Seu amigo esteve aqui
A busca
Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu
“Pedaço de mim”, CHICO BUARQUE DE HOLLANDA
A CARTA CHEGA ÀS MÃOS de Jayme Martins de Freitas e Alice Soares de Freitas, pais de Beto, dias depois
de seu desaparecimento, ainda em fevereiro de 1971. Quase ao mesmo tempo, Francisco Eduardo Soares
de Freitas, o irmão mais velho, recebe um telefonema de alguém da VAR-Palmares, comunicando que
Beto havia sido preso no Rio de Janeiro. Começa ali a interminável cruzada em busca de notícias. Onde
está Carlos Alberto Soares de Freitas?
Tão logo é avisada da prisão, a família de Beto recorre à banca do advogado Modesto da Silveira,
uma das mais ativas (e combativas) do Rio de Janeiro na defesa de presos políticos. Assume o caso o
advogado Oswaldo Mendonça Júnior. No dia 12 de março de 1971, ele entra com pedido de habeas
corpus no Superior Tribunal Militar, em favor não só de Beto, mas também de Antônio Joaquim
Machado, o Bigode, e Sergio Emanuel Dias Campos, já indicando a convicção de que as quedas estavam
vinculadas.
No requerimento, Mendonça alega que a detenção dos três, por autoridades militares, no dia 15 de
fevereiro, não fora comunicada à Auditoria de Correição da Justiça Militar, contrariando, assim,
determinação expressa no parágrafo 12 do artigo 153 da Constituição, e caracterizando-se, portanto,
prisão ilegal e ilegítima. Pelo mesmo instrumento, o advogado solicita informações sobre o paradeiro
dos presos aos comandantes do I Exército, do 1º Distrito Naval e da 3ª Zona Aérea e pede sua imediata
liberdade. Em resposta, o comando da 3ª Zona Aérea comunica (e reconhece) a detenção de Sergio
Campos. Todos os arguidos negam a prisão de Beto e Bigode. Capturadas na via-crúcis de informação e
contrainformação típica daquela ditadura, as famílias não têm alternativa a não ser insistir. Em nova
petição, impetrada dois meses depois do habeas corpus n.30.405, em 13 de maio de 1971, Oswaldo
Mendonça requer ao ministro relator Nelson Barbosa Sampaio:
2 – Das informações recebidas, constata-se que apenas o paradeiro do segundo paciente – SERGIO EMANUEL DIAS CAMPOS – foi levantado, preso que se encontra à disposição do Exmo. Sr. Comandante da 3ª Zona Aérea. Quanto aos dois outros, as três autoridades negam haverem prendido;
3 – Acontece que os familiares dos dois pacientes não localizados, que procuraram o impetrante – JOAQUIM MARIA DE SOUZA MACHADO, pai de ANTÔNIO JOAQUIM, e FRANCISCO EDUARDO SOARES DE FREITAS, irmão de CARLOS ALBERTO – mesmo após a chegada das informações negativas, insistem junto ao impetrante que os seus parentes foram efetivamente aprisionados e por autoridades militares;
… Pelo exposto, requer o impetrante sejam solicitadas informações sobre os dois pacientes – ANTÔNIO JOAQUIM MACHADO e
CARLOS ALBERTO SOARES DE FREITAS – aos Exmos. Srs. Comandantes do II, III e IV Exércitos; aos Exmos. Srs. Comandantes de todas as Zonas Aéreas à exceção da 3ª Zona Aérea; aos Exmos. Srs. Comandantes de todos os Distritos Navais, à exceção do 1º Distrito. Bem como aos Ilmos. Srs. Diretores do Dops e da Polícia Federal nesta cidade.
