guanabara, já
valia como aventura. Era a primeira vez que Beto e Élvio Moreira andavam de avião. Depois de uma
escala técnica em Trinidad Tobago, os dois jovens de 22 anos desembarcam no aeroporto José Martí
como delegados da Polop de Minas Gerais para a Conferencia de Los Pueblos, que se realizaria entre 23
e 26 de janeiro, em Havana.
Encontram a cidade em festa. Era o mês do terceiro aniversário da Revolução Cubana. Recebidos com
honras de delegados oficiais, Beto e Élvio ficam hospedados em um apartamento amplo e confortável do
La Habana Riviera, hotel de luxo, no Malecón, à beira-mar. Beto fotografa tudo, com a câmera Rolleiflex
emprestada de um tio. Ele e Élvio estão deslumbrados:
– Beto, olha como é que esses americanos cretinos viviam aqui em Cuba! Só hotel cinco estrelas! –
comentava Élvio.
Ambos têm a exata noção do momento histórico que estão vivendo. A Conferencia de los Pueblos é
uma reunião política em que se discutirá a estratégia para tomar o poder na América Latina.
Representantes de partidos comunistas do mundo inteiro estão participando. Do Brasil, além da Polop, há
delegados da Juventude Católica e do Partido Comunista do Brasil (PCdoB).
Em menos de um ano de existência, a Polop já tinha reconhecimento internacional. Incomodava pela
qualidade de seus textos e de seus militantes, os chamados quadros políticos, e já se infiltrara em
sindicatos ativos do Rio de Janeiro e de Belo Horizonte. Na mala, os dois rapazes levam um documento
singelo de solidariedade e apoio integral à Revolução Cubana e às teses de Fidel de “hacer una Sierra
Maestra en todos los Andes”.
– Esse era o nosso sonho. A Sierra Maestra na América Latina – afirma, quase cinquenta anos depois,
Élvio Moreira.
Após a conferência, Beto e Élvio ficam em Cuba para assistir à Segunda Declaración de La Habana.
Mais de 1,5 milhão de pessoas ocupam a plaza José Martí para ouvir o comandante Fidel Castro
anunciar: “Junto a la imagén y recuerdo de José Martí desde Cuba, territorio libre de los pueblos, en
mi nombre y en nombre de todos los pueblos oprimidos del mundo, hago la seguiente declaración …”
Em meio à multidão, Élvio e Beto ficam arrepiados.
Encerrados os festejos, eles percorrem o interior da ilha, visitando, ao longo de um mês, as
haciendas, ajudando os camponeses nas plantações de cana. Beto e Élvio têm fome de saber. Crivam os
cubanos de perguntas. Como eles resistiam à pressão americana? Como sobreviver só com a monocultura
da cana? Como montaram os Comitês de Defesa da Revolução? E a organização por bairros? E a reforma
agrária? Anotam tudo. Estão impressionados com a participação da população em todas as obras da
revolução. Ao perguntar a um cubano se havia alguém em Cuba que não gostasse de Fidel, Élvio recebeu
como resposta:
– Nosotros los cubanos somos como las carrapatas de los caballos, Fidel és nuestro caballo.
Mas foi a campanha de alfabetização o que mais emocionou os dois rapazes. Como, em tão pouco
tempo, um país de analfabetos havia conseguido se alfabetizar? As escolas, muito bem-cuidadas, limpíssimas! Todas com professoras bem-arrumadas, os meninos de uniforme, cantando “La hora de los
pobres va llegar, yá se acabaron los privilegios, ahora los pobres van al colegio …”.
– A gente vai alfabetizar o Brasil inteiro! Nós vamos botar os meninos pobres todos no colégio. Daqui
a pouco os brasileiros vão cantar como os cubanos – sonhava Beto, já a caminho do Brasil, no mesmo
avião em que viajava um senador do Chile que também havia ido a Cuba participar da Segunda
Declaración de La Habana. Seu nome: Salvador Allende.
A FOTO AO LADO DE FIDEL CASTRO foi para o porta-retratos e era exibida pelos pais com mais orgulho
que temor. Jayme e Alice admiravam o senso de justiça do filho, a convicção com que ele defendia o
direito dos pobres por uma vida digna, por educação e por terra para trabalhar. Beto voltara da
temporada em Cuba ainda mais entusiasmado com o socialismo. Os cubanos eram um povo alegre,
solidário, hospitaleiro, muito parecido com os brasileiros. E, como Cuba, o Brasil também tinha
trabalhadores rurais subjugados na cana-de-açúcar, na pecuária e no café.
De volta a Belo Horizonte, Beto pega o caminho da roça. O PSB reunia entre suas lideranças ninguém
menos que o deputado federal Francisco Julião, de Pernambuco, defensor da luta dos camponeses pelo
direito à assistência médica e jurídica, à educação e, sobretudo, pelo direito à terra para cultivar. Julião
tivera papel central no enfrentamento dos trabalhadores da cana com os senhores de engenho. Fora
diretamente responsável pelo surgimento das Ligas Camponesas ao ajudar a criar a Sociedade Agrícola e
Pecuária de Plantadores de Pernambuco, no engenho Galileia, em Vitória de Santo Antão, Zona da Mata.
Dali, o movimento se espalhara pelo país: Paraíba, Rio Grande do Norte, Bahia, Mato Grosso, Goiás,
Acre. Só naquele último ano, entre 1960 e 1961, as Ligas haviam estruturado comitês regionais em dez
estados da Federação.
