Seu amigo esteve aqui
“Seu amigo esteve aqui”
PRESA NA MANHÃ de 5 de maio de 1971, na capital paulista, pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury,
apontado como um dos mais terríveis carrascos de presos políticos no período da ditadura militar, Inês
Etienne Romeu é levada para o Departamento Estadual de Ordem Política e Social (Deops). Lá, após
uma sessão de espancamentos e choques elétricos no pau de arara, Inês inventa um ponto marcado para o
dia seguinte, 6 de maio, ao meio-dia, no bairro de Cascadura, Rio de Janeiro. A estratégia funciona e
interrompe o suplício. No mesmo dia, à tarde, é levada de automóvel para o Rio, onde desembarca, às
nove da noite, em uma delegacia no bairro de Pilares, na Zona Norte. No dia seguinte, Inês chega ao
suposto ponto e atira-se na frente do primeiro ônibus que passa na avenida, em alta velocidade. Não
morre. Medicada, primeiro no Hospital da Vila Militar, depois no Hospital Carlos Chagas e, por fim, no
Hospital Central do Exército, sempre sob a vigilância intimidadora de seus algozes, é arrancada à força
daquela última unidade militar na manhã do dia 8 de maio de 1971. Deitada e de olhos vendados na
caçamba de uma caminhonete C-14, estacionada no pátio do hospital, é levada para uma casa que ela não
sabe onde fica, e que Sergio Ferreira, primo de Beto, vai ajudá-la a localizar: a Casa da Morte, situada
na rua Arthur Barbosa n.668, bairro Caxambu, Petrópolis.
É para Sergio Ferreira que Inês começa a contar a história que ela testemunhou e preservou na
memória, em espetacular demonstração do que a vontade de viver é capaz. Nas sucessivas visitas do
primo de Beto ao Talavera Bruce, ela vai reconstituindo e revelando, aos poucos, fatos, nomes,
codinomes, números, sinais, vestígios, indícios e impressões que só um ilimitado instinto de
sobrevivência e um inequívoco senso de justiça poderiam salvaguardar.
“Seu amigo esteve aqui”, disse a Inês o sargento do Exército Ubirajara Ribeiro de Souza, que ela
encontrou na Casa da Morte. Disse-o, o carrasco, com a autoridade de quem sabia exatamente quem era
ela e de quem conhecera razoavelmente bem Beto e a forte relação de amizade dos dois. Por ironia do
destino, o sargento Ubirajara, que na Casa atendia pelo codinome de Zé Gomes, ou Zezão, era de Minas,
como Beto e Inês. E, como Beto, havia sido jogador de basquete na Belo Horizonte dos primeiros anos
de 1960. Os dois não jogaram no mesmo time, mas é muito provável que algum dia tenham se enfrentado
em quadra, Ubirajara defendendo o Esporte Clube Ginástico e Beto com a camisa do Minas Tênis Clube.
Se de fato isso ocorreu, não se sabe. A democracia emudeceu Ubirajara. Mas ali, em Petrópolis, o
torturador confidenciou a Inês: “Ele me reconheceu.”
Carlos Alberto Soares de Freitas teria padecido dois meses na Casa da Morte, segundo Ubirajara, até
abril de 1971, quando foi executado, lá mesmo, com um tiro na cabeça. Conta Sergio Ferreira:
– Ubirajara contou detalhes da morte de Beto a Inês. Ela, porém, decidiu me poupar. Mas é fato que
ela não testemunhou a morte dele, no sentido de ver. Ela testemunhou, no sentido de depor, o que esse
sargento contou pra ela. Ele era do esquemão do CIE, o Centro de Informações do Exército, que
participava desse grupo de extermínio, muito pequeno, restrito, que se encarregou de montar uma Casa
como essa.
As revelações não param aí. Inês confidencia a Sergio ser capaz de identificar a casa onde, oito anos
antes, fora mantida em cárcere privado por 96 dias, de 8 de maio a 11 de agosto de 1971. Diz que, pelo
tempo e as curvas percebidas na viagem a bordo da C-14, é quase certo que ela se localize em alguma cidade serrana próxima ao Rio. Diz também que o proprietário do imóvel se chama Mário, nome que um
agente deixou escapar e que ela guardou durante aqueles oito anos. E diz mais: que uma ou duas vezes ela
o viu na casa. Em uma delas, inclusive, ele lhe ofereceu uma barra de chocolate. Mário, o proprietário,
tinha pleno conhecimento das atividades ali desenvolvidas. Por fim, Inês revela a Sergio que, certa vez,
ouviu um torturador dizer o número do telefone da casa ao atender a uma chamada: 3254.