Todos os requerimentos foram encaminhados. E mais uma vez, na resposta a todos eles, o Estado
brasileiro, por suas autoridades constituídas, nega as prisões e lava as mãos. Antônio Joaquim Machado
e Carlos Alberto Soares de Freitas não se encontram em nenhuma dependência policial do governo
militar, afirmam. Pelo contrário, são inimigos procurados pelo regime, terroristas foragidos da Justiça,
reclamam. Seis meses depois de impetrado o habeas corpus, em 20 de agosto de 1971, o Superior
Tribunal Militar decide não tomar conhecimento do pedido. E apresenta os fundamentos:
Das várias informações prestadas pelas autoridades indicadas na petição de fls.19, a maioria delas informa que os pacientes não estão presos, sendo que o nome de Carlos Alberto Soares de Freitas é indiciado em IPM, como sequestrador de avião, e denunciado como incurso no artigo 21, do dec.lei 314, fls.27 e 47, e Antônio Joaquim Machado é também indiciado em Inquérito Policial, como incurso na Lei de Segurança Nacional, fls.49.
CONSIDERANDO que, como se vê das informações de fls.47 e 49, os pacientes Carlos Alberto Soares de Freitas, já denunciado, Antônio
Joaquim Machado e Sergio Emanuel Dias Campos são indiciados em Inquéritos, como incursos na Lei de Segurança Nacional;
Acordam os ministros do Superior Tribunal Militar, por unanimidade de votos, não tomar conhecimento do pedido de habeas corpus, em
face do que dispõe o art.10 do Ato Institucional n.5.
Durante o ano de 1971, a família de Beto percorre todos os caminhos que possam levá-la até ele. Pede
a ajuda de parentes, amigos, amigos de amigos, conhecidos, familiares de outros presos, gente com algum
tipo de acesso aos meios militares e funcionários do alto escalão do governo. Nenhuma hipótese é
desconsiderada. Em seu périplo, o irmão Eduardo visita Sergio Campos na cadeia, depois de suspensa
sua incomunicabilidade. A conversa é rápida. Como os demais presos políticos, Sergio também não se
deparara com Breno na prisão. Também nada lhe fora perguntado sobre Breno em interrogatório, e nas
oportunidades que teve de perguntar pelo companheiro, recebeu de seus algozes uma mesma
contrapergunta, eivada de cinismo: “Por que você pergunta pelo Breno? Você viu o Breno aqui? Ele foi
preso?”
Em 15 de abril de 1971, dois meses após o desaparecimento de Beto, Jayme Martins de Freitas, o pai,
envia, por carta, um apelo dramático ao presidente do Superior Tribunal Militar (STM):
… Vossa Excelência saberá dar o devido desconto ao constatar que ao desconhecimento jurídico se contrapõe a espontaneidade de sentimentos simples, de valor inegável numa colocação cristã e humana das coisas. Peço, humildemente, seja ela recebida como mensagem nascida do coração amargurado de um pai para um coração compreensivo de um magistrado ….
Meu filho mais moço, Carlos Alberto Soares de Freitas, encontra-se desaparecido. Há mais de dois anos que não o vejo. Durante certo
período, a intervalos, encaminhava-me notícias lacônicas, pelo correio. Há alguns meses cessou esse contato. Há, aproximadamente, dois meses, fui informado de que ele se encontrava preso, no Rio. Notícia a tal respeito chegou a ser divulgada por jornais cariocas, dos quais conservo recortes em meu poder. Sua detenção teria se dado no Rio, durante o período carnavalesco. Diante de tais informações, fiz o que seria próprio esperar-se de um pai ….
Tudo resultou infrutífero. As petições esbarraram num silêncio total. Os apelos não encontraram eco ….
É fácil avaliar os prejuízos decorrentes dessa ausência total de informações para o meu estado psicológico ….
Minha esposa, já seriamente enferma, teve o seu estado de saúde agravado, diante da impossibilidade de se obter informação precisa a
respeito do filho mais moço ….
O que pleiteio, Sr. Presidente, é apenas o direito de avistá-lo, de estar com meu filho, de conhecer as acusações que lhe são feitas, para que
possa saber, à base dos esclarecimentos reunidos, o que fazer, nessas circunstâncias, no sentido de ajudá-lo.
Vivo um drama inenarrável. Todos os pais saberão me compreender ….
