Seu amigo esteve aqui
O campo em foco
O M ENINO DA ÁREA não era da Área, nem pertencia a nenhuma organização. De uma família de judeus
poloneses progressistas enraizada em Copacabana, ele recebera uma boa educação, que incluía uma
visão crítica do mundo e das coisas. O avô era seu exemplo de dimensão humana – imigrante, embora lhe
doesse na alma o exílio e a perseguição antissemita, era incapaz de botar o pé em um clube sionista. Não
por acaso, portanto, o Menino da Área, do alto dos seus dezoito anos, tinha um pensamento de esquerda.
Mas nem por isso, sublinhe-se, esse estudante de engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro
(UFRJ) mergulhou de cabeça no movimento estudantil, como acontecia com muitos jovens então. Era
apenas um simpatizante. E foi como tal que chegou a participar de reuniões com alguns grupos de luta
armada que recrutavam militantes. Apesar de tudo isso, o Menino da Área, que não era da Área nem
pertencia a nenhuma organização, desafiou o improvável e meteu-se numa baita enrascada.
De um modo geral, Fernando Goldfarb, o Menino da Área, como era chamado pelos companheiros do
Rio, ou Ricardo, codinome adotado no Norte do país, via com desconfiança as posições mais radicais.
Mas quando o amigo que tinha ligações com a VAR-Palmares pediu a sua ajuda para esconder um grupo
de militantes tremendamente procurados pela repressão, ele pensou no avô, na grande lição de
solidariedade que tinha em casa. O apelo era forte. Dias antes, em 27 de junho de 1969, um estudante de
engenharia como ele – Reinaldo Silveira Pimenta – morrera acuado por agentes da polícia política. Era
do MR-8, dissidência estudantil do PCB de Niterói. O aparelho que ele ocupava fora invadido e, em
circunstâncias mal-explicadas, caiu da janela e morreu. Tratava-se de mais um desdobramento da prisão
de dirigentes dessa organização, ocorrida meses antes, quando tentavam implantar a guerrilha rural em
uma área no oeste do Paraná. Agora, o grupo estava esfacelado. Sobravam quatro jovens, desarticulados
e queimados, que precisavam ser escondidos. E foi aí que o companheiro da VAR surgiu, naquela manhã
ensolarada e inóspita, no campus da UFRJ, na Ilha do Fundão. Teria Goldfarb algum lugar para levar
esses quatro remanescentes do MR-8?
Um pequeno apartamento da família, onde desde a infância passava as férias escolares, na cidade
serrana de Teresópolis, poderia servir de abrigo por algum tempo. Para transportar os jovens até lá, a
VAR montou um cinturão de segurança. No comboio formado por três carros seguiam, nas pontas, os
dirigentes da regional Guanabara da organização e, no meio, Goldfarb e os quatro militantes do MR-8. A
temporada na serra, porém, seria curta. Não chegaria a uma semana. Encarregado de dar assistência ao
grupo, levando provimentos em intervalos específicos e notícias do front externo, Goldfarb deixou de
cumprir um desses pontos, por desaviso e falha da direção regional. Quando, enfim, voltou ao local, não
encontrou mais ninguém.
– Eu fui uma ou duas vezes. Na terceira, ainda na rua, em frente ao prédio, um cara forte, com pinta de
milico, me cumprimenta. Eu estranho, mas penso que talvez seja algum conhecido de quem eu não estou
me recordando, afinal frequento este apartamento desde pequeno, todos me conhecem… Quando passo
pelo porteiro, ele solta o comentário: “Que coisa, hein? Com que amigos você se meteu!” Subo e
encontro o apartamento vazio, todo revirado, quebrado… Quando eu faltei ao tal do ponto, eles
imediatamente deixaram o apartamento, mas dois foram logo presos e revelaram o endereço – conta
Goldfarb, quarenta anos depois, sobre o momento em que caiu na clandestinidade.
