Seu amigo esteve aqui

Cristina Chacel · Capítulo 11 de 26

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Seu amigo esteve aqui

Sonhos e pólvora

 

ARBITRÁRIO E ILEGÍTIMO, o regime militar enfrenta oposição crescente em diferentes trincheiras. Na

vanguarda, os estudantes reclamam mais verbas para a educação, mais qualidade nos serviços e mais

vagas nas universidades, para absorver os chamados excedentes. Cerceados em seu ofício, professores

apoiam os estudantes. Perseguidos pela censura, artistas e intelectuais engrossam o coro dos

descontentes. Liberdade é o tema central de canções e peças teatrais. Recorrendo às metáforas, a arte

engajada tenta driblar os censores e eleva o tom das denúncias. Nas fábricas, operários sob intervenção

sindical desde o golpe militar começam a se insurgir contra a lei de greve e o arrocho salarial. Setores

da Igreja, apoiados na doutrina da Teologia da Libertação, tomam posição contra o governo.

Beto vê com otimismo esse momento único de reunião de forças contra o regime. Mas é também

verdade que, na proporção em que vozes democráticas se levantam, a ditadura vai dando o troco,

insuflando mais indignação, mais revolta. No Rio de Janeiro, a morte do estudante Edson Luís, na tarde

de 28 de março de 1968, quando a polícia invade o restaurante universitário Calabouço, no Centro,

radicaliza o conflito. No dia seguinte, 50 mil pessoas ocupam as ruas da cidade para acompanhar o

velório do rapaz. De norte a sul, estudantes protestam em passeatas.

Em abril, na cidade industrial de Contagem, periferia de Belo Horizonte, 16 mil operários cruzam os

braços por reajuste salarial. O governo decreta a ilegalidade da greve, proíbe as assembleias e a polícia

ocupa o parque industrial. Os patrões suspendem o pagamento dos dias parados e vão de casa em casa

convocar os grevistas a retomar o trabalho. Os que não voltarem, serão demitidos por justa causa.

Derrotados em sua pauta econômica, os trabalhadores de Contagem acendem a centelha nas massas. Em

julho, 3 mil metalúrgicos ocupam a fábrica da Cobrasma, em Osasco, cinturão de São Paulo. Também ali

o movimento é violentamente reprimido. O governo intervém no sindicato, a polícia entra na fábrica e

prende os grevistas.

Nas grandes capitais, os protestos aumentam. Notícias de prisões ilegais pipocam por todo lado,

denunciando a truculência da ditadura. Em São Paulo, após uma apresentação de Roda viva, peça de

Chico Buarque dirigida por José Celso Martinez Corrêa, vinte homens do Comando de Caça aos

Comunistas (CCC), armados de cassetetes, invadem o teatro, espancam o elenco e depredam tudo. No

Rio, a indignação arrasta uma multidão contra o regime. Puxada pela UNE, a manifestação reúne

estudantes, artistas, religiosos, intelectuais. É a Passeata dos Cem Mil.

Enquanto tudo isso acontece, em Belo Horizonte os dissidentes da Polop se movimentam. Em abril,

num pequeno sítio em Contagem, de propriedade da família do companheiro Reinaldo Melo, o Maurício,

eles realizam uma conferência na qual se constituem como organização política e ratificam a opção pela

luta armada. No documento aprovado, declaram o trabalho de massa secundário e apontam como

estratégia revolucionária o foco guerrilheiro, a ser implantado no campo, por meio de colunas móveis,

com recursos expropriados em ações urbanas – as mais comuns, os assaltos a bancos.

Desse encontro, sai um novo comando: Apolo Lisboa, Angelo Pezzuti e Beto, em Minas; Juarez Brito,

Maria do Carmo e João Lucas Alves, no Rio de Janeiro. Na perspectiva de uma fusão para aglutinar

forças e ampliar a resistência, o novo grupo temporariamente se autodenomina “Organização” ou “O.”

(leia-se Ó Pontinho). Antes do fim do ano, porém, ficará conhecido por outro nome, que o levará para a história do Brasil – Comandos de Libertação Nacional (Colina).