O que peço a Vossa Excelência é que, usando da faculdade que lhe é concedida pelo cargo que ocupa e que honra com a sua sabedoria,
faça quebrar essa incomunicabilidade. Se contra o meu filho existir acusação comprovadamente grave, que se lhe apliquem as penalidades da lei, mas que não me seja negado, como pai, o direito de conhecer por inteiro o teor da acusação, de vê-lo na prisão em que se acha recolhido, para que, dentro das possibilidades legais, possa contribuir, como é de meu dever, para o encaminhamento de uma solução para o caso ….
Da angústia que vivemos nasceu a ideia, como derradeiro recurso, de dirigir a Vossa Excelência este apelo de pai. De um pai que poderá,
conhecida a acusação que pesa contra meu filho, não concordar e mesmo reprovar a atuação desse jovem, mas, justamente por ser pai, não poderá, numa nação cristã como a nossa, jamais se ausentar ao exame do problema e conceder ao seu filho a proteção que a lei facultar.
Silêncio. A autoridade de uma ditadura não deve nem teme. Não presta contas sobre nada. Não é
compelida a produzir respostas. Nem mesmo um ofício protocolar ou um mero telegrama padrão. O arbítrio não constrange. Mas o pai de Beto não se encolhe. Meses depois, envia outra carta, sem data,
dessa vez ao presidente da República, Emílio Garrastazu Médici:
Excelentíssimo Senhor
GENERAL GARRASTAZU MÉDICI
Digníssimo Presidente da República
Assistindo ao programa de Flávio Cavalcanti sensibilizou-me sobremaneira saber que no encerramento do Congresso sobre os Excepcionais o Presidente da República chorou. Tocado naturalmente no mais íntimo do seu ser, as lágrimas não contidas deixaram antever acima de tudo o lado humano e caridoso de Vossa Excelência.
Tocá-lo também no coração é a minha pretensão de hoje. Não, Senhor Presidente, não tenho um excepcional na minha prole, graças a
Deus. Sou pai de oito filhos todos sadios. E vivemos chorando diariamente, minha senhora e eu, chorando a ausência de nosso filho caçula. Que não morreu, mas se encontra desaparecido.
… Dentre todos os meus descendentes foi ele o único a ser contaminado pela subversão, quando na faculdade. Não venho pedir a
libertação de Carlos Alberto, pois, se infringiu as leis do país, deverá pagar pelo que fez. Meu único desejo é saber onde se encontra preso, e autorização para avistar-me com ele ….
Estas linhas foram ditadas pelo amor paternal de um casal idoso, humilde, profundamente angustiado, mas ainda repleto de fé e de
esperança na clemência cristã de Vossa Excelência, única pessoa com poderes bastantes para promover o reencontro que porá fim às nossas dores ….
De novo, o silêncio. Mas a busca não para. No interior do estado do Rio, Eduardo vê, numa delegacia,
um cartaz de terroristas procurados e, nele, a foto do irmão, com um X em cima, a informar que aquele
não era mais procurado, estaria eliminado. A família sofre sem notícias. Antes do fim do ano, em 2 de
dezembro de 1971, Jayme de Freitas envia novo e desesperado apelo ao ministro da Justiça, Alfredo
Buzaid:
… Ignoro, até aqui, as razões reais da detenção por tão longo tempo, sem quaisquer explicações oficiais, sem que me sejam dadas respostas às perguntas que formulo, de meu filho mais moço. Não sei quais as acusações que pesam contra ele. Quais as faltas a ele imputadas. Quais os crimes que o levaram à prisão. Qual a razão de perdurar a incomunicabilidade. Desconheço qual seja o seu estado de saúde. Desejo saber o que possa fazer, como pai, no sentido de ajudá-lo a reincorporar-se em suas atividades normais na sociedade.
Esta expectativa nervosa, angustiante, arrastou-nos, a mim e a minha senhora, a uma situação que toca as raias do desespero. Minha
esposa não conseguirá resistir por mais tempo a essa situação. O silêncio que rodeia o destino de meu filho fez com que se agravasse tremendamente seu estado de saúde. Passou a ser a maior vítima desse deplorável estado de coisas.
