Tecnologia e o mundo da vida: do jardim à terra
C. A Pena de Merleau-Ponty
O Galileu de Husserl, assim, é apanhado entre um pré-científico, mas perceptível mundo da vida e um científico, mas imperceptível mundo de idealidades.
Eu já sugeri que esta anomalia é, a meu ver, causada pela própria reconstrução da origem da ciência de Husserl. Ao fazer do mundo material-sensorial tanto pré-científico e fundacional por um lado, e esvaziando o mundo científico da percepção e da práxis como um “derivado”, embora especial, “mundo” por outro lado, Husserl perde a inter-relação entre o que eu estou denominando de micro e macropercepção.
Tal Galileu não é exclusivo de Husserl, ele é o Galileu da maioria das interpretações que privilegiam uma versão da teoria sobre a práxis. Ele é um Galileu imerso num raciocínio hipotético-dedutivo da visão dominante. É claro que ele também é o Galileu experimental, embora Husserl ignore os elementos praxiológicos desta prática. Este ponto de vista da ciência concentra-se sobre o que e como a ciência “pensa” em vez de sobre o que a ciência “faz”.
Ciência e seu modo de ver é agora parte do nosso mundo macroperceptivo. É uma aquisição cultural que situa a estrita percepção corporal que nós retemos, mas que sobrepõe ou não se sobrepõe com o que deve ser, para nós, um mundo pré-científico perdido. O que está igualmente ausente a partir desta análise é a práxis atual da ciência moderna que, desde o seu começo, assenta sua concretização em tecnologias, em instrumentalização. Através dos instrumentos, a ciência em sua forma moderna nunca perde suas percepções. Considerando que Heidegger implicitamente começa a filosofia da tecnologia em relação a estas análises, Husserl ainda não abre a porta para tal filosofia. Nós temos que voltar novamente para Galileu.
C. A Pena de Merleau-Ponty
A terceira análise prototípica nesta tradição vem da obra de Maurice Merleau-Ponty. Seu livro Fenomenologia da Percepção (1945) tem a vantagem de ter igualmente Husserl e Heidegger como predecessores. Há um sentido em que Merleau-Ponty se tornou o esteticista perceptual da fenomenologia. Aqui se encontra uma riqueza descritiva muito mais sutil do que qualquer oficina heideggeriana ou mobiliário polido husserliano. Observe o seguinte:
Uma roda de madeira posta no chão não é, para a visão, aquilo que é um corpo em que forças contrárias se equilibram. […] A visão já é habitada por um sentido que lhe dá uma função no espetáculo do mundo, assim como em nossa existência. […] O problema é compreender estas relações singulares que se tecem entre as partes da paisagem ou entre a paisagem e mim enquanto sujeito incarnado. […]O sentir é esta comunicação vital com o mundo que o torna presente para nós como lugar familiar de nossa vida. E a ele que o objeto percebido e o sujeito que percebem devem sua
espessura. 18
Surge a pergunta: esta é uma vaidade estética ou ela exibe a base da consciência pós-moderna de uma percepção suficientemente sutil igualmente para a ciência e para as sensibilidades artísticas? Pois o que está finalmente superado aqui são as bases da ciência cartesiana e as sensações mais estritas da psicologia empirista.
