Seu amigo esteve aqui
Rapaz de família
DOS OITO FILHOS DE JAYME E ALICE – quatro meninos e quatro meninas –, o caçula, Carlos Alberto, foi o
único que nasceu em Belo Horizonte, em 12 de agosto de 1939. Addi, a irmã mais velha, nasceu a bordo
de um navio, em águas litorâneas capixabas; Francisco Eduardo, Stella D’Alva, Thomaz Olimpio, Norma
Disney, Jayme César e Mariza são de Teófilo Otoni, a cidade materna, encravada no vale do Mucuri,
nordeste de Minas Gerais. A família de Alice, os Soares de Sá, era gente bem-relacionada na região.
Cidadão de forte influência comunitária, seu pai, Francisco Soares de Sá, o benemérito que fez a
eletricidade chegar a Teófilo Otoni, era um respeitado chefe de família, pai de sete filhos.
Alice casou-se com Jayme Martins de Freitas, um rapaz sério, trabalhador e temente a Deus. Quando
nasceu Carlos Alberto, Jayme gozava de boa situação. Técnico em contabilidade, trabalhava na
Secretaria da Fazenda de Minas e todos moravam em Belo Horizonte. Foram dias, razoavelmente
tranquilos, aqueles, de uma família unida, em harmonia. Alice, das prendas e do lar, era boa esposa e boa
mãe. E Jayme, que sabia ser severo na educação das crianças quando a situação assim o pedia, no mais
das vezes desmanchava-se em carinhos com elas. Embora ambos fossem espíritas, não impuseram
qualquer religião aos filhos.
Ainda pequeno Beto conheceu os altos e baixos de uma gangorra financeira que se repetiria ao longo
da vida. A família vivia decentemente, mas sem luxos. Não dispunha de reservas para imprevistos, mas
nunca nenhum filho deixou de estudar. Nem mesmo quando Jayme embarcou em um negócio ousado de
extração de madeira para fabricação de dormentes de estradas de ferro e acabou enfrentando um longo
período de dificuldades. Tudo aconteceu muito rápido. Da noite para o dia, o casal fechou a casa em
Belo Horizonte e tornou a pegar o rumo de Teófilo Otoni, onde, em sinal de franca prosperidade, alugou
uma casa muito boa, espaçosa o suficiente para acomodar, com conforto, toda a filharada.
O negócio, porém, não deu certo. E foi também da noite para o dia que a família perdeu tudo. Para
sobreviver, Alice vendeu todos os haveres. Móveis, utensílios, eletrodomésticos e as joias da família,
uma a uma. Sem condições de arcar com o aluguel da casa, pai, mãe e os oito filhos acabaram indo
morar, de favor, na casa dos pais de Alice, sem perspectivas a curto prazo. A despeito do infortúnio, a
vida transcorria pacata, sem mais sobressaltos. Na casa da avó, Beto vivia dias alegres de andar
descalço, subir em árvore, jogar bola na rua, cruzar a cidade de bicicleta na garupa de Addi, a irmã mais
velha.
Addi era encarregada pela vó Odília de ficar de olho no avô, Chico. Com Beto a tiracolo, ela
pedalava pela rua das Flores até chegar à ladeira da catedral. De longe, avistavam o patriarca da família
entrar na casa do irmão, para uma prosa vespertina. Vó Odília, porém, desconfiava que o marido, na
verdade, estivesse interessado nalgum “rabo de saia”. Ledo engano. Dali, vô Chico seguia direto para o
Automóvel Clube, onde se distraía numa mesa de baralho até a noite alta.
Esse todo-dia só foi interrompido quando Jayme, enfim, conseguiu um posto em uma companhia de
seguros, por indicação do cunhado, Paulo Pinheiro Chagas. Casado com Zembla, irmã de Alice, ele era
um político com bom trânsito em toda Minas, em especial no palácio da Liberdade, sede do governo.
Detalhe: o novo emprego era em Salvador, na Bahia, para onde a família se mudou naquele verão de
1949. A incerteza do projeto, porém, fez com que Jayme e Alice mandassem Beto, então com dez anos, para uma temporada no Rio de Janeiro. Foi morar com os tios Paulo e Zembla, e seus dois filhos –
Dayse, de onze anos, e Ugo, de sete.
Beto trocou a mesmice de Teófilo Otoni pela efervescência da capital do país. Desembarcou direto na
avenida Atlântica, em Copacabana, onde aprendeu a amar o mar acima de todas as coisas. No amplo
apartamento do edifício Cruzeiro do Sul, no Posto Seis, a dois passos da praia, o mineirinho passou a
dividir o quarto com o primo Ugo, de quem acabou se tornando grande amigo, e foi matriculado no curso
de admissão do Colégio Mello e Souza.
Deputado federal por Minas Gerais, tio Paulo acabaria, mesmo inadvertidamente, contribuindo para a
formação de Beto. Apesar de eleito pelo Partido Social Democrático (PSD), tinha raízes na União
Democrática Nacional (UDN), de sorte que circulava à vontade em ambas as fileiras. Era tão amigo de
Juscelino Kubitschek quanto de Magalhães Pinto. O apartamento em que Beto morava era um endereço
importante da República. Todos os dias ele acompanhava o entra e sai de políticos, os debates
acalorados, as reuniões que varavam a madrugada. Mas foi a gigantesca biblioteca do tio, com estantes
do chão ao teto, revestindo todas as paredes, que enfeitiçou Beto naqueles dois anos de estabilidade e
conforto na Guanabara. Leitor voraz de gibis, ele descobriu ali que o mundo era feito de muitas leituras.
No início de 1951, Jayme e Alice, então estabelecidos na Bahia, mandam buscar o filho no Rio.
Aparentemente, o garoto que amava o mar de Copacabana não encontra nenhuma dificuldade em se
adaptar à nova vida. Beto cai de amores por Salvador, cidade que, como o Rio, lhe é generosa em sol e
praia, e é onde ele vai acordar seu paladar para a pimenta, o perfume e as cores quentes da comida
regional. A estadia, porém, será curta. Beto fica apenas um ano na capital baiana, período em que
frequenta o Ginásio Salesiano. Em 1952, todos já estão de volta a Minas Gerais. Dessa vez, a família se
instala em Uberaba, onde mora por dois anos. De volta a Belo Horizonte em 1956, Beto conclui o curso
ginasial no Colégio Anchieta e obtém o diploma no secundário no Colégio Tristão de Ataíde, em 1960.
Entre idas e vindas, antes de completar vinte anos de idade Beto já tinha vivido em nada menos que
cinco cidades do Brasil. Em cada uma delas, um colégio novo, o que pode explicar seu desempenho
regular nas disciplinas. Obtinha bons resultados em matemática e em história do Brasil, mas, de um modo
geral, era aquele tipo de aluno que estudava o suficiente para passar de ano. Gostava mesmo era das
aulas de canto orfeônico, nas quais descobriu o prazer de cantar, que ele cultivou por toda a vida e que o
levou a desenvolver uma memória vertiginosa para decorar as letras das canções. Mesmo nos dias mais
difíceis da clandestinidade, quando ele só atendia pelo nome de Breno, impressionava e entusiasmava a
militância com seu vasto repertório musical.