Imploro a Vossa Excelência me sejam abertas, como pai, as portas que me levem a avistar-me com o meu filho. Quero conhecer as
acusações que contra ele pesam. Quero saber onde se encontra preso. Quais as necessidades que enfrenta.
… O que lhe peço, Sr. Ministro, é que obtenha a necessária permissão para que o pai idoso e a mãe seriamente enferma de um moço que
se deixou levar, dentro das inconsequências da idade e de uma época confusa onde tantos moços não entendem a língua da prudência e do bom-senso dos mais velhos, pelos descaminhos de uma política desapartada dos valores que lhe foram inculcados na educação familiar cristã, possam avistá-lo na prisão em que se acha recolhido.
Não nos negue, a dois velhos, por caridade, a benevolência desse gesto cristão.
A benevolência cristã é negada. Jayme e Alice sofrem. Estão sem ver o filho desde o Natal de 1968,
quando Beto, mesmo na clandestinidade e com vários amigos presos, arriscou a liberdade para passar
algumas horas ao lado da família, em Belo Horizonte. Lembra a irmã Addi:
– Foi o último Natal com a família toda reunida. Ele chegou já de noite e ficou rodeado dos sobrinhos.
Ele gostava muito de criança. Depois da ceia, eu fui deixá-lo no ponto para pegar um ônibus pro Rio.
Beto foi escondido, no banco de trás do fusca.
A última notícia, antes de sua prisão, veio por carta, endereçada aos pais, escrita exatos trinta dias
antes de seu desaparecimento, às vésperas de seu embarque para Recife, a fim de participar da
conferência nacional da VAR:
Rio, 15 de janeiro de 1971.
Meus caros pais
Não pude me comunicar com vocês quando do novo ano, faço-o agora com os meus melhores votos de anos-novos pela frente e a felicidade permissível por um sistema intrinsecamente infeliz. Para a grande maioria que vegeta, ou mesmo para aqueles que, mesmo comendo e morando, não podem se conformar com a miséria e as iniquidades que o capitalismo impõe ao seu semelhante.
Mais um ano de luta, onde estivermos, é o que nos desejamos. Luta que dá sentido à vida para aqueles que não se submetem à
“tranquilidade” dos crápulas. Vocês já me compreendem, por certo, principalmente a partir das esparsas mas longas cartas que escrevo. Estive no Rio por uns dias, de onde lhes escrevo. Não tive notícias da família, uma família bastante acovardada, com raríssimas e honrosas exceções. O medo se tornou congênito e eles não compreendem ser imperiosa a luta contra uma situação que é a sua causa. É triste quando se vê as pessoas se deixarem dominar, sem reação alguma. Se o medo é humano, a covardia, sentimento de sujeição ao irracional, é mesquinha e amesquinha os que a cultivam. E como os há. Mas sobram muitos, alguns mais do que outros. E isso ainda justifica o ser humano, pelo menos salva a sua cara perante toda a espécie. Nesses muitos, mesmo minoria, é que reside a esperança das modificações que hão de vir, porque consonantes com as próprias leis da história. Pretendemos ser um desses, a cada dia reforçamos nossa opção. E assim estou muito bem, procurando ser digno dos que confiam em mim e lutando pela vitória da dignidade dos homens, só possível com o fim do capitalismo e sua coorte de crimes. Dignidade do homem concreto, o proletariado, único capaz de vanguardear a Revolução que transforme, com as relações de produção e a forma de propriedade, os valores sociais que existem para justificar o status quo. Somos radicais no sentido de propugnarmos e lutarmos pelas transformações das próprias raízes da sociedade. Isso não é utopia, é a concretização do ideal possível porque correspondente às leis objetivas da sociedade humana. Se os anos vão se indo nessa luta, que muitos anos eu tenha para dá-los. Outros dão e darão mais do que eu, principalmente os que nada têm a perder, a não ser os grilhões.
Estou bem de saúde, parece que uma gastrite chata é a única coisa que incomoda um pouco. Gordo, quase 80 quilos. As preocupações,
pelo visto, não emagrecem nem envelhecem. E o jeito é entrar num regime.
Abracem os amigos e os irmãos.
