Seu amigo esteve aqui

Cristina Chacel · Capítulo 16 de 26

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Seu amigo esteve aqui

Ânimos e desânimos

 

DEZEMBRO DE 1970, Caraguatatuba, litoral de São Paulo. Durante dois dias, na semana entre o Natal e o

Ano-novo, Breno comanda a reunião preparatória para o congresso de Recife com cinco militantes. É

tudo o que restou da regional paulista da VAR. Cinco jovens visivelmente acuados, em posição

defensiva. Retrato de uma organização praticamente acabada. Uma organização que “desmilinguiu”, para

usar a expressão da mineira Oroslinda Goulart, que estava entre os cinco da conferência de São Paulo. O

outro era Heitor, o Italiano, seu companheiro.

Naquela casa de praia do litoral paulista, Oroslinda reviu um Breno diferente. Não saberia dizer

exatamente em quê. Mas, com certeza, diferente daquele que ela conhecera como Beto, em Belo

Horizonte, lá pelos idos de 1965, que a todos contagiava com sua inabalável e impressionante convicção.

A firmeza era a mesma, ele estava longe de se dobrar. Mas faltava-lhe o entusiasmo de outrora, a

vivacidade que o tornara o dirigente mais popular entre a militância da Polop mineira, aquele punhado de

estudantes que, juntos, não enchiam uma Kombi, como eles mesmos costumavam dizer, com humor. Onde

estavam aqueles olhos azuis irresistíveis, que podiam ganhar um tom esverdeado, de acordo com a

incidência da luz ou da cor desta ou daquela camiseta?

O dirigente nacional da VAR-Palmares que Oroslinda via à sua frente carregava um olhar resignado. E

por se tratar de Breno, que falava com os olhos, sentir aquela mudança produziu um forte impacto em

Oroslinda, ela mesma uma garota assustada, sob forte e permanente tensão. Breno, senhor de uma vontade

tão imbatível que podia se dar o luxo de ser alegre, divertido, até leve, trazia agora um olhar nublado,

que traía a evidência da precariedade que todos enfrentavam. Oroslinda não tocou no assunto com o

amigo. Até hoje não sabe se teria coragem de fazê-lo. Seria chegar muito perto.

Não que ela não tivesse intimidade com ele. Ao contrário, era amiga de um tempo em que formavam

uma família. Tanto que um dia, na praia, fazendo fachada para a reunião preparatória, Oroslinda

disparou:

– E as namoradas, Beto?

– A minha última namorada o Capitão tomou – respondeu, de chofre, referindo-se a Iara e a Lamarca,

e emendou uma sonora gargalhada, como que a espantar a lembrança do amor doído.

Breno abriu os trabalhos chamando toda a responsabilidade daquele encontro para si. “Se eu cair,

estou perdido mesmo”, falou, o que só fez aumentar a desconfortável impressão de Oroslinda. Mas se

contraíra uma inusitada resignação, também confirmava seu compromisso de honra com a revolução para

aquela debilitada célula militante. Juntos, aqueles rapazes e aquela moça simulavam a fachada de um

grupo de jovens de classe média aproveitando um fim de semana na praia. Na vida real, comungavam

angústias. Sequer divergiam. A situação era limite, não tinham como continuar, era preciso recuar para

recuperar forças. Foram dois dias de leituras e discussões. Depois dali, o grupo perdeu o contato com a

organização. Foi também a última vez que Oroslinda viu Breno.

Quarenta anos depois, Oroslinda retém na memória a risada e a voz do amigo. Guarda nítida a figura

daquele homem lindo, naturalmente elegante, apesar da barriguinha proeminente, que se destacava no

biotipo magro. No curso dos dias, meses, anos e décadas passadas, viu-se acompanhada por aquele olhar, quase derrotado:

– Se eu fechar os olhos, eu vejo o Beto com aquele olhar resignado, nublado. Eu acho que ele sabia

que ia cair, sabia que ia morrer. Não consigo esquecer.

 

JANEIRO DE 1971. Breno está de volta ao Rio. A duas semanas do congresso de Recife, marcado para o

final do mês, sua principal missão é eleger os delegados da regional mais forte da VAR, em número de

militantes. Era preciso garantir a representação no congresso que discutiria o programa da organização.

