Seu amigo esteve aqui

Cristina Chacel · Capítulo 13 de 26

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Seu amigo esteve aqui

Rota de colisão

 

 

BRENO ENGOLIU EM SECO as resoluções da conferência da fusão com a VPR. Fora do comando, ele e

Dilma cobrem pontos aqui e ali, em compasso de espera para o primeiro congresso da VAR-Palmares,

marcado para setembro, quando o acordo seria confirmado e o documento político da nova organização,

aprovado. As condições da clandestinidade ficam cada vez mais duras. O AI-5 afronta as liberdades em

todo o país. As cadeias estão cheias de presos políticos e as notícias de tortura se espalham à boca

pequena.

Com a tensão crescente, é preciso redobrar a atenção. O desânimo às vezes bate à porta, mas Breno

persevera. Não veio ao mundo a passeio. Sua vida está empenhada na revolução. O aniversário está

chegando. Vai fazer trinta anos. Já não se sente um jovem. Apesar da mala de dólares que guarda debaixo

da cama, leva uma vida franciscana, de bolso vazio. Restam-lhe os companheiros mais próximos,

Gilberto Vasconcelos, o Giba, com quem está morando em mais um quarto e sala de passagem, dessa vez

na rua Anita Garibaldi, junto à pracinha do Bairro Peixoto, em Copacabana, e Dilma, sempre por perto,

pronta a atender a seus chamados.

– Era proibidíssimo eu saber onde era. Mas eu frequentava a residência dos dois. Arranjavam lá uns

óculos escuros e eu entrava de olhos fechados. Obviamente, é impossível você não saber onde está, indo

lá três, quatro vezes por semana. E como eu era também amiga do Gilberto, nossos encontros eram

clandestinos para a organização. Ninguém sabia. Juntávamos o nosso dinheiro e comprávamos comida. O

Beto cozinhava muito bem – lembra Dilma.

Com tempo para gastar, o jeito era aproveitar o possível, com o dinheiro contado. E o possível, sem

dinheiro, no Rio de Janeiro, tem nome: praia. Giba recorda:

– Era praia o tempo inteiro. Eu não via o Beto tenso. A gente cantava muito. Me lembro do dia em que

ele chegou na praia cantando “Aquele abraço”, do Gilberto Gil. Foi a primeira vez que eu ouvi a música.

Não sei onde ele aprendia as letras, porque nós não tínhamos rádio, nem televisão, e ele sabia tudo.

Tinha um bom ouvido.

Quando economizavam um troco da diária combinada, um dos programas preferenciais era a sessão no

Cine Pax, em Ipanema, onde assistiam a filmes açucarados, como Romeu e Julieta, de Franco Zeffirelli, e

Os guarda-chuvas do amor (Les parapluies de Cherbourg), com a musa Catherine Deneuve e música de

Michel Legrand. Ou, ainda, a extravagância de comer em restaurante um prato irresistível: pato com

laranja. É de novo Dilma quem conta:

– O Beto descobriu um restaurante na Barata Ribeiro que vendia um pato com laranja… Eu e o Beto

adorávamos pato com laranja, mas não era viável a gente comer com o que a gente ganhava por dia.

Tínhamos que poupar. A gente deixava de comer uma das refeições, o almoço ou o jantar, por três dias,

pra poder comer o pato. Juntava o meu dinheiro com o dele e dava um pato que a gente dividia.

Mesmo no limbo, Breno não se desconecta da política. Completam o seu dia a dia reuniões

intermináveis, em que submerge com os companheiros na obra de Lenin, lida em espanhol. Interrompe

essa rotina a festinha organizada por Giba e Dilma em comemoração aos seus trinta anos, no dia 12 de

agosto, com tudo a que tinha direito: bolo, cerveja, balão de gás e dois hits da MPB – “Mulher de trinta”, eternizada na voz do cantor Miltinho, e “Não confie em ninguém com mais de trinta anos”, dos irmãos

Marcos e Paulo Sérgio Valle. No coro, os anfitriões e únicos convidados da festa – Giba e Dilma, ambos

com 22 anos incompletos, para quem o amigo era quase um velho.

