Seu amigo esteve aqui
Sonhos e pólvora
ARBITRÁRIO E ILEGÍTIMO, o regime militar enfrenta oposição crescente em diferentes trincheiras. Na
vanguarda, os estudantes reclamam mais verbas para a educação, mais qualidade nos serviços e mais
vagas nas universidades, para absorver os chamados excedentes. Cerceados em seu ofício, professores
apoiam os estudantes. Perseguidos pela censura, artistas e intelectuais engrossam o coro dos
descontentes. Liberdade é o tema central de canções e peças teatrais. Recorrendo às metáforas, a arte
engajada tenta driblar os censores e eleva o tom das denúncias. Nas fábricas, operários sob intervenção
sindical desde o golpe militar começam a se insurgir contra a lei de greve e o arrocho salarial. Setores
da Igreja, apoiados na doutrina da Teologia da Libertação, tomam posição contra o governo.
Beto vê com otimismo esse momento único de reunião de forças contra o regime. Mas é também
verdade que, na proporção em que vozes democráticas se levantam, a ditadura vai dando o troco,
insuflando mais indignação, mais revolta. No Rio de Janeiro, a morte do estudante Edson Luís, na tarde
de 28 de março de 1968, quando a polícia invade o restaurante universitário Calabouço, no Centro,
radicaliza o conflito. No dia seguinte, 50 mil pessoas ocupam as ruas da cidade para acompanhar o
velório do rapaz. De norte a sul, estudantes protestam em passeatas.
Em abril, na cidade industrial de Contagem, periferia de Belo Horizonte, 16 mil operários cruzam os
braços por reajuste salarial. O governo decreta a ilegalidade da greve, proíbe as assembleias e a polícia
ocupa o parque industrial. Os patrões suspendem o pagamento dos dias parados e vão de casa em casa
convocar os grevistas a retomar o trabalho. Os que não voltarem, serão demitidos por justa causa.
Derrotados em sua pauta econômica, os trabalhadores de Contagem acendem a centelha nas massas. Em
julho, 3 mil metalúrgicos ocupam a fábrica da Cobrasma, em Osasco, cinturão de São Paulo. Também ali
o movimento é violentamente reprimido. O governo intervém no sindicato, a polícia entra na fábrica e
prende os grevistas.
Nas grandes capitais, os protestos aumentam. Notícias de prisões ilegais pipocam por todo lado,
denunciando a truculência da ditadura. Em São Paulo, após uma apresentação de Roda viva, peça de
Chico Buarque dirigida por José Celso Martinez Corrêa, vinte homens do Comando de Caça aos
Comunistas (CCC), armados de cassetetes, invadem o teatro, espancam o elenco e depredam tudo. No
Rio, a indignação arrasta uma multidão contra o regime. Puxada pela UNE, a manifestação reúne
estudantes, artistas, religiosos, intelectuais. É a Passeata dos Cem Mil.
Enquanto tudo isso acontece, em Belo Horizonte os dissidentes da Polop se movimentam. Em abril,
num pequeno sítio em Contagem, de propriedade da família do companheiro Reinaldo Melo, o Maurício,
eles realizam uma conferência na qual se constituem como organização política e ratificam a opção pela
luta armada. No documento aprovado, declaram o trabalho de massa secundário e apontam como
estratégia revolucionária o foco guerrilheiro, a ser implantado no campo, por meio de colunas móveis,
com recursos expropriados em ações urbanas – as mais comuns, os assaltos a bancos.
Desse encontro, sai um novo comando: Apolo Lisboa, Angelo Pezzuti e Beto, em Minas; Juarez Brito,
Maria do Carmo e João Lucas Alves, no Rio de Janeiro. Na perspectiva de uma fusão para aglutinar
forças e ampliar a resistência, o novo grupo temporariamente se autodenomina “Organização” ou “O.”
(leia-se Ó Pontinho). Antes do fim do ano, porém, ficará conhecido por outro nome, que o levará para a história do Brasil – Comandos de Libertação Nacional (Colina).