– Eles se descuidavam na frente da Inês, porque ela não ia conseguir sair dali com vida e também
porque ela começou a jogar um papel de que estava desestruturada pela tortura, completamente fora do
ar. Por outro lado, eles estupravam, torturavam, mantinham ela nua, em pleno inverno, na serra. Alguns
achavam que realmente ela podia ser quebrada e que ela poderia vir a colaborar com a repressão –
observa Sergio Ferreira.
Com um prenome e quatro números, Sergio saiu em campo. A cidade serrana poderia ser Friburgo,
Petrópolis ou Teresópolis. Pela proximidade maior do Rio, decidiu começar por Petrópolis. Continua
Sergio:
– Aí eu fui pra Petrópolis e peguei o catálogo telefônico de 1976. O telefone estava lá. Olhei o nome.
Tinha Mário, seguido de uma porção de letrinhas no meio, só iniciais, e o sobrenome Lodders. Anotei.
Ligo para o meu irmão, Arthur, que trabalhava no Ministério da Fazenda e havia participado da criação
do Cadastro de Pessoa Física (CPF), em 1969, e peço: “Veja, pelo CPF, quantos Mário Lodders existem
no Brasil.” Meu irmão investiga. Pra nossa sorte, só tem um CPF com o nome de Mário Lodders.
Confirmado: mesmo telefone. Só tem um cara no Brasil com aquele nome, que é um nome comum na
Alemanha. Volto pra prisão e falo pra Inês: “É Petrópolis, o telefone é o mesmo e o proprietário se
chama Mário Lodders.”
Era preciso, porém, confirmar diretamente no endereço associado ao número de telefone: rua Arthur
Barbosa n.120. É quando aparece, na história, o jornalista Antonio Henrique Lago, o Laguinho, filho do
compositor e ator Mário Lago, então repórter da sucursal carioca da Folha de S.Paulo, que, contatado
por Sergio, aceita, de imediato, participar da investigação. Quando chega ao local indicado,
acompanhado de fotógrafo do jornal, tem sua presença anunciada pelos latidos de uma matilha de
dinamarqueses. Dissimulada, a equipe jornalística age como se estivesse ali retida por um problema
mecânico no carro, ainda que não fosse crível o enguiço em uma rua erma, sem saída, onde só circulavam
moradores ou amigos dos moradores. É o tempo necessário para o fotógrafo “roubar” algumas fotos da
fachada da casa, a última da rua.
– Quando eu levo as fotos na cadeia para Inês ver, ela é taxativa: não é a casa. Mas como?! O nome é
o mesmo! O telefone, igual! Só se eles mudaram a fachada! – relembra Sergio Ferreira.
O mistério ainda estava longe de ser esclarecido. Mas os indícios encontrados já eram suficientes.
Inês decide denunciar a Casa. Com essa finalidade, Sergio e Laguinho mobilizam a Ordem dos
Advogados do Brasil (OAB). Ainda em 1979, o então presidente da entidade, Eduardo Seabra Fagundes,
vai à cadeia conversar com Inês, acompanhado do advogado Técio Lins e Silva. Após ouvir toda a
história, Seabra Fagundes, temeroso pela segurança de Inês, recomenda que ela deixe a denúncia para
depois de sua libertação. A anistia estava por vir. Era uma questão de meses.
Inês, a rigor, não seria beneficiada pela anistia. A prisão perpétua, a que fora inicialmente condenada,
havia sido derrubada, mas um crime de sequestro lhe pesava nas costas, o do embaixador suíço Giovanni
Enrico Bucher, realizado pela VPR em 7 de dezembro de 1970, e que após quarenta dias obteve a
libertação de setenta presos políticos, banidos para o Chile. Quando a anistia saiu, porém, sua pena de
oito anos já tinha sido integralmente cumprida. Inês foi libertada no dia seguinte, em 29 de agosto de
1979. Uma semana depois, no dia 5 de setembro, compareceu à sede da OAB, no Centro do Rio de
Janeiro, para registrar a denúncia.
Com impressionante riqueza de detalhes, descreveu o esquema, o funcionamento e o local da Casa da Morte, na presença do presidente da OAB nacional, Seabra Fagundes, do presidente da ABI, Barbosa
Lima Sobrinho, e do presidente da OAB Rio, Cesar Augusto Gonçalves Pereira. Assinaram como
testemunhas Maria Celina Romeu Cialdini, irmã de Inês, Sergio Soares Xavier Ferreira, primo de Beto, e
o jornalista Antonio Henrique Lago. O depoimento foi datilografado por dona Lyda Monteiro da Silva,
secretária do Conselho Federal da Ordem, que onze meses depois, em 27 de agosto de 1980, morreria
vítima do atentado a bomba à entidade, atribuído a grupos extremistas de direita, contrários à abertura
política.