Mas o tempo não é para comemorações. Desconfiar da própria sombra faz parte do cotidiano. E

qualquer movimento estranho é tratado como iminente risco de morte. Como em certa noite, quando,

subitamente, o prédio em que moravam ficou às escuras:

– Caímos! – concluíram, a um só tempo, os quatro ali reunidos: Breno, Giba, Jorge Eduardo e

Helvécio Ratton.

Pensamento rápido, todos calcularam que, pulando daquela altura, do segundo andar, conseguiriam

amortecer a queda no toldo do vizinho, antes de alcançarem o chão e, dali, a liberdade. Primeiro, porém,

era preciso se certificar do ocorrido. Giba é o escolhido para a expedição até a portaria, com uma arma

em uma das mãos e uma bomba caseira na outra. Se a polícia viesse subindo as escadas, a ordem era

apertar o dedo e jogar o artefato, a fim de ganhar o tempo necessário para voltar ao segundo andar, bater

à porta três vezes e todos fugirem pela janela.

– Fui descendo, um a um, cada degrau, armado até os dentes, quase sem respirar, pra não fazer

barulho, até chegar à portaria – recorda Giba. – Silêncio, escuridão e… ninguém. Chamei pelo zelador.

Da garagem, ele me respondeu. Desci o último lance de escada e o encontrei com uma lanterna, trocando

o fusível que tinha queimado. Simples assim.

Às vezes, um pequeno descuido era fonte de altíssima adrenalina. Como no dia em que Breno

esqueceu um envelope de documentos da organização na prateleira debaixo do balcão de um botequim

em que passara um par de horas bebendo chope com Giba. De novo, o raciocínio é um só: a polícia vai

chegar ao documento e vai nos pegar. O jeito era montar uma operação para recuperar o envelope. Breno,

Giba e Ratton chamam um táxi. Giba senta-se ao lado do motorista, Breno e Ratton ocupam o banco

traseiro. Uma vez à porta do botequim, se percebessem que a polícia já tinha chegado, renderiam o

motorista, mandariam-no sair do carro, e Giba, o único que sabia dirigir, assumiria o volante para a fuga.

Plano perfeito. O motorista estacionou na frente do barzinho, desligou o motor enquanto esperava Breno

ir e voltar. O envelope foi encontrado intocado, no mesmo lugar.

 

O APARATO MONTADO EM UM SÍTIO na cidade de Teresópolis, Região Serrana do Rio de Janeiro, era de

grande envergadura. Da gestão de suprimentos e serviços de alimentação ao esquema de segurança

armada 24 horas, tudo fora severamente planejado considerando a hipótese de sessenta pessoas ficarem

ali reunidas por um período razoavelmente longo – até um mês – em condições de absoluta

clandestinidade. O empreendimento correspondia à disposição da Ó Pontinho e da VPR de formarem uma

organização de porte razoável para os padrões da luta armada. Lamarca acreditava estar mobilizando na

VAR-Palmares um contingente de mil jovens revolucionários, dispostos a carregar os fuzis FAL

expropriados do Quartel de Quitaúna, em Osasco, São Paulo. A vertente VPR não contava, então, mais de

150 militantes. Era um grande salto. Mas Lamarca não estava satisfeito:

– Que comando é este que não me dá 150 homens para a Luta Principal?! – queixava-se, referindo-se

ao foco guerrilheiro da nova organização.

Foi Jorge Eduardo quem jogou um balde de água fria nessa ilusão, desfazendo a ideia do Capitão de

que a Ó Pontinho, com suas muitas regionais, era mais poderosa que a ALN:

– Você faça o que quiser com essa informação, mas eu sou da comissão de organização do congresso e

lhe asseguro que em todo o Brasil a VAR-Palmares só tem 310 militantes.

Este era apenas mais um desconforto do racha que se avizinhava. A intransigência estava posta: a

militância que vinha da VPR se referenciava nas teorias militaristas de Ladislau Dowbor, o Jamil, cujas propostas circularam em todas as células que discutiam a doutrina da VAR-Palmares, no período pré-

congresso. Seus documentos eram lidos avidamente pelos militantes e rendiam longos debates. Jamil

preconizava que os combatentes da revolução deveriam ser recrutados nos grupos marginalizados, e não

nas classes tradicionais de luta. Para ele, nem o proletariado, em declínio de poder, nem os camponeses,

implicados num modelo capitalista de agricultura, derrubariam a ditadura militar. Essa missão

revolucionária caberia ao lumpesinato, o enorme exército brasileiro de excluídos.