Dois meses depois, em julho de 1968, é eleito o primeiro comando nacional da Ó Pontinho, formado
por Beto, Angelo e Juarez. Mais adiante, serão incorporados Maria do Carmo e Herbert Eustáquio de
Carvalho, o Helbert Daniel. Nesse primeiro período, a Ó Pontinho investe, basicamente, em pequenas
ações de propaganda armada. Para fazer finanças, conta com o faturamento de uma livraria montada no
Maleta, reduto de jovens e intelectuais da classe média. Bem-relacionada na sociedade belo-horizontina
e com posto no primeiro escalão do governo estadual, Carmela Pezzuti é a campeã de vendas. Só ela
consegue escoar os livros mais caros, que militantes e simpatizantes não podem comprar. Por ironia, a
elite política que frequenta o palácio da Liberdade, sede do governo, está, sem saber, financiando a luta
armada contra a ditadura.
Saída de uma costela da Polop, a Organização facilmente se articula no movimento sindical. É nessa
época que Beto se reaproxima da amiga Dilma. Invariavelmente, nos fins de semana, os dois saem juntos
para panfletar. Nos dias que antecederam a greve de Contagem, em abril de 1968, militaram no Barreiro,
distribuindo o jornal operário O Piquete, escrito por Beto e ilustrado por Guido Rocha, na porta da
fábrica da Mannesmann, um dos principais focos do movimento.
– A greve de Contagem talvez tenha sido uma das experiências mais duras que eu vivi na vida. Ver
uma greve ser derrotada é uma coisa de doer – lembra Dilma Rousseff.
É também nessa época que floresce, para Beto, uma amizade que lhe será definitiva, com Gilberto
Vasconcelos, o Giba, presidente do Diretório Acadêmico da Faculdade de Direito de Uberaba. Eles se
conheceram ainda na Polop. Agora, estão juntos na dissidência e Giba vem com frequência a Belo
Horizonte, participar de encontros políticos. A afinidade entre Beto e ele é grande. Como Beto, Giba é
alegre, falante, contador de histórias e adora cantar. Os encontros dos dois são sempre animados por
cantoria e, invariavelmente, varam a madrugada quando a eles se junta o companheiro Jorge Batista,
outro grande contador de histórias.
Mais de uma vez, em missão da Ó Pontinho, Beto viajou com Giba, Galeno e Guido, entre outros, para
receber treinamento militar numa chácara perto de Belo Horizonte. O instrutor era o ex-sargento da
Aeronáutica João Lucas Alves, que dali a alguns meses seria preso no Rio e, em 6 de março de 1969,
morreria nas dependências da Delegacia de Roubos e Furtos de Belo Horizonte, depois de barbaramente
torturado. Também mais de uma vez, Beto pegou a estrada com Jorge Nahas para simular operações de
guerrilha na serra do Cipó. A simulação, que consistia em acampar na mata e empreender longas
caminhadas por trilhas densas e úmidas, era, para Beto, também uma oportunidade de estar a céu aberto,
respirando ar puro.
Noutra dessas oportunidades, Beto encontra Giba em Uberaba e, de lá, os dois seguem para um sítio
nas redondezas, com o propósito de desenterrar duas caixas de dinamite. O sítio pertencia a um pessoal
do Partidão, que doara o explosivo com a condição de que a Ó Pontinho assumisse o trabalho de resgatar
e transportar a carga. Sozinhos, depois de desenterrarem as caixas, Beto e Giba encararam uma perigosa
e exasperante operação de embalagem.
Como o material tinha ficado muito tempo guardado, o papel encerado das bananas de dinamite
acumulara gotículas de trinitroglicerina, que, ao pingarem no chão, produziam um estampido agudo, como
o dos estalinhos das festas de são João. Beto e Giba secaram, uma a uma, as bananas de dinamite,
acondicionando-as, depois, numa caixa com pó de serragem. Levaram uma semana para concluir o
serviço, período em que se alimentaram de sopa de pacote e boas conversas, animadas aqui e ali por uma
ótima pinga mineira. As dinamites que serviriam à revolução socialista chegaram de fusca em Belo
Horizonte. Parte da carga foi testada, dias depois, na serra do Cipó. Havia dúvidas se elas estariam boas.
