Seu amigo esteve aqui
O tostão contra o milhão
O ANO DE 1962 foi de efervescência política para Beto. A viagem a Cuba, o trabalho com os camponeses
de Três Marias e nas Ligas de Minas Gerais, as disputas nos partidos de esquerda e fora deles… Beto
respirava política nas 24 horas do dia. As tarefas invariavelmente incluíam colar cartazes ou pichar os
muros da cidade, com a amiga Maria do Carmo. Dona Angelina dava cobertura. Fazia os baldes de cola,
preparava tintas e ainda garantia o lanche depois.
O professor Theotonio dos Santos lembra-se daquele início da Polop em Minas:
– Eu vinha da Juventude Trabalhista, o mesmo grupo do sociólogo Herbert de Souza, o Betinho. Nós
estávamos com um problema dentro do Partido Trabalhista, porque nós, da Juventude, tínhamos
conseguido indicar e aprovar um candidato a prefeito. Ganhamos a convenção, mas a direção do partido
anulou o congresso, convocou outra convenção e nos impediu de entrar. Então resolvemos sair com um
candidato por outro lado, pelo Partido Socialista.
Beto teve participação decisiva nessa estratégia. Segundo o amigo Regis Gonçalves, havia sido dele a
ideia de levar a Polop para o PSB.
– Vamos ocupar esse partido. É uma estrutura legal! A gente pode lançar candidato! – dizia ele.
Em Minas, o PSB era um partido pequeno, presidido pelo médico Palmyos Paixão Carneiro – que,
mais tarde, criaria a cooperativa médica Unimed –, e que tinha, entre seus filiados, o psicanalista Hélio
Pellegrino. A sede era uma salinha num prédio antigo da avenida Afonso Pena. O telefone era dividido
com uma alfaiataria vizinha, através de uma abertura na parede. Quando tocava, ou o alfaiate ou alguém
do partido atendia.
O candidato que o pessoal da Polop queria indicar era o jornalista José Maria Rabelo, diretor do
Binômio, influente e explosivo tabloide de esquerda:
– Zé Maria era um militante histórico do PSB e tinha radicalizado conosco. Só que ele havia tomado
uma decisão pessoal de se lançar candidato a vice-prefeito, uma candidatura independente. Eu até hoje
não entendo bem por quê. Ele estava ali de livre atirador pra fazer a liderança. Então nós resolvemos
convencê-lo a sair candidato a prefeito – continua Regis.
Puxada por Beto, uma comissão de frente da Polop adentrou a redação do Binômio, à noite,
determinada a convencer Zé Maria a assumir a candidatura:
– Isso é uma loucura! – reagiu de chofre o jornalista, para, em seguida, capitular. – Às vezes a loucura
dá certo.
Sem dinheiro para a empreitada – seu único capital era o Binômio –, Zé Maria decidiu aceitar o
desafio, desde que aquele grupo de jovens trabalhasse na campanha:
– Todos tinham grande valor intelectual e político – lembra Zé Maria.
Um dos mais animados, Beto coordenou a campanha e foi o idealizador do esquete teatral que
animava os comícios do candidato socialista. A peça usava uma carroceria de caminhão como palco. A
direção era de Jota D’Angelo e os jingles, de Ponce de León. No argumento – “O Zé Tostão contra o
Tubarão” –, Guido Rocha parodiava o slogan da própria campanha, que criticava e desafiava as elites:
“O tostão contra o milhão.”
– Na peça, o Beto fazia o Zé Maria; eu era o tecnocrata. E a música tinha um trecho assim: “Nós
somos todos candidatos/ queremos ganhar as eleições/ quem paga toda a despesa/ é o titio Tubarão” –
relata Élvio Moreira.
– Lótus era a atriz e Beto, o galã – conta Maria do Carmo.
– Acho que nós fazíamos um casal de retirantes – completa Lótus.
– O Beto era um rapaz bonito, tinha prestígio com as meninas, de modo que eu gostei muito de ser
representado por ele – diverte-se Zé Maria.
Era uma campanha pobre. Mas a ajuda de alguns amigos ricos às vezes contrariava o próprio
marketing eleitoral. É o que conta Regis Gonçalves:
– O Zé Maria tinha um amigo que era diretor da rede de lojas Bemoreira, chamado Sebastião
Moretzsohn, que financiou a campanha e contratou um helicóptero. O candidato chegava nas favelas de
helicóptero.
A ordem era marcar posição política. A candidatura de José Maria Rabelo, fortemente ideológica, era
dirigida “aos fracos e oprimidos, os mais pobres”. E não só pelo helicóptero, uma novidade para a
época, a campanha fez história:
– Havia um candidato da UDN, cujo cartaz de campanha era ele sorrindo, segurando uma colmeia,
com os dizeres: “Precisamos organizar a cidade” – lembra Maria do Carmo. – Nós fizemos um cartaz do
tamanho da colmeia, mamãe fez a cola, e cobrimos as colmeias da cidade inteira com os dizeres: “Rico ri
à toa.” Acabamos com o cara.
No final da peleja, faltaram votos, mas a derrota foi honrosa. Com seis na disputa, o candidato do PSB
arrastou dez por cento do eleitorado, formado, basicamente, pelas fileiras operárias do cinturão
industrial de Belo Horizonte e pelo Movimento de Favelas.
– A gente se divertia, entre aspas, indo dar curso em favela – conta Vânia Bambirra. – Os quadros da
Polop eram recrutados nos cursos. A gente dava aquela formação básica e depois recrutava. Era um
recrutamento muito lento. Tanto que se dizia que a Polop cabia num Volkswagen.
