Seu amigo esteve aqui
Nada será como antes
Num domingo qualquer, qualquer hora
Ventania em qualquer direção
Sei que nada será como antes amanhã
Que notícias me dão dos amigos?
Que notícias me dão de você?
Sei que nada será como está
Amanhã ou depois de amanhã
Resistindo na boca da noite um gosto de sol
“Nada será como antes”, MILTON NASCIMENTO E RONALDO BASTOS
COM O TRIUNFO DO GOLPE MILITAR, desmorona o longo, paciente e solidário trabalho de organização das
Ligas Camponesas, liderado em Minas pelo advogado Romanelli com o apoio da Polop. A liga criada a
partir de Três Marias é desmantelada e a implantação, por decisão do presidente João Goulart, de uma
agência nacional de assistência jurídica para camponeses, abortada.
O golpe vai encontrar o núcleo duro da Polop de Minas geograficamente disperso. Teothonio dos
Santos e Vânia Bambirra estão em Brasília, trabalhando com Darcy Ribeiro na recém-criada
Universidade de Brasília (UnB). Depois de uma escala em Goiás, em 1963, Juarez e Maria do Carmo
Brito, agora casados, haviam se instalado em Recife, onde ele conseguira um emprego na
Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) e ela assumira a missão de organizar a
Polop na região. Quem ficou em Belo Horizonte teve de se esconder.
– O Beto, o Romanelli e eu ficamos nove dias escondidos num apartamento pertinho do CPOR –
recorda Élvio Moreira, referindo-se ao Centro de Preparação de Oficiais de Reserva.
O refúgio era um conjugado no bairro da Barroca, que pertencia a Chaim Katz, então um jovem
comerciante, casado, pai de três filhos, vida arrumada. É ele quem conta:
– Eu tinha acabado de construir esse edifício e fiquei com dois apartamentos: o meu, para onde eu ia
me mudar, e um outro, de fundos. Muita gente acabou ficando lá. E a minha mulher, que não tinha nada
com essa história, nem militância, nem aderência, cozinhava pra todo mundo. A gente só procurava não
chamar a atenção, porque éramos muitos, umas oito pessoas, eu acho, ali, fechadas, durante três semanas.
Quem fazia a ligação da gente com o que acontecia lá fora era a Lótus, que trazia papéis mimeografados e
a gente, à noite, distribuía.
Lótus, porém, era visadíssima. Meses antes do golpe, em janeiro de 1964, durante um comício de
Leonel Brizola em Belo Horizonte, o pau quebrou. Pedras voaram por todos os lados e uma delas acabou
atingindo a caçula das irmãs Dutra de Oliveira. No dia seguinte, a foto de Lótus, se esvaindo em sangue,
apareceu na capa dos principais jornais da cidade, com a legenda: “Uma linda moça com palavreado de
baixo calão.” Coincidentemente, a “linda moça” era filha de uma líder sindical atuante, uma das
organizadoras do comício de Brizola que acabara em pé de guerra. Semanas após o golpe, o clã Dutra de Oliveira sentiu o tranco. Lembra Maria do Carmo:
– Eu estava em Recife quando chegou a notícia de que o pessoal da extrema direita, os integralistas,
estavam planejando pegar a Lótus.
Foi Beto quem recebeu a ameaça, na porta de casa: “Você conhece uma moça chamada Lótus? Pois a
turma do Magalhães Pinto vai currá-la.” Beto correu à casa de dona Angelina e avisou:
– Nós temos que tirar a Lótus daqui agora.
Lótus saiu com a roupa do corpo, direto para a rodoviária, onde tomou o primeiro ônibus para o Rio
de Janeiro, cidade que, pouco mais tarde, acabaria sendo o destino de todos eles.
– Aqueles que tinham algum compromisso maior deixaram Belo Horizonte – lembra Regis Gonçalves.
Não sem razão. Se já era implacável na crítica às reformas de João Goulart, tido pela Polop como um
presidente moderado, a seus militantes só restou um caminho depois do golpe militar: organizar a
resistência. Não havia escolha. É o que observa Theotonio dos Santos:
– Desde 1961, quando houve o primeiro golpe para impedir a entrada do João Goulart, nós tivemos
que nos ocultar e já começamos a montar um esquema de segurança para os nossos militantes. Tínhamos a
ideia de que posteriormente viria o golpe.