Três meses depois, em setembro de 1969, uma foto de Fernando Goldfarb aparecia em cadeia
nacional, no Repórter Esso, então o telejornal mais importante do país, confundido com um dos
sequestradores do embaixador americano Charles Elbrick. A direção da VAR-Palmares, que tinha
acabado de desfazer a fusão com a VPR, agiu rápido: era preciso tirar o Menino do fogo. E é Breno quem
vai levá-lo para a cidade de Belém, no Pará, base urbana de apoio logístico da Área Estratégica
mapeada para a implantação do foco guerrilheiro da VAR.
Mesmo acuado e pressionado pelo tempo, Goldfarb pesou as consequências daquela decisão em sua
vida. A família acenava com uma oportunidade de sair do país. Ele poderia ir embora. Seus laços
familiares eram fortes. E nunca desejara mesmo se engajar na militância. Por outro lado, acreditava ser
aquele um momento histórico, queria ter algum grau de participação relevante nele. Escolheu ficar. E
Breno teve muito a ver com essa escolha. Ele relembra:
– O Breno foi uma pessoa marcante pra mim em termos de generosidade, de uma pessoa séria, não
radical, por incrível que pareça, e que despertava uma liderança ponderada. Poderia ter sido um grande
líder político. Ele me inspirava. Ele foi um fator importante para me manter dentro de um trilho… Vendo
retrospectivamente, o trilho da furada, né? Mas naquele momento… Tudo sempre tem dois lados. O
pouquíssimo contato que eu tive com ele, em comparação a outras pessoas que eu conheci na esquerda,
foi inspirador. Ele transmitia valores, seriedade, alguma coisa assim muito consistente, o que, inclusive,
fez com que eu mudasse de posição e assumisse a VAR. Lembro alguns traços dele simbólicos. Nunca
esqueci. Como, por exemplo, o de não andar armado. O Breno não gostava de andar armado.
O caminho até chegar ao norte do Brasil foi longo. No primeiro mês o Menino ficou escondido no Rio
mesmo, na distante Sepetiba, bairro da Zona Oeste da cidade, banhado pela baía de mesmo nome, cujas
praias eram recomendadas por seu lodo medicinal. Não punha a cara na rua. Dali, a primeira escala foi
Salvador, onde fez contato com um casal da organização para, em seguida, alcançar Fortaleza. Na capital
cearense, os contatos na universidade cuidaram para que ele obtivesse uma certidão de nascimento, sua
nova identidade.
É como um brasileiro natural do Ceará que ele chega em Belém. Com a certidão de nascimento, tira
carteira de trabalho e título de eleitor. A ordem era manter uma fachada de legalidade, buscar
enraizamento social e atuar na formação política de sua comunidade, ou seja, fazer o chamado trabalho
de massa, até que, no momento certo, fosse erguida a ponte entre o cinturão urbano, Belém, e a Área
Estratégica, no interior, palco da futura guerrilha. Mas essa era uma perspectiva de longo prazo.
Nos três anos em que viveu em Belém, Fernando Goldfarb trabalhou como fotógrafo. Registrava
aniversários, casamentos e batizados, ofício com o qual desenvolvia laços afetivos em meios familiares.
Viveu uma vida humilde, em favela, totalmente diferente daquela experimentada na casa dos pais,
cercada de conforto, como o de um telefone no quarto no tempo em que telefones eram artigos de luxo em
todo o território nacional. Ali se casou e teve uma filha. Nunca recebeu um tostão da organização. Ao
contrário, por mais de uma vez contribuiu com alguma monta, oferecida por sua família.
Encontrou Breno duas ou três vezes, em intervalos relativamente curtos, somente no primeiro ano, em
1970. Sob seu comando, trocou informações com os outros militantes urbanos da base, cobriu pontos, fez
operações de câmbio dos dólares do Ademar, participou de reuniões, inclusive duas preparatórias para o
congresso da organização, que aconteceria em Recife, mas isso ele não sabia. Até que, um dia, Breno não
veio. Soube, por militantes, que ele havia sido preso.