Para vocês a saudade do filho
Beto
O filho Beto era firme em suas escolhas. E mesmo discordando delas, Jayme e Alice orgulhavam-se
de sua retidão e da valentia com que defendia suas convicções. Não haveriam de negá-lo. Enquanto
viveram, esperaram por ele. Quando, certa feita, cogitou-se na família vender o apartamento da rua
Espírito Santo, no Centro de Belo Horizonte, os pais se recusaram: aquele era o endereço que Beto
conhecia. Aquela era a casa em que ele entrava pela porta da frente e cuja fechadura, em hipótese
alguma, seria trocada. A qualquer momento, Beto poderia pegar seu molho de chaves e ocupar seu quarto,
limpo e arrumado, tal como ele deixara, com sua cama, sua estante de livros, quarto-santuário da saudade
de seus pais.
– Essa é uma questão que impressiona muito – diz, sem esconder a emoção, Sergio Ferreira, primo-
irmão de Beto. – Desde que o Beto saiu de casa, em 1967, os pais não desfizeram o quarto dele. A
polícia não invadiu a casa. Como o Beto nunca ia em casa mesmo, não fazia sentido. A polícia só
vigiava. No começo de 1970 fui a Belo Horizonte visitar meus tios e peguei uma revista da Polop de
1963 no quarto do Beto. E falei pra ele: “Puxa, mas que incrível a revista da Polop! Achei lá no seu
quarto!” Ele se virou pra mim e falou: “Tudo o que tem lá é seu. O que você quiser, pode pegar.”
SERGIO SOARES XAVIER FERREIRA tinha doze anos de idade quando conheceu o primo que se tornaria, em
pouco tempo, seu ídolo e, em uma década, um precioso amigo. Menino de calças curtas, recém-chegado
dos Estados Unidos, onde vivera a primeira infância com os pais e os irmãos, Sergio Ferreira ficou
impressionado ao saber que o primo Beto, de 23 anos, portanto onze anos mais velho que ele, tinha ido à
ilha de Cuba e trazido, como recordação, uma foto sua com o líder Fidel Castro. É Sergio quem conta:
– Eu vivi o auge da Guerra Fria nos Estados Unidos, de 1956 a 1961, e voltei muito reacionário,
achando que a União Soviética queria dominar o mundo através da ilha. A ilha era Cuba, cujo nome nem
se pronunciava. E comunista para mim era palavrão. Então, quando voltei a morar no Brasil, foi um
choque saber que um dos meus 24 primos, o Carlos Alberto, tinha ido a Cuba e tirado uma foto com
Fidel.
Talvez por isso mesmo, Beto logo despertou a curiosidade do primo mais moço. No regresso dos
Estados Unidos, a família de Sergio fora morar na casa do tio político, Paulo Pinheiro Chagas, que a
todos acolhia no amplo apartamento da rua Paula Freitas, em Copacabana, com quase mil metros
quadrados, e onde também moravam Francisco e Odília, avós maternos de Sergio e Beto. A casa era uma
sucursal de Minas no Rio. Os parentes iam e vinham. E era lá que todos se encontravam. Beto entre eles.
Assim, em torno da família, os dois primos foram se conhecendo. O primo comunista e o primo
chamado de Americano pelos colegas do Colégio São Bento vão, aos poucos, se aproximando:
– Beto era um comunista convicto, muito firme nas suas ideias. E eu devo ter descarregado em cima
dele todo o meu sentimento anticomunista. Lembro de conversarmos sobre isso e dele me ouvindo, com
uma paciência enorme. Nunca se irritou. Aliás, nunca o vi irritado nos dez anos em que convivi com ele –
continua Sergio Ferreira.
Dos encontros esparsos foi nascendo uma amizade recheada de conversas sobre política, mas também
sobre comportamento e cultura. Aqui e ali, Beto, mesmo clandestino, buscava a companhia de Sergio.
Iam à praia, ao teatro, a shows de música.
– Com ele eu vi o primeiro show que o Martinho da Vila deu no Rio de Janeiro, no Teatro Opinião.