Cláudio Galeno foi um dos que partiram para o Rio logo após o 31 de Março. Na bagagem, levou uma
mensagem do dirigente da Polop em Minas, Arnaldo Mourthé, para Eric Sachs, então o principal teórico
e dirigente máximo da Polop. Quando se encontraram, já no Rio, Sachs avisou a Galeno:
– Nós precisamos de quadros para ajudar o movimento dos marinheiros e dos sargentos. Está uma
dispersão enorme. A Marinha está colocando todo mundo na rua, no Exército o pessoal está solto, nós
precisamos organizar essa gente. Você vem para cá, com mais uns cinco ou seis.
Recém-saído do serviço militar obrigatório, o jovem jornalista trazia na memória a estratégia de
organização do Grupo dos Onze, experimentada durante a Cadeia da Legalidade, que garantira em 1961 a
posse de João Goulart e pela qual cada quartel reuniria células de onze combatentes, até a formação de
um grande exército. A Polop, agora, tinha especial interesse nessa experiência. Mirava-se nela para
organizar a resistência ao golpe. Inspirada no Grupo dos Onze, decidiu instalar os militantes de Minas
que se deslocavam para o Rio de Janeiro em nove apartamentos clandestinos, os chamados aparelhos, no
bairro de Copacabana. O episódio ficou conhecido como Guerrilha de Copacabana. Quem conta é
Galeno:
– No Rio, eu monto uma estrutura mínima e começa a vir gente. Veio a Maria do Carmo, o Juarez e o
Guido Rocha, todos de Minas, que tinham passado por Goiás. A situação do Arnaldo Mourthé, em Belo
Horizonte, também se agravou e ele veio pro Rio. O Dirceu Mourthé, irmão do Arnaldo, que era prefeito
de Curvelo, também tinha que se deslocar, por questão de segurança. Então nós montamos uma estrutura
de acolhimento dessas pessoas, dos marinheiros da Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do
Brasil e dos sargentos do Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), de inspiração brizolista,
responsáveis pelas primeiras manifestações de rebeldia dentro do Exército, em apoio às reformas de
base e ao governo João Goulart.
Por determinação da direção nacional da Polop, Beto também seguiu para o Rio. De lá, partiria para o
local de treinamento guerrilheiro, um ensaio para o que viria a ser, depois, a experiência frustrada na
serra de Caparaó, divisa de Minas com o Espírito Santo. “Acreditava-se que um foco de guerrilha
eclodiria no campo em poucos meses”, relatou por escrito a amiga Inês Etienne Romeu, que, junto com os
mais chegados, foi se despedir de Beto na estação ferroviária – certa, como todos, de que tão cedo não o
veria de novo. Continua Inês:
Depois dos abraços, Beto subiu no último vagão, permanecendo na escadinha derradeira e acenando adeus aos amigos. Corríamos pela plataforma na ânsia de vê-lo alguns segundos a mais. No açodamento do momento, bati a testa num poste, o que me gravou para sempre o instante na memória.
Quando chegou ao Rio, nos primeiros dias de maio de 1964, Beto foi para um dos aparelhos montados
pela Polop, um apartamento na rua Paula Freitas n.19, em Copacabana, onde já estavam instalados
Galeno, Dirceu Mourthé e Guido Rocha. Ali, ele assumiu uma tarefa que se repetiria em toda a sua
militância: o levantamento de áreas de guerrilha. Naquele momento, o objetivo era selecionar regiões
para deslocar o enorme contingente de marinheiros e sargentos saído dos quartéis, militantes de
esquerda, e gente que havia sido presa, mas já estava sendo liberada. Um primeiro ensaio do foquismo, a
teoria do foco guerrilheiro, extraída da experiência de Che Guevara.
A temporada carioca, porém, seria curta. Terminaria dois meses depois, em julho de 1964, com
Galeno, Guido e Beto presos.
DEZENOVE DE JULHO DE 1964. Beto cruza com Galeno no apartamento de Copacabana e avisa:
– Preciso ir a Belo Horizonte. Vou deixar minha mala embaixo da cama. Volto em dois ou três dias.
V INTE E UM DE JULHO DE 1964. São nove da noite quando Galeno chega ao aparelho da rua Paula Freitas.
Antes que conseguisse girar a chave, a porta se abre. Dentro do apartamento, já completamente revirado,
é rendido por dez homens do Centro de Informações da Marinha (Cenimar), todos à paisana. Colocam
uma toalha na boca de Galeno e iniciam o interrogatório:
– Quem mora aqui? – pergunta o chefe.
– Sou eu que moro – responde Galeno.
– Quem mais mora aqui?
– Eu moro sozinho.
– Como você mora sozinho, se tem essa quantidade de coisas, objetos, escovas de dente?