O que veio depois, Goldfarb não gostou. O novo comando nacional da VAR era explicitamente
militarista, secundarizava o trabalho de massa. Talvez, mais que isso, desprezasse-o. Para ele, o sucessor
de Breno, James Allen Luz, era uma figura demasiado extravagante, que andava fortemente armado,
chegava botando banca, falando alto, contando vantagem. Definitivamente, ele não tinha nada a ver com
aquilo tudo. Por isso, aos poucos, foi se isolando. E isolou-se até ficar só. Depois, por sua própria conta e risco, exilou-se no Chile. Com Allende deposto, tornou a partir, via embaixada de Israel, dessa vez
para a Suécia, onde concluiu os estudos, formando-se em economia. Foi um entre tantos elos perdidos na
luta de resistência à ditadura militar no Brasil.
JANEIRO DE 1970. Na ensolarada Salvador de tão boas lembranças, da adolescência protegida na
companhia dos pais e dos irmãos, Beto, agora Breno, admira o navio de passageiros fundeado na baía de
Todos os Santos. Está quase na hora de embarcar no Princesa Leopoldina, do Lloyd Brasileiro, um
orgulho nacional, sem dúvida. À sua frente, a linha do horizonte é seu destino. Sente no rosto a brisa
fresca que vem do mar. Enquanto espera, vai repassando os acontecimentos dos últimos dias na Bahia.
Lembra-se do encontro inesperado com Élvio Moreira, no Elevador Lacerda, o abraço afetuoso do amigo
com quem tinha ido a Cuba. Élvio, quem diria, viajava em lua de mel. Bonita e simpática a Iasca, mulher
dele. Foi um dia muito bom, aquele, pegando jacaré no mar da Pituba, conversa boa. Élvio havia militado
com ele até a formação da Colina, mas, ainda naqueles dias, mantinha-se firme, atuando aqui e ali como
simpatizante da VAR. Era bom saber que podia contar com o amigo.
Breno respira fundo. O outro lado da solidão é a liberdade. Por mais absurdo que pareça, ele pensa,
há na clandestinidade uma dose curiosa de liberdade. A liberdade de ser outro sem que ninguém saiba,
por exemplo. A liberdade de desafiar o óbvio na conduta trivial de tomar um navio, como se fosse
qualquer um, e não um “terrorista” procurado. E, ainda assim, ele não se transfigurava. Era como um
cidadão comum, um rapaz qualquer, que Breno ousava entrar em uma embarcação de propriedade do
governo brasileiro, o mesmo governo que o perseguia. Havia liberdade na vida ordinária. E, para Breno,
a vida ordinária era uma ousadia.
Era um tipo discreto o sujeito que ocupava o leito superior ao seu, no beliche do camarote. Baixo,
mulato, de poucas palavras, mas decerto afável. Melhor que a encomenda, avaliou Breno, pensando na
convivência obrigatória por oito dias, o tempo da viagem até Belém, incluindo a escala em Recife. Não
tardaria a descobrir, porém, que aquele encontro ordinário produziria desdobramentos extraordinários.
Sebastião da Silva Ramalho era, antes de tudo, um homem de bem. Baiano da diminuta Buerarema, antiga
Macuco, no sul do estado – Breno descobriria mais tarde –, até os 21 anos ele viveu sem o conforto da
energia elétrica e sua escolaridade resumia-se ao curso primário. Salvou-o uma professora que lhe
emprestava os livros que conseguia arranjar, assegurando-lhe o acesso a uma biblioteca sortida e
disparatada, de manuais técnicos e histórias em quadrinhos a Euclides da Cunha. Devorador de livros,
com essa formação eclética Sebastião, enfim, obteve uma vaga no ginásio de sua cidade. O ensino médio
ele alcançou já em Belém, para onde se mudou chamado pela irmã, que lá vivia. E em Belém fez
faculdade. Economista, trabalhava no Basa, o Banco da Amazônia. Todas essas etapas foram escaladas
por meio de concursos públicos. Cinco anos mais velho que Breno, naquele momento ele voltava de uma
temporada de férias no estado natal.
