Seu amigo esteve aqui

Cristina Chacel · Capítulo 12 de 26

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Seu amigo esteve aqui

Perdas, danos e ganhos

 

A PRISÃO DE ANGELO PEZZUTI, em casa, na noite de 14 de janeiro de 1969, horas depois do duplo assalto

em Sabará, é a ponta do iceberg. Com a polícia no encalço, os companheiros do grupo de fogo

rapidamente desfazem os aparelhos e acertam uma operação resgate de Angelo para dali a quinze dias,

em um ponto previamente marcado com ele, caso fosse preso. Horas antes da ação, porém, na madrugada

de 29 de janeiro, a polícia estoura três aparelhos da Colina na capital mineira. Em dois deles, só

encontra armas e documentos. No terceiro, localizado no bairro São Geraldo, é recebida à bala. Dois

policiais morrem, um é gravemente ferido e todos os militantes são presos – Murilo Pinto da Silva, irmão

de Angelo, Jorge e Maria José Nahas, Afonso Celso Lana Leite, Nilo Sergio Meneses Macedo, Júlio

Antônio Bittencourt de Almeida e Maurício Paiva, o único do grupo atingido, com dois tiros na perna. No

mesmo dia, Carmela Pezzuti também é presa.

Quando soube das prisões de São Geraldo, Beto passava por São Luís, Maranhão, uma das etapas de

sua quarta e última viagem de reconhecimento da Área Estratégica, a macrorregião conhecida por Bico

do Papagaio, que compreende os estados do Pará, do Maranhão e de Goiás, que viria a ser a escolhida

para a implantação da Luta Principal. Para chegar ao grotão, Beto e Reinaldo haviam trocado o jipe pelo

avião, depois tomaram um ônibus, cruzaram rios de barco e, por fim, alugaram uma caminhonete. Fizeram

da cidade de Imperatriz, no Maranhão, a base operacional. Tão cedo, nem um nem outro voltariam a Belo

Horizonte.

Com a queda coletiva, começa uma caça às bruxas na capital mineira. A polícia não dá trégua. Quem

não foi preso, pula de galho em galho, dorme cada dia em um endereço diferente. Cercada, a Colina

monta uma operação de deslocamento e o destino preferencial é o Rio de Janeiro, onde já estão Maria do

Carmo, a Lia, e Juarez, o Juvenal. Inês Etienne Romeu é encarregada da logística. Em pouco tempo, um a

um, os militantes desembarcam no Rio de Janeiro, onde passam a ser conhecidos, entre companheiros,

como os “Deslocados de Minas”.

Já no Rio, os militantes da Colina continuam as conversas em torno da fusão com outros grupos que

também defendiam a luta armada. Nessa costura, voltam a adotar a denominação Ó Pontinho. Dilma

Rousseff é incorporada à direção nacional. Na regional Guanabara, o principal interlocutor é Jorge

Eduardo Saavedra Durão, dirigente de uma das dissidências do Partidão, a DDD, sigla de Dissidência da

Dissidência, e as conversas se estendem também ao Núcleo Marxista-Leninista, minúscula fração da

Ação Popular. No Rio Grande do Sul, a liderança é Carlos Franklin Paixão de Araújo – também à frente

de uma dissidência do Partidão, com bases no movimento operário e entre estudantes secundaristas, os

chamados Brancaleones.

Começa, então, um vaivém interestadual dos que buscam a fusão. Carlos Araújo vem ao Rio. É quando

conhece Beto, que já então usa o codinome Breno. O entendimento é fácil. Araújo fica bem

impressionado com a formação política do dirigente mineiro:

– Fazia tempo que eu não discutia com o pessoal de origem da Polop, fazia tempo que nós não

participávamos de uma boa discussão. Ali a gente viu que estava diante de pessoas que estudavam,

tinham cultura política. Dava pra gente conversar e se entender, aparar arestas e superá-las. De todos,

Breno foi o que mais me impressionou. Tinha formação mais consistente, mais solidez, o que nos aproximou desde o início. Desde logo houve uma identidade política.