Mas o grande impacto pra mim foi Morte e vida severina, que vimos juntos. Eu devia ter uns quinze,
dezesseis anos. Isso me marcou muito – lembra Sergio.
Vem o AI-5 em dezembro de 1968 e o ir e vir de Beto fica mais complicado. Já então Sergio encontra-
se completamente adaptado ao Brasil e acompanha com interesse os acontecimentos no país. É um jovem
politizado e revoltado com a ditadura. O primo clandestino exerce forte influência sobre ele, porém, em
momento algum faz qualquer movimento na intenção de recrutá-lo para a luta armada. Quando as portas
da família começam a se fechar para Beto, já em 1970, Sergio Ferreira é uma das “raríssimas e honrosas
exceções” a que ele se refere na carta em que reclama aos pais de “uma família bastante acovardada”.
Sempre que está no Rio, procura Sergio. Mais de uma vez se encontraram no restaurante Garden, uma
casa de esquina, no Jardim de Alah, na entrada de Ipanema, que vivia meio às moscas e garantia boa
privacidade. Mais de uma vez Sergio ofereceu ajuda financeira e logística ao primo. Beto sempre
declinou da oferta.
A última vez que Sergio viu Beto os dois não puderam se falar. Foi um mês antes de seu
desaparecimento, em janeiro de 1971. Sergio caminhava por Ipanema, de mãos dadas com a namorada,
Lúcia, sua futura mulher. Na mesma calçada, vindo em sua direção, caminhava Beto, sozinho. Como ele
não conhecia Lúcia, os primos apenas cruzaram o olhar. O último olhar. Com ele, o primo Americano de
Beto, a quem na infância haviam ensinado a odiar comunistas, fez-se guardião de sua memória, um
resoluto e combativo militante dos direitos humanos no Brasil.
MARÇO DE 1974. Mesmo passados três anos sem saber o que acontecera a Beto, a família ainda
alimentava a esperança de encontrá-lo vivo. Beto estava desaparecido. Portanto, poderia reaparecer a
qualquer momento. Quem sabe conseguira fugir do país ou encontrara abrigo, com outra identidade, em
algum lugar incerto e só esperava a ocasião mais segura para dar sinal de vida? O primo Sergio Ferreira,
porém, não tinha mais dúvidas de que ele estava morto. Mesmo assim, em viagem de férias a Londres,
aproveitou para visitar a sede da Anistia Internacional e, sem muita expectativa de êxito, arriscou obter
alguma informação nova que pudesse levar ao paradeiro do primo. Coincidentemente, a entidade acabara
de publicar o primeiro relatório sobre casos de tortura e morte no Brasil. E não tardou Sergio se viu
diante de um documento mimeografado, com uma lista de nomes em ordem alfabética. Correu direto à
letra C e encontrou:
Carlos Alberto Soares de Freitas, preso em fevereiro de 1971. Assassinado em abril de 1971. Inês Etienne Romeu testemunhou sua morte.
A tragédia devasta. Será sempre uma ferida aberta. Não cicatriza no tempo nem alivia a dor de suas
vítimas. A tragédia de Beto é também a tragédia de sua família, de seus companheiros, de seus amigos.
Por mais que desconfiasse – até mesmo soubesse! – que Beto muito provavelmente havia sido morto por
agentes da repressão, a informação ali impressa, num punhado de folhas grampeadas, à sua frente, desmontou Sergio Ferreira. Agora, não era mais o endereço de uma cadeia ou de um esconderijo que a
família devia procurar, mas, sim, um corpo. Restos mortais de uma imensa e dolorosa saudade.
Sergio Ferreira nunca tinha ouvido falar em Inês Etienne Romeu. De volta ao Brasil, imediatamente
deu a notícia a Eduardo, o irmão mais velho de Beto. E ficou sabendo que Inês era uma grande amiga do
primo desaparecido, que havia sido barbaramente torturada e, sobrevivente, encontrava-se presa,
incomunicável, na penitenciária feminina Talavera Bruce, em Bangu, Zona Oeste do Rio de Janeiro.
– Você já ouviu falar numa tal de Inês Etienne Romeu? – perguntou Sergio a Eduardo.
