Seu amigo esteve aqui

Cristina Chacel · Capítulo 6 de 26

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Seu amigo esteve aqui

O tostão contra o milhão

 

O ANO DE 1962 foi de efervescência política para Beto. A viagem a Cuba, o trabalho com os camponeses

de Três Marias e nas Ligas de Minas Gerais, as disputas nos partidos de esquerda e fora deles… Beto

respirava política nas 24 horas do dia. As tarefas invariavelmente incluíam colar cartazes ou pichar os

muros da cidade, com a amiga Maria do Carmo. Dona Angelina dava cobertura. Fazia os baldes de cola,

preparava tintas e ainda garantia o lanche depois.

O professor Theotonio dos Santos lembra-se daquele início da Polop em Minas:

– Eu vinha da Juventude Trabalhista, o mesmo grupo do sociólogo Herbert de Souza, o Betinho. Nós

estávamos com um problema dentro do Partido Trabalhista, porque nós, da Juventude, tínhamos

conseguido indicar e aprovar um candidato a prefeito. Ganhamos a convenção, mas a direção do partido

anulou o congresso, convocou outra convenção e nos impediu de entrar. Então resolvemos sair com um

candidato por outro lado, pelo Partido Socialista.

Beto teve participação decisiva nessa estratégia. Segundo o amigo Regis Gonçalves, havia sido dele a

ideia de levar a Polop para o PSB.

– Vamos ocupar esse partido. É uma estrutura legal! A gente pode lançar candidato! – dizia ele.

Em Minas, o PSB era um partido pequeno, presidido pelo médico Palmyos Paixão Carneiro – que,

mais tarde, criaria a cooperativa médica Unimed –, e que tinha, entre seus filiados, o psicanalista Hélio

Pellegrino. A sede era uma salinha num prédio antigo da avenida Afonso Pena. O telefone era dividido

com uma alfaiataria vizinha, através de uma abertura na parede. Quando tocava, ou o alfaiate ou alguém

do partido atendia.

O candidato que o pessoal da Polop queria indicar era o jornalista José Maria Rabelo, diretor do

Binômio, influente e explosivo tabloide de esquerda:

– Zé Maria era um militante histórico do PSB e tinha radicalizado conosco. Só que ele havia tomado

uma decisão pessoal de se lançar candidato a vice-prefeito, uma candidatura independente. Eu até hoje

não entendo bem por quê. Ele estava ali de livre atirador pra fazer a liderança. Então nós resolvemos

convencê-lo a sair candidato a prefeito – continua Regis.

Puxada por Beto, uma comissão de frente da Polop adentrou a redação do Binômio, à noite,

determinada a convencer Zé Maria a assumir a candidatura:

– Isso é uma loucura! – reagiu de chofre o jornalista, para, em seguida, capitular. – Às vezes a loucura

dá certo.

Sem dinheiro para a empreitada – seu único capital era o Binômio –, Zé Maria decidiu aceitar o

desafio, desde que aquele grupo de jovens trabalhasse na campanha:

– Todos tinham grande valor intelectual e político – lembra Zé Maria.

Um dos mais animados, Beto coordenou a campanha e foi o idealizador do esquete teatral que

animava os comícios do candidato socialista. A peça usava uma carroceria de caminhão como palco. A

direção era de Jota D’Angelo e os jingles, de Ponce de León. No argumento – “O Zé Tostão contra o

Tubarão” –, Guido Rocha parodiava o slogan da própria campanha, que criticava e desafiava as elites:

“O tostão contra o milhão.”

– Na peça, o Beto fazia o Zé Maria; eu era o tecnocrata. E a música tinha um trecho assim: “Nós

somos todos candidatos/ queremos ganhar as eleições/ quem paga toda a despesa/ é o titio Tubarão” –

relata Élvio Moreira.

– Lótus era a atriz e Beto, o galã – conta Maria do Carmo.

– Acho que nós fazíamos um casal de retirantes – completa Lótus.

– O Beto era um rapaz bonito, tinha prestígio com as meninas, de modo que eu gostei muito de ser

representado por ele – diverte-se Zé Maria.

Era uma campanha pobre. Mas a ajuda de alguns amigos ricos às vezes contrariava o próprio

marketing eleitoral. É o que conta Regis Gonçalves:

– O Zé Maria tinha um amigo que era diretor da rede de lojas Bemoreira, chamado Sebastião

Moretzsohn, que financiou a campanha e contratou um helicóptero. O candidato chegava nas favelas de

helicóptero.

A ordem era marcar posição política. A candidatura de José Maria Rabelo, fortemente ideológica, era

dirigida “aos fracos e oprimidos, os mais pobres”. E não só pelo helicóptero, uma novidade para a

época, a campanha fez história:

– Havia um candidato da UDN, cujo cartaz de campanha era ele sorrindo, segurando uma colmeia,

com os dizeres: “Precisamos organizar a cidade” – lembra Maria do Carmo. – Nós fizemos um cartaz do

tamanho da colmeia, mamãe fez a cola, e cobrimos as colmeias da cidade inteira com os dizeres: “Rico ri

à toa.” Acabamos com o cara.

No final da peleja, faltaram votos, mas a derrota foi honrosa. Com seis na disputa, o candidato do PSB

arrastou dez por cento do eleitorado, formado, basicamente, pelas fileiras operárias do cinturão

industrial de Belo Horizonte e pelo Movimento de Favelas.

– A gente se divertia, entre aspas, indo dar curso em favela – conta Vânia Bambirra. – Os quadros da

Polop eram recrutados nos cursos. A gente dava aquela formação básica e depois recrutava. Era um

recrutamento muito lento. Tanto que se dizia que a Polop cabia num Volkswagen.