– Além de participar dos comícios, escrever e dar palestras, eu dava aulas de filosofia e sociologia –
recorda Chaim Katz.
– Fiz muita coisa junto com o Beto em favelas, como a Segura a Saia e a Vila dos Marmiteiros. A
gente ia no final de semana, com um carro de som – acrescenta Regis Gonçalves.
A utopia era organizar o trabalhador operário para fazer a revolução socialista. Com esse propósito, a
Polop investia pesado no trabalho de politização. Mantinha cursos nas comunidades e em núcleos
operários. Entre os movimentos que se estruturavam, o dos marceneiros, para o qual Beto dava aulas de
marxismo, era um dos mais avançados, guarda na memória o advogado Élcio Reis, outro militante da
organização.
E o grupo já sabia. Sempre que a Polop planejava uma ação, era Beto quem assumia a dianteira. Foi
assim quando os trabalhadores da fábrica de tecidos Marzagão decidiram acampar em Belo Horizonte,
em protesto contra meses de atraso nos salários. Beto logo mobilizou o apoio do Diretório Central dos
Estudantes (DCE) da UFMG. Foi assim quando a Polop deixou Belo Horizonte às escuras, durante uma
greve estadual de metalúrgicos que contou com a adesão dos estudantes e dos transportes coletivos.
Foram dez horas de apagão. A cidade parou. A operação foi articulada por Beto, na frente operária, com
os eletricitários.
– A diferença desse novo grupo, com uma grande discussão teórica, é que nós achávamos que o
caráter da revolução brasileira era socialista, e, nessa perspectiva, rompemos com a tradição do Partido
Comunista, que achava que o Brasil tinha de passar por um processo longo de acumulação de forças,
porque as relações de produção ainda eram do tipo feudais. Nós achávamos que tínhamos de partir para a
luta – explica Cláudio Galeno, que militou com Beto não só na Polop, mas também em organizações que dela derivaram, como os Comandos de Libertação Nacional (Colina) e a VAR-Palmares.
– No fundo era a dinâmica de uma juventude pequeno-burguesa, fundamentalmente de classe média,
que, a partir do movimento estudantil, desenvolveu vínculos com o movimento camponês e o movimento
operário – observa Theotonio dos Santos. – No caso de Minas, nós assumimos a liderança do movimento
camponês. O primeiro Congresso Camponês do Brasil foi feito em Minas. Nós é que organizamos. E o
Beto teve uma participação importante.
PARA SUSTENTAR AS ATIVIDADES era preciso um mínimo de recursos, consumidos, em sua maioria, com a
aquisição de livros e a reprodução de textos e panfletos. Os militantes da Polop tinham de se virar para
levantar finanças. Essa é a origem do Bucheco, bar de boas lembranças que sacudiu a noite de Belo
Horizonte no ano de 1963. O sugestivo nome pretendia ser uma homenagem a Che Guevara, cuja foto, em
grandes dimensões, pendurada logo à entrada, indicava as preferências políticas dos donos da casa.
O endereço era rua Guajajaras n.329, Centro, pertinho de tudo e todos. Ali, Beto e Inês Etienne,
amigos inseparáveis, recolhiam fundos para financiar as ações da Polop. Evandro Brandão era o terceiro
sócio, mas também os amigos eram um pouco donos do lugar. Cláudio Galeno, que trabalhava no jornal
Correio de Minas, pagou os copos. Em troca, ganhou uma cota. Chaim Katz também tinha uma cota.
Todo mundo ia ao Bucheco. Estudantes, professores, jornalistas, artistas. No cardápio, cerveja e
cachaça. Para acompanhar, bolinhos fritados por dona Angelina e servidos por sua filha Lótus, a mais
linda garçonete da cidade. A música era o jazz e a bossa nova, com a sua ancestralidade direta: Johnny
Alf, Maysa, Dolores Duran, Doris Monteiro… Tinha um clima de taberna, com pé-direito baixo e mesas
coletivas. Quem ia chegando, ia ocupando os lugares e, com a coragem que os tempos invocavam, pedia
um “sangue de burguês”, o coquetel vermelho da casa, uma duvidosa mistura de Campari com Grapette.
O Bucheco não tinha hora para fechar.
– Eu ia praticamente toda noite lá. Saía do jornal e ia encontrar o Guido, o Fernando Gabeira, o Regis.
Ali se fazia política. Hoje é uma sauna gay – lembra Galeno.
Apesar do ambiente libertário, Beto não hesitava em enquadrar os amigos, quando achava que
passavam dos limites. Conta Galeno:
– Nós jogávamos pôquer no Bucheco. Uma noite, já de madrugada, o Dickson, que era muito louco,
propôs: “Vamos jogar strip-pôquer.” Inês perdeu e fez strip-tease em cima da mesa. O Beto ficou
sabendo, chamou todo mundo e ameaçou de expulsão da Polop. Fizemos autocrítica.
O Bucheco teve vida curta. Em parte pela gestão solidária, que resultou temerária. Quem não tinha
dinheiro, bebia e comia de graça. Em parte porque, em 1964, também o Brasil fechou. Com o golpe
militar de 31 de março, entre outros retrocessos, caía por terra o sonho camponês. Randolfo e Raimundo,
fundadores das Ligas de Minas Gerais, foram presos, e a escola, erguida em mutirão pelos lavradores de
Três Marias com a ajuda dos marceneiros e militantes da Polop, ficou para o Neném da Peleca, a quem
foi devolvida aquela beira de rio que antes não tinha nada, só cobra.
Beto experimenta, pela primeira vez, o sabor da derrota. E sai de cena.