Apesar de não ter conseguido eleger delegados para participar do congresso, Jamil exercia tanta

influência nas bases que suas teses tinham força de doutrina – o “jamilismo”, contra o qual Jorge Eduardo

e o secundarista Álvaro Lemos chegaram a produzir um texto crítico intitulado “A subversão da massa

estratégica pelo camarada Jamil”.

– Uma obra-prima do dogmatismo. O nome já é ridículo – comenta Jorge Eduardo.

Teóricos originários da DDD, da regional Guanabara, que haviam sido deslocados para Belo

Horizonte com a finalidade de rearticular a Ó Pontinho mineira depois da queda do grupo de fogo da

Colina, Álvaro e Jorge Eduardo eram os responsáveis pelas teses do congresso, ostensivamente

polarizado entre o grupo militarista, que defendia a luta armada, e a turma massista, que não abria mão do

trabalho político.

A plenária instalada em Teresópolis somava, de fato, umas sessenta pessoas – cerca de vinte

delegados com direito a voto, mais os doze do comando das duas organizações que iriam se fundir, e que

não tinham direito a voto, e o pessoal de apoio. A evidência das diferenças contribuiu para radicalizar

posições. A fusão era a única chance de fortalecer o caminho comum, todos ali reunidos a queriam, mas

as contradições prevaleceram. Lembra Carlos Araújo:

– A VPR radicalizava de uma forma pouco política, se expressava mais militarmente do que

politicamente, e, com isso, exacerbava também nossos delegados. Quando a gente propunha ações

urbanas e distribuição de alimentos, esse tipo de coisa, os caras tinham pavor disso. E o Breno foi o

primeiro a perceber que não ia dar certo. O pessoal ia pra reunião todo mundo armado, o cara botava a

metralhadora na frente dele e vinha falar com a gente, discutir. Que que é isso, companheiro? Também

não é assim! Com uma 45 na mão… O troço era tão complicado entre eles quanto entre nós.

Esta, porém, não era a impressão de Espinosa, do comando da VPR:

– Pode ser que eu seja muito ingênuo, mas nós fomos para o congresso numa boa, sem haver uma luta

interna dentro do comando – assegura.

Antes mesmo de começar, também é fato, o congresso desandou. Descobriu-se que a delegação

paulista não havia sido eleita em conferência regional, como determinava o rito. Os dois representantes,

Celso Lungaretti e José Raimundo da Costa, haviam se indicado eles mesmos, o que foi entendido como

um golpe pelo comando provisório da VAR. Por isso, a reunião foi adiada, mesmo com trinta delegados

já dentro da casa, que tiveram de aguardar a realização de uma conferência em São Paulo para eleger os

delegados daquela regional, o que consumiu uma semana.

É justamente durante essa semana – ironicamente, Semana da Pátria –, no dia 4 de setembro de 1969,

que outras duas organizações da esquerda armada, a ALN e o Movimento Revolucionário 8 de Outubro

(MR-8), realizam uma das mais ousadas ações de enfrentamento ao regime militar – o sequestro do

embaixador americano Charles Burke Elbrick, no Rio de Janeiro, que duraria três dias, com um desfecho

vitorioso: a libertação de quinze presos políticos, expulsos do país e banidos para o México.

Na casa de Teresópolis, dirigentes e delegados da VAR, ao tomarem conhecimento do feito,

comemoram. Do lado de fora, Araújo e Espinosa, que tinham saído para realizar a conferência de São

Paulo, são obrigados a enfrentar barreiras da repressão para voltar à serra fluminense, mas acabam

chegando sãos e salvos. O congresso, enfim, começa. Lungaretti e José Raimundo participam, porém não

mais como delegados e sim como seguranças. Não votam. Os trabalhos se iniciam pela análise da realidade internacional. Praticamente não há divergências. A discussão mais acesa é sobre a invasão da

então Tchecoslováquia, um ano antes, pelos tanques soviéticos do Pacto de Varsóvia, que sufocaram a

Primavera de Praga, como ficou conhecida a manifestação popular por mais democracia no país. A

plenária decide condenar a invasão, sem, entretanto, tornar essa crítica pública através de manifestos, já

que a União Soviética não é o inimigo principal. Nesse debate, Breno brilha. É, de longe, o mais bem-

preparado, profundo conhecedor do marxismo e, em particular, da obra de Lenin.