Pois foi justamente Breno o emissário enviado pela direção para aprofundar as conversas no Sul. Por

duas vezes, ele esteve na capital gaúcha, primeiro para um churrasco no bairro da Cavalhada, com as

bases da Ó Pontinho no Rio Grande. Lembra o militante Raul Ellwanger:

– Foi num domingo. Eram umas quarenta pessoas, era um troço meio pra entusiasmar a turma, pra

mostrar que tinha uma possibilidade de criar um partido nacional.

A segunda reunião foi na casa de praia do dr. Afrânio, pai de Carlos Araújo, em Capão da Canoa.

Consumiu um fim de semana e também reuniu todo o pessoal. O objetivo era consultar sobre a fusão com

a Organização, ainda sem nome, porque à espera da adesão dos paulistas da VPR.

– Breno participou da reunião em que discutiríamos se aceitaríamos ou não a ideia de fusão. Ele teve

uma excelente atuação, que só fez confirmar sua enorme competência política. Despertou ainda mais o

nosso ímpeto. Nós não tínhamos um nome no Sul, mas tínhamos um trabalho muito forte nas fábricas, às

vezes reuníamos quinhentos trabalhadores, e já trabalhávamos na proposta da União Operária. Nós não

queríamos ter só uma expectativa local – relata Araújo.

Em abril de 1969, o grupo faz na cidade fluminense de Teresópolis o encontro que formaliza a Ó

Pontinho como organização ampliada, articulada, a partir da regional Guanabara, com Minas, Rio Grande

do Sul, Goiás, Bahia e Pernambuco. Desse encontro, sai uma nova direção, formada por Breno, Dilma,

Maria do Carmo, Juarez, Herbert Daniel, Carlos Araújo e outro gaúcho, Carlos Brasil, um jovem médico

que viria a ser o novo parceiro de Beto na Área Estratégica.

São esses dirigentes que vão, em dois fins de semana consecutivos – 28 e 29 de junho e 5 e 6 de julho

–, sentar-se à mesa de negociações com o comando da VPR, composto por Carlos Lamarca, Antonio

Roberto Espinosa, Claudio de Souza Ribeiro, também chamado de Claudio Marinheiro, Fernando

Mesquita e Chizuo Osava, o Mário Japa. A chamada Conferência da Fusão acontece numa casa de praia

em Mongaguá, litoral paulista. As agendas políticas coincidem. Tanto a Ó Pontinho quanto a VPR

defendem o caráter socialista da revolução, descartando a visão de libertação nacional de outros grupos

da esquerda armada, como a Ação Libertadora Nacional (ALN). Ambas, também, levam para o debate

documentos parecidos, em que criticam a importação automática do conceito de foco cubano – não

acreditam que o envio de grupos para áreas de guerrilha, tendo basicamente a geografia montanhosa

como escudo, possa, a partir da centelha, incendiar a revolução no Brasil.

Em lugar do foco, Ó Pontinho e VPR se acertam na estratégia das colunas móveis, que conservam a

ideia da centralidade da luta armada, de um destacamento de vanguarda, mas com enraizamento social em

uma área de atuação que inclui um cinturão urbano. Também na linhagem política, as duas organizações

encontram parentesco. A Ó Pontinho descendia da Polop e contava, em seus quadros, com sargentos

oriundos do MNR. A VPR também se constituía de uma dissidência da Polop e de ex-marinheiros do

MNR.

Contudo, apesar das convergências, faltavam laços de confiança entre eles e sobravam contradições

políticas que iam sendo escamoteadas pela vontade conjuntural da fusão, mas que estavam ali, latentes,

prontas a efervescer. Havia uma tensão no ar. Lembra Carlos Araújo:

– Quando a gente falava em trabalho político, havia uma reação terrível do pessoal da VPR. Eles

questionavam: o que é isso? Trabalho político, como? Aonde? Isso é desviar forças do foco, da luta

armada, é perder quadros, nós não temos quadros suficientes, então, não vai sair nunca. Querem adiar a

luta armada?