A despeito de perdas e danos, o documento ainda se manteria fiel à estrutura clássica das teses de

esquerda, com direito a análise da situação internacional, seguida da análise do processo histórico

brasileiro, desembocando na estratégia, sempre referenciada nas categorias do marxismo. Não nega a

vertente Polop de seu DNA.

O espaço é pequeno para o encontro no apartamento do casal Geraldo Leite e Rosalina Santa Cruz,

ambos militantes de vida legal – ele, funcionário do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária

(Incra) e ela, do Banco Nacional de Habitação (BNH). O comando nacional da organização esteve ali

cem por cento representado: além de Breno, Mariano Joaquim da Silva, o Coronel, também chamado de

Loyola. Foram três dias de debate pesado em que a maior polarização se deu entre os delegados e

dirigentes da regional Guanabara, de um lado, e a direção nacional, de outro, em especial Breno. Loyola

evitava se posicionar claramente, escapando quando podia ao confronto de posições. Quem lembra é o

militante Carlos Henrique Vianna:

– Loyola tinha muito de camponês matreiro, de velho militante de antes de 1964, e usufruía

visivelmente da admiração dos militantes cariocas. Já Breno, um dirigente comunista mais clássico,

sentia-se no dever de defender a posição programática da VAR-Palmares tirada no congresso de

Teresópolis. Ele apregoava o desenvolvimento do trabalho político juntamente com a prática de ações

militares, com prioridade para a preparação cuidadosa das condições políticas e militares para uma

futura deflagração de um foco guerrilheiro e de radicalização de lutas camponesas na Área Estratégica.

Por outro lado, era praticamente consenso, naquele grupo, que não havia mais condições para

prosseguir com a implantação da Área Estratégica. Guardadas pequenas variações na dosagem da

convicção, a regional da Guanabara, sem abdicar da defesa da luta armada como estratégia para derrubar

a ditadura, defendia um recuo da esquerda revolucionária, concentrando esforços exclusivos no trabalho

urbano de massa, principalmente no chamado trabalho operário. Prossegue Carlos Henrique:

– Nós achávamos que a luta armada, tal como se desenvolvera desde 1968, estava derrotada, em

grande medida devido ao radicalismo excessivo das chamadas organizações militaristas, ALN, VPR,

PCBR. A implantação das condições e da futura deflagração de um foco guerrilheiro era uma estratégia a

repensar. Sobreviver e romper o isolamento social da esquerda era, para a Guanabara, o novo “trabalho

principal”.

A conversa é difícil. Breno se depara, naquele palco, com uma turma mais à direita, que, por sua vez,

enxerga nele um dirigente de grande respeito, porém centrista, empenhado em conciliar concepções e

práticas inconciliáveis naquela conjuntura dramaticamente desfavorável para todos os que resistiam à

ditadura. Conta Osmarzinho:

– Mostrei pro Breno as anotações que fiz a respeito de uns documentos que ele tinha escrito, reunidas

em um caderno que eu chamei de Anti-Breno. As propostas que a gente tinha eram de concentração

praticamente exclusiva no trabalho de massa. A proposta dele, pra nós, era mais radical. Combinava o

trabalho de massa com ir para o foco. A gente achava que não dava mais.

– Preconizávamos um recuo fortíssimo da ação da esquerda. Reconhecíamos a vitória político-militar

da ditadura, que aos poucos foi mostrando ser inconteste – completa Carlos Henrique Vianna.

Eleitos delegados do Rio, Sergio Campos e Carlos Henrique embarcam, dois dias depois, para

Recife, preparados para polarizar o debate com o comando nacional, em especial com Breno, tendo em

vista o documento por ele apresentado e as divergências evidenciadas. Fatos inesperados, porém, vão

fazer o mar virar e alterar a correlação de forças, surpreendendo a todos. Inclusive Breno.