– O Breno era um cara que, além de pensar bem, brigava, e muito. Era um cara irônico, sarcástico.

Ficar na mira dele era foda, porque ele alvejava no meio do nariz – relembra Espinosa.

Irônico, sarcástico e quase sempre senhor da situação, Breno só perdia as estribeiras quando se sentia

pessoalmente atingido, como quando Dilma e Jorge Eduardo, aliados até a raiz dos cabelos, na mais

ingênua das brincadeiras, tomaram a música “País tropical”, estrondoso sucesso de Jorge Ben na voz de

Wilson Simonal, e fizeram uma paródia com os companheiros do congresso. É ela, Dilma, quem

cantarola e conta:

– “Esse é um congresso tropical,/ Abençoado por Lenin,/ Vacilante por natureza,/ Ricardo é mesa

(Ricardo é mesa),/ e tem Juvenal (tem Juvenal).” E concluía: “O Breno é bicha (o Breno é bicha).” Tinha

uma escadaria grande na casa, e, em certa manhã, o Jorge Eduardo desce aquela escadaria correndo e

cantando “O Breno é bicha, o Breno é bicha” e dá de cara com o Breno! Ele ficou puto, nos chamou lá em

cima, falou que nós dois éramos uns moleques, que não tínhamos compostura revolucionária.

Afora os pitos desimportantes dos momentos de distensão, o congresso seguia sua agenda no fio da

navalha. O grupo que tinha por missão apresentar a proposta da coluna guerrilheira concluiu rapidamente

o trabalho e se espalhou por outros grupos. Lamarca foi um deles, juntando-se a Espinosa e Araújo,

encarregados de sistematizar a proposta da União Operária. Foram noites e mais noites viradas, em que o

Capitão, vivamente interessado, acompanhava tudo com dedicada atenção.

– O Lamarca tinha uma fascinação pelo movimento operário. O negócio dele era a tomada do poder. E

a tomada do poder você não faz sem a classe operária. Embora a comissão que criou e sistematizou a

tática da União Operária tenha sido formada por mim e pelo Carlos Araújo, Lamarca participou de tudo,

sem nenhuma divergência – comenta Espinosa.

A suposta anuência de Lamarca, a grande estrela do congresso, não determinaria, entretanto, a

aprovação em plenário do compromisso com a proposta da União Operária, um documento de vinte

páginas que explicitava noções e detalhava estatuto. Para além do papel, não valia o escrito. Acrescenta

Araújo:

– É verdade que o Lamarca participou muito, mas não era essa a questão. Podia todo mundo assinar o

negócio do movimento operário, mas, na prática, o negócio era: nós temos trezentas pessoas, a proposta é

que 290 vão para o campo e fiquem dez aqui, um em São Paulo, um no Rio, outro no Sul. A discussão era

quem é contra o campo e quem é a favor do campo; quem é da cidade, quem é da política; quem quer

fazer a revolução e quem não quer. Em última instância, quem quer fazer a luta armada e quem não quer.

Foi exatamente essa a fratura exposta a sangue-frio por Mário Japa, de origem VPR, que acabou

insuflando a virada de mesa. É de novo Espinosa quem relata:

– A gente já estava na casa há uns vinte dias. Lá pelo dia 26 de setembro, mais ou menos, chega o

Mário Japa, como que caído da lua, porque ele não tinha participado de etapa nenhuma, justo na noite em

que nós íamos ler o texto da tática para o movimento operário. E nós todos já havíamos decidido que

naquela noite o texto só seria lido, a discussão ficaria para o dia seguinte. Acabamos de ler, Carlos

Araújo e eu, já eram quase nove da noite, estávamos esperando uma salva de palmas, porque aquilo era a

fusão da luta armada com o movimento operário, era o ponto de equilíbrio, quando o Mário Japa pede

uma questão de ordem e pergunta: “Bom, e vai sobrar gente para fazer a luta armada? E a coluna, como é

que fica? Eu estou estranhando muito. Enquanto os companheiros do grupamento comunista estão lá fora fazendo a revolução, fizeram o sequestro do embaixador americano, a gente está aqui com blá-blá-blá.”