A VPR defendia o envio massivo de militantes para o campo. As ações na cidade teriam, por única

finalidade, financiar e apoiar a guerrilha rural com infraestrutura, logística, recursos. Não era o que

pensava a Ó Pontinho, para a qual o trabalho urbano, junto à classe operária, aos estudantes e sobretudo a

populações em conflito, não podia ser abandonado. Naquele momento, porém, em nome da fusão, as divergências foram postas de lado.

Cada um trazia um dote. A VPR, fuzis expropriados de quartéis; a Ó Pontinho, uma base supostamente

maior de militantes e um plano perfeito, a Grande Ação – como ficou conhecido o assalto ao cofre que o

ex-governador de São Paulo Ademar de Barros mantinha na casa de sua amante, Ana Capriglione, no Rio

de Janeiro, que faria jorrar dólares para a revolução. Estava selado o pacto que levou o nome de

Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares).

Como se tratava de um encontro exclusivo de dirigentes, faltava, na visão da Ó Pontinho, referendar a

fusão em um congresso ampliado, com representação delegada, a ser marcado para um futuro próximo.

Em sua conferência de abril, a Ó Pontinho definira o comando, o caráter socialista da revolução e a

prioridade de fusão com a VPR, mas não elegera delegados.

– Breno e Dilma insistiam, acertadamente, nesse compromisso. O Carlos Araújo também, só que do

jeito dele, mais light. E nós aceitamos essa condição, no mais breve prazo possível – sublinha Espinosa.

Aceitar não significava concordar. De alguma maneira, todos saíram do encontro de Mongaguá

sabendo que o casamento ia durar pouco. Como que a antecipar a dança das cadeiras da separação, do

lado da Ó Pontinho Maria do Carmo e Juarez eram os mais afinados ao diapasão da VPR. Espinosa e

Fernando Mesquita, da VPR, já então se aproximavam das posições da Ó Pontinho. De todos, Breno era

o mais constrangido. Tinha a seu lado Carlos Araújo e, mais perto ainda, Dilma Rousseff, amiga, amiga

mesmo, para além da relação política. Mas ele, Breno, não conseguia digerir sua preocupação. “Como

nós vamos nos fundir com esses caras, que pensam tão diferente da gente?”, questionava. Conta Araújo:

– O Breno era um cara fino, brilhante, mas muito cabeça-dura. Se deixássemos, já tinha terminado

tudo ali, não tinha nem o futuro congresso. E hoje em dia a gente vê que ele tinha razão. Mas tínhamos que

fazer a tentativa. Pelo Breno, a gente já ia pro pau com eles ali mesmo. Eu era mais habilidoso. O Breno

ficava muito bravo comigo. Dizia que eu era um enrolador. Não era. Ele é que confrontava.

Não é de admirar que Breno e Dilma, ambos do comando nacional da Ó Pontinho, tenham ficado de

fora do comando provisório da VAR-Palmares. Foram eleitos três de cada lado. A VPR conseguiu fechar

o consenso em torno de Lamarca, Espinosa e Claudio Marinheiro; já a Ó Pontinho rachou e a eleição

acabou sendo decidida pelos parceiros. Os votos da VPR foram para Maria do Carmo e Juarez, com

quem mais se identificavam, e para Carlos Araújo, considerado mais experiente e carismático. Com esse

comando, a VAR-Palmares partiria, dali a dez dias, para a Grande Ação.

 

L AMARCA TINHA BOA RAZÃO para não gostar de Breno. Não se sabe se Iara chegou a lhe contar sobre o

affair ocorrido no passado, durante o congresso da Polop que acabou em racha, em 1967. Mas o Capitão

soube – isso é certo – que sua namorada, enviada para o Rio em missão da VPR, estava dividida entre

ele e Breno. Foi Espinosa quem lhe contou. Lamarca era um homem atormentado pela culpa. Não fazia

muito, despachara a família – mulher e filhos – para Cuba, por questão de segurança. Era preciso

protegê-los. Agora, estava perdido de amor por Iara. Sentia-se mal com isso. Por outro lado, não podia

deixar de concordar com Espinosa: a vida é uma só e a gente não sabe até quando estará vivo.