Dois meses depois, em julho de 1968, é eleito o primeiro comando nacional da Ó Pontinho, formado

por Beto, Angelo e Juarez. Mais adiante, serão incorporados Maria do Carmo e Herbert Eustáquio de

Carvalho, o Helbert Daniel. Nesse primeiro período, a Ó Pontinho investe, basicamente, em pequenas

ações de propaganda armada. Para fazer finanças, conta com o faturamento de uma livraria montada no

Maleta, reduto de jovens e intelectuais da classe média. Bem-relacionada na sociedade belo-horizontina

e com posto no primeiro escalão do governo estadual, Carmela Pezzuti é a campeã de vendas. Só ela

consegue escoar os livros mais caros, que militantes e simpatizantes não podem comprar. Por ironia, a

elite política que frequenta o palácio da Liberdade, sede do governo, está, sem saber, financiando a luta

armada contra a ditadura.

Saída de uma costela da Polop, a Organização facilmente se articula no movimento sindical. É nessa

época que Beto se reaproxima da amiga Dilma. Invariavelmente, nos fins de semana, os dois saem juntos

para panfletar. Nos dias que antecederam a greve de Contagem, em abril de 1968, militaram no Barreiro,

distribuindo o jornal operário O Piquete, escrito por Beto e ilustrado por Guido Rocha, na porta da

fábrica da Mannesmann, um dos principais focos do movimento.

– A greve de Contagem talvez tenha sido uma das experiências mais duras que eu vivi na vida. Ver

uma greve ser derrotada é uma coisa de doer – lembra Dilma Rousseff.

É também nessa época que floresce, para Beto, uma amizade que lhe será definitiva, com Gilberto

Vasconcelos, o Giba, presidente do Diretório Acadêmico da Faculdade de Direito de Uberaba. Eles se

conheceram ainda na Polop. Agora, estão juntos na dissidência e Giba vem com frequência a Belo

Horizonte, participar de encontros políticos. A afinidade entre Beto e ele é grande. Como Beto, Giba é

alegre, falante, contador de histórias e adora cantar. Os encontros dos dois são sempre animados por

cantoria e, invariavelmente, varam a madrugada quando a eles se junta o companheiro Jorge Batista,

outro grande contador de histórias.

Mais de uma vez, em missão da Ó Pontinho, Beto viajou com Giba, Galeno e Guido, entre outros, para

receber treinamento militar numa chácara perto de Belo Horizonte. O instrutor era o ex-sargento da

Aeronáutica João Lucas Alves, que dali a alguns meses seria preso no Rio e, em 6 de março de 1969,

morreria nas dependências da Delegacia de Roubos e Furtos de Belo Horizonte, depois de barbaramente

torturado. Também mais de uma vez, Beto pegou a estrada com Jorge Nahas para simular operações de

guerrilha na serra do Cipó. A simulação, que consistia em acampar na mata e empreender longas

caminhadas por trilhas densas e úmidas, era, para Beto, também uma oportunidade de estar a céu aberto,

respirando ar puro.

Noutra dessas oportunidades, Beto encontra Giba em Uberaba e, de lá, os dois seguem para um sítio

nas redondezas, com o propósito de desenterrar duas caixas de dinamite. O sítio pertencia a um pessoal

do Partidão, que doara o explosivo com a condição de que a Ó Pontinho assumisse o trabalho de resgatar

e transportar a carga. Sozinhos, depois de desenterrarem as caixas, Beto e Giba encararam uma perigosa

e exasperante operação de embalagem.

Como o material tinha ficado muito tempo guardado, o papel encerado das bananas de dinamite

acumulara gotículas de trinitroglicerina, que, ao pingarem no chão, produziam um estampido agudo, como

o dos estalinhos das festas de são João. Beto e Giba secaram, uma a uma, as bananas de dinamite,

acondicionando-as, depois, numa caixa com pó de serragem. Levaram uma semana para concluir o

serviço, período em que se alimentaram de sopa de pacote e boas conversas, animadas aqui e ali por uma

ótima pinga mineira. As dinamites que serviriam à revolução socialista chegaram de fusca em Belo

Horizonte. Parte da carga foi testada, dias depois, na serra do Cipó. Havia dúvidas se elas estariam boas.

