Seu amigo esteve aqui

Cristina Chacel · Capítulo 2 de 26

Páginas do PDF

Seu amigo esteve aqui

Fim de linha

 

SEGUNDA-FEIRA, 15 DE FEVEREIRO DE 1971. Na plataforma de embarque da rodoviária do Rio de Janeiro,

Miguel vê Mariquinha acenar de dentro do ônibus. Não era um adeus. Em quinze dias, no máximo,

estariam juntos novamente. Ela ia ao Recife buscar suas poucas coisas e logo estaria de volta para morar

com ele. Marcaram o reencontro para depois do Carnaval.

O sol já está alto quando Miguel toma o lotação para Ipanema. O coração bate alegre. Por mais que as

circunstâncias não favoreçam laços de qualquer espécie, ele e Mariquinha apostam juras de amor. Pela

janela do ônibus, Miguel vê a vida passar, o ir e vir das pessoas a caminho do trabalho, alheias às

tensões daqueles que, como eles, viviam na clandestinidade. Cidadãos de vida legal – pensa. Vida de

rotinas, no prumo, sem risco. Nada que se aproxime do isolamento de uma existência precária,

provisória, sob cerco crescente. A cada dia, mais companheiros padecem os horrores da tortura nas

prisões da ditadura. Mas ali, pela janela, pessoas vivem um mundo completamente diferente do seu.

Sente-se um estrangeiro. “Brasil, ame-o ou deixe-o”, desafiam os militares. Não pode deixar a luta. A

solidão é imensa. Os dias passam sem ter o que fazer. As horas se arrastam dentro de um ônibus, sem

destino ou ponto final. Tardes vazias são gastas na sala escura de um cinema, em sucessivas sessões de

um mesmo filme. A prática revolucionária se resume a cumprir pontos, encontros clandestinos, cada vez

mais rápidos e fortuitos, em que se discute política e que servem para avisar: estou vivo.

Miguel sabe que sua militância é pouco produtiva. Move-se muito mais por razões de ética e de moral

do que, propriamente, pela convicção de que a luta tenha consistência para chegar a algum lugar. A

organização já não tem forças para ações de fôlego, capazes de abrir, de fato, o caminho para o

socialismo. A chegada a Ipanema interrompe seus pensamentos. Em estado de alerta, salta do ônibus,

entra na rua Farme de Amoedo e caminha até o número 135, onde é recebido pelo sorriso confiante de

Breno.

 

TUDO DERA ERRADO no congresso nacional que a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-

Palmares) realizara em Recife, no final de janeiro de 1971. Programado para durar até quinze dias, o

encontro acabou suspenso após uma semana, mesmo sem a eleição dos novos dirigentes nacionais da

organização. De volta ao Rio, Breno reencontrou Miguel em Copacabana, num ponto marcado desde o

Recife, e convidou o companheiro da direção regional da Guanabara a dividir o quarto de pensão em

Ipanema. Como tudo naquele tempo, é mais um contato provisório. Um dia, dois dias, três, não importa.

O que importa é recompor o grupo e reunir condições de resistir ao cerco da polícia.

Movimentos rápidos e precisos, Breno faz Miguel entrar e o põe a par dos últimos acontecimentos.

Naquele mesmo quarto, na noite anterior, recebera Bigode, também militante da regional Guanabara, um

dos encarregados da fracassada operação de retorno de Aderval Alves Coqueiro, o primeiro banido que

voltara para o Brasil. Acuado e desorientado desde que Coqueiro fora morto, Bigode há dias

perambulava errante, de casa em casa, fugindo da polícia, muito nervoso, relata Breno. Miguel aquiesce.