Em seu relato, Inês Etienne Romeu listou dez nomes de desaparecidos políticos sobre os quais ela
teve algum tipo de notícia durante os três meses em que resistiu na Casa da Morte. Destes, sete teriam
morrido lá mesmo, em Petrópolis: Carlos Alberto Soares de Freitas, Mariano Joaquim da Silva, Aluízio
Palhano, Heleni Telles Ferreira Guariba, Marilena Vilas Boas Pinto, Walter Ribeiro Novais e Paulo de
Tarso Celestino da Silva. Outros três foram mencionados como tendo sido executados pelo mesmo grupo
de extermínio, mas fora da Casa: Ivan Mota Dias, José Raimundo da Costa e o deputado Rubens Paiva,
cuja morte havia sido “uma mancada”, segundo confidenciou a Inês o torturador conhecido como dr.
Pepe.
Sobre Beto, o mesmo dr. Pepe disse a Inês ter sido o responsável por sua prisão e que ele fora
executado porque seu grupo não tinha interesse em manter líderes presos. Por isso, os “cabeças”, depois
de interrogados, eram sumariamente mortos. Inês também confirmou a passagem pela Casa de Mariano
Joaquim da Silva, o Coronel, que, como Beto, foi executado em Petrópolis. Ela esteve pessoalmente com
Coronel e por três vezes conversou com ele. No extenso depoimento, a combativa Inês contou tudo o que
sabia. E nada contou, porque nada sabia, sobre Bigode.
Inês também denunciou vinte torturadores que ela encontrou dentro da Casa da Morte. Identificou
todos pelos codinomes e alguns poucos pelos nomes verdadeiros. Já então, ela sabia que o dr. Pepe
chamava-se, na realidade, Orlando Rangel, à época tenente-coronel. Sabia também que o nome do
Camarão, o agente que lhe contou ter sido Breno “o primeiro terrorista preso na Casa”, era Wantuir ou
Wantuil. Que o dr. Roberto era o capitão Freddie Perdigão Pereira. Que o nome real de Zé Gomes, ou
Zezão, era Ubirajara. E que o dr. Carneiro, o médico da tortura, de carneiro não tinha nada. Seu nome, de
fato e de direito, era Lobo.
Depoimento encerrado, a expectativa era de que a OAB encampasse a denúncia. Mas o tempo passou
e… nada de denúncia. Lembra Sergio Ferreira:
– Era uma denúncia contundente. Em uma reunião na OAB, diante da insistência da Inês, um membro
do Conselho Federal da entidade foi duro com ela: “Mas o que você está tentando fazer? Chegar lá e
tocar a campainha? Como é que você sabe se o homem é o homem que estava lá?” Ao que ela rebateu:
“Eu teria que ser uma louca pra achar, entre 120 milhões de brasileiros, esse homem.”
O atentado a bomba que matou dona Lyda Monteiro, e que tinha como alvo o presidente da OAB,
Eduardo Seabra Fagundes, colocou a entidade ainda mais na defensiva em relação à denúncia. A tal
ponto que Inês, Sergio e Laguinho decidiram buscar apoio entre os familiares dos desaparecidos
mencionados no depoimento. Continua Sergio Ferreira:
– A OAB não queria fazer a denúncia por medo, depois da morte da dona Lyda. Então nós
comunicamos ao advogado Nilo Batista: nós vamos lá, com ou sem a OAB. Demos o xeque-mate: vamos
com os familiares. Aí o Nilo Batista teve que ir, porque a OAB ia ficar desmoralizada. Estavam sentados
em cima de uma denúncia da Inês desde setembro de 1979.
Manhã de 3 de fevereiro de 1981, uma terça-feira. A doze dias do desaparecimento de Beto completar
dez anos, a caravana formada por familiares de desaparecidos, advogados, parlamentares e jornalistas
sobe a serra de Petrópolis, Inês à frente. Já na cidade, o comboio segue direto para o bairro Caxambu.
Em meio à subida da rua Arthur Barbosa, uma ladeira de paralelepípedos sem saída, Inês subitamente grita:
“Para! Para!”
E aponta para a fachada com o número 668:
“Esta é a Casa.”
Fotógrafos e cinegrafistas sacam suas câmeras para registrar tudo e todos. Naquele instante, é desfeito
o mistério da casa que ela não reconhecera, dois anos antes, ainda na cadeia, fotografada pela Folha de
S.Paulo:
– O fotógrafo tirou a foto da casa do Lodders, não a da casa da tortura, que ficava antes – explica
Sergio.