– Aqui mora uma outra pessoa. Mas eu não sei o nome.
– E o codinome?
– Prego – responde Galeno, o primeiro nome que lhe vem à cabeça.
Enquanto procura escapar das perguntas, pensa na possibilidade de, a qualquer momento, Guido ou
Beto entrarem no apartamento.
– E de quem é esse sapato aqui? – insistem os homens.
– Meu – responde Galeno, diante de um par evidentemente muito maior que seus pés, enquanto pensa
na mala que Beto tinha deixado debaixo da cama, certamente cheia de documentos.
Nesse instante, ele ouve alguém chegando, feliz da vida, assobiando uma canção. Como aquele era um
aparelho muito usado para reuniões, podia ser qualquer pessoa. Arnaldo Mourthé, Jaime Cebaios, um
equatoriano que tinha treinado em Cuba, ou um dos muitos sargentos e marinheiros procurados pelo
regime. Mas quem entra na casa é Guido Rocha, que, rendido, segue a tradição comunista e anuncia:
– Meu nome é Guido Souza Rocha. Eu sou um revolucionário mineiro. Moro em Belo Horizonte.
Aos socos, tabefes e pontapés, os dois são algemados, embarcados em um camburão do Dops e
levados para o Cenimar. Ainda no caminho, Galeno avisa a Guido: “Ô Guido, o negócio é o seguinte:
você é o Prego, tá?”
– Mas o Guido ficou puto: por que Prego? E eu fechei questão: não discuta isso, você é o Prego –
relata Galeno.
Levados primeiro para o porta-aviões Minas Gerais, fundeado na baía de Guanabara, Galeno e Guido
foram depois transferidos para a ilha das Cobras, onde a turma da Polop havia sido concentrada e de
onde todos saíram cinco meses depois, por meio de habeas corpus impetrado pelo advogado Modesto da Silveira, do escritório de Sobral Pinto. Com eles caíram, também, Arnaldo e Dirceu Mourthé, o
economista Rui Mauro Marini, influente teórico da organização, e toda a liderança da Associação dos
Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil, entre eles Antonio Geraldo da Costa, o Neguinho – último
exilado da ditadura militar a voltar para o Brasil, em julho de 2009, aos 75 anos. O então presidente da
entidade, José Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo, hoje desmascarado como agente infiltrado do
regime e tido como um dos maiores traidores da esquerda brasileira, preso logo após o golpe, fugira da
prisão e, àquela altura, já se encontrava na clandestinidade.
A mala fechada a cadeado, deixada embaixo da cama do apartamento da rua Paula Freitas, foi,
evidentemente, arrombada. Nela havia livros, alguns documentos, um caderno de anotações. Nada
comprometedor. Aquela breve estadia de Beto pelo Rio passara incógnita pelos órgãos da repressão.
CORRIAM OS PRIMEIROS MINUTOS do dia 26 de julho de 1964, data do aniversário da Revolução Cubana. O
inverno trazia mais uma madrugada gelada e as ruas do Centro de Belo Horizonte estavam desertas. A
rotina do porteiro José Maria de Jesus, que trabalhava no edifício Ribeiro Rezende, foi interrompida
pela movimentação furtiva de dois jovens. Na verdade, um casal – logo constataria o porteiro. O rapaz
colava “papéis pequenos” nos muros dos prédios da rua dos Tamoios. A mocinha “tapava a frente”,
dando cobertura. O porteiro se aproxima e lê o protesto: “VIVA CUBA”, “ABAIXO A OEA”, “ABAIXO OS
PLAYBOYS DA UDN”, “ABAIXO O GOLPE GORILA”, entre outras palavras de ordem.
Mais que depressa, o cidadão José Maria de Jesus chama a polícia, que aparece na pessoa do guarda
civil Pedro de Souza Lima e dá voz de prisão ao quartanista de sociologia da Faculdade de Ciências
Econômicas da UFMG Carlos Alberto Soares de Freitas e à estudante Regina Coeli Guerra. Acusação:
fazer propaganda de processos violentos para subversão da ordem política e social, provocar
animosidade contra as Forças Armadas e difamar a classe militar.
Por ser menor de idade, Regina Guerra é encaminhada ao juizado competente. Beto, porém, fica preso,
primeiro no Dops de Minas Gerais e, depois, na Colônia Penal Magalhães Pinto, Penitenciária Agrícola
de Neves, Região Metropolitana de Belo Horizonte, de onde sai três meses depois, em 3 de novembro,
com um habeas corpus, à espera do julgamento do processo.