Seu amigo esteve aqui

Cristina Chacel · Capítulo 1 de 26

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Seu amigo esteve aqui

Prefácio: Nosso amigo está aqui, por ÁLVARO CALDAS

Prefácio

 

Nosso amigo está aqui

 

V INTE E SETE ANOS DEPOIS que retornou à democracia, o Brasil ainda luta para desenterrar um doloroso

legado perdido que, aos poucos e a duras penas, vem sendo reconstituído. Os espectros dos mortos e

desaparecidos da ditadura continuam a nos assombrar e envergonhar, contrariando leis e tratados

internacionais dos quais o país é signatário. Este livro é parte desse árduo trabalho de investigação e

reconstituição de uma história de crimes, assassinatos e desaparecimentos que se passou nas sombras,

muitas vezes sem testemunhas, nos porões do regime militar. A expectativa de que a trajetória política do

mineiro de Belo Horizonte Carlos Alberto Soares de Freitas se tornasse livro impôs-se naturalmente.

Uma vida muito breve, que termina com o seu desaparecimento, aos 31 anos, em fevereiro de 1971, numa

manhã típica do verão carioca, na avenida Princesa Isabel, em Copacabana.

Ao trazer à tona um novo capítulo dessa saga, este livro se transforma num documento pioneiro, de

especial interesse para a juventude, que deveria ser adotado nas escolas brasileiras. Aqui, o leitor

descobrirá um dos personagens de nossa história recente. Um valente personagem que não necessita do

título de herói, integrante que foi de uma geração de jovens que, inconformada com o golpe militar que

depôs o presidente João Goulart, em 1964, resistiu e ousou lutar por seus sonhos e ideias socialistas.

“Seu amigo esteve aqui” soa como uma inocente frase de um diálogo amigável. Vejamos as

circunstâncias, o cenário e os três personagens envolvidos nessa tragédia política. “Aqui” trata-se da

Casa da Morte, localizada na rua Arthur Barbosa n.668, na serra de Petrópolis, um dos centros de tortura

e extermínio clandestinos instalados pelos militares encarregados da repressão política. Somos levados

então a penetrar um dos círculos do inferno. O autor da frase – um lacônico e frio comunicado de morte –

é um agente do Estado, torturador, o ex-sargento Ubirajara Ribeiro de Souza, o Zezão, dirigindo-se com

cinismo e ironia a uma de suas vítimas, Inês Etienne Romeu, ali torturada e seviciada, única sobrevivente

e testemunha desses atos de infame selvageria. “Seu amigo” é o jovem sociólogo e dirigente da VAR-

Palmares, uma das organizações de luta armada, Carlos Alberto Soares de Freitas, o Beto, codinome

Breno, cujo corpo é procurado até hoje.

Na Casa da Morte, uma sinistra sucursal do DOI-Codi – a nave central da tortura, situada dentro de

um quartel do Exército, na rua Barão de Mesquita, Tijuca, Rio de Janeiro –, os facínoras tinham licença

para matar. Antes, serviam-se sádica e covardemente de seus prisioneiros, vítimas de uma violência

diária, banal, praticada com requintes de doentio prazer, com o objetivo de lhes tirar os últimos

resquícios de humanidade porque sabiam que, ao final daquele ritual de horrores, eles seriam eliminados.

Essa é uma das principais revelações deste livro, que realiza uma detalhada anatomia de um

desaparecimento em busca da construção da verdade. Entre os oficiais militares do DOI-Codi no

comando da casa de Petrópolis, todos com nome de guerra de doutores, estavam o coronel da extrema

direita Freddie Perdigão Pereira, o dr. Nagib ou dr. Roberto; o tenente-coronel Orlando Rangel, o dr.

Pepe, e o segundo-tenente Amílcar Lobo, o dr. Carneiro, este, médico com diploma, encarregado de

medir o impacto do sofrimento e da dor no corpo do torturado e com poderes para autorizar o

prosseguimento de seu massacre.

