Seu amigo esteve aqui
Rede de alto risco
HÉLIO PEREIRA CARVALHO é um cidadão de vida legal que não teme ligações perigosas. Funcionário da
Eletrobras, afastara-se da rotina do setor de informática da estatal para fazer um trabalho pesado, a
pedido do amigo James Allen, da VAR-Palmares. Hélio não é da organização, mas sabe o chão em que
pisa. Agora, precisamente, pisa fundo o acelerador de um fusca vermelho, motor 1.600, pela Via Dutra.
Sua missão: trazer de Montevidéu, Uruguai, o militante Aderval Alves Coqueiro, do MRT.
Não se trata de um quadro qualquer. Baiano de Aracatu, Coqueiro é um militante histórico da
esquerda. Homem da roça, fez a vida como operário da construção civil na capital paulista, onde iniciou-
se no PCB, depois aderiu à dissidência do PCdoB e, noutro racha, migrou para a Ala Vermelha.
Capturado em 1969, foi torturado pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury antes de ser encaminhado ao
Presídio Tiradentes, em São Paulo, de onde saiu em junho de 1970, banido do país por ocasião do
sequestro do embaixador alemão Ehrenfried von Holleben. Desembarcou na Argélia, de lá foi para Cuba,
onde fez treinamento de guerrilha, e, depois de uma breve escala no Chile, chegara ao Uruguai.
Aguardava, em Montevidéu, a hora certa de entrar no Brasil.
A bordo do fusca vermelho comprado pela VAR-Palmares, registrado em seu nome, e abarrotado de
espelhos virgens de documentos brasileiros – carteiras de identidade e títulos de eleitor – prontos para
serem falsificados, Hélio não se ilude. Sabe que a barra é pesadíssima. Mesmo assim, logo após a saída
da cidade de São Paulo, decide dar carona a dois jovens que acenam no acostamento da rodovia. São
estudantes argentinos a caminho de casa. Não têm um tostão no bolso. Hélio pensa que, ao menos, eles
podem ajudar a despistar a polícia, em caso de serem parados em uma barreira. Os jovens,
evidentemente, não desconfiam do perigo.
A viagem transcorre sem incidentes até o oeste do Paraná, quando os argentinos desembarcam e Hélio
segue o rumo da capital uruguaia. Também não foi difícil encontrar o endereço que ele passou a viagem
inteira gravando na memória, uma casa simples, jardim na frente e muro baixo, num subúrbio de
Montevidéu. Ao seu chamado atendeu um uruguaio, para quem ele deu a senha: “Vim a mando do Boi
Preto.”
A sala principal do aparelho estava cheia. Havia pelo menos oito militantes, entre uruguaios e
brasileiros. Feitas as apresentações, ninguém baixa a guarda. Segue-se um diálogo de amenidades – o
tempo lá fora, o trânsito nas ruas, a chuva na estrada. Todos sabiam que ele viera buscar Coqueiro. Mas o
próprio não se apresentou até que ficasse absolutamente seguro da situação.
Nos três dias em que permaneceu na casa, à espera da confecção do documento de Coqueiro, Hélio
aproximou-se daquele que seria seu companheiro na viagem de volta ao Brasil, com destino ao Rio de
Janeiro. A tal ponto que, no dia da partida, já eram dois velhos amigos. Naquele momento, Hélio
informou que os dois entrariam sem armas no país. Era uma exigência de James Allen. Coqueiro reagiu:
– Assim não vou! Não quero!
Mas acabou cedendo. Lembra Hélio:
– Ele queria muito voltar pro Brasil. Era uma vontade acima de qualquer outra. Sentia muita saudade
da mulher, que ficara em São Paulo. Falava muito nela – lembra Hélio.
A saída da casa foi cercada de cuidados. Coqueiro embarcou no carro dos uruguaios, com Hélio
seguindo atrás, ao volante do fusca. Tão logo se afastaram do Centro de Montevidéu, Coqueiro passou
para o fusca de Hélio e os dois prosseguiram juntos até quase a fronteira, quando decidiram que era mais
seguro atravessarem separados. Coqueiro embarcou em um ônibus de linha intermunicipal regular,
favoravelmente lotado, com Hélio de novo no encalço. Vencida a barreira, na primeira parada em
território brasileiro Coqueiro retoma seu lugar ao lado de Hélio. A dupla tinha o cuidado de descansar de
dia e viajar à noite, quando todos os gatos são pardos e a fiscalização, mais branda. E a viagem correu
sem sustos até São Paulo, quando eles pararam numa churrascaria de beira de estrada. Ao saírem do
banheiro, Coqueiro alertou:
– Naquela mesa ali, cheia de homens, está um filho da puta que me torturou. Se eu tivesse uma arma,
passava ele!