– Claro. Ela é de Belo Horizonte, muito nossa amiga.
– E o que foi feito dela?
– Ah, coitada, ela foi muito torturada… E é presa de segurança nacional. Ninguém pode visitar.
Passa o tempo. No ano seguinte, em 1975, Sergio está em casa, à noite, vendo o Jornal Nacional,
quando o locutor anuncia: “Hoje, dois terroristas foram se casar no fórum do Rio de Janeiro.” E a TV
Globo mostra a imagem dos noivos algemados, cercados de PMs com metralhadoras, a caminho do
Palácio da Justiça. Sergio viu, enfim, uma jovem magra, cabelos negros escorridos até os ombros, sob
uma pele muito clara, óculos de grau em uma armação quadrada grande, aro preto. Era Inês. A amiga de
Beto, que, segundo a Anistia Internacional, testemunhara sua morte e que ninguém podia visitar na cadeia.
Fevereiro de 1978. De novo em férias, Sergio Ferreira está no meio do rio São Francisco, viajando de
gaiola, quando lhe cai às mãos um exemplar do Jornal do Brasil. Uma notícia publicada com foto e
razoável destaque chama a sua atenção. Em assembleia realizada no auditório da Associação Brasileira
de Imprensa (ABI), no Centro do Rio de Janeiro, militantes e parentes de desaparecidos políticos haviam
fundado o Comitê Brasileiro pela Anistia (CBA).
– Entrei em estado de choque, porque anistia era uma palavra que vinha lá do Movimento Feminino
pela Anistia, de 1975, e era uma coisa muito pequena, que acontecia na surdina. De repente, me dei conta
de que já tínhamos liberdade de imprensa no Brasil para nossa luta.
De volta ao Rio, Sergio, que então militava no Centro Estadual dos Professores (CEP), procurou a
entidade, falou do seu interesse e acabou escolhido seu representante dentro do CBA:
– No Comitê de Anistia, o que descubro? Primeiro, que tinha gente visitando presos políticos, até
então inacessíveis, isolados, incomunicáveis. Depois, que tinha sido criada uma Comissão de
Desaparecidos dentro do CBA.
O envolvimento nessa comissão foi natural e imediato. O Brasil começava a sentir as pressões sociais
por liberdade, mas o AI-5 ainda vigia naqueles primeiros meses de 1978. Prisões políticas continuavam
acontecendo. Organizações de esquerda permaneciam proibidas, clandestinas. Não era uma situação
inteiramente tranquila. Todo cuidado era pouco. Mas Sergio precisava falar com Inês. E uma vez no
CBA, conseguiu um contato com uma irmã dela. E lá foi ele, enfim, para o presídio feminino Talavera
Bruce, onde Inês cumpria pena de prisão perpétua. Conta Sergio:
– Foi um encontro mágico. Para mim, encontrar a Inês, sabendo que ela fora amiga do Beto, amiga de
frequentar a família, e que, ao mesmo tempo, ela teria sido a testemunha da morte dele, era como se eu
estivesse reencontrando o próprio Beto. Era como se ele tivesse ressuscitado. E pra ela também. O fato
de eu chegar de repente, porque ela não tinha recebido visita, nem pedido de visita, de ninguém da
família do Beto, foi algo inesperado.
A sólida amizade construída entre Inês e Beto ao longo de nove anos de estreita convivência, entre
1961 e 1969, parecia ter se transferido, quase automaticamente, para Sergio, que, a partir dali, passa a
visitar a nova amiga periodicamente. À medida que Inês vai sentindo confiança nele – o que aconteceu
relativamente rápido –, a história começa a aparecer:
– A Anistia Internacional registrou que você testemunhou a morte dele – inquiriu Sergio.
– Não, não foi bem assim – refutou.
E Inês, então, contou a monstruosa trama de ódio e sadismo da Casa da Morte, aparelho clandestino da
ditadura militar, situado em Petrópolis, Região Serrana do estado do Rio de Janeiro, onde agentes da
repressão torturaram e mataram opositores do regime, desaparecendo em seguida com os corpos.