Desde que a VPR começara o namoro com a Ó Pontinho, Iara Iavelberg fora enviada ao Rio para

funcionar como uma espécie de embaixadora da organização. Sua missão era acompanhar as prévias do

encontro, trocar documentos, preparar a agenda. Ao desembarcar na cidade, tem um ponto marcado com

Dilma.

– A Iara é mandada pela VPR para o Rio de Janeiro. Como a VPR não tinha base no Rio, me mandam

a um ponto pegá-la e levá-la para o apartamento. Ela diz pra mim: “Não vamos pra esse apartamento. Eu

tenho um esquema absolutamente mais seguro.” E aí a gente vai pra esse outro apartamento, que era no

Posto 1, na Prado Júnior. Era um quarto e um banheiro e um corredor que era uma espécie de cozinha. Moramos lá uns dois meses – conta Dilma.

Na mesma cidade e aos cuidados da mesma organização, Iara não tardou a reencontrar Breno. O

coração balançou. O dele também. E a velha chama reacendeu. Segundo relato de Herbert Daniel a Judith

Patarra, autora do livro Iara, reportagem biográfica, Iara e Breno viveram um mês juntos em um

aparelho do Rio, possivelmente esse mesmo apartamento do Lido, em Copacabana. “Ela tinha um certo

fascínio por ele, que era um homem bonito, fascinante, cativante. Ela tinha uma imagem idealizada dele.

Falava dele como um tipo extremamente fino, intelectualmente e existencialmente”, contou Herbert, que,

muito próximo de Iara, confidenciou a Patarra: “Não foi uma boa relação …. Um mês depois, ela estava

extremamente incomodada.”

Na perspectiva da fusão, Espinosa veio algumas vezes ao Rio. Numa dessas ocasiões, esteve no

aparelho de Iara e não gostou do que viu – Breno andando pela casa, com uma sem-cerimônia que

revelava grande intimidade com Iara. Espinosa não conhecia Breno e, ali, a antipatia foi imediata. Até

porque também ele, Espinosa, já namorara Iara. Agora, porém, o desconforto era outro. Iara era a mulher

do capitão Lamarca, que se encontrava clandestino, num apartamento em São Paulo, praticamente fora de

combate.

– Puta, que merda! Eu mandei a minha ex-namorada, a namorada do Lamarca, para o Rio de Janeiro

pra arrumar outro. E o pior é que o cara é meio bonito – penitencia-se Espinosa.

De volta a São Paulo, o dirigente-confidente de Lamarca se sentiu na obrigação de informar ao

Capitão o que estava acontecendo. Mais que depressa, Lamarca manda uma carta para Iara cobrando uma

definição. Espinosa é o emissário.

– Eu li a carta – lembra Dilma Rousseff – e ajudei a escrever a resposta em que a Iara aceita o

relacionamento com Lamarca.

– O Lamarca foi a paixão definitiva da Iara – afirma Espinosa.

Breno, registre-se, teve poucos amores na vida. Relutava em se envolver, rechaçava relacionamentos

duradouros. Seu compromisso era com a revolução. É desse mirante que Dilma comenta:

– O Breno resolve se separar da Iara porque ele vai pra luta. Ele achava que não podia ter nenhuma

ligação pessoal. Iara teve muita dificuldade de aceitar a forma como se deu a separação. Ela sentiu

bastante. E eu acho que o Breno gostava dela. E ela dele.

 

DEZOITO DE JULHO DE 1969. Depois de três tentativas abortadas por fatores inesperados, chegara, enfim, o

dia da Grande Ação. Juarez Brito planejou e comandou a operação, que envolveu pouco mais de uma

dezena de militantes. Alguns saíram de São Paulo, contribuição militar da VPR, entre eles o sargento

Darcy Rodrigues, braço direito de Lamarca, João Domingues e Fernando Borges de Paula Ferreira, o

Fernando Ruivo. De Porto Alegre, enviado por Carlos Araújo, partiu o operário Jesus Paredes Soto. De

Minas, o estudante Wellington Moreira Diniz e João Marques de Aguiar. E no Rio já estavam Sonia

Lafoz, Reinaldo Melo e os secundaristas Carlos Minc e Gustavo Buarque Schiller, o Bicho, através de

quem toda essa história começa.