Desarmados, os dois trataram de sair rapidamente dali.
Uma vez no Rio, a ordem era entregar o militante do MRT aos cuidados do Quincas, Antônio Joaquim
Machado, o Bigode. Para tanto, Hélio tinha, pré-agendados, vários pontos diários, sempre às nove horas,
num bar da rua Voluntários da Pátria, quase chegando à praia de Botafogo. Assim, no último domingo de
janeiro de 1971, Hélio completa sua missão e vai ter com Bigode. Aderval Alves Coqueiro já está no
Rio de Janeiro.
MARIA DE L OURDES SIQUEIRA É FUNCIONÁRIA do Incra e professora de sociologia de uma faculdade de
pedagogia em Duque de Caxias, município da periferia do Rio de Janeiro. Militante de vida legal,
Lourdinha é também a companheira de James Allen Luz, que a apresenta a Breno. É Breno quem monta,
com ela, a operação de chegada de Aderval Alves Coqueiro ao Rio de Janeiro. Caberia a Lourdinha
alugar o aparelho destinado a abrigar o militante banido em seus primeiros dias na cidade. Ela ainda se
lembra da conversa que teve com Breno, na ocasião:
– Breno era um ser humano excepcional. Ele dizia que o Coqueiro não suportava mais o exílio,
precisava voltar. A preocupação dele, Breno, era com uma pessoa que estava no limite de suportar a
solidão, digamos assim, a distância da família, a distância da luta dele, a distância de uma guerra que
estava sendo feita aqui e que vivia momentos difíceis.
Tudo fora milimetricamente planejado, mas, naquele sábado, 30 de janeiro de 1971, Lourdinha recebe
um aviso inesperado: Coqueiro chegara mais cedo. Ela ainda não tinha onde abrigá-lo. O contrato de
locação do apartamento só começaria a valer dentro de dois dias. Precisava, rapidamente, encontrar uma
alternativa. Recorre, com esse objetivo, à professora Lilia Lobo, sua amiga, que lhe entrega a chave do
apartamento onde mora o ex-marido, Dilmar Santos de Miranda. Professor, como Lourdinha e Lilia,
Dilmar também tem vida legal. Dá aulas de sociologia no Colégio Santa Rosa de Lima e na Universidade
Santa Úrsula, instituições tradicionais de ensino da cidade. Desde que se separara de Lilia, meses antes,
mora na avenida Atlântica, num quarto e sala com vista lateral para o mar e de fundos para a rua Gustavo
Sampaio, no Leme. Quando a ex-mulher lhe pediu que abrigasse Coqueiro, emergencialmente, Dilmar não
hesitou. Não tinha ideia de quem fosse, até o momento em que entrou em casa e reconheceu, de imediato,
o companheiro que conhecera anos antes, em um sítio no interior fluminense, durante um encontro para
treinamento de tiro. O reencontro foi cordial. Falaram sobre amigos. Coqueiro não lhe parecia
preocupado. Ao contrário, nos dois dias em que esteve hospedado no Leme, ousou botar a cara na rua, ou
melhor, na praia, para um banho de mar. E isso, sim, parecia a Dilmar uma quebra nas normas de
segurança.
– Disseram que você não ia sair… – observou ele a Coqueiro.
– Não aguentei quando vi o mar. Fui dar um mergulho – retrucou ele.
Dilmar Miranda não viu o militante banido chegar, nem partir. Mas viu, durante a estada de Coqueiro
em sua casa, Bigode. Também ele não lhe pareceu particularmente tenso. Juntos, Dilmar, Coqueiro e
Bigode tiveram um papo tranquilo. Como velhos e bons amigos.
Na segunda-feira, 1º de fevereiro, Coqueiro já estava instalado no n.1.061 da rua Cosme Velho,
apartamento 202, um dois quartos e sala, com uma pequena varanda, para onde Lourdinha se mudou com
a mãe, dona Albertina, uma senhora de idade avançada. Ninguém deveria conhecer o endereço e, muito
menos, entrar no aparelho. Lourdinha seguiu à risca essa determinação. Dois dias depois da mudança
para a casa nova, porém, já com Coqueiro como hóspede, ela é obrigada a viajar, a serviço do Incra. Seu
destino é Recife, Pernambuco, coincidentemente a mesma cidade onde o comando da VAR realizava o
congresso nacional. Durante sua ausência, Lourdinha deixa a mãe e Coqueiro aos cuidados de um casal
amigo. Ela é Nizete, prima de sua grande amiga e xará Lourdes. Ele é Hélio Pereira Carvalho, noivo de
Nizete, que, como se sabe hoje – mas Lourdinha não sabia à época –, é quem tinha ido buscar Coqueiro
no Uruguai.
