Seu amigo esteve aqui

Cristina Chacel · Capítulo 15 de 26

Páginas do PDF

Seu amigo esteve aqui

O cerco se fecha

 

BRENO NÃO ERA DE DESACREDITAR DA LUTA. Nunca, porém, ela lhe pesara tanto nos ombros como naqueles

primeiros meses de 1970. Seus companheiros caíam, um a um, como cartas mal-equilibradas de um

castelo inexistente. Primeiro foi Espinosa, em novembro de 1969. No cerco ao aparelho em que ele se

encontrava, em Lins de Vasconcelos, Zona Norte do Rio, caíram também a mineira Maria Auxiliadora

Lara Barcellos, a Dora, grande amiga de Breno, e Chael Charles Schreier, morto na tortura catorze horas

após a prisão. Dois meses depois, em janeiro, Dilma, a amiga de Minas mais próxima, é presa em São

Paulo. Adiante, também em São Paulo, Gilberto Vasconcelos, o Giba. Antes do meio do ano, em junho,

Jorge Eduardo, que havia sido alçado à direção nacional, cai em Porto Alegre, junto com a companheira

Vera Lígia, outra amiga querida de Minas. Por fim, Cláudio Câmara é preso no Rio, junto com a

companheira, Olga D’Arc.

Não fazia nem um mês, Breno tinha estado com Olga em Belém. Ela fora lhe entregar dinheiro e

documentos. Morena, cor de jambo, estava louríssima. Por recomendação da organização, havia passado

água oxigenada nos cabelos. Foram dois dias agradáveis, juntos. Breno lhe apresentou a cidade, suas ruas

e praças, sombreadas pelas mangueiras frondosas. Visitaram o Museu Goeldi, caminharam pela margem

do rio, tomaram sorvete de taperebá. Agora ela estava presa, passando por suplícios que ele, Breno, não

suportava sequer imaginar.

Breno estava cada vez mais só. A queda de Carlos Araújo, em agosto de 1970, representava, para ele,

a perda de mais um interlocutor de peso. Já não havia mais quem trazer para a direção nacional, reduzida

a ele, Breno, e Mariano Joaquim da Silva, o Coronel, ou Loyola. Todos tinham caído. Alguns

começavam a engrossar a comunidade de exilados brasileiros no exterior. Argélia, Cuba e sobretudo o

Chile, que então experimentava um governo socialista, com Salvador Allende na Presidência, foram

alguns dos países que acolheram banidos e perseguidos pela ditadura militar brasileira.

O dilema sair do país ou continuar na luta já era, então, pauta irrecorrível dos grupos de resistência

armada, crescentemente acuados pela repressão. Mas quem pensava em sair e desistir da luta era logo

tachado de “desbundado”. Destoando da maioria dos dirigentes, Breno modulava sua posição de acordo

com a biografia e o pendor de cada militante. Sabia discriminar histórias e respeitar diferenças. Havia

nele uma compreensão generosa sobre as escolhas de cada um. Foi assim com o amigo Rafton

Nascimento Leão, o Gordo Mendes, velho companheiro da Polop de Goiás, que acompanhou o racha de

1967, organizou o núcleo dissidente em Goiânia e, deslocado para o Rio, trilhou o percurso que

desembocou na VAR. Um dirigente de expressão que, não fazia dois meses, o procurara para conversar.

Queria sair.

– Eu decidi ir embora do Brasil. Eu achava que não valia a pena ficar. Mas essa não era uma decisão

fácil, porque sair era trair a luta e os companheiros. Sofri muito com isso. E fui conversar com o Breno.

Eu gostava muito dele, a gente era muito amigo. A gente se conhecia desde antes de 1964. Ele ia muito a

Goiás e ficava na minha casa. Minha mãe dizia assim: “Aquele seu amigo bonito chegou” – lembra

Rafton.

Gordo Mendes foi o primeiro a sair do Brasil na condição de militante da organização. A decisão,

comunicada pelo dirigente regional, Sergio Campos, o Miguel, tinha um caráter inédito, porque, naquele momento, quem saía automaticamente se desligava da luta. Esta, contudo, não aliviou o drama de

consciência e de existência de Rafton. Ele conta:

– Eu era superprocurado. Achava que não devia ficar e ao mesmo tempo me sentia o maior traidor do

mundo, porque estava indo embora. É muito doloroso. Você fica muito mal, porque é a sua luta, você deu

a vida por aquilo e, de repente, você vê que não dá mais, não tem mais condição.

Antes de sair, Rafton deixou um documento para a organização:

– Escrevi um papelzinho de uma página, dizendo que devíamos nos desmobilizar, que as pessoas

deviam ir para o exterior, para se preservarem. E quem não quisesse ir, que fosse para o interior e ficasse

sozinho, isolado. O importante era preservar a pessoa, para que ela não morresse.