Cem metros adiante, o grupo avista a casa de número 120, indicada no catálogo telefônico de
Petrópolis, como sendo de propriedade de Mário Lodders. A visita inesperada foi, como de hábito,
anunciada em alto e bom som pelos cachorros. O primeiro a aparecer foi o caseiro, Gervásio Araújo,
que, inocentemente, confirma ter conhecido dois moradores da casa vizinha que atendiam pelos apelidos
de Pardal e Camarão. Da soleira, desce uma senhora – Helena Julia, irmã de Lodders –, atraída pela
movimentação atípica. Sergio Ferreira continua:
– Quando a mulher aparece, o Modesto da Silveira e o Marcelo Cerqueira, que eram deputados
federais pelo PMDB e representavam o vice-presidente do partido, Teotônio Vilela, tiveram uma tirada
genial: “Nós estamos aqui pra prestar uma homenagem ao seu irmão. Ele está?” E a mulher responde:
“Não, mas espera que eu vou ligar e pedir pra ele vir.” Em pouco tempo, um Chevette sobe a rua. A
imprensa toda testemunhando. Era muita gente, uns dez carros… E quando o homem chega, todo mundo
cerca. A Inês olha pra ele, cara a cara, e diz: “Eu estou reconhecendo o senhor.”
Pego de surpresa, Lodders nega conhecer Inês. Desnorteado, não transmite convicção. Admite ter
cedido o imóvel, de 1971 a 1978, a um grupo paramilitar, a pedido de Fernando Sergio Aires da Mota,
ex-prefeito interventor da cidade de Petrópolis e ex-comandante da Panair do Brasil. Este, porém, negou
o fato. Disse que seu filho, o advogado Fernando Eduardo Aires da Mota, alugara o imóvel entre 1973 e
1978, quando lá residiu, e que, em 1979, a casa foi vendida a um engenheiro da Petrobras. À noite, a
notícia já era veiculada em todos os telejornais. No dia seguinte, os jornais publicaram a denúncia,
alguns com grande destaque.
Incansável, dois dias depois, Inês bate à porta do consultório do psicanalista Amílcar Lobo, o dr.
Carneiro. Com ela está sua irmã, a jornalista Lúcia Romeu, e o fotógrafo Antonio Augusto Fontes, ambos
da revista IstoÉ, além do advogado Modesto da Silveira. Passados alguns minutos, o médico entra na
sala de espera. Inês o interpela e levanta a saia, para mostrar a grande cicatriz na perna, que ele, na Casa,
medicara. Lobo, aos poucos, afunda na poltrona, lívido, como se estivesse diante de um fantasma.
Abalado e pressionado, o psicanalista, segundo-tenente do Exército brasileiro, acaba admitindo ter
medicado Inês na Casa da Morte. E mais: admite que sabia, sim, que ali funcionava um centro clandestino
de tortura. A equipe da IstoÉ grava a confissão e fotografa a cena. A denúncia estava irrefutavelmente
comprovada.
No dia seguinte, um grupo de ex-presos políticos – entre eles, Cecília Coimbra, do Grupo Tortura
Nunca Mais do Rio de Janeiro – reunido na casa do advogado Modesto da Silveira, no Cosme Velho,
parte para o consultório de Lobo, em Copacabana, para denunciar sua participação em outros casos de
tortura. Acompanha a investida o jornalista Zuenir Ventura, autor da reportagem publicada na primeira
página do Jornal do Brasil. Na semana que se segue, vários desses ex-presos políticos, a convite do
presidente da OAB, Seabra Fagundes, registram a denúncia em depoimentos à entidade, que
fundamentariam, anos mais tarde, a cassação do registro de médico de Amílcar Lobo – primeiro no
Conselho Regional de Medicina, em 1988, depois no Federal, em 1989.
Em 14 de fevereiro de 1981, onze dias após a identificação pública da Casa da Morte e dez anos após o sequestro de Carlos Alberto Soares de Freitas, a reação dos militares chega à mão pesada. Em três
notas agressivas, articuladas entre si, o ministro do Exército, general Walter Pires, o ministro da
Aeronáutica, brigadeiro Délio Jardim de Mattos, e o ministro da Marinha, almirante Maximiano Fonseca,
se solidarizam com os que lutaram contra a subversão, reafirmam seu apoio ao processo de abertura
política e avisam que não vão tolerar insinuações malévolas de uma maré revanchista.
Estava dado o recado. A tese do revanchismo colou. Remexer o passado, contar a história de
violência e arbítrio da ditadura, para todos os efeitos, seria uma ameaça à desejada restauração do
estado de direito, que se avizinhava. A imprensa recuou e o assunto sumiu do noticiário. Sob a proteção
de uma anistia “tímida e precavida”, como a qualificou o poeta Carlos Drummond de Andrade em
célebre crônica publicada no Jornal do Brasil em 28 de junho de 1979, a denúncia da Casa da Morte
nunca foi investigada. Inês, para não deixá-la confinada ao território político, entrou com uma ação
declaratória, no Fórum de Petrópolis, contra o proprietário da Casa, Mário Lodders, responsabilizando-o
por cárcere privado. O processo tampouco seguiu adiante. E a nação de uma democracia interditada pelo
cala-boca militar mergulhou em pesado silêncio.