Desde o primeiro instante as circunstâncias pareciam favorecer aquela amizade. Pela organização do
navio, os companheiros de camarote também eram, forçosamente, companheiros de mesa, de sorte que
Breno e Sebastião passaram a compartilhar o momento das refeições, o que, para Breno, beirava o
sagrado. Além de bom cozinheiro, era bom de garfo. Gostava de tudo e não temia experimentar novos
sabores. Sebastião, mais comedido, beneficiava-se do excelente humor do colega, potencializado pelo
prazer à mesa. A conversa fluía sem esforço em torno, basicamente, de música, literatura, cinema… Aqui
e ali, um e outro iam percebendo e registrando não só as afinidades culturais, mas os pendores na política
que escapuliam dos pequenos detalhes. Ali se reconheciam, paulatinamente, dois homens de esquerda.
Nos dias em curso, de descarada ditadura, todo cuidado era pouco. Fossem aqueles dois cidadãos
alienados do mundo e das coisas em volta, já se recomendaria cautela. O Brasil inteiro sussurrava, andando de lado, fugindo da marola. Por princípio, ninguém confiava em ninguém. Com a vida em risco e
treinado na prática clandestina, Breno tinha razões de sobra para fechar-se em copas e esperar, quieto, o
tempo passar. “Não confie em ninguém com mais de trinta anos” era o hit da hora, e tanto ele quanto
Sebastião já haviam passado dos trinta. Mas confiaram um no outro.
A escala em Recife ajudou. Com o dia livre para um passeio, os dois desceram no porto e seguiram
direto para Olinda. Três moças bonitas e felizes, com as quais já tinham confraternizado no navio, foram
com eles. Juntos, formavam o típico grupo de turistas disposto a extrair diversão das mínimas coisas. Ao
se deparar com um dos meninos que trabalhavam como guia turístico narrando a história de Olinda,
Breno sugeriu ao garoto, que caprichava no texto decorado: “Não fale assim, fale de você mesmo.” Mais
um detalhe que não passou despercebido por Sebastião. Adiante, Breno, que se deixara fotografar pelo
colega de viagem, quando chamado a compor uma foto de lembrança para as moças, puxou o novo amigo
num canto e confidenciou, não sem aflição: “Não posso ser fotografado. Estou sendo procurado.” E mais
não disse. Sebastião não retrucou. A confiança já se instalara entre eles. Breno abraçou as meninas,
enquanto Tião, empunhando a câmera delas, tratou de inutilizar os fotogramas, obstruindo o visor com o
dedo indicador.
Ao desembarcarem em Belém, logo depois do aniversário de Tião, comemorado em 20 de janeiro,
justamente o Dia de São Sebastião, um já sabia tudo sobre o outro. Ou quase tudo. Pelo menos, o tudo
que importava naquele momento. Breno estava em Belém para implantar uma base da VAR-Palmares na
cidade. Tião Ramalho, o Baiano, tornara-se, para ele, estratégico, pois conhecia todo mundo na cidade e
sabia exatamente quem recrutar para a organização. Baiano, por sua vez, encontrara em Breno uma nova
bússola política. Ele, que começara sua trajetória na esquerda pelo Partidão, acabara de se desligar da
ALN. Nas duas organizações, sentiu-se instrumentalizado, sem espaço para discutir as ordens, que
vinham prontas, “de cima”. Sem falar na disputa de vaidades a fomentar rachas e frações. Breno era um
dirigente diferente:
– Breno não tinha nada de autoritário. Era uma pessoa sociável, afável, humana – relembra Sebastião.
Dias depois, Breno comandava a primeira reunião da base de Belém na casa de Sebastião. É quando
conhece Roberto e Margaret.
– BRASIL! BRASIL! BRASIL!
Margaret tomou um susto quando viu Breno entrar inesperadamente na casa de Tião Ramalho
comemorando o que ninguém tinha coragem de comemorar. Por um instante, a cabeça de Margaret
mergulha num turbilhão de conflitos. A seleção brasileira na Copa de 1970 vinha sendo usada de uma
forma repugnante pela ditadura para obter aprovação popular. Ópio do povo! Esse era o papel do futebol
no regime do general Emílio Garrastazu Médici. Como Breno podia torcer pelo triunfo de uma campanha
a serviço do país do “milagre econômico”, da censura à imprensa, da perseguição política, da hipocrisia,
da repressão e da tortura? No instante seguinte, um sentimento de alívio atravessa todo o corpo de
Margaret, como um oxigênio novo a circular por vasos e artérias, limpando tudo pelo caminho, até se
expandir numa explosão de alegria: Brasil! Brasil! Brasil! Sim, eles também podiam torcer, vibrar com o
engenho e a arte dos jogadores da camisa verde e amarela. Breno, um revolucionário acima de qualquer
suspeita, de uma coerência a toda prova, lhe ensinava, naquele momento, mais uma lição de liberdade.