INSTALADO NO COSME VELHO, Aderval Alves Coqueiro pressiona Hélio:
– Eu vim até aqui na mão, mas agora não tem jeito: quero uma arma! Você precisa me arranjar uma!
Hélio, em um dos seus pontos diários com Bigode, levou o pedido de Coqueiro. O encontro aconteceu
em Copacabana, na esquina das avenidas Princesa Isabel e Nossa Senhora de Copacabana, curiosamente
a mesma onde, dias mais tarde, Breno seria visto pela última vez. É lá, nesse ponto com Bigode, que
Hélio tem uma surpresa:
– Quem estava com Bigode? Um cara que eu não conhecia e que se apresentou pra mim como Hélio
Russo. Achei aquilo uma liberalidade inaceitável! Uma quebra de segurança. E ele partiu pra cima de
mim, me afrontando: “Você tem que me levar lá! Tenho que ver o Coqueiro!” Tivemos uma discussão
ácida, eu disse que não levava de jeito nenhum; o Bigode quieto, na dele. Lá pelas tantas eu falei: “Quer
saber de uma coisa? O chefe dessa operação é o James Allen. Na ausência dele, é você, Bigode, quem dá
a palavra final.”
Bigode, segundo Hélio, ficou de “consultar a organização”. Um novo ponto foi marcado para o dia
seguinte, na mesma hora e no mesmo lugar. Antes de se despedir, Hélio pede a Bigode uma arma para
Coqueiro. Quando chega ali, 24 horas depois, Hélio encontra novamente Bigode com Russo. Este abre a
pasta que carregava e fala, mostrando um revólver calibre 38: “Olha aqui o presente do Coqueiro.”
E os três embarcam no fusca vermelho que a VAR comprara em nome de Hélio Pereira Carvalho,
rumo ao Cosme Velho.
Coqueiro logo demonstra conhecer Russo. Durante vinte minutos, meia hora, Coqueiro, Bigode, Russo
e Hélio conversam na sala do apartamento. Até que a conversa muda de rumo e Hélio acha que o assunto
não lhe diz respeito e que o melhor é afastar-se. Ao chegar à varanda, depara-se com dois homens na
sacada vizinha que, ao vê-lo, rapidamente se retiram. Hélio acha aquilo estranho e acende a luz amarela
para Bigode:
– Eu acho que nós estávamos sendo seguidos desde Copacabana. Aqueles dois homens eram muito
estranhos, pinta de cana, e avisei ao Bigode: “Isso aqui não está bom. Não está seguro.” Ao que o Bigode
me informou: “Nós vamos tirar ele daqui na segunda-feira.”
Segunda-feira era dali a três dias. No dia seguinte, sábado, 6 de fevereiro de 1971, em uma ação
espetacular, dezenas de policiais civis e agentes do DOI-Codi cercam o prédio do Cosme Velho.
Coqueiro ainda tenta fugir, mas é executado sumariamente na área interna do prédio. Horas antes,
precisamente às nove da manhã, policiais entraram no apartamento de Dilmar Miranda. Levado para as
dependências do Dops, na rua da Relação, na Lapa, Dilmar, considerado um “inocente útil”, é solto seis dias depois. Mas ele guarda vivo na memória o interrogatório:
– Você conhece este homem? – perguntaram-lhe, mostrando uma foto de Coqueiro.
– Conheço. É um amigo. Ficou hospedado na minha casa.
– Ele agora está à mão direita de Deus Padre. Levou mais de oitenta tiros – anunciaram, em tom de
bravata.
O diálogo que se seguiu, com a revelação de detalhes íntimos até, deu a Dilmar a certeza de que toda
aquela operação era fruto de infiltração.
No mesmo dia 6 de fevereiro em que Dilmar cai e Coqueiro é morto, Lourdinha é presa em Recife,
justamente quando, encerrado o trabalho do Incra, se preparava para tomar um ônibus e ir ao encontro
dos companheiros que, pensava ela, estariam reunidos na praia de Candeias.
– Eu ia me encontrar com a direção da VAR, que estava num sítio, ou numa praia, por ali, naqueles
arredores, uma loucura que me custou a alma – conta Lourdinha. – Eu deveria pegar um ônibus, dar a
volta todinha, e onde o ônibus parasse, como fim de linha, alguém estaria me esperando. Mas quando eu
saio da casa onde estava hospedada, alguém me pega e me bota num camburão e me leva diretamente ao
quartel da Polícia Militar de Recife.