Estavam.

Malgrado essas participações, o negócio de Beto não era atuar no setor de operações, o grupo de fogo da Organização. Sua responsabilidade era, sim, fazer o levantamento da Área Estratégica, para a

implantação da guerrilha e a realização da chamada Luta Principal. A função exigia que ele viajasse

muito, o que vinha bem a calhar, porque Belo Horizonte, definitivamente, não era um lugar seguro para

ele. E foi a isso que Beto se dedicou durante todo o segundo semestre de 1968. Ia e vinha, Brasil adentro

e afora, em viagens de reconhecimento que duravam, às vezes, trinta dias, sempre escoltado por Reinaldo

Melo, companheiro que, por estudar geografia, tinha facilidade em realizar pesquisas, obter e analisar

mapas.

A primeira dessas viagens aconteceu ainda no final de 1967, quando Beto, Reinaldo e Erwin Rezende,

que também auxiliava no levantamento da área, fizeram uma rápida investida na serra de Caparaó, na

divisa de Minas com o Espírito Santo, onde meses antes o MNR, organizado pelo grupo de Leonel

Brizola desde o exílio, no Uruguai, já havia ensaiado uma fracassada tentativa de implantar uma

guerrilha. A empreitada, porém, terminou mais cedo que o esperado. Lembra Reinaldo Melo:

– Apesar de semelhante à Sierra Maestra, com ótima cobertura vegetal, a área foi logo descartada

porque não oferecia recuo estratégico. O cerco, ali, era facílimo. Se descobertos, não teríamos por onde

escapar.

Condições de recuo e floresta densa eram alguns dos principais requisitos militares para a

recomendação da Área Estratégica. A implantação social, porém, pressupunha escolher regiões

povoadas, de preferência em condições de pobreza e conflito, favoráveis ao trabalho de sensibilização

da população local para a luta revolucionária. Descartada Caparaó, Beto e Reinaldo ainda empreenderão

mais três viagens, entre agosto de 1968 e janeiro de 1969, em busca do melhor lugar.

A bordo de um jipe 63, com capota de lona e câmbio de três marchas, dirigido por Reinaldo – Beto

não sabia dirigir –, a dupla pesquisou a região do Parque Nacional de Iguaçu, no Paraná, que também

acabou rejeitada. Era demasiado próxima da fronteira com o Paraguai, o que dificultava recuos, e já

muito desenvolvida pelo agronegócio do café. Praticamente não havia conflitos ali. Outra tentativa levou

Beto e Reinaldo a uma extensa área que abrangia o então estado de Mato Grosso e Rondônia, uma das

portas do Pantanal. Também não serviu. Percorriam-se centenas de quilômetros sem que se avistasse um

único ser humano. A baixa densidade demográfica e o baixo desenvolvimento reprovaram a região.

Nessas viagens, Beto unia o útil ao agradável. Os longos trajetos eram animados. Beto e Reinaldo

conversavam, contavam piada, cantavam. Quando chegavam a um povoado qualquer, já tinham o texto

pronto: para todos os efeitos, realizavam viagem de estudos. De outro lado, Beto era exigente. Duro na

queda, não temia obstáculos. Quantas vezes Reinaldo advertiu:

– Beto, o carro ali não passa.

Ao que ele respondia:

– Passa sim. Vamos encarar.

E lá iam os dois, mato adentro, vencendo picadas, valas, atoleiros, em busca do Brasil profundo, de

onde viriam as colunas guerrilheiras que iriam fazer a revolução socialista no país! Na bagagem,

levavam uma radiografia detalhada de cada lugar, com dados sociais e econômicos e dezenas de mapas,

muitos deles, ironicamente, obtidos na Mapoteca do Exército pelo estudante de geografia.