Do mesmo episódio, Jorge Eduardo guarda, na lembrança, uma ideia diferente:

– A chegada dele foi o que salvou aquele congresso de virar um tiroteio dentro de um aparelho em

Teresópolis. Ele era uma pessoa extremamente afável, de dialogar, que compreendia a situação e

conseguia explicar didaticamente para aquele grupo de militares, que não entendia nada de política, que

nós não éramos os sacanas, quais eram as questões, que o mais prático era cada um seguir o seu caminho.

Sem falar que ainda tinha uma questão de dinheiro violenta em jogo.

Um dos protagonistas da contenda, Carlos Araújo não faz coro nem com Espinosa, nem com Jorge

Eduardo:

– Eu não valorizo o papel do Mário Japa no racha. Ele se esboçava como um teórico da posição

deles. Ele foi a pessoa que colocou a divergência de uma maneira mais crua, mais nítida para a posição

deles. Papel mesmo quem teve foi o Lamarca. E o Claudio Marinheiro, o Matos.

Com o grito do Japa parado no ar, o congresso entra em recesso até a manhã do dia seguinte.

Esgotados de um dia inteiro de plenária, os militantes vão dormir. Sete deles, porém, iniciam uma nova

jornada. Às quatro da madrugada, Espinosa é acordado e convocado a participar da reunião, que varara a

noite. Zonzo, sem entender o que acontecia, o líder da greve de Osasco, VPR puro-sangue, confidente do

capitão Lamarca, desce a escadaria, cambaleando, e encontra no andar de baixo uma cena armada.

Literalmente: sete comandantes da VPR – Lamarca, Darcy, José Nóbrega, Claudio Marinheiro,

Lungaretti, José Raimundo e Mário Japa – sentados em volta de uma mesa redonda, pistolas sobre o

tampo, ostensivamente apontadas para a oitava cadeira, única vazia, destinada a Espinosa, que é quem

reconstitui todo o diálogo daqui por diante, e tem em Claudio Marinheiro o porta-voz do fato consumado:

– Vamos reconstituir a VPR – anunciou.

– Como assim reconstituir a VPR? – reagiu, espantado, Espinosa. – Nós fizemos uma fusão, não

estávamos brincando, não tem esse negócio de reconstituir. Pelo que eu estou entendendo vocês estão

querendo rachar!

– Naquela reunião não houve fusão, houve uma experiência de fusão – contrapôs o Japa.

– Experiência de fusão? Nós constituímos comando, unificamos tudo. Você está brincando de fazer

experiência, casamento experimental, isso não tem – rebateu Espinosa.

– Nós decidimos reconstituir, vamos reconstituir. E você, como dirigente, vai junto – intimou

Marinheiro, para encerrar a questão.

– Eu não vou – comunicou um já exaltado Espinosa. – Vocês estão errados. Vão acabar entrando, de

novo, num desvio foquista. Estamos fazendo um esforço pra sair do foquismo, o que não significa

renunciar à luta armada!

– Esse pessoal não quer a luta armada! – devolveu Claudio Marinheiro.

Foi quando Nóbrega, remexendo em feridas recentes, atacou Espinosa:

– Nós já te conhecemos de longa data. Você é um tremendo de um manobrista. Isso aqui é mais uma

jogadinha sua, semelhante à que você fez quando colocou aquele açougueiro para nos comandar.

Nóbrega se referia a João Domingues, açougueiro de ofício, recrutado por Espinosa e por ele alçado

ao comando do grupo tático da VPR, onde atuavam os sargentos da organização. Espinosa não se dera

conta, até ali, do vespeiro criado. Por formação, os militares não aceitavam o comando de um

açougueiro, ainda que ele fosse exímio atirador, que manejasse as armas com a tranquilidade de um

experiente oficial. O sangue subiu-lhe à cabeça. O companheiro João Domingues, amigo de Osasco, que

emprestara sua coragem e determinação na Grande Ação do cofre, caíra duas semanas antes do início do

congresso. Estava morto.