Já então a jovem aspirante a assistente social e estudante da Escola de Teatro da Universidade
Federal do Pará (UFPA) adquirira uma confiança política inabalável em Breno. Militante da Ação
Popular, Margaret andava descontente com a inércia da organização, boa de papo e fraca de ação, quando
em outros países vizinhos da América Latina a guerrilha indicava novos rumos. Como ignorar o exemplo
de coragem e êxito dos Tupamaros, no Uruguai? O caminho era, sem dúvida, a luta armada. Não tinha outro! Assim, quando o Baiano, seis meses antes daquela tarde de Copa do Mundo, chamou-a para uma
reunião da VAR-Palmares, ela não hesitou. Desde então, passou a integrar a base logística da Área
Estratégica da VAR, em Belém, sob o comando de Breno.
– O Breno foi uma pessoa que veio com tanta clareza, ele era tão convincente, tão apaixonado, tão
bonito, tão cheio de energia no que ele dizia, que eu não tive dúvida: estava diante de um revolucionário.
Eu me apaixonei. Tudo que ele dizia eu achava ótimo. Eu conhecia muitos companheiros, mas nenhum
tinha aquela convicção, aquela clareza em expor os ideais, aquela inteligência. Na mesma hora eu quis
participar da VAR – conta a professora Margaret Refkalefski, hoje diretora da Escola de Teatro da
UFPA.
Passados quarenta anos, ela se esforça para lembrar o que treinou esquecer. Como a última vez que
viu Breno. Ela estava no Rio, de passagem, para participar do Festival de Teatro da Aldeia de Arcozelo,
em Paty do Alferes, cidade do interior fluminense. Caminhava por Copacabana quando, de repente, se vê
frente a frente com Breno. Um susto! Os dois se abraçam e Breno, ao saber que ela estava ali para um
festival de teatro, tem um impulso:
– Eu vou te dar um livro! – diz.
Em seguida, ele entra com Margaret numa livraria perto dali e compra para ela um exemplar de
Perseguição e assassinato de Jean-Paul Marat, de Peter Weiss. Primeiro grande sucesso do dramaturgo
alemão, a peça, de 1964, mergulha no conflito entre a individualidade e a necessidade da revolução. Bem
guardado por Margaret até os dias de hoje, o livro não tem dedicatória, como era de esperar de quem não
pode deixar rastros. O inesperado encontro aconteceu em janeiro de 1971, dias antes de Breno seguir
para o congresso de Recife e a menos de dois meses de ele desaparecer.
ROBERTO CORRÊA FORMAVA com Tião Ramalho a redação de O Papagaio, jornal estudantil da UFPA cujo
slogan era “é verde e amarelo, fala muito, incomoda e não apanha calado”. Produto do setor de Agitação
e Propaganda do Partidão, O Papagaio não fugia à estética da época. Datilografado em estêncil, numa
máquina de escrever elétrica IBM esférica do escritório do Banco da Amazônia, ultramoderna, que
permitia usar diferentes formatos de letras, era ilustrado com desenhos feitos com gilete e rodado em
mimeógrafo. A linha editorial era de combate à ditadura e, para tanto, a ordem era desafiar a censura.
Assunto de estudante que a imprensa local não noticiava, O Papagaio noticiava. Isso até 1968. Com o
AI-5, o jornal acabou e Roberto, assim como Tião, migrou para a ALN. Agora, iriam cerrar fileiras na
VAR-Palmares.
Junto com o pessoal do teatro, representado por Margaret, eles pareceram a Breno algo amadores.