– Além de participar dos comícios, escrever e dar palestras, eu dava aulas de filosofia e sociologia –

recorda Chaim Katz.

– Fiz muita coisa junto com o Beto em favelas, como a Segura a Saia e a Vila dos Marmiteiros. A

gente ia no final de semana, com um carro de som – acrescenta Regis Gonçalves.

A utopia era organizar o trabalhador operário para fazer a revolução socialista. Com esse propósito, a

Polop investia pesado no trabalho de politização. Mantinha cursos nas comunidades e em núcleos

operários. Entre os movimentos que se estruturavam, o dos marceneiros, para o qual Beto dava aulas de

marxismo, era um dos mais avançados, guarda na memória o advogado Élcio Reis, outro militante da

organização.

E o grupo já sabia. Sempre que a Polop planejava uma ação, era Beto quem assumia a dianteira. Foi

assim quando os trabalhadores da fábrica de tecidos Marzagão decidiram acampar em Belo Horizonte,

em protesto contra meses de atraso nos salários. Beto logo mobilizou o apoio do Diretório Central dos

Estudantes (DCE) da UFMG. Foi assim quando a Polop deixou Belo Horizonte às escuras, durante uma

greve estadual de metalúrgicos que contou com a adesão dos estudantes e dos transportes coletivos.

Foram dez horas de apagão. A cidade parou. A operação foi articulada por Beto, na frente operária, com

os eletricitários.

– A diferença desse novo grupo, com uma grande discussão teórica, é que nós achávamos que o

caráter da revolução brasileira era socialista, e, nessa perspectiva, rompemos com a tradição do Partido

Comunista, que achava que o Brasil tinha de passar por um processo longo de acumulação de forças,

porque as relações de produção ainda eram do tipo feudais. Nós achávamos que tínhamos de partir para a

luta – explica Cláudio Galeno, que militou com Beto não só na Polop, mas também em organizações que dela derivaram, como os Comandos de Libertação Nacional (Colina) e a VAR-Palmares.

– No fundo era a dinâmica de uma juventude pequeno-burguesa, fundamentalmente de classe média,

que, a partir do movimento estudantil, desenvolveu vínculos com o movimento camponês e o movimento

operário – observa Theotonio dos Santos. – No caso de Minas, nós assumimos a liderança do movimento

camponês. O primeiro Congresso Camponês do Brasil foi feito em Minas. Nós é que organizamos. E o

Beto teve uma participação importante.

 

PARA SUSTENTAR AS ATIVIDADES era preciso um mínimo de recursos, consumidos, em sua maioria, com a

aquisição de livros e a reprodução de textos e panfletos. Os militantes da Polop tinham de se virar para

levantar finanças. Essa é a origem do Bucheco, bar de boas lembranças que sacudiu a noite de Belo

Horizonte no ano de 1963. O sugestivo nome pretendia ser uma homenagem a Che Guevara, cuja foto, em

grandes dimensões, pendurada logo à entrada, indicava as preferências políticas dos donos da casa.

O endereço era rua Guajajaras n.329, Centro, pertinho de tudo e todos. Ali, Beto e Inês Etienne,

amigos inseparáveis, recolhiam fundos para financiar as ações da Polop. Evandro Brandão era o terceiro

sócio, mas também os amigos eram um pouco donos do lugar. Cláudio Galeno, que trabalhava no jornal

Correio de Minas, pagou os copos. Em troca, ganhou uma cota. Chaim Katz também tinha uma cota.

Todo mundo ia ao Bucheco. Estudantes, professores, jornalistas, artistas. No cardápio, cerveja e

cachaça. Para acompanhar, bolinhos fritados por dona Angelina e servidos por sua filha Lótus, a mais

linda garçonete da cidade. A música era o jazz e a bossa nova, com a sua ancestralidade direta: Johnny

Alf, Maysa, Dolores Duran, Doris Monteiro… Tinha um clima de taberna, com pé-direito baixo e mesas

coletivas. Quem ia chegando, ia ocupando os lugares e, com a coragem que os tempos invocavam, pedia

um “sangue de burguês”, o coquetel vermelho da casa, uma duvidosa mistura de Campari com Grapette.

O Bucheco não tinha hora para fechar.

– Eu ia praticamente toda noite lá. Saía do jornal e ia encontrar o Guido, o Fernando Gabeira, o Regis.

Ali se fazia política. Hoje é uma sauna gay – lembra Galeno.

Apesar do ambiente libertário, Beto não hesitava em enquadrar os amigos, quando achava que

passavam dos limites. Conta Galeno:

– Nós jogávamos pôquer no Bucheco. Uma noite, já de madrugada, o Dickson, que era muito louco,

propôs: “Vamos jogar strip-pôquer.” Inês perdeu e fez strip-tease em cima da mesa. O Beto ficou

sabendo, chamou todo mundo e ameaçou de expulsão da Polop. Fizemos autocrítica.

O Bucheco teve vida curta. Em parte pela gestão solidária, que resultou temerária. Quem não tinha

dinheiro, bebia e comia de graça. Em parte porque, em 1964, também o Brasil fechou. Com o golpe

militar de 31 de março, entre outros retrocessos, caía por terra o sonho camponês. Randolfo e Raimundo,

fundadores das Ligas de Minas Gerais, foram presos, e a escola, erguida em mutirão pelos lavradores de

Três Marias com a ajuda dos marceneiros e militantes da Polop, ficou para o Neném da Peleca, a quem

foi devolvida aquela beira de rio que antes não tinha nada, só cobra.

Beto experimenta, pela primeira vez, o sabor da derrota. E sai de cena.