Estavam.
Malgrado essas participações, o negócio de Beto não era atuar no setor de operações, o grupo de fogo da Organização. Sua responsabilidade era, sim, fazer o levantamento da Área Estratégica, para a
implantação da guerrilha e a realização da chamada Luta Principal. A função exigia que ele viajasse
muito, o que vinha bem a calhar, porque Belo Horizonte, definitivamente, não era um lugar seguro para
ele. E foi a isso que Beto se dedicou durante todo o segundo semestre de 1968. Ia e vinha, Brasil adentro
e afora, em viagens de reconhecimento que duravam, às vezes, trinta dias, sempre escoltado por Reinaldo
Melo, companheiro que, por estudar geografia, tinha facilidade em realizar pesquisas, obter e analisar
mapas.
A primeira dessas viagens aconteceu ainda no final de 1967, quando Beto, Reinaldo e Erwin Rezende,
que também auxiliava no levantamento da área, fizeram uma rápida investida na serra de Caparaó, na
divisa de Minas com o Espírito Santo, onde meses antes o MNR, organizado pelo grupo de Leonel
Brizola desde o exílio, no Uruguai, já havia ensaiado uma fracassada tentativa de implantar uma
guerrilha. A empreitada, porém, terminou mais cedo que o esperado. Lembra Reinaldo Melo:
– Apesar de semelhante à Sierra Maestra, com ótima cobertura vegetal, a área foi logo descartada
porque não oferecia recuo estratégico. O cerco, ali, era facílimo. Se descobertos, não teríamos por onde
escapar.
Condições de recuo e floresta densa eram alguns dos principais requisitos militares para a
recomendação da Área Estratégica. A implantação social, porém, pressupunha escolher regiões
povoadas, de preferência em condições de pobreza e conflito, favoráveis ao trabalho de sensibilização
da população local para a luta revolucionária. Descartada Caparaó, Beto e Reinaldo ainda empreenderão
mais três viagens, entre agosto de 1968 e janeiro de 1969, em busca do melhor lugar.
A bordo de um jipe 63, com capota de lona e câmbio de três marchas, dirigido por Reinaldo – Beto
não sabia dirigir –, a dupla pesquisou a região do Parque Nacional de Iguaçu, no Paraná, que também
acabou rejeitada. Era demasiado próxima da fronteira com o Paraguai, o que dificultava recuos, e já
muito desenvolvida pelo agronegócio do café. Praticamente não havia conflitos ali. Outra tentativa levou
Beto e Reinaldo a uma extensa área que abrangia o então estado de Mato Grosso e Rondônia, uma das
portas do Pantanal. Também não serviu. Percorriam-se centenas de quilômetros sem que se avistasse um
único ser humano. A baixa densidade demográfica e o baixo desenvolvimento reprovaram a região.
Nessas viagens, Beto unia o útil ao agradável. Os longos trajetos eram animados. Beto e Reinaldo
conversavam, contavam piada, cantavam. Quando chegavam a um povoado qualquer, já tinham o texto
pronto: para todos os efeitos, realizavam viagem de estudos. De outro lado, Beto era exigente. Duro na
queda, não temia obstáculos. Quantas vezes Reinaldo advertiu:
– Beto, o carro ali não passa.
Ao que ele respondia:
– Passa sim. Vamos encarar.
E lá iam os dois, mato adentro, vencendo picadas, valas, atoleiros, em busca do Brasil profundo, de
onde viriam as colunas guerrilheiras que iriam fazer a revolução socialista no país! Na bagagem,
levavam uma radiografia detalhada de cada lugar, com dados sociais e econômicos e dezenas de mapas,
muitos deles, ironicamente, obtidos na Mapoteca do Exército pelo estudante de geografia.
– Nós tínhamos uma missão a cumprir e o Beto era rigoroso nisso. Não descansava enquanto não
concluía a tarefa. Tinha plena noção de sua posição de dirigente. E se comunicava fácil com as pessoas,
acabava amigo delas – lembra Reinaldo.