“Esquerda festiva”, rotulou Breno, em confidência a Tião, ao condenar práticas que, para ele, eram
abertas demais. Mas Breno sabia que não podia esperar encontrar em Belém, de imediato, um
amadurecimento político como o seu, àquela altura um dirigente clandestino veterano da resistência. Era
preciso formar o pessoal. A começar pelas normas de segurança. Quanto possível, todos deveriam
manter-se na legalidade e, quando inviável, ao menos criar uma fachada de legalidade, como o Menino
da Área, que se juntara ao grupo atendendo pelo nome de Ricardo.
Tião, Roberto, Margaret e Goldfarb desconheciam as atividades uns dos outros. Tampouco sabiam o
que fazia a médica Ana, ou Alberto, que, parece, era casado com Sara, que, por sua vez, não era de
Belém, mas estava sempre na cidade, ia e voltava. Ou, ainda, Carlos, também chamado de Baiano e de
Maneco, que, como Breno, também desapareceria. Foi preso em 1973 e dele nada mais se soube, até os
dias de hoje. Nem mesmo o nome verdadeiro, o que impede sua inclusão na lista de desaparecidos
políticos e qualquer investigação oficial.
Juntos, Tião, Roberto, Margaret e Goldfarb, Ana, Alberto, Sara e Maneco formavam o primeiro núcleo da VAR-Palmares em Belém, constituído por Breno. Encontravam-se esporadicamente – cobriam
pontos, que podiam se desdobrar, ou não, em outros pontos, ou em alguma tarefa específica. Como, por
exemplo, receber um camponês vindo das redondezas para uma consulta ao oftalmologista. Conta Tião:
– Ele estava ficando cego. Minha missão era pegá-lo lá na pedreira, em frente à igreja, levá-lo para a
consulta, comprar remédio e devolvê-lo no mesmo lugar em que o tinha pegado. Mas eu não sei de onde
ele tinha vindo, nem quem o havia trazido, mas era alguém que estava preparando a Área. Tinha uma
senha. Ele estaria esperando com um jornal dobrado debaixo do braço. Eu faria uma pergunta específica
sobre ponto de ônibus e ele responderia: “Meu senhor, eu não sou daqui, sou de fora e tal.” Aí eu veria
que era ele e diria: “Eu vim buscá-lo pra ir ao médico.”
Às vezes, alguns deles se encontravam para estudar. Afinal, a VAR tinha doutrina. Precisavam
entender a formação da sociedade brasileira e o faziam através da leitura de Caio Prado Jr. ou Nelson
Werneck Sodré. Também rodavam um jornal em mimeógrafo, distribuído nos bairros e em meios
universitários, onde Margaret contribuía com textos adaptados de peças com alta carga de crítica à
injustiça social, como Morte e vida severina, de João Cabral de Melo Neto.
– O fascinante, na VAR, era que a gente tinha a perspectiva de discutir os problemas – comenta
Margaret, o que era algo pouco comum naqueles anos de chumbo.
Ricardo, o Menino da Área, era o contato da VAR. Para Tião, ele era o representante da organização
que trazia informações e instruções do comando. Continua Tião:
– Nós marcávamos ponto no coreto da praça, na biblioteca pública, no museu, no bosque, só pra
conversar. Às vezes ele tinha uma novidade ou alguma coisa pra me dizer. Ou eu tinha que levá-lo pra
outro ponto, que ele não podia saber onde era. Aí eu pegava um táxi antes, ele ia me esperar numa
esquina tal, pra que eu pudesse dar o endereço ao motorista antes de ele entrar no carro. Aí ele baixava
os olhos, quando chegava no ponto, saltava, entrava… A gente tinha esse cuidado. Éramos muito
disciplinados.
Breno aparecia de tempos em tempos, em intervalos até curtos, considerando-se as distâncias
continentais do país. Por isso mesmo ele não podia precisar a data dos encontros. Certa vez, combinou
botar um anúncio nos classificados do Correio da Manhã, que chegava diariamente à capital paraense:
“Vende-se mobília colonial, por motivo de viagem, até o dia…” E o dia que saía publicado era o dia do
ponto. A hora e o local, eles acertavam previamente. Noutra vez, pediu a Tião que guardasse mil dólares,
oriundos do cofre do Ademar. Caso ele, Breno, caísse, o dinheiro deveria ser entregue, em moeda
brasileira, ao seu sucessor. Dito e feito.