Se podia compreender e aceitar aqueles que escolhiam sair, como o amigo Rafton, Breno, para si, não

admitia tal hipótese:

– Nas muitas conversas que tivemos, eu insisti para que ele também fosse embora. Ele ficava bravo

comigo: “Ô Gordo, você está horroroso.” Ele não aceitava discutir. Esses caras, de direção, se

recusavam a fazer isso. Eram valentões demais. Eu não era tão valentão. Eu achava que estava na hora de

sair, não aguentava mais. Hoje vejo que eu tinha razão. Que pena que o Breno não aceitou essa coisa. Eu

saí em novembro de 1970. E sabe o que eu falei pra ele? Breno, você não dura seis meses aqui –

completa Rafton.

Também Osmar Mendonça, o Osmarzinho, outro antigo companheiro, discutiu seriamente com Breno a

saída para o exílio. A conversa aconteceu em um bar em Copacabana:

– Me lembro que a gente tomou vários chopes e eu tentei fazê-lo ver que não tinha alternativa pra ele.

Breno já estava com retrato pra todo lado. Ele nem pintava o cabelo, pô! Insisti muito. Se você sai,

Breno, a gente pode depois reconstruir a luta. Mas ele foi firme: “Olha, eu não posso te falar, mas eu

tenho como sobreviver e não cair nessa. Tenho forma de segurança. Eu não saio. Nem como última

saída.”

Com vontade férrea e quadros à míngua, Breno não economizava esforços para ampliar contatos.

Nessa direção, decide retomar as conversas com o MR-8, cujo interlocutor é Carlos Alberto Muniz. Com

a intermediação de Sergio Campos, Breno encontra-se com Muniz. O tema central é a Frente Armada,

uma articulação que envolve também os comandos da ALN, da VPR e do MRT e da qual nem a VAR nem

o PCBR participam. O encontro acontece em um desses botequins típicos de Copacabana, na rua Santa

Clara, que servem média, pão com manteiga e ovo frito. Os dois ocupam uma mesinha no fundo e

conversam por mais de uma hora, um tempo longo para as circunstâncias. É Muniz quem conta:

– Vivíamos um grau de isolamento na sociedade muito grande, mas havia uma convicção de que era

preciso lutar contra a ditadura, não tínhamos alternativa. Por outro lado, o sistema aprimorara suas

formas de repressão e nós estávamos sendo submetidos a um cerco. Essa era uma consciência objetiva.

Daí a gente passou a repensar essa forma de luta, e, nesse processo, articulamos o que chamamos de

Frente Armada. Eu cheguei a ter duas conversas com o James Allen, mas ele resistia muito a isso. Era

basicamente um ativista. Aí eu passei a discutir com o nosso Breno. Fiz pelo menos duas reuniões com

ele. Estávamos num processo de afinamento muito bom. A VAR estava pronta a se integrar a esse

movimento de revisão.

Determinado a não abandonar a luta, Breno arrisca, de tempos em tempos, fazer contato também com a

família. É claro que ele não deve procurar os parentes. Trata-se de uma norma de segurança elementar de

qualquer organização de esquerda. Mas Breno precisa avisar aos pais que as notícias veiculadas nos

jornais, atribuindo a ele o sequestro de um avião da companhia Cruzeiro do Sul, em julho de 1970, não

são verdadeiras. Ele não tem nada a ver com a história, curiosamente de responsabilidade de um

homônimo seu, um professor de filosofia, mineiro como ele, que desviara o avião para Cuba depois de

dar um desfalque de 32 mil cruzeiros no Colégio Santa Maria, de Nova Lima, onde trabalhava. A acolhida familiar, porém, já não é a mesma de outrora. Alguns parentes mandam recados. Querem

distância dele, um “terrorista procurado”. Em carta aos pais, Breno não esconde sua decepção:

Caros pais,

Conforme o bilhete que lhes mandei anteriormente, estou pelas bandas nacionais. A notícia dos jornais sobre o sequestro era fajuta. Pode expressar a confusão da ditadura, mesmo quando gasta tantos bilhões para tentar transformar o país num grande órgão de informação, num gigantesco dedo-duro. Mas se para os amigos a notícia é prejudicial, uma vez que não teve cunho político aberto (no sentido propagandista), sendo bom, então, desmenti-la, para os inimigos é boa, pois desconcerta-os, podem mesmo acreditar que saí do país e isto me é favorável. Continuo o mesmo, isto é, com as pequenas modificações que se operam dia a dia, novos conhecimentos, maior experiência de vida, vou ficando mais calejado e, por que não dizer, mais humano. E mais revolucionário, portanto. Os dois, o humanismo (revolucionário) e a Revolução são irmãos siameses, compõem os polos dialéticos de uma unidade indissolúvel.

E são essas “acontecências” que nos tornam menos afetos a insignificâncias. Não há tempo a perder com coisas menores. … Estou bem.

