Tecnologia e o mundo da vida: do jardim à terra

B. O Galileu de Husserl

a natureza do mundo circundante que, então, se torna acessível a qualquer um. Nos caminhos, ruas, pontes e edifícios, a ocupação descobre a natureza em determinada direção. Uma plataforma coberta leva em conta as intempéries do tempo, as instalações de iluminação pública levam em conta a escuridão. […] Num relógio, leva-se sempre em conta determinada constelação do sistema cósmico. […] No uso do instrumento relógio, manuseado discreta e diretamente, a natureza do mundo circundante

também está à mão. 7

 

Em suma, implícita em tais contextos tecnológicos está a visão de mundo que Heidegger argumentara depois que acabou por recair no ponto de vista de que o mundo – como um todo – é entendido como um “bem de consumo” para o uso humano.

Isto é dizer também que tais usos “revelam” o mundo. Aqui, bem antes da definição de Kuhn sobre as revoluções científicas como visões de mundo, Heidegger defendeu que tecnologias implicam uma forma de visão de mundo:

 

Pertence à essência da função de descoberta de cada empenho ocupacional no mundo imediato das obras a possibilidade de descobrir, segundo cada modo de empenho, o ente intramundano evocado na obra. Isso significa: descobri-lo nas referências constitutivas da obra, em vários graus de explicitação e em diferentes envergaduras de aprofundamento de

circunvisão. 8

 

Assim, no exemplo do martelo encontra-se, potencialmente, a plena entrada a uma filosofia da tecnologia.

 

B. O Galileu de Husserl

 

Nove anos depois de Ser e Tempo, a Crise de Edmund Husserl foi publicado. Neste trabalho o conceito de mundo da vida, complementado com uma ênfase revisada sobre a práxis e a percepção, emergiu. Em “A Origem da Geometria” eu já enfatizei que este Husserl “tardio” voltou-se a um tipo de exemplo mobiliário derivando a ciência da geometria a partir de atividades mais mundanas, tais como mensurações.

Mesmo que não saibamos quase nada sobre o mundo histórico circundante

dos primeiros geômetras, uma cosia é certa, como uma estrutura essencial

invariável que era um mundo de “coisas” incluindo os próprios seres

humanos como sujeitos deste mundo; que todas as coisas necessariamente

deveriam possuir um aspecto corpóreo. […] Além disso, é claro que na vida

das necessidades práticas, certas particularizações de forma se destacaram

e que uma práxis técnica sempre voltada para a produção de formas

escolhidas particulares e para a melhoria deles de acordo com certas

direções de gradualidade. 9

 

Posicionar a origem da geometria a partir de práticas diárias parece ter sido um tipo de concessão à ênfase heideggeriana inicial à práxis, mas esta concessão permaneceu apenas parcial e resultou num conjunto diferente de problemas para a versão husserliana de mundo da vida. Primeiramente, o mundo da vida foi claramente concebido por Husserl para ser um extrato mais básico (fundacional) do Mundo e também mais amplo em seu escopo. Qualquer “mundo” secundário ou especializado, como aquele de qualquer ciência, deve de alguma forma referir-se a este mundo básico. Isto também se aplica a esta derivação de geometria:

 

A metodologia geométrica de operativamente determinar algumas, e

finalmente, todas as formas ideais… volta-se para a metodologia da

determinação por topografia e medição em geral, praticando primeiro

primitivamente e, em seguida, como uma arte no pré-científico e

intuitivamente dado mundo circundante.10

 

A versão de Husserl da práxis neste mundo cultural amplo claramente não foi do tipo accional à moda heideggeriana. Ela foi, antes, o material intuitivo, corpóreo e perceptivo, mundo dos objetos. “No mundo circundante intuitivamente dado… nós vivenciamos ‘corpos’ não na forma de um corpo geometricamente-ideal, mas precisamente aqueles corpos que de fato podemos

vivenciar, com o conteúdo que é o conteúdo atual da experiência.”11 O que é pré-científico ainda está imerso em uma caracterização como corpos materiais percebidos. As ciências formais e abstratas, tais como a geometria, portanto, devem afastar-se dessa materialidade para tornar-se o que elas são. Husserl viu isso como um processo de aperfeiçoamento: “Fora da práxis de aperfeiçoamento, de pressionar livremente na direção de horizontes de aperfeiçoamento concebíveis ‘uma e outra vez’, formas-limite emergem na direção em que a séria particular de aperfeiçoamentos

tende.” 12

Esta é a introdução, no início de uma bifurcação entre o mundo da vida pré-científico e o “mundo” científico. Esta bifurcação fará com que o processo de aquisição cultural torne-se difícil para Husserl. A questão vem à tona na crítica de Husserl a Galileu, o introdutor de uma geometria matematizada na ciência inicial.