Durante todo aquele ano de 1970, o núcleo de Belém não construiu pontes de comunicação com a Área
Estratégica. Nenhum de seus integrantes esteve no interior, ninguém sabia onde ficavam os campos de
treinamento. Sabia-se que era por ali, de Belém para o sul, em pelo menos dois lugares. A leste da cidade
de Imperatriz, no Maranhão, e na divisa do Pará com o estado de Goiás, na região em que o rio Tocantins
encontra o rio Araguaia e forma, no mapa do Brasil, o desenho do Bico do Papagaio.
– Eu achava que estavam preparando uma guerrilha por aí – resume Sebastião. – Eu tenho a impressão
de que Belém era uma base que estaria voltada para o interior. A base de contato. Eu não achava que o
nosso projeto fosse de longo prazo. Achava que eu era um instrumento diferente dentro desse contexto.
Minha missão era outra. Primeiro de tudo, eu sou avesso à violência física. Eu jamais participaria de um
enfrentamento para matar alguém, mas aceitava a luta armada como uma consequência inevitável daquilo
que a gente estava fazendo.
NA VERDADE E DE FATO, a grande missão revolucionária, na concepção da VAR, estava nas mãos da
população rural, das famílias de camponeses, formando comunidades no território delimitado para a implantação da Área Estratégica, o foco revolucionário. Por isso, os poucos contatos existentes no campo
eram valorizados. Ter um camponês por perto era estar mais perto da revolução. Não por outra razão,
Breno assumiu o resgate de uma família camponesa de Cachoeira de Macacu, no interior do Rio de
Janeiro, instalando-a em algum lugar da Área Estratégica, que, àquela altura, passara a funcionar como
esconderijo para militantes queimados ou desgarrados. Era o lugar mais seguro para gente como a família
de lavradores que escapou da repressão, em Cachoeira de Macacu. O pai, a mãe, uma filha com o marido
e mais dois adolescentes. O patriarca estava revoltado. A polícia matara o seu primogênito. Agora ele
queria fazer justiça com as próprias mãos e era preciso escondê-lo. A Área era um bom lugar, terra de
roça, estrada de chão, eles se adaptariam com facilidade e começariam a integração necessária à luta.
Breno resgatou a família de seu Pedro em Salvador, naquele mesmo janeiro em que embarcara num
navio do Lloyd para Belém. Geraldo Leite, o Marcelo, e Rosalina Santa Cruz, a Maria, eram os contatos.
Por pouco os camponeses não perdem o ponto. Foi preciso que Marcelo viesse às pressas, de avião, do
Rio de Janeiro, para reposicionar o encontro. No final deu tudo certo, à parte o aperto que Breno sentiu
no coração, com aquela família tão pobre e doída, tão sem lugar no mundo, sem história para guardar e
futuro para sonhar. Seu Pedro, dona Leopoldina, Sebastião, Joail. Gente que era, sem dúvida alguma, uma
boa razão para não desistir da luta. Gente, mais que isso, essencial à luta.
PODE-SE DIZER QUE O RELACIONAMENTO de Breno com o médico Carlos Brasil já era, em 1970, duradouro,
considerando os vínculos frágeis da época. Os dois haviam se conhecido no início de 1969, nas reuniões
que precederam a formação da VAR-Palmares no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro. Gaúcho de São
Jerônimo, cidade a sessenta quilômetros de Porto Alegre, Carlos Avelino Fonseca Brasil integrava o
grupo político de Carlos Araújo, o Max. Clínico geral, com passagem pelo Partidão, Brasil, codinome
Chico, reunia as melhores condições para conciliar a militância revolucionária com uma vida legal. A
prática, a rotina e a mística de um médico de família em cidade do interior constituíam a fachada mais
que perfeita a um trabalho de massa que pressupunha enraizamento e integração social. Para melhorar
ainda mais a proposta, Brasil tinha gosto pela vida rural. A missão de implantar a Área Estratégica caiu-
lhe confortavelmente, portanto, como a roupa bem-talhada do alfaiate.