Também ele estivera com Bigode noites atrás, e colhera a mesma impressão sobre o estado emocional do companheiro. A conversa, porém, não evolui. O fato de um militante perseguido ter pernoitado ali não faz

acender a luz vermelha sobre a insegurança do quarto de pensão. Enquanto se arrumam para sair, Breno

abre a gaveta de uma grande cômoda e puxa, de uma fresta, um papel dobrado. Mostra, sem abrir, e pede:

– Estes são os pontos da Área Estratégica. Se eu for preso, você vem aqui e recupera – disse,

referindo-se à série de futuros encontros marcados com militantes do Norte do país.

Breno e Miguel ganham a rua. Tomam a mesma condução, embora, como determina a vida clandestina,

nenhum dos dois saiba o destino do outro. O próximo ponto está marcado para as sete e meia da noite, na

praia de Botafogo, defronte ao Cinema Ópera, quando Breno entregará a Miguel uma cópia da chave do

quarto. Quando o ônibus alcança a avenida Princesa Isabel, em Copacabana, Breno desce. Nunca mais

foi visto.

 

HÁ NOVE DIAS Bigode zanza. Sem pouso, não consegue esconder a agitação. Anda olhando para os lados,

quando em vez breca, volta a cabeça discretamente para trás, a ver se alguém o segue. A camisa está

encharcada de suor. Um sujeito qualquer parado na porta de uma farmácia ou encostado no balcão de um

botequim é, inequivocamente, um policial, agente da repressão.

A barra é pesada. Os jornais publicaram com estardalhaço o assassinato de Coqueiro em um

apartamento do Cosme Velho. Agora lhe parece evidente: o fracasso da operação para trazer Coqueiro de

volta tinha cheiro de infiltração. Por isso Bigode deixou, às pressas, o apartamento em que vivia. Desde

então, foge. Na noite anterior, encontrara acolhida com Breno. Mas teve de sair bem cedo na manhã do

dia seguinte, 15 de fevereiro de 1971. Nunca mais foi visto.

 

ÀS SETE E MEIA DA NOITE Miguel está no local combinado. Passados quinze minutos, vê Marcelo e Maria,

companheiros da VAR. Estranha. Teria Breno marcado o mesmo ponto com eles? A dúvida é logo

desfeita. O casal estava, sim, à procura de Breno, que não comparecera ao encontro com Maria, naquele

mesmo dia, na hora do almoço. A calçada do Cinema Ópera era a segunda alternativa deles, o chamado

ponto de segurança. E também agora Breno não aparece. A realidade desaba sobre os três. Não resta

dúvida. Breno fora preso.

Em alta voltagem, a cabeça de Miguel começa a girar em torno de uma ideia fixa: recuperar as

anotações da Área Estratégica, os pontos escondidos no vão da cômoda do quarto de Breno. Mas como

entrar na casa sem uma arma? Apesar de militante da luta armada, Miguel não possuía arma. E agora,

com a mais do que provável hipótese de vir a ter de render alguém para alcançar seu objetivo, já que não

tinha a chave do quarto, precisava desesperadamente de uma.

A solução veio de Marcelo e Maria, que tinham um modesto 38 guardado em casa. Os três decidem,

então, buscar o revólver. No caminho, passam de carro em frente à pensão de Breno, para avaliar a

situação. Miguel tem a clara sensação de que já há polícia rondando o local. Enquanto Marcelo e Maria

vão buscar a arma, ele se senta num banco da praça General Osório. Na espera, pensa nos filhos. E pensa

no pai, a quem confiara a guarda das crianças, órfãs de mãe. Pouco a pouco, vai sendo tomado por uma

consciência crescente e dolorosa – fim de linha.

Quando, enfim, Marcelo e Maria chegam com a arma, sua decisão está irremediavelmente tomada.

Ele não pode descumprir o comando de Breno. Não pode fugir de seu compromisso com a VAR e com

todo o pessoal listado naquele pequeno papel dobrado, escondido na fresta da cômoda do quarto. Seria

uma desmoralização. Por isso, mesmo com o risco iminente de prisão, decide voltar à pensão.