– Filho da puta! – bradou Espinosa, pegando a xícara de café na mesa e jogando-a na direção de Nóbrega, que respondeu da mesma forma, entornando a bebida ainda quente em Espinosa.

Ato contínuo, Espinosa pega a arma de Lamarca, Nóbrega saca sua pistola, a turma do deixa-disso

entra rapidamente em ação e evita mais uma tragédia. Já então o relógio marca seis da manhã. A gritaria

acorda os outros ocupantes da casa. Não há mais entendimento possível. O racha está consumado. As

sessões são interrompidas, começa a discussão da partilha dos meios da organização. No espólio, armas

e 2 milhões de dólares.

 

L AMARCA ASSISTIU A TUDO CALADO. Sua única intervenção, durante todo o episódio, foi segurar a mão de

Espinosa, quando este apanhou sua pistola. O Capitão passava por maus momentos. A cirurgia plástica a

que se submetera para mudar a aparência tinha sido desastrosa. Odiara o resultado. Não se reconhecia

mais. A convalescença dolorosa se arrastava. O sonho da luta armada, idem. Já fazia meses que desertara

e ainda não havia área para a implantação do foco guerrilheiro. O confinamento tornava-se insuportável.

Restava-lhe o amor de Iara, mas este também estava sujeito ao mau tempo, eivado de culpas. Ele poderia

ter contornado a situação, em nome de uma organização mais forte, capaz de vencer aquela guerra. Não

pôde. Não quis.

Depois da tempestade, não veio a bonança. A manhã seguiu tensa, cochichos de ambos os lados,

desconfianças à flor da pele. Breno rapidamente assumiu as rédeas da situação. O racha não o

surpreendeu. Dali, talvez, fosse o mais cético com a fusão. E, decerto, era o mais crítico. De alguma

forma, sentia-se aliviado. A VPR retomaria seu rumo e a VAR, separado o joio do trigo, seguiria com sua

proposta. Breno estava preparado para reestruturar a luta. A VAR-Palmares não morreria ali. O

congresso só estava suspenso.

Naquele mesmo dia, ao cair da tarde, a casa de Teresópolis foi desocupada. Na despedida, Lamarca

deu a pistola com que se formara oficial de presente para Espinosa. Marinheiro chorou. Espinosa chorou.

Lamarca chorou.

 

O CONGRESSO DA VAR-PALMARES foi reaberto quinze dias depois, já no Rio de Janeiro, e durou uma

semana. Ao encontro compareceram todos os delegados com direito a voto que haviam estado em

Teresópolis, numa demonstração de que o racha, pelo menos até ali, havia sido mesmo “dos sete”. No

amplo apartamento arranjado pelo companheiro Reinaldo Melo, na Zona Sul da cidade, cerca de quarenta

pessoas aprovaram a tática da união operária e a tática da união camponesa, na qual se destacou Mariano

Joaquim da Silva, o Loyola, também chamado de Coronel, o mais pobre entre eles, lavrador, negro,

nordestino, originário das Ligas Camponesas de Pernambuco. A plenária elegeu ali o novo comando

nacional da organização: Breno, Carlos Araújo, Espinosa e Loyola.

 

SÃO MUITAS AS VERSÕES sobre o destino das armas e dos dólares expropriados do cofre do dr. Rui.

Nenhuma delas fecha. Quase oitenta por cento do apurado na Grande Ação teriam sido exportados para a

Argélia, onde, pouco tempo depois, em junho de 1970, desembarcaria a terceira leva de banidos da

ditadura brasileira – quarenta presos políticos trocados pela liberdade do embaixador alemão Ehrenfried

Anton Theodor Ludwig von Holleben, sequestrado pela VPR em parceria com a ALN e o MRT

(Movimento Revolucionário Tiradentes), mais uma das muitas frações da luta armada da época. Depois

de Teresópolis, ninguém repassou nada para ninguém. Nem armas, nem dólares. E o desgaste da partilha

se estende no tempo.