As relações com o resto da família também não são das melhores. Há uns dois meses, notei em alguns deles um certo pavor ao me verem. Não os incomodo mais. Deixe que vivam a vida pequeno-burguesa medíocre e sem significado. Defendem sua falsa segurança com unhas e dentes. Não tenho, já disse, rancores. Mas sim pena, muita pena. Recomende-me aos que ainda não entraram no círculo do pânico.

Abraça-lhe o filho

Beto

 

Beto. Há quanto tempo deixara de ser Beto? Nem ele mais se lembra. Mas se há algo que não lhe

interessa, nesse momento, é lembrar. É preciso seguir em frente. E seguir em frente, agora, é manter a

militância mobilizada, ampliar contatos e convocar um novo congresso, um encontro nacional da

organização, para reavaliar programas e eleger um novo comando. A série de reuniões preparatórias para

o congresso de Recife leva Breno a viajar praticamente durante todo o segundo semestre de 1970. No

papel de dirigente nacional da VAR-Palmares, ele desconhece distâncias. Concentra suas andanças no

Norte. Uma semana está em Belém, na outra, em Fortaleza, na seguinte em Recife, depois volta a Belém,

passando por Imperatriz, no Maranhão, e de novo faz um confere em Recife, antes de alcançar, numa

estirada só, o Rio de Janeiro.

O Rio é um ponto de apoio permanente e é onde se encontra a maior base da VAR. Para Breno, é como

estar mais perto de casa. Ele conhece bem a cidade, em especial a Zona Sul, onde transita com uma

desenvoltura impressionante para quem vive clandestino e é intensamente procurado. Enquanto a maioria

dos militantes circulava pela Zona Norte e pelos subúrbios mais pobres da cidade, Breno andava por

Copacabana, Ipanema, Botafogo. A quem o questionava, ele explicava:

– Eu, na Zona Norte, sou um estrangeiro. Pelo meu tipo físico, eu me dou bem aqui, na Zona Sul. Lá eu

sou diferente. Aqui eu sou igual, eu transito.

Breno aproveita a passagem pelo Rio para fazer uma reunião ampliada, que contou também com a

participação do Grupo de Ações Violentas (GAV), braço armado da organização. O encontro, de dois

dias, acontece em um prédio monumental do Centro do Rio, de frente para a avenida Presidente Vargas,

conhecido pelo sugestivo nome de Balança Mas Não Cai. Apesar de Breno não andar armado, ali todos,

inclusive ele, recebem uma arma, que, subentendia-se, era para ser usada caso fossem surpreendidos por

um cerco. Pelas normas de segurança de praxe, apenas um deles fazia a fachada, entrava e saía do

aparelho, atendia a porta. E essa pessoa havia justamente saído quando a campainha toca. Ninguém

estava sendo esperado. Rapidamente todos se entreolham, pegam suas armas e assumem posição de

combate. O silêncio é quebrado por Geraldo Leite, o Marcelo, que pergunta: “Alguém sabe em que andar

estamos?”

Estavam no oitavo andar de um prédio modernista, com lojas embaixo, o que deveria representar o

décimo pavimento, a uma altura nada recomendável para um salto, em situação de fuga. Quando a porta é,

enfim, aberta, do outro lado está um militante da organização que, entretanto, não deveria estar ali, por

algum motivo. Encerrado o suspense, Breno toma a palavra e interpela o grupo:

– Se fosse a repressão, o que nós faríamos? Vamos resistir aqui dentro? Nós iríamos resistir aqui?

Porque, se estamos no oitavo andar, vamos manter o fogo aqui. Quantas balas nós temos? Eles têm muito mais balas que a gente. Então vamos reservar uma bala pra nós? Eu acho que isso tem que ser discutido.

Se eu for preso, eu vou morrer na tortura. Eu jamais vou entregar nada pros caras. E pelo que eu sei e

eles sabem que eu sei, eles não vão permitir isso, eu vou ser morto. Então eu tenho que atirar, tentar fugir,

se for o caso, até tentar o suicídio, porque eu não quero morrer numa tortura. Mas eu não sei se este é o

caso de todo mundo aqui. Vocês são pessoas que detêm tantas informações que precisam ser mortas pela

repressão, por isso preferem morrer trocando tiro? Vamos reagir sem nenhuma possibilidade de fuga?

Nós estamos aqui na ratoeira. É bom que vocês pensem nisso. Eu tenho uma situação peculiar que é

minha, isso já está interiorizado. A minha posição é clara: eu não posso ser preso, porque eu vou ser

morto, não tem nenhuma chance de eu escapar. Gostaria que vocês refletissem sobre isso, discutissem,

mas não aqui. Vamos continuar nossa reunião.

Foi a primeira vez que Geraldo Leite, militante com vida legal preservada, pensou sobre andar ou não

armado. Até ali, ele não tinha participado de qualquer ação. Teoricamente, não estava marcado para

morrer. Essa era uma condição de Breno. Que tinha perfeita consciência dela.