Os agentes do Exército que a levaram tinham vindo naquele mesmo dia do Rio de Janeiro. Era
tipicamente uma operação casada, previamente planejada, orientada em informações. As primeiras horas
do interrogatório, já sob tortura, no pau de arara, Lourdinha viveu o drama e a dor de ganhar tempo para
que os dirigentes da VAR, que ela não sabia que já tinham se dispersado, se dessem conta de que ela
furara o ponto no final da linha do ônibus. Os policiais que a interrogavam não davam trégua e
demonstravam conhecer toda a articulação para a volta de Coqueiro ao Brasil. Em cima da mesa, em
destaque, descansava o retrato de seu companheiro, James Allen.
– Um retratinho pequenininho. E eles perguntavam: “Você sabe que ele é bandido?” – lembra
Lourdinha.
Transportada para o Rio de Janeiro, Maria de Lourdes Siqueira ficou onze meses presa. Passou pelo
DOI-Codi, pelo Campo de Gericinó, pelo 24o Batalhão de Carro de Combate, em Bonsucesso. Quando
saiu da cadeia, no dia 19 de novembro de 1971, não viu mais nem Bigode nem Breno. O reencontro com
a mãe foi a lição de amor incondicional. Até hoje Lourdinha não sabe ao certo o que lhe aconteceu,
depois da tragédia da rua Cosme Velho. Soube que ela ficou três dias desaparecida, até surgir na casa da
amiga e xará Lourdes, em busca de ajuda. A família de Lourdes mandou a mãe de Lourdinha de volta para
Codó, sua cidade de origem, no Maranhão.
Agora, ao ser procurada para lembrar Breno para este livro, Lourdinha fez questão de enviar um
depoimento de próprio punho, em que homenageia o companheiro:
O que eu mais aprendi com Breno: a dignidade pessoal de Breno era contagiante. Cada reunião de trabalho era um enriquecimento pessoal e político. Ele praticava um respeito pelas diferenças, sem nomeá-las, sem teorizá-las. Homem culto, paladar de uma formação consistente. Breno incorporava essa sabedoria ao que ele mais acreditava: a revolução para transformar a sociedade, historicamente desigual e preconceituosa com as pessoas.
ANTÓNIO JOAQUIM DE SOUZA MACHADO, o Bigode, nasceu em 1939, um mês e um dia depois de Breno,
também em Minas. Os dois foram contemporâneos na UFMG. Entraram para a faculdade no mesmo ano.
Breno, na sociologia, Bigode, no direito. Como Breno, Bigode foi líder estudantil. Integrante da JEC e da
JUC, participou da formação da AP, também foi perseguido após o golpe de 1964 e obrigado a
interromper os estudos. Por isso, ambos se formaram após o tempo regulamentar, no mesmo ano, em
1965. As coincidências, infelizmente, não param aí. Aos 31 anos de idade, Bigode desapareceu sem
deixar pista, no Rio de Janeiro, no dia 15 de fevereiro de 1971. Como Breno.
De família abastada, influente e numerosa – o pai, Joaquim Maria de Souza, fazendeiro e vereador
pela UDN na cidade de Pompeu, oeste de Minas, teve vinte filhos –, Antônio Joaquim integrava o grupo
de apoio da regional Guanabara da VAR. Vinculado ao setor de logística, a ele cabia fornecer
documentação fria e boa, inclusive passaportes, para o ir e vir dos clandestinos. A despeito da
importância estratégica dessa função, ele estava mais próximo de um simpatizante do que de um militante.
À época de seu desaparecimento, Bigode andava decepcionado com a política. Mais de uma vez, Rafton
Leão ouvira-o se queixar: “Estou fazendo a mais, vocês estão exigindo demais de mim.”
Amiga desde os tempos de AP e contato permanente na VAR, Rosalina Santa Cruz percebia o
abatimento de Bigode:
– Ele estava meio desiludido e muito visado, porque o trabalho dele envolvia a saída para o exterior.
O Bigode era mais velho que a gente e estava querendo outro tipo de discussão, na linha da contracultura,
do feminismo, das diferenças… Ele estava mais interessado em Wilhelm Reich. Nos contatos que a gente
fazia, ele queria discutir A função do orgasmo, do Reich. Isso me encantava.
Mas outras escolhas já haviam sido feitas. Bigode tomou um baita susto quando, ao chegar em casa,
num certo dia de dezembro de 1970, foi abordado, ainda na portaria do prédio, por James Allen Luz, um
cara procuradíssimo, que deveria estar em qualquer lugar, menos no Brasil, e muito menos na porta da
casa dele. Na abordagem, James Allen pede a Bigode um ponto com Breno.