Uma tentativa de acordo chegou a ser feita num encontro de dirigentes na estrada das Paineiras, cerca de um mês depois, defronte ao hotel de mesmo nome, no trecho da Floresta da Tijuca que fica perto da

estátua do Cristo Redentor. Os grupos chegaram juntos. Pela VAR estavam Jorge Eduardo, Cláudio

Câmara e uma terceira pessoa cujo nome o vento levou. Pela VPR, Lamarca, Darcy e Inês Etienne

Romeu. A conversa áspera e a troca de ameaças fez o tempo fechar rapidamente. Cada grupo tomou seu

rumo sem nada levar. Cada um ficou com o que já tinha em mãos.

Para Breno, porém, o racha de Teresópolis levou mais que armas e dólares. Levou companheiros que

vinham com ele desde Minas – Juarez, Maria do Carmo, Herbert Daniel e a amicíssima Inês Etienne

Romeu. O último encontro dos dois, em outubro de 1969, foi atravessado por uma dor que não

transbordava. Escreveu Inês, alguns anos depois, sobre a trajetória de Beto:

Nos separamos mutuamente magoados. O cafezinho que tomamos num bar deixou um gosto amargo. Creio que nos faltava maturidade para compreender a complexidade das relações humanas quando submetidas a duras condições de confronto com o capitalismo: era a guerrilha urbana.

 

O ano de 1969 terminaria ainda mais sombrio do que começara. A morte de Carlos Marighella,

comandante da ALN, numa emboscada da repressão na Alameda Casa Branca, em São Paulo, no dia 4 de

novembro, baqueia militantes não só da ALN, mas de toda a resistência armada à ditadura.

Um mês depois, da Penitenciária de Linhares, em Juiz de Fora, ecoariam gritos de horror e dor. Em

ato de desmedida coragem, doze presos políticos mineiros, todos companheiros de Breno, originários da

Colina, conseguem contrabandear para a França um documento em que denunciam as torturas sofridas a

mando da ditadura militar instalada no Brasil. O documento dá nome aos torturadores e descreve, em

detalhes, os métodos usados para quebrar suas vítimas. Com data de 19 de dezembro de 1969, é assinado

por Irani Campos, Angelo Pezzuti da Silva, Pedro Paulo Bretas, Antonio Pereira Mattos, Maurício Paiva,

Afonso Celso Lana Leite, Murilo Pinto da Silva, Júlio Antônio Bittencourt Almeida, Marco Antonio

Azevedo Meyer, José Raimundo de Oliveira, Jorge Raimundo Nahas e Erwin Rezende Duarte. Na peça,

acusam 42 militares e policiais de cometerem crime de tortura, como mandantes ou executores diretos,

contra presos políticos sob a custódia e a responsabilidade do Estado brasileiro em unidades militares e

policiais de Belo Horizonte e do Rio de Janeiro.

Da França, a denúncia de Linhares correu mundo. O duro, seco e dilacerante relato de uma aula de

tortura no quartel da Polícia do Exército, no Rio, virou cena do filme Estado de sítio, do diretor

Constantin Costa-Gavras, sobre a participação criminosa do governo americano nas ditaduras latino-

americanas. Na película, de 1972, Gavras acusa os Estados Unidos de formarem agentes de tortura nas

polícias de vários países. O Brasil aparece como um dos países assessorados, onde os americanos

teriam ensinado técnicas de tortura a milhares de policiais de São Paulo e de Belo Horizonte.

Com uma ação que alcança repercussão internacional, a VAR surpreende a direita e a esquerda na

noite da virada do ano: quando o mundo espocava champanhe para brindar à chegada de 1970, seis

militantes da organização, armados com pistolas e metralhadoras, sequestram um avião Caravelle, da

Cruzeiro do Sul, logo após a decolagem, no aeroporto de Montevidéu, no Uruguai. A aeronave é desviada

para Cuba. Era o primeiro sequestro de um avião brasileiro. Participaram da ação Athos Magno Costa e

Silva, Cláudio Galeno de Magalhães Linhares, Isolde Somer, Nestor Guimarães Herédia, Marília

Guimarães Freire e uma liderança que em pouco tempo voltaria ao país e disputaria a hegemonia da VAR

com Carlos Alberto Soares de Freitas: o goiano James Allen Luz.