O filho de Jayme e Alice, estudante de sociologia, fora conquistado para aquela luta. Impressionava-o
que os lavradores não tivessem direito sequer a um enterro digno, que a eles fosse reservada a cova rasa
da indigência. Agora, porém, a situação começava a mudar. E ele, que estivera nas haciendas de Cuba,
sabia que a luta era justa e a libertação, uma questão de tempo. Pouco tempo. Na UFMG, era grande a
agitação. Abrigada no PTB e no PSB, a Polop desembarca em São Gonçalo do Abaeté, cidade mineira
do médio São Francisco, onde se concluíam as obras da usina hidrelétrica de Três Marias e um pequeno
grupo de posseiros disputava uma beira de rio.
Em Minas, um jovem advogado trabalhista destacava-se na banca de defesa do sonho camponês.
Nascido em Sete Lagoas, Antonio Ribeiro Romanelli já gozava de certo renome na praça de Belo
Horizonte quando dois camponeses entraram em seu escritório. Randolfo e Raimundo vinham por
indicação do PCB. Estavam ali em nome de catorze famílias assentadas às margens do São Francisco, na
altura de Três Marias, expulsas da terra pelo fazendeiro da região, que atendia pela alcunha de Neném da
Peleca. Pediam ajuda. Não entendiam por que estavam sendo expulsos de uma beira de rio onde não tinha
nada, só cobra.
Assertivo, Romanelli se interessou pelo caso, pesquisou e logo descobriu que, em rios navegáveis,
como o Velho Chico, a faixa de 33 metros de terra das margens, a contar da maior enchente horizontal,
pertence à Marinha. Ponto para os assentados.
– Entrei na Justiça – conta Romanelli. – Perdi na primeira instância, na comarca de Abaeté, terra do
Neném da Peleca. Mas no recurso o tribunal nos deu a reintegração de posse dessas catorze famílias.
Sob a proteção da polícia e debaixo de uma tensão surda, o advogado vai ao assentamento. Quando
chegam ao terreno em disputa, encontram o caminho livre. Na área, apenas um camponês solitário,
plantando milho. O mandado judicial acabou sendo cumprido pacificamente. E uma vez vencida a batalha
jurídica, a Polop entra em campo. No time, Chaim Samuel Katz, Juarez Brito, Vânia Bambirra, Maria do Carmo, Beto e Guido Rocha. Apaixonados pela causa, Beto e Guido se mudam para o acampamento.
Problemas sobravam. O mais urgente: a falta de escola para os filhos dos camponeses. O grupo
escolar mais próximo ficava a seis quilômetros de uma caminhada penosa para aquelas crianças
descalças. O jeito era construir uma escola lá mesmo, em regime de mutirão, proposta aprovada com
alegria pelas famílias. Beto e Guido botaram a mão na massa. Em Belo Horizonte, os advogados
buscaram uma professora para dar as aulas. Acionado pela Polop, o Sindicato dos Marceneiros recrutou
mão de obra para, nas horas vagas, fabricar o quadro-negro e as carteiras escolares.
– Era um momento comprometido com a realidade social. Era a luta pelas reformas de base. Começou
com Jânio, ele renunciou, assumiu o João Goulart – lembra Vânia Bambirra.
– Viajava para as Ligas a cada quinze dias, ensinando, junto com o Romanelli – completa Chaim Katz.
Todos concordavam, porém, que, para assegurar o assentamento no local, era preciso criar uma
organização que protegesse a ação dos camponeses. Mas organizá-los dentro da legalidade não era coisa
fácil. Os sindicatos rurais estavam proibidos. Só os urbanos eram legais. Os lavradores não podiam se
organizar sob qualquer ordem jurídica, embora seus patrões, fazendeiros, se fizessem representar nas
federações de agricultura. A brecha legal foi encontrada no Código Civil, que admitia a criação de
qualquer tipo de associação civil. Foi fundada, assim, a Associação dos Lavradores de Três Marias.
Esse nome durou pouco tempo. Com a assessoria direta de Francisco Julião, a entidade logo passou a
se chamar Ligas Camponesas de Minas Gerais, e Romanelli foi eleito seu presidente. Na faixa de terra
conquistada, as catorze famílias mantinham uma agricultura de subsistência. O excedente era vendido em
Três Marias. A usina já estava pronta e havia muito operário lá. Era um mercado relativamente bom para
as verduras, a mandioca, o milho, a abóbora, e muito melão e melancia, frutas típicas da beira do São
Francisco. Na lida, Beto era só entusiasmo:
– Vamos melhorar esse Brasil! Nós vamos fazer a reforma agrária! Vamos tirar esse Brasil do atraso!
Após a renúncia de Jânio Quadros, João Goulart, o novo presidente da República, legaliza os
sindicatos rurais. Os advogados então não perdem tempo. Com assistência federal, todas as Ligas de
Minas tornam-se sindicatos rurais, um trabalho articulado nacionalmente. Não por acaso, Belo Horizonte
é a cidade escolhida para sediar a primeira grande reunião nacional do movimento camponês, que contou
com a presença do próprio Jango, do deputado Almino Afonso, líder do governo no Congresso, de
Francisco Julião e de milhares de camponeses, vindos de todas as partes do Brasil.
Estava lançada a pedra fundamental do Movimento Nacional da Reforma Agrária. Porém, à proporção
que os trabalhadores rurais conquistavam mais direitos trabalhistas, mais ódio despertavam nos senhores
de terra. E esse ódio não tardaria a mudar o rumo da história.