Num angustiado ensaio escrito em meio ao espanto e à indignação provocados pela revelação dos

porões da guerra da Argélia, o filósofo Jean-Paul Sartre advertiu que “a tortura não é especificamente

francesa, mas uma praga que infecta toda a nossa era”. Naquele momento, em 1957 e 1958, a opinião

pública tomou conhecimento de que o Exército francês e as forças policiais da colônia empregaram

sistematicamente a tortura no enfrentamento aos rebeldes argelinos, levando a uma comoção

generalizada. Essa catarse o Brasil ainda não teve a coragem de fazer.

A impostura que encobre a situação dos nossos mortos, que de procurados ou presos passaram à

condição de desaparecidos depois de assassinados, só será desmascarada com a abertura dos arquivos

militares que encobrem seus autores e os crimes por eles praticados. Gestada nos centros clandestinos de

operações da ditadura militar, a infecção da tortura constitui um de seus legados mais nocivos à

sociedade brasileira.

Prática institucionalizada pelo regime ditatorial, a tortura tornou-se um poderoso instrumento da

política repressora do Estado que se provou eficiente e eficaz. Naquele solitário e abjeto embate que se

trava numa prolongada sessão de suplícios, o torturador não se contenta com a rendição do torturado, ele

almeja apossar-se de sua alma, despojá-lo de seus valores, tornar-se dono de sua voz para transformá-lo

num delator. O carrasco sevicia, humilha e administra a dor para arrancar uma informação, num sádico

ritual que pode terminar com um cadáver em suas mãos. O que fazer com esse incômodo cadáver? Os

covardes doutores da morte criaram essa monstruosidade jurídica chamada desaparecidos políticos.

Ao reconstituir a trajetória política e existencial de Beto, filho caçula de uma família de oito irmãos,

“Seu amigo esteve aqui” saiu em busca de suas raízes, sua formação, seus amigos, suas paixões, sua

militância. Encontrou uma geração nascida nos entornos da Segunda Guerra que chegou à juventude em

meio aos sangrentos confrontos políticos e ideológicos da época, início da Guerra Fria. Uma geração que

se politizou muito cedo, à custa de duas porradas marcantes que mudaram os rumos do Brasil: o golpe

militar de 1964 e o AI-5, quatro anos depois, que calou todas as vozes e impôs um regime de trevas, o

país do “ame-o ou deixe-o”, slogan de propaganda criado pelos militares.

Estudante de sociologia da Universidade Federal de Minas Gerais, Beto encontrou aí a sua turma e

iniciou sua militância na Política Operária, a Polop, consolidada por uma viagem a Cuba em 1962, onde

se encantou com a vitoriosa revolução de Fidel e Che Guevara. Até sua prisão e morte, foram mais de

dez anos de militância política, quatro dos quais na total clandestinidade, uma das mais longas da

esquerda armada brasileira, vivendo encurralado em aparelhos com identidade falsa, entrando e saindo

de reuniões e congressos, pulando de uma cidade para outra, com cartazes estampando sua foto

espalhados em aeroportos e rodoviárias. Dotado de uma convicção inabalável, recusou os apelos para

seguir a rota do exílio, que salvou muitas vidas.

Neste roteiro de filme traçado pelo livro, embrenhou-se pelo interior à procura da mítica Área

Estratégica para a implantação da guerrilha rural, viajou de trem, navio e jipe pelos confins do país,

passou por Rio, São Paulo, Porto Alegre, Salvador, Recife, Belém e outras cidades. Entre seus

companheiros de viagem, Lamarca, Iara Iavelberg, Juarez Brito, Maria Auxiliadora, a Dodora, e tantos

outros que tombaram pelo caminho. Ao final, tinha plena convicção de que se tornara um alvo especial –

se fosse preso seria morto. Dilma Rousseff, sua amiga e companheira de militância desde a fase inicial

em Belo Horizonte, também presa e torturada, sobreviveu e chegou à Presidência da República. Fato

notável que isso tenha ocorrido no curso de uma geração militante aniquilada pela repressão do Estado

ditatorial.