O que Merleau-Ponty acrescenta a este processo de análise prototípica é a correlação estritamente fenomenológica entre o corpo “vivido” e o mundo percebido. A percepção do mundo da vida é a percepção que, microperceptivamente, sempre implica o corpo em ação:
O que importa para a orientação do espetáculo não é meu corpo tal como de fato ele é, enquanto coisa no espaço objetivo, mas meu corpo enquanto sistema de ações possíveis, um corpo virtual cujo “lugar” fenomenal é definido por sua tarefa e por sua situação. Meu corpo está ali onde ele tem
algo a fazer.19
A existência corporal é acional, é orientada. E está correlacionada com um mundo circundante aberto à ação:
Não é preciso perguntar-se por que o ser é orientado, por que a existencial é espacial [ …] a coexistência do corpo com o mundo polariza a experiência e faz surgir uma direção. A questão só poderia ser posta se esses fatos fossem acidentes que adviriam a um sujeito e a um objeto indiferentes ao
espaço. A experiência nos mostra, ao contrário, que eles estão pressupostos
em nosso encontro primordial com o ser, e que ser é sinônimo de ser
situado. 20
A micropercepção de Merleau-Ponty é sempre uma percepção cinestésica:
Meu corpo tem poder sobre o mundo quando minha percepção me oferece
um espetáculo tão variado e tão claramente articulado quanto possível, e
quando minhas intenções motoras, desdobrando-se, recebem do mundo as
respostas que esperam.21
E é fora desta sensibilidade para uma correlação corpo-mundo que Merleau-Ponty antecipa um papel diferente para as tecnologias no domínio da percepção e da práxis. O corpo vivido ou virtual sendo uma espacialidade corporal vivenciada pode ser “expandida” por meio de artefatos:
Uma mulher mantém sem cálculo um intervalo seguro entre a pena de seu
chapéu e os objetos que poderiam estraga-la, ela sente onde está a pena
assim como nós senti os onde está nossa mão. Se eu tenho o hábito de
dirigir um carro, eu o coloco em uma rua e vejo que “posso parar” sem
comparar a largura da rua com a dos para-choques, assim como transponho
uma porta sem comparar a largura da porta com a de meu corpo. 22
Aqui, novamente, naquilo que eu denominarei relação de incorporação, Merleau-Ponty aponta que a percepção pode ser materialmente expandida através do “corpo” de um artefato. A extensão da percepção não é limitada pelo contorno do meu corpo ou pela superfície da minha pele. A descrição torna-se mais precisa no exemplo da “bengala do cego”:
A bengala do cego deixou de ser para ele um objeto, ela não mais é
percebida por si mesma, sua extremidade transformou-se em zona sensível,
ela aumenta a amplitude e o raio de ação do tocar, tornou-se o análogo de
um olhar. Na exploração dos objetos, o comprimento da bengala não
intervém expressamente e como meio-termo: o cego o conhece pela posição
dos objetos, antes que a posição dos objetos por ele. A posição dos objetos
está imediatamente dada pela amplitude do gesto que a alcança e no qual
está compreendido, além da potência de extensão do braço, o raio de ação
da bengala. 23
Aqui se encontra a base para a percepção à distância, mediada por um artefato, uma tecnologia; e aqui jaz latente a fenomenologia da instrumentalização. Pode-se notar que esta análise complementa Heidegger. No exemplo do martelo, a ferramenta se “distancia”; na pena ou na bengala de Merleau-Ponty, entretanto, o artefato é uma parte do mundo alcançado por meio deste afastamento.
Um segundo aspecto que se encaixa no refinado esquema perceptivo de Merleau-Ponty é a inter-relação entre a percepção sensorial e o seu papel para a cultura. Em seu trabalho tardio O Visível e o Invisível (1961), ele explicitamente fala sobre a cultura “vivenciada”:
É um fato notável que o desinstruído não tem consciência de perspectiva e que demorou muito tempo e muita reflexão para que os homens se tornassem conscientes da deformação perspectiva dos objetos… Eu digo que a perspectiva renascentista é um fato cultural, que a própria percepção é polimórfica, e se ela se tornou euclidiana, isto é porque ele se permite ser orientado pelo sistema… O que eu afirmo é que: existe um informante da
percepção pela cultura que nos permite dizer que a cultura é percebida. 24
Relativo a esta observação de duas diferentes interpretações de ciência por Heidegger e Husserl, pode-se notar que a ciência para Merleau-Ponty poderia ser tal como uma cultura percebida. Aqui está um tipo de macropercepção que informa ou orienta a percepção corpórea em si mesma.
Estas três fenomenologias apontam de maneira distinta em direção à fenomenologia das relações humano-tecnologia. Não se buscou enquadrar estas análises em seu cenário histórico em uma filosofia da tecnologia, mas cada uma aponta para elementos que se tornam cruciais. E enquanto todas as fenomenologias são voltadas à “percepção”, a versão da fenomenologia que eu devo esboçar aqui deriva de, mas também se difere de, daquelas de meus reconhecidos tutores. O que resta para o primeiro programa, a fenomenologia das relações humano-tecnologia, é reinserir o papel das tecnologias em todas as dimensões do mundo da vida.