Seu amigo esteve aqui

Cristina Chacel · Capítulo 10 de 26

Páginas do PDF

Seu amigo esteve aqui

Clandestino

 

NA MANHÃ DO DIA 20 de abril de 1967, Inês procura o jovem militante José Aníbal e comunica:

– Você precisa ir ao Rio buscar uma pessoa. Essa pessoa vai estar amanhã, às sete horas da manhã, na

praça XV, em frente à estação das barcas. Ela usa óculos, tem um bigodão… Você vai junto com o André.

Já passa das nove da noite quando Zé Aníbal e o militante de codinome André deixam Belo Horizonte.

Estão a bordo do fusca zero-quilômetro que Aníbal ganhara de presente do pai a menos de uma semana.

Viajam a noite inteira. Às cinco da madrugada do dia 21 de abril chegam à cidade, param em um bar na

praia do Flamengo para um café da manhã e leem, estarrecidos, nas manchetes dos jornais exibidos em

uma banca em frente, a notícia da violenta invasão da Universidade de Brasília.

A tensão era crescente no país. O debate sobre a reforma universitária acendera a Câmara dos

Deputados, recém-renovada em março daquele ano, apesar da artificialidade do bipartidarismo imposto

pela ditadura – governistas na Aliança Renovadora Nacional (Arena) e oposicionistas no Movimento

Democrático Brasileiro (MDB). A UnB destacava-se como um dos núcleos de resistência. Em má hora,

seu reitor, Laerte Ramos de Carvalho, decidira realizar uma pomposa cerimônia para celebrar a entrega

de cerca de 3.500 livros doados para a instituição pelo governo dos Estados Unidos. O embaixador

americano foi recebido pelos alunos com uma ruidosa manifestação contra a guerra do Vietnã. O tempo

fechou – a polícia militar invadiu a universidade, promoveu um arrastão na biblioteca, espancou e

prendeu estudantes.

Aníbal e André não têm muito tempo para conjecturas. Quando o ponteiro do relógio crava as sete

horas, os dois estão no ponto marcado, onde em instantes um sujeito simpático, mas muito tenso, suando

em bicas, com uma sacola nas mãos, aborda-os:

– Sou eu. Vocês vieram me buscar.

Beto não tinha documentos. Tão logo soubera de sua condenação na Justiça Militar de Juiz de Fora,

deixara imediatamente Belo Horizonte. Estava há dois meses escondido na casa da amiga Maria do

Carmo, no bairro de Icaraí, em Niterói. José Aníbal não o conhecia, mas sabia de sua importância na

organização. Beto já era, então, um militante profissionalizado na Polop.

A viagem até a capital mineira foi quase toda silenciosa. Pairava no ar o temor de uma fiscalização

nas ruas. Logo na saída do Rio, um engarrafamento na altura de Duque de Caxias deixou os três em

estado de redobrado alerta. O tempo corria contra eles. Era preciso entregar Beto são e salvo, em Belo

Horizonte, às cinco da tarde.

Com efeito, passavam poucos minutos das cinco quando o fusca de Zé Aníbal alcançou a avenida do

Contorno e estacionou no local combinado, nas imediações da avenida Antônio Carlos. Inês já estava à

espera. Dirigindo-se a Aníbal, deu as coordenadas:

– Pode sair do carro. Às oito da noite a gente devolve o carro pra você.

Dali Beto foi levado diretamente para a casa de Carmela Pezzuti e seus dois filhos, Angelo e Murilo,

militantes da Polop. Lá ficou por um mês, até Inês recorrer novamente a José Aníbal, dessa vez em busca

de abrigo mais seguro para o companheiro. Beto, que já adotara o codinome Gustavo, mudou-se então

para o confortável apartamento da avenida Francisco Sales, na Serra, onde José Aníbal vivia com sua companheira, Lucia Marly.

Foram dias de silêncio e solidão. Enquanto Aníbal e Lucia, ambos com vida legal, cumpriam a rotina

diária de sair de casa para estudar e trabalhar, Beto praticamente não saía, e se saía o fazia sob as rígidas

normas de segurança da Polop, sempre de carro e acompanhado. Não podia andar na rua, frequentar

bares e festas, ir ao cinema. Levava uma vida austera, entre documentos, livros e reuniões políticas.