Foi Gustavo quem revelou a Juarez a existência de oito cofres supostamente abarrotados de dólares

sob a guarda de sua tia, Ana Benchimol Capriglione, em diferentes endereços da cidade, dois deles logo

identificados – um apartamento em Copacabana e uma mansão em Santa Teresa. Os cofres teriam

pertencido ao finado amante de Ana, o ex-governador de São Paulo Ademar de Barros, célebre por um

desconcertante slogan de campanha: “Rouba, mas faz.”

Tratava-se de uma relação extraconjugal duradoura, de um lado e de outro, e conhecida nos meios

políticos. Dissimulado, nas situações públicas, quando Ana telefonava, Ademar aquiescia: “Sim, dr.

Rui.” Quando tinha algum recado a enviar, ele em São Paulo, ela no Rio, orientava o emissário: “Avise ao dr. Rui.” Se o procuravam e ele estava com Ana, o palácio informava: “Ele está em reunião com o dr.

Rui.” Qualquer clandestinidade, afinal, pede um codinome.

A história, algo rocambolesca, não inspirava crédito. Mais difícil ainda era apostar que dentro dos

cofres houvesse uma imensa fortuna. Alguma coisa havia, decerto. Uns 200 mil dólares, que fossem. E

não restavam dúvidas de que, em se confirmando, aquela ação seria a redentora da organização.

Asseguraria a sobrevivência dos militantes na clandestinidade e ainda sobrariam recursos para a

aquisição dos milhares de alqueires rurais da futura Área Estratégica. Não menos importante, dispensaria

o expediente dos assaltos a banco, que, manjadíssimos, já não rendiam bom numerário e eram de alto

risco.

Traçados os planos, estudados os mapas, considerados vetores e variantes de tráfego e densidade

urbana, a ação no apartamento de Copacabana acabou sendo descartada por não oferecer um mínimo de

segurança. Ruas apertadas, carros demais, gente demais, porteiros demais, elevadores demais. O alvo

seria um só, a mansão de Santa Teresa, onde Ana morava com a família.

Juarez fez as marcações. Cuidou pessoalmente de todos os detalhes. Ao longo de um mês estudou rotas

na ampla malha viária que separa a mansão de Santa Teresa, no Centro da cidade, do aparelho em

Jacarepaguá, na Zona Oeste, para onde o cofre seria levado. Precisariam de não mais que três carros

para a logística de transporte, cobertura e fuga. O cofre era uma peça grande, de aço, pesada, e o melhor

era que fosse retirado da casa. Para vencer a escadaria externa, ele seria amarrado com cordas de aço

num carrinho de rolimã e deslizaria por pranchas de madeira até desembarcar na caminhonete Veraneio

estrategicamente posicionada no jardim, com a caçamba aberta.

O plano mirabolante não funcionou. O cofre-rolimã tombou do alto da escada, vindo parar no chão, já

no jardim, de onde foi içado, no braço, para dentro do bagageiro do carro. Uma vez em Jacarepaguá, foi

arrombado com maçarico. A delicada técnica consistia em cortar o segredo e, para não queimar o

conteúdo, simultaneamente escoar um filete de água pelo trilho do maçarico. Ao cabo de uma hora de

habilidade e expectativa, esse plano mirabolante funcionou. Conta Reinaldo Melo, que atuou na cobertura

e acompanhou toda a operação:

– Foi a única vez que eu vi notas de mil dólares na minha vida. Tinha algumas notas de mil dólares.

Mas a gente saiu dali logo, não podíamos ficar naquela casa. Contou-se rapidamente o dinheiro. Não

contamos nota por nota. Contamos os pacotes. Eram quase 2 milhões e 700 mil dólares!

Todos se dispersaram. Juarez levou todo o dinheiro, acondicionado em malas. O cofre foi cortado em

vários pedaços, descartados por Reinaldo em rios e lagoas da Barra da Tijuca e no mar de São Conrado,

do alto da avenida Niemeyer. Entre início e fim, o assalto durou uma tarde. Sucesso absoluto. Ninguém

acreditava naquela dinheirama toda. No dia seguinte, porém, ao contrário do esperado, os jornais não

publicaram uma única linha sobre o assalto. À polícia, soube-se mais tarde, Ana Capriglione limitara-se

a informar que o cofre estava vazio, não havia nada dentro dele. Afinal, aquele era o tipo do dinheiro que

não podia ser declarado.