Carlos Brasil participou do congresso de Teresópolis, realizado em setembro de 1969, quando a
VAR-Palmares sofreu o “racha dos sete” e foi desfeita a fusão com a VPR do capitão Carlos Lamarca.
Tão logo todos saíram da casa, ele foi embora da cidade serrana, na companhia de Breno, já com destino
certo: seguiria para o Norte, com o objetivo de se instalar, com a mulher e os filhos, em algum povoado
localizado no Bico do Papagaio. A escala no Rio de Janeiro servira para organizar a viagem. Em uma
concessionária de veículos, a velha Rural Willys de Brasil foi trocada por uma caminhonete Caravan,
zero-quilômetro, da Chevrolet. A diferença de preço entre um e outro carro, Breno pagou à vista, com os
dólares do cofre do Ademar, já devidamente convertidos em moeda brasileira.
Juntos, eles chegaram em Brasília, onde Breno aproveitou para conhecer Bruno, o sobrinho recém-
nascido, filho da irmã Norma, que morava na capital. Brasil, que há quatro meses fazia um estágio na
Universidade de Brasília, apanhou a família e retomou a viagem, com destino a Imperatriz, no Maranhão.
Mas, na altura de Estreito, à época uma pequena vila, pegou o rumo de Goiás até dar na cidadezinha de
Tocantinópolis, ao sul do Bico do Papagaio, nas margens do rio Tocantins, próxima a Araguatins, onde
havia um forte movimento camponês pela reforma agrária. Ali, o médico começou uma nova vida,
clinicando e se relacionando com a sociedade local, o que incluía a oligarquia política.
Brasil não tinha formação militar, e no período em que morou em Tocantinópolis, basicamente todo o
ano de 1970, só sacou a arma para atirar em raposa e em toco de árvore. Sabia que a missão que lhe
cabia era de longo prazo. Não militava na urgência. Pouco a pouco, conhecia as famílias da região, população ribeirinha para as quais dava atendimento médico. Não falava de política com elas, mas
percebia um certo nível de organização com a digital do PCdoB, também presente na região, na outra
margem do rio, na cidade de Porto Franco, no Maranhão.
Brasil julgava que Tocantinópolis era a única área de implantação de guerrilha da VAR. Ali, isolado,
sem saber o dia de amanhã, ele trabalhou, ganhou dinheiro, fez amigos. Não chegou a ter contato com o
grupo de Belém. Jamais soube da existência de Tião, Margaret, Roberto, Goldfarb… Seu único contato
com a organização era Breno, com quem tinha pontos espaçados, previamente marcados, na perspectiva
de seis meses à frente.
Certa feita, Breno mandou Raul Ellwanger cobrir um ponto com ele em Belém. Certamente porque
Raul, gaúcho como Brasil, o conhecia de Porto Alegre e, assim, poderia identificá-lo. Noutra ocasião,
porém, às vésperas do Natal de 1970, Breno não apareceu em um ponto marcado na entrada do Túnel
Novo, em Botafogo, no Rio de Janeiro. Convencido de que ele fora preso, Brasil, a bordo de sua
Caravan, pegou a estrada para Tocantinópolis, recolheu a família e voltou para casa, em Porto Alegre.
Sem contato com a organização, retomou sua vida original.
Carlos Brasil não escapou da repressão. Muito tempo depois daqueles dias vividos em
Tocantinópolis, já em 1975, ele foi preso em Porto Alegre. No interrogatório, agentes do Dops
perguntaram sobre sua atuação na VAR-Palmares, mas nada mencionaram sobre a Área Estratégica e,
muito menos, sobre Breno. Pouco tempo depois, ele foi transferido para uma prisão em Brasília, onde aí,
sim, quiseram saber sobre Tocantinópolis e sobre os amigos que lá fez, particularmente um, ligado ao
PCdoB. Mas também ali o nome Breno não surgiu nos interrogatórios. De Brasília, o médico foi levado
para a Operação Bandeirante (Oban), o centro de informações montado em São Paulo pelo Exército com
ajuda financeira de empresários. Lá, mais uma vez, ele foi interrogado sobre a militância na VAR, e, mais
uma vez, ninguém ligou seu nome ao de Breno.