– Nós tínhamos uma missão a cumprir e o Beto era rigoroso nisso. Não descansava enquanto não

concluía a tarefa. Tinha plena noção de sua posição de dirigente. E se comunicava fácil com as pessoas,

acabava amigo delas – lembra Reinaldo.

Entre uma viagem e outra, Beto apeia em Belo Horizonte para mais uma temporada na casa de Zé

Aníbal. Nesses interregnos, sozinho, trava um intenso debate interno. Não é um militarista. Acredita

mesmo é no trabalho de massas. Mas os tempos estão difíceis e o caminho da luta armada começa, de

fato, a se impor como tática para a derrubada da ditadura e a conquista do socialismo. Respeita as

análises do amigo e companheiro Guido Rocha, de quem esteve muito próximo à época do rompimento com a Polop. Agora, porém, a conjuntura os afasta. Para Guido, a hora é de lutar pela instalação de uma

Assembleia Nacional Constituinte Popular e Soberana, distância abissal do rumo que toma a Ó Pontinho.

Em entrevista para este livro, Apolo Lisboa lamenta esse afastamento:

– A relação do Beto com o Guido foi muito importante, sobretudo no questionamento da Polop.

Depois, com a Colina, a divergência, precipitada por pressões pelo desencadeamento da luta armada,

desuniu os dois, que eram mais experientes que a maioria dos militantes em Minas Gerais. O Guido

propunha a Constituinte como forma de luta por um governo democrático. O processo político isolaria a

ditadura e criaria uma possibilidade real de mudança, com base na correlação de forças sociais e

políticas que iriam desabrochar, sem descartar, nem impor, a princípio, uma forma de luta, função das

forças em campo e de condições a serem desenvolvidas. Guido defendia a luta armada, mas não o

foquismo debraysta. Para ele, a luta democrática teria potencial para quebrar a ditadura e dar ao povo as

condições históricas de encaminhar as reformas estruturais para o país. Não é simples imaginar esse

cenário, mas ele existiu e havia possibilidade de as coisas terem sido diferentes. O Guido e o Beto viam

isso, mas uma conjuntura especial dentro da Colina fez a balança pender para uma resposta aventureira.

Com a queda de Apolo Lisboa em Belo Horizonte, preso por agentes do Exército quando distribuía O

Piquete na região da Savassi, à época da greve de Contagem, o comando da Organização, agora

integrado por Jorge Nahas, ficou polarizado entre Beto e Angelo Pezzuti. Líder nato, com forte

ascendência sobre o grupo que se forma, Angelo disputa a hegemonia na Organização. Se, de um lado,

Beto tem uma formação política mais sólida e uma trajetória a reverenciar, Angelo, com sua coragem e

extraordinária inteligência, a todos impressiona. Essa disputa, porém, não vai prosperar.

No segundo semestre de 1968, o grupo realiza e reivindica, já com o nome de Colina, as primeiras

ações armadas de expropriação – o assalto a uma agência do Banco de Comércio e Indústria de Minas

Gerais, na capital, em 28 de agosto, e o assalto ao Banco do Brasil de Contagem, em 4 de outubro. Mas é

depois de um duplo assalto em Sabará, em 14 de janeiro de 1969 – ao Banco da Lavoura e ao Banco

Mercantil de Minas Gerais –, que Angelo é preso e, com ele, os militantes Pedro Paulo Bretas, José

Raimundo de Oliveira e Antonio Pereira Mattos. Num intervalo de duas semanas, praticamente todo o

grupo de fogo da Colina cai nas mãos da repressão.

O ano de 1968 termina com a promulgação do Ato Institucional n.5, em dezembro. Com ele, o governo

oficializa a ditadura militar. Fecha o Congresso, suprime o habeas corpus, acaba com a legalidade

jurídica e constitucional e inaugura o terrorismo de Estado. No dia seguinte, em acrobático drible à

censura, o Jornal do Brasil publica uma nota meteorológica que entraria para a história do jornalismo

brasileiro: “Tempo negro. Temperatura sufocante. O ar está irrespirável. O país está sendo varrido por

fortes ventos. Máx: 38° em Brasília. Mín: 3° em Laranjeiras.”