– Eu lamentava muito aquele tipo de vida, porque ele era um sujeito expansivo. O Beto era um cara

que gostava de ir a um bar, tomar uma cerveja, ir a um lugar dançar. Às vezes quebrava as normas, mas

sempre era uma situação preocupante, não podia se expor – recorda Aníbal.

Apesar das restrições, Beto não reclamava. Não era seu o lugar da vítima. Ao contrário, tirava partido

de toda e qualquer oportunidade de alegria. Vivia a cantarolar, adorava MPB, sabia todas as letras de

cor, isso quando não se encontrava mergulhado em livros e apostilas, leitor voraz, ou escrevendo algum

artigo ou documento de análise da conjuntura. A reclusão compulsória lhe servia para aprofundar a

formação teórica. Apaixonado pela palavra e pela grande política, na dimensão da doutrina e da utopia,

movia-se por uma inabalável convicção no ideário socialista. Acreditava que o mundo precisava mudar e

estava disposto a tudo para mudar o mundo.

A mesma paixão com que se entregava à militância, ele dedicava às tarefas frugais do cotidiano.

Adorava cozinhar para os companheiros. Seu bife acebolado, acompanhado de arroz com pimentão, era

impecável, como impecável era a mesa posta – toalha sempre limpa, pratos distribuídos pelos

comensais, talheres arrumados e flores arranjadas em vaso, porque beleza, para ele, também era

fundamental. O senso de organização e de disciplina que o destacava entre as lideranças da resistência,

ele aplicava nas tarefas domésticas:

– Beto mantinha a casa sempre arrumada. A cozinha era um brinco de limpeza. Era uma copa-cozinha

interligada e tudo estava sempre perfeitamente limpo. Ele tinha esse prazer em dizer: “Vou fazer um bife

acebolado pra vocês.” E te servia. Ele ficava feliz com isso – relembra, encantada, a socióloga Lucia

Marly.

Do lado de fora, a situação ficava cada vez mais difícil. Qualquer passeata era violentamente

reprimida com bombas de gás lacrimogêneo e prisões. Panfletagem dava cana – aliás, Beto era a prova

viva dessa verdade. Finalmente, Zé Aníbal e Lucia Marly deixam o apartamento da Serra e vão para um

mais reservado, com a facilidade da garagem, tão necessária ao entra e sai às escuras. Beto vai com eles

e logo o companheiro Jorge Batista, ex-presidente do DCE, une-se ao grupo. São dois clandestinos,

agora, no mesmo aparelho.

– Nós estávamos, um dia, voltando de um encontro com o Mário Alves, dirigente do PCBR, quando,

ali pelo bairro Funcionários, o carro pifou. Era uma tensão enorme, eu, ali, com dois clandestinos – conta

Zé Aníbal.

Já então a Polop vivia a iminência de um racha entre o grupo que simpatizava com as ideias de Guido

Rocha, em favor da luta pela via democrática, e o grupo sensibilizado pela luta armada, para onde

caminhavam Beto, Angelo Pezzuti e a quase totalidade da nova geração de militantes pós-64. A posição

desse segundo grupo passaria a ser majoritária na Polop de Minas e precipitaria a divisão da

organização, durante o seu IV Congresso, realizado em setembro de 1967, em Praia Grande, litoral

paulista.

Beto sofria com esse dilema. Sempre fora um quadro de ação, da linha de frente, e via o trabalho de

organização das massas, espinha dorsal da Polop, cada dia mais inviabilizado pelo endurecimento do

regime. Queria mudança. Estava convencido de que só a instalação de uma Constituinte, como propunha

Guido, seu grande amigo e parceiro, era pouco. O momento pedia mais. Por outro lado, ele tinha uma

trajetória consolidada com um grupo intelectual – Vânia, Theotonio, o próprio Guido – que a nova

geração não tinha. Romper com a Polop significaria romper com seus parceiros históricos.