 

PRAIA DE CANDEIAS, Recife, segunda quinzena de janeiro de 1971. Um a um, os delegados eleitos para o

congresso vão chegando à casa alugada pela paulistana Ana Matilde Tenório da Motta, origem VPR, que

no racha de Teresópolis prosseguira com a VAR-Palmares. Ela integra o grupo de apoio. O representante

de Recife é Raimundo Gonçalves Figueiredo, o Frei Chico. Com ele está sua mulher, Maria Regina Lobo

Leite de Figueiredo, a Dona Maria, também escalada para o apoio, e as duas filhas do casal, Iara e

Isabel, de dois e três anos, respectivamente, que acabam servindo de fachada. Lígia Maria Salgado

Nóbrega, a Cecília, completa a turma responsável pela infraestrutura.

O delegado do Rio Grande do Sul é Antonio Cunha Losada, oriundo da base operária. Pela Área

Estratégica, vêm Alberto e Maneco, da base de Belém. São Paulo é problema. Em lugar do representante

eleito, Heitor, o Italiano, aparecem dois militantes que haviam rachado com a regional: Adilson Ferreira

da Silva, o Ari, e David Gongora Junior, o Habib. Além do comando nacional, composto por Breno e

Coronel, e da dupla da Guanabara, entram na casa um observador convidado do PCBR e um antigo

militante da VAR, que saíra do país em 1969, no sequestro do avião para Cuba. De volta, é ele quem vira

o jogo. Seu nome: James Allen Luz, advogado goiano de origem popular, militante de esquerda pré-64 e

protagonista de uma espetacular fuga da fortaleza da ilha das Cobras, no Rio de Janeiro, em 1965,

juntamente com outro goiano, o líder estudantil Tarzã de Castro.

A casa na beira da praia é ampla o suficiente para abrigar o grupo de dezessete pessoas, contando as

duas crianças. Com três quartos, sala e cozinha, tem um pequeno jardim na frente e, aos fundos, um

grande pátio, que termina em um muro baixo, dando para a rua de trás, onde uma birosca serve lanches

rápidos e cachaça aos moradores da região. O encontro não tem prazo para acabar. Pode durar dez ou

vinte dias. Um tempo longo demais, tendo em vista a tensão da época. É preciso não despertar suspeitas,

redobrar os cuidados com a segurança. Quando entram na casa, todos devem escolher um novo codinome.

Ana Matilde, por exemplo, fez-se Mariquinha. Carlos Henrique Vianna, Juca. Sergio Campos apresenta-

se como Emílio. Ironia fina: inspira-lhe o presidente general que ele pretende derrubar, Emílio

Garrastazu Médici.

Para simular um clima de normalidade – o enredo é o de um grupo de amigos em férias –, Breno,

Emílio, Mariquinha, Dona Maria, Frei Chico e as crianças fazem a fachada matinal na praia. À noite, o

mesmo grupo se junta, no jardim da frente da casa, para uma roda de violão, na qual Breno desponta,

como sempre, soltando a voz e a memória para as letras das músicas que só ele sabe cantar inteiras. Os

outros não dão as caras.

Mais uma vez, a disputa interna coloca, de um lado, os militantes que defendem um recuo, em função

das baixas crescentes acumuladas e do cerco violento da repressão, mantendo, no limite possível, o

trabalho de massa; e aqueles que defendem a luta armada sem trégua, os militaristas. Nada tão diferente,

afinal, do dilema que havia levado ao racha de Teresópolis. Agora, porém, a temperatura era outra. Se

em Teresópolis havia um clima de euforia com o êxito do assalto ao cofre do Ademar e a perspectiva de

fusão de vários grupos regionais em uma organização nacional, agora, passados quase dois anos, os

nervos estavam crispados. Só restavam umas tantas dezenas de quadros, além de alguns militantes de

base.

Apesar de não se chegar a discussões decisivas sobre os rumos a tomar, desenham-se no plenário dois

blocos: um minoritário, que, naquele contexto de Recife, é enquadrado mais “à direita”, e outro, paulatinamente majoritário, mais “à esquerda”. Breno, o centrista, lutador incansável pela unidade da

VAR-Palmares, vai se aproximar da “direita”, representada pelos delegados da Guanabara, apesar de ter

defendido posições mais à esquerda no plenário daquela regional.

À frente da ala militarista ascendia James Allen, o Ciro, acompanhado ostensivamente por Coronel e

Frei Chico. Breno sente-se incomodado com os sinais de virada, em especial com a aproximação entre

Coronel e Ciro. Percebe-se em desvantagem. Subitamente, se dá conta do quão irrefletida é aquela

posição de luta armada a qualquer custo. O caldo começa a entornar com os dois paulistas, Ari e Habib,

vistos com enorme desconfiança por todos, principalmente pela turma militarista, à qual se alinhavam.