Beto e seus jovens companheiros viveram uma época de confrontos e utopias. Pressionados pela

ditadura que instituiu a censura, fechou sindicatos e diretórios estudantis, prendeu e cassou mandatos de

congressistas e opositores, acabaram tomando o caminho da luta armada, embalados por uma volúpia na

ação e nas certezas de que ela conduziria à revolução social. István Szabó, cineasta húngaro que dirigiu Mephisto, a história de um ator que vende a alma ao nazismo, disse que gosta de contar histórias de

pessoas que passaram por experiências difíceis, sobretudo diante de algum momento político em um dado

contexto da História que influencia suas vidas e muda seus destinos particulares. “Gosto de contar

histórias”, disse Szabó, “de pessoas expostas ao vento forte da História.” Ao contrário do personagem de

Mephisto, que vendeu sua alma ao diabo nazista, o que este livro nos mostra é que Beto e seus

companheiros de viagem, expostos ao vendaval da História, entregaram a vida a um projeto político

revolucionário de transformação social.

No capítulo final de “Seu amigo esteve aqui”, Cristina Chacel oferece ao leitor uma espécie de

making of do livro, com os bastidores da criação, um guia sobre o intenso, difícil e demorado trabalho

para desvendar o mistério que cercava o desaparecimento de Carlos Alberto Soares de Freitas. Terminou

indo muito além, escrevendo um capítulo novo da história da luta armada, com suas organizações,

congressos, divergências, rachas e grandes ações, como o roubo do cofre do ex-governador de São Paulo

Ademar de Barros. E, sobretudo, deu dimensão humana a seu personagem principal, que pode ser visto

em ação por inteiro, com seu rosto, gestos, hábitos e características pessoais.

Um homem alto, bonito, de olhos verdes, sedutor, que gostava de cinema e literatura, que sabia ouvir,

não andava armado, que disputou e perdeu a bela Iara para Cid, o temível capitão Lamarca. Um cara

divertido, que gostava de cantar, tinha prazer em ir para a cozinha preparar um bife acebolado, mas que

também sabia impor-se, sério, um estudioso do marxismo-leninismo que ministrava cursos de formação

política e intelectual para seus companheiros.

O livro é fruto de um trabalho de equipe, um afinado quarteto composto pela narradora, a jornalista

Cristina Chacel; Sergio Campos, personagem e patrono da iniciativa, amigo e companheiro de Breno na

VAR-Palmares, última pessoa a vê-lo antes de seu desaparecimento; Sergio Ferreira, primo de Beto e

também personagem; e a jornalista Flavia Cavalcanti, ex-exilada e militante da mesma organização. Os

quatro se embrenharam nessa empreitada tortuosa para qualquer biógrafo, a de desvendar uma vida

clandestina. Foram dezenas de entrevistas, depoimentos, viagens, discussões e surpresas. Um incansável

trabalho de campo, de fidelidade à verdade e precisão dos fatos, que resultou num texto digno do melhor

jornalismo investigativo.

Como se fosse um romance de não ficção, intercalando investigação jornalística, autobiografia e

crônica, na fronteira entre os fatos e o relato ficcional, o texto segue os passos do mito criado em torno

de um militante desaparecido para devolvê-lo à história real. Eis então que temos de novo entre nós o

“nosso amigo” guerreiro, o que pode não ser um consolo, mas oferece uma valiosa contribuição para a

construção da Verdade, e é um soco na cara dos carrascos que o assassinaram.

 

ÁLVARO CALDAS

 

Álvaro Caldas é jornalista, escritor, autor de Tirando o capuz e Balé da utopia, e professor da PUC-Rio. Foi militante do PCBR e, nos anos 1970, passou dois anos e meio preso.