Entre uma viagem e outra, Beto apeia em Belo Horizonte para mais uma temporada na casa de Zé
Aníbal. Nesses interregnos, sozinho, trava um intenso debate interno. Não é um militarista. Acredita
mesmo é no trabalho de massas. Mas os tempos estão difíceis e o caminho da luta armada começa, de
fato, a se impor como tática para a derrubada da ditadura e a conquista do socialismo. Respeita as
análises do amigo e companheiro Guido Rocha, de quem esteve muito próximo à época do rompimento com a Polop. Agora, porém, a conjuntura os afasta. Para Guido, a hora é de lutar pela instalação de uma
Assembleia Nacional Constituinte Popular e Soberana, distância abissal do rumo que toma a Ó Pontinho.
Em entrevista para este livro, Apolo Lisboa lamenta esse afastamento:
– A relação do Beto com o Guido foi muito importante, sobretudo no questionamento da Polop.
Depois, com a Colina, a divergência, precipitada por pressões pelo desencadeamento da luta armada,
desuniu os dois, que eram mais experientes que a maioria dos militantes em Minas Gerais. O Guido
propunha a Constituinte como forma de luta por um governo democrático. O processo político isolaria a
ditadura e criaria uma possibilidade real de mudança, com base na correlação de forças sociais e
políticas que iriam desabrochar, sem descartar, nem impor, a princípio, uma forma de luta, função das
forças em campo e de condições a serem desenvolvidas. Guido defendia a luta armada, mas não o
foquismo debraysta. Para ele, a luta democrática teria potencial para quebrar a ditadura e dar ao povo as
condições históricas de encaminhar as reformas estruturais para o país. Não é simples imaginar esse
cenário, mas ele existiu e havia possibilidade de as coisas terem sido diferentes. O Guido e o Beto viam
isso, mas uma conjuntura especial dentro da Colina fez a balança pender para uma resposta aventureira.
Com a queda de Apolo Lisboa em Belo Horizonte, preso por agentes do Exército quando distribuía O
Piquete na região da Savassi, à época da greve de Contagem, o comando da Organização, agora
integrado por Jorge Nahas, ficou polarizado entre Beto e Angelo Pezzuti. Líder nato, com forte
ascendência sobre o grupo que se forma, Angelo disputa a hegemonia na Organização. Se, de um lado,
Beto tem uma formação política mais sólida e uma trajetória a reverenciar, Angelo, com sua coragem e
extraordinária inteligência, a todos impressiona. Essa disputa, porém, não vai prosperar.
No segundo semestre de 1968, o grupo realiza e reivindica, já com o nome de Colina, as primeiras
ações armadas de expropriação – o assalto a uma agência do Banco de Comércio e Indústria de Minas
Gerais, na capital, em 28 de agosto, e o assalto ao Banco do Brasil de Contagem, em 4 de outubro. Mas é
depois de um duplo assalto em Sabará, em 14 de janeiro de 1969 – ao Banco da Lavoura e ao Banco
Mercantil de Minas Gerais –, que Angelo é preso e, com ele, os militantes Pedro Paulo Bretas, José
Raimundo de Oliveira e Antonio Pereira Mattos. Num intervalo de duas semanas, praticamente todo o
grupo de fogo da Colina cai nas mãos da repressão.
O ano de 1968 termina com a promulgação do Ato Institucional n.5, em dezembro. Com ele, o governo
oficializa a ditadura militar. Fecha o Congresso, suprime o habeas corpus, acaba com a legalidade
jurídica e constitucional e inaugura o terrorismo de Estado. No dia seguinte, em acrobático drible à
censura, o Jornal do Brasil publica uma nota meteorológica que entraria para a história do jornalismo
brasileiro: “Tempo negro. Temperatura sufocante. O ar está irrespirável. O país está sendo varrido por
fortes ventos. Máx: 38° em Brasília. Mín: 3° em Laranjeiras.”