James Allen e seu grupo não querem conversa. Causam mesmo a impressão de que há algo no passado a

descredenciar os dois. Antes do raiar do terceiro dia, Ari e Habib são expulsos da casa, no voto. A

decisão abre um flanco na segurança. Mesmo assim, o congresso prossegue.

O tempo volta a esquentar. Dessa vez, quem se descontrola é Breno, diante de um relato político em

que Coronel insinua quebra de ética por parte dele. Mais uma vez, quem lembra o episódio é Carlos

Henrique:

– O Breno tinha um rigor luterano e, num dado momento, se sentiu eticamente ofendido por Coronel,

seu único companheiro de comando, no decorrer de um relatório de acontecimentos. Foi logo no início,

antes de entrarmos nas discussões programáticas e de estratégia e tática, na frente de todos os delegados.

Breno ficou fisicamente alterado, vermelho de raiva, o rosto tremia involuntariamente, e quando ele falou

estava incontrolável. Ele não admitia que se pusessem questões de natureza ética no plano da disputa

política. A reação dele foi xingar, foi fazer uma intervenção extremamente emocional, com prejuízo até da

defesa de sua posição.

Antes que a briga assumisse proporções incontornáveis, a turma do deixa-disso entrou em campo. Mas

dali por diante o tom maior passou a dominar o congresso, um encontro de nervos à flor da pele, com

sessões de autocrítica, balanço de quedas e análises de segurança que provocavam discussões no mínimo

ásperas. A evidência de que uma nova correlação de forças se estabelecia é acachapante. Sob a liderança

de James Allen, as posições militaristas conquistam a hegemonia. Lembra Sergio Campos:

– Nós, do Rio, já tínhamos, naquele momento, uma clareza da necessidade de partir para uma prática

absolutamente defensiva. Ou seja, defendíamos a desmobilização da Área Estratégica. Esta, porém, não

era uma posição de consenso na regional. Havia militantes que se alinhavam à posição de Breno, que via

a Área Estratégica não apenas como foco de insurgência militar, mas como trabalho político, de longo

prazo, de implantação social.

O ar carregado da casa ficou ainda mais denso com o estranho comportamento do companheiro

convidado do PCBR, que desde o primeiro dia pedira licença para não participar das discussões,

isolando-se em um quarto, submerso em um universo particular, típico dos quadros depressivos. Tanto se

isolou que ninguém percebeu quando, no quinto ou sexto dia do congresso, ele pulou o muro dos fundos e

sumiu. Os companheiros só se deram conta do episódio porque frequentadores da birosca da rua de trás,

julgando ser um assaltante, alertaram Breno, que fazia a fachada, do suposto perigo. Eles então

vistoriaram toda a casa e registraram a ausência do convidado.

A luz vermelha se acende. Impossível prosseguir. Não há como medir as consequências do ato

intempestivo do companheiro do PCBR. É preciso desmobilizar a conferência e esvaziar a casa

rapidamente. Assim, antes mesmo de completar uma semana, sem a conclusão dos trabalhos e, sobretudo,

sem a eleição do novo comando nacional da organização, o congresso é suspenso. O jogo, porém, parece

decidido. Arremata Carlos Henrique:

– Nós e o Breno saímos como aliados para organizar a minoria da VAR-Palmares, já que a maioria

dos delegados foi para uma orientação de extrema esquerda.

Com Carlos Henrique, Breno segue diretamente para a rodoviária. Juntos, vão para Salvador. Durante a viagem, Breno ouve mais do que fala. Carlos Henrique, acelerado, tem pressa em encontrar conclusões.

Mais velho e mais experiente, Breno prefere processar em silêncio os últimos acontecimentos.

Mergulhado em pensamentos, demonstra que sentiu o golpe. Mas este será mais um baque passageiro. Ele

sabe quando precisa privilegiar situações de prazer. E nada mais prazeroso, para ele, que aquele

mergulho, rumo à linha do horizonte, no mar da Bahia.