 

A FORTUNA ENCONTRADA no cofre do dr. Rui foi toda ela entregue, no mesmo dia, a Carlos Araújo e

Antonio Espinosa, os encarregados de dividir os ganhos. Apresentou-se ali um novo dilema que

acompanharia dirigentes e militantes da VAR-Palmares e posteriores dissidências pelos próximos meses.

Como trocar aquele monte de dinheiro sem despertar suspeitas? Num primeiro momento, o jeito foi

apelar para as namoradas. Dilma Rousseff, namorada de Araújo, e Maria Auxiliadora Lara Barcellos, a

Dora, que namorava Espinosa. Conta Araújo:

– Nós tínhamos dinheiro em dólar, mas não tínhamos dinheiro pra comer. As duas falavam inglês,

pensamos em arrumar uma roupinha melhor pra elas…

Naquele tempo, eram poucas as casas de câmbio no Rio de Janeiro. Na Zona Sul, eles só conheciam a

operadora que ficava nos fundos do Copacabana Palace, na avenida Nossa Senhora de Copacabana. E foi

para lá que eles foram. Continua Araújo:

– Já era de tardinha, fomos fazer um levantamento e trocar quinhentos dólares para ver o que

acontecia. Nós estávamos com medo, porque a notícia do assalto ia sair no jornal no dia seguinte. O que

fazer? Era óbvio que a repressão ia cercar as casas de câmbio. Portanto, tínhamos que correr o risco.

Elas trocaram os quinhentos dólares sem nenhum problema e voltaram mais tarde para trocar mais 5 mil

dólares. Conseguimos estocar um pouco de dinheiro e providenciamos a distribuição.

A grande surpresa do dia seguinte não viria pelos jornais, que ignoraram a Grande Ação, mas pelo

inesperado contato de um jovem simpatizante, informando que um executivo de um dos maiores bancos

do país queria comprar os dólares roubados. Era, no mínimo, esdrúxulo.

– Somos procurados, cartaz na rua, a repressão não nos acha, mas o banqueiro nos achou em 24 horas!

Impressionante – comenta Araújo.

Sem muita convicção, os dois dirigentes da VAR acabaram concordando em marcar um encontro com

o executivo do banco, num local ao ar livre. O ponto aconteceu na praça Serzedelo Corrêa, em

Copacabana. Um ponto de alto risco, podia ser uma cilada. O dólar, na época, era moeda forte negociada

a taxas elevadas, em cotações diárias nos câmbios oficial e negro, o black. Uma companheira foi

escalada para fazer o contato. Araújo e Espinosa deram cobertura. De longe, viram se aproximar um

homem de terno e gravata. A conversa foi rápida.

Ele fez a oferta:

– Pago o dobro do que pagam as casas de câmbio.

Negócio fechado. Um novo ponto foi marcado, dessa vez para fazer a troca, dentro de um carro. Tudo

funcionou às mil maravilhas, na base do toma lá dá cá. Estavam todos assustados.

A mesma operação se repetiria por mais três vezes e permitiria à VAR-Palmares recompor a situação

dos militantes clandestinos e deslocados, que não tinham como pagar os aluguéis dos aparelhos. Pelas

contas de Carlos Araújo, o banco trocou cerca de vinte e cinco por cento do montante encontrado no

cofre de Ademar de Barros. Mais de 500 mil dólares.

Ao invés de financiar a revolução socialista no Brasil, porém, o dinheiro do cofre do dr. Rui originou

desavenças e alimentou disputas. Provocou um vendaval, produzindo marcas indeléveis, desconfianças

insuperáveis, ressentimentos arraigados. E se tanto não bastasse, despertou também a cobiça dos agentes

públicos que comandavam a tortura nas prisões. Moveu interrogatório e suplício no pau de arara.