SETEMBRO DE 1967. Ao volante de seu fusca, José Aníbal Peres de Pontes deixa Belo Horizonte com

mais três passageiros a bordo – Apolo Lisboa, Angelo Pezzuti e Carlos Alberto Soares de Freitas. Estão

a caminho do IV Congresso da Polop, marcado para dali a uns dias. Formam o núcleo dirigente da

organização em Minas Gerais e já sabem que jogo jogar no encontro. Novas posições vinham sendo

exaustivamente discutidas, frente à evidência de uma ditadura que poderia perpetuar-se no poder pela

força bruta. Nesse contexto, o programa socialista da Polop era uma vontade teórica, uma carta de

reflexões e intenções que não oferecia mudança imediata. O rompimento eram favas contadas.

Quando o fusca entra na rodovia Fernão Dias, já na capital paulista, um cidadão postado em pé, no

local marcado, faz-lhes sinal. Com poucas palavras, mas suficientes para acusar um forte sotaque

estrangeiro, ordena que sigam o carro estacionado logo à frente, no qual ele embarca rapidamente. A

certa altura da avenida Paulista, o carro para e o homem que fizera o contato desembarca. Só então Beto,

o veterano do grupo, o reconhece. É Eric Sachs, que, como Ernesto Martins, assina o documento Aonde

vamos?, reunindo quatro estudos – “Reformismo e perspectivas proletárias”, “Causas do reformismo”,

“Governo de transição” e “Foco e revolução”. Os textos, de afirmação de um governo de trabalhadores,

meta da posição operária, iriam se revelar insuficientes, naquele congresso, para aglutinar as forças

ávidas por enfrentar o regime autoritário.

Beto não tem nem tempo de comentar nada com os amigos. Em uma manobra arriscada, a motorista do

veículo que eles deviam seguir cruza bruscamente para a outra pista da avenida Paulista – que, na época,

não era dividida por um canteiro central – e entra na garagem de um prédio, com o fusca de Zé Aníbal

logo atrás. A mulher decidida e linda que sai do carro deixa os rapazes de Minas sem ar. É Iara

Iavelberg, a militante que mais tarde ficaria conhecida como a companheira de Carlos Lamarca.

– Vocês têm algum documento no carro? – pergunta ela, sem delongas.

– Bem… Tenho uma carteira de identidade… – balbucia Aníbal, sem esconder a tensão.

– Não, companheiro, documento político! – corrige Iara, que, imediatamente, assume a direção do

fusca e ordena aos quatro que ponham vendas nos olhos e com elas permaneçam até o destino final.

O fim de semana em Praia Grande reuniu militantes de São Paulo, Minas e Guanabara, cerca de

quarenta pessoas, aí incluída a turma encarregada da infraestrutura, que fazia as compras e a fachada –

nela, Iara. Empunhando a bandeira debraysta, o grupo de Minas perdeu todas as votações. “Foi o

congresso do dezesseis a catorze”, lembra Zé Aníbal. Com dois votos de vantagem, o Programa

Socialista para o Brasil, defendido pela Polop, ganhou, mas não levou.

O racha liderado por Minas com a adesão do pessoal da Guanabara e que, mais tarde, alcançaria o

Rio Grande do Sul, reduziu a Polop à metade. No ano seguinte, no congresso de 1968, os remanescentes

da organização tentariam fortalecer a visão obreirista, na fusão com a Dissidência Leninista, do Sul,

formando o Partido Operário Comunista (POC). Também este, porém, teria vida curta. A luta armada

parecia ser a única saída para a derrubada da ditadura e a conquista de um Brasil socialista.

Ao deixar o balneário paulista, Beto era um homem renovado, vitorioso, feliz. Nos dias ensolarados,

experimentara uma paixão arrebatadora por Iara Iavelberg. Para ambos, entretanto, prevaleceu o destino

político. Beto voltava a Minas para organizar a dissidência na Colina. Iara, dali, partiria para a

militância na VPR. A história inacabada entre eles, porém, seria retomada dois anos mais tarde, em 1969,

já no Rio de Janeiro, quando os dois se reencontraram na VAR-Palmares.