Maria vai fazer hora no bar Jangadeiros, ali perto, enquanto Marcelo e Miguel seguem de carro para

a rua Farme de Amoedo, que àquela hora, nove e meia da noite, ainda tinha muito movimento. Miguel sai do carro. Marcelo, do outro lado da rua, faz campana. Tudo acontece rápido. Miguel chega à pensão,

encontra a porta do pequeno prédio sem tranca, entra no hall. O silêncio é absoluto. Em um átimo de

segundo, ele percebe uma janela aberta e pensa: ali pode ser uma rota de fuga. Delicadamente, encosta o

ouvido na porta do quarto de Breno, na intenção de ouvir algum ruído. Nesse instante a porta se abre.

Miguel é preso e levado para o DOI-Codi.

 

QUARENTA ANOS SE PASSARAM desde aquele dia em que Sergio Emanuel Dias Campos, o Miguel, fez uma

das escolhas mais difíceis de sua vida. Ainda hoje, a despeito da incompreensão natural dos amigos, ele

insiste que não havia outra hipótese a não ser voltar ao quarto onde Carlos Alberto Soares de Freitas, o

Breno, guardava contatos com militantes da Área Estratégica e havia lhe confiado a missão de impedir

que viessem a cair nas mãos da polícia.

Sergio sabia que as chances de escapar ileso daquela investida eram quase nulas, mas tinha que tentar.

O ato lhe custou suplício e uma quase morte nas prisões da ditadura militar, sob a custódia de autoridades

brasileiras que fizeram da barbárie política de Estado. Custou-lhe, também, vinte meses de cadeia. Por

jamais ter participado de uma ação armada, recebeu uma pena considerada leve – um ano em regime

fechado. De quebra, pagou oito meses mais.

Vem dele, Sergio, a vontade de contar a história de Breno. Depois daquela manhã de 15 de fevereiro

de 1971, ele nunca mais foi visto. Não se sabe, até hoje, como foi preso. Há poucos testemunhos sobre

seu paradeiro. O mais provável foi revelado à militante e amiga Inês Etienne Romeu, quando ela esteve

presa em um centro clandestino de tortura na serra fluminense de Petrópolis, que ficou conhecido como

Casa da Morte. Lá, um dos agentes lhe confidenciou: “Seu amigo esteve aqui.” Por sinistra coincidência,

esse torturador havia sido jogador de basquete, em Belo Horizonte, na mesma época em que Carlos

Alberto Soares de Freitas – conhecido então por seu apelido, Beto – atuava nas quadras. E ambos teriam

se reconhecido.

Há ainda uma outra pista, surgida recentemente. Segundo o deputado José Aníbal Peres de Pontes,

Beto foi visto numa cadeia de São Paulo pelo militante da Ação Popular (AP) Vinícius Caldeira Brandt.

Ele estaria muito machucado, mas teria acenado para Vinícius, com o clássico sinal de positivo do

polegar.

O nome de Carlos Alberto Soares de Freitas consta no Anexo I da Lei n.9.140/95, a primeira lista

oficial de desaparecidos políticos no regime militar. Não se sabe, porém, as circunstâncias de sua morte.

Seu corpo nunca foi entregue à família. Por isso, Sergio Campos foi buscar com parentes, amigos e

antigos militantes pedaços de uma história feita de impressões e lembranças que agentes da ditadura

querem fazer esquecer.

O resultado dessa busca é este livro – uma biografia que atravessa muitas biografias. Ao procurar

Breno, Sergio encontrou a história do jovem Beto e da corajosa militância nascida entre as montanhas de

Minas, de onde também veio Antônio Joaquim de Souza Machado, o Bigode, cujo paradeiro é igualmente

desconhecido. Encontrou, ainda, a história daqueles que abriram seus baús internos – muitos deles

escondidos em um canto qualquer do passado – para dar voz a uma vida silenciada. Encontrou, por fim,

sua própria história.