Bigode foi ter com Rosalina, que é quem conta toda essa história:
– O Bigode falou: “Olha, tem um cara que chegou de Cuba, que é um cara superbarra-pesada, e ele
precisa do contato com o Breno”.
Bigode conhecia bem Breno, mas, naquele momento de clandestinidade severa, não chegava
diretamente a ele. O contato teria de ser feito por intermédio de Sergio Campos, o dirigente da regional
Guanabara. Rosalina fez a ponte, James Allen e Breno se encontraram e, juntos, antes de viajarem para o
congresso de Recife, deixaram montada a operação de volta do Coqueiro. Nunca mais, porém, Bigode
teria sossego. Segundo depoimento de Rosalina Santa Cruz, um certo Grego pressionava para conhecer o
paradeiro de Coqueiro. Bigode negava o acesso. Grego insistia. Bigode resistiu, mas, enfim, cedeu.
GREGO OU RUSSO, ele é um dos fios da intrincada malha de hipóteses, suspeitas, conjecturas e ilações que
envolvem em densa nebulosa a queda de Coqueiro, a primeira de uma série de outras, que podem ou não
estar diretamente vinculadas, e que vão dar no desaparecimento de Breno. Os que sobreviveram não
hesitam em apontar o sujeito com pinta de estrangeiro, trazido para a VAR pelo dirigente James Allen,
como o agente infiltrado responsável pela sucessão de quedas. O codinome Grego ou Russo aparece
insistentemente nos depoimentos de vários militantes. Mas não se podem descartar outros pontos
vulneráveis dessa trama, como o caso de dois despachantes do Rio, presos dois dias depois da morte de
Coqueiro, em um escritório na avenida 13 de Maio, no Centro. É no mínimo intrigante a notícia publicada
pelo Jornal do Brasil, sob o título “Dops e Exército fecham escritório no Centro prendendo
responsáveis”, na edição de 9 de fevereiro, à página 20:
O Dops e o Exército, em ação conjunta, fecharam na tarde de ontem o escritório em que, além de dois despachantes, funcionava uma agência de empregos e uma carteira de empréstimos (grupos 515 e 704 do edifício Darke, na avenida Treze de Maio 23), prendendo seus responsáveis. … Agentes do Dops ou e do Exército que realizaram a operação revelaram, ainda, que os órgãos de segurança vinham observando há algum tempo os escritórios, porque havia indícios de que os despachantes que neles trabalhavam estavam falsificando documentos para terroristas banidos voltarem ao país, como foi o caso de Ederval (sic) Alves Coqueiro, que morreu sábado ….
Qualquer associação com os espelhos de documentos brasileiros, em especial passaportes, levados
por Hélio Carvalho para o Uruguai, quando fora buscar Coqueiro, não é mera coincidência. A resposta
para tantas perguntas sobre a morte de Coqueiro, o desaparecimento de Breno e o do próprio Bigode, pode estar na rede de falsificação de passaportes. Não por acaso, na semana que antecedeu seu
desaparecimento, Bigode estava apavorado:
– Quando Coqueiro morreu, Bigode suspeitou de infiltração. E ficou com muito medo. Afinal, caiu um
esquema muito próximo a ele. E o Bigode não queria se envolver mais. Ele dizia que não queria mais.
Ele falava: “Isso não tem segurança” – lembra Rosalina Santa Cruz.
A semana que se seguiu à morte de Coqueiro foi de corda esticada. Percebendo o cerco, Bigode deixa
a casa onde até então mantinha uma vida legal e entra na clandestinidade. Noite dessas, encontra
Rosalina, seu marido, Geraldo Leite, e Sergio Campos na lanchonete Chaplin, na rua Visconde de Pirajá,
em Ipanema, a três quadras da pensão onde Breno se esconde, na rua Farme de Amoedo. É Sergio
Campos quem relata:
– Naquela noite, no Chaplin, ele passou para nós três que estava amedrontado. Claramente, não era só
questão de desilusão. Tinha uma situação por trás dele.
E foi assim, amedrontado e “com uma situação por trás”, que Bigode chegou a Breno, pedindo pouso.
Breno acolheu Bigode, apenas por uma noite, a noite de 14 de fevereiro de 1971. Na manhã seguinte, a
manhã de 15 de fevereiro de 1971, em situações diferentes, Bigode e Breno desaparecem. Na mesma
noite, Sergio Campos, o Miguel, é preso.