O Galileu de Husserl pode ser caracterizado a partir de um legado e de sua permanência em duas dimensões de mundo. Por um lado, ele vive, como todos vivem, no mundo da percepção em suas significações pré-científicas, dentre “corpos” incluindo o seu próprio corpo. Por outro lado, Galileu herda uma práxis especial de pensamento geométrico culturalmente adquirida, que ele direciona para um novo uso em sua física. Todo o movimento está, doravante, para ser matematizado e pensado de forma abstrata, distinta das qualidades sensoriais que pertencem aos próprios corpos que estão em movimento e que ainda pertencem em certo sentido ao mundo da vida pré-científico.

O problema orbita em torno da percepção sensorial. Formas, já devidamente subsumidas na geometria antiga, são apenas uma parte do mundo sensorial. Além disso, há aquilo que Husserl chama de qualidades sensoriais plenas (cores, por exemplo). Estas não são facilmente compreendidas sob a práxis geométrica.

 

A dificuldade aqui repousa no fato de que o material pleno, as qualidades de sentidos específicas que concretamente preenchem o espaço-temporal e formas-aspectos do mundo dos corpos não podem, em suas próprias gradações, serem diretamente tratadas tais como são as formas em si

mesmas.13

 

Assim, alguns meios devem ser criados para explicar essas qualidades plenas ou então é preciso perceber que o método geométrico é apenas uma práxis especial e limitada relacionada a um aspecto do mundo. A invenção de Galileu, Husserl afirma, é o desenvolvimento de um meio indireto de matematizar o pleno. Galileu deve encontrar um meio de traduzir os fenômenos plenos em fenômenos espaciais, a fim de se tornarem disponíveis para a análise geométrica. E é isso que ele faz.

Conceitualmente, este movimento, bem conhecido tanto em Galileu quanto em Descartes, é uma das primeiras formas de negar aos objetos suas qualidades plenas numa doutrina de qualidades primárias e secundárias. Grosso modo, o objeto em si é puramente uma entidade geométrica, uma res extensa; suas qualidades plenas não são localizadas no objeto, mas no sujeito. Cores são “subjetivas”. Mas agora, desde que nós vemos a coisa igualmente como sendo extensa e colorida, deve haver alguma maneira de subsumir a cor na análise geométrica. E é aqui que a geometrização indireta começa a tomar forma. Deve haver algum índice de regularidade que, mesmo que não diretamente espacial, possa ser relacionado a alguma mensuração “espacial” direta ou por meio de um processo de tradução.

 

Agora no que diz respeito à matematização “indireta” deste aspecto do

mundo que em si mesmo não é uma forma-de-mundo matematizável: tal

matematização é concebível apenas no sentido de que as qualidades

sensíveis específicas (“pleno”) que podem ser vivenciados nos corpos

intuídos estão intimamente relacionados em um tipo peculiar e

regulamentado 14 com as formas que essencialmente pertencem a ele.

 

Nesta perspectiva, não ainda intuitiva, Galileu dramaticamente pavimenta o caminho para a física moderna, que, pensando bem, hoje, raramente são dadas com o procedimento:

 

O que nós experimentamos na vida pré-científica como cores, calor e peso

pertencentes às coisas em si mesmas e casualmente vivenciadas como

radiação de um corpo de calor que torna corpos adjacentes quentes, e como

indica, é claro, em termos da física, tons-vibrações, calor-vibrações, i.e.,

eventos puros no mundo das formas 15 .

 

Muito disso é dado como certo de forma que alunos da graduação podem até mesmo dizer que “enxergam” comprimentos de onda.

Isso quer dizer que uma vez posto em forma de uma visão de mundo, a perspectiva de Galileu torna-se um tipo de macropercepção que pode ser tomada como certa com as possíveis modificações. E é precisamente aqui que a ambiguidade em Husserl atinge o seu próprio ápice. Porque se os novos meios de compreender os fenômenos tornam-se aquisições culturais genuínas, como a investigação sobre as origens por meio de uma práxis torna-se transparente, eles negligenciam o contraste com o mundo da vida fundamental.

 

Mas agora nós devemos notar algo da maior importância que ocorreu mesmo tão cedo quanto em Galileu: a substituição sub-reptícia do mundo matematicamente subestruturado de idealidades para o único mundo real, o que é realmente dado através da percepção, que é sempre vivenciado e experimentável em nosso mundo da vida cotidiano. Esta substituição foi prontamente passada a frente para seus sucessores, os físicos de todos os

séculos seguintes.16

 

Parece que Husserl está dizendo que em sua base o mundo da vida é e deve ser o mundo sensorial, baseado nas relações entre as ações humanas e o mundo concreto e material das coisas e seres corpóreos. E estes são intuitivamente e perceptivamente disponíveis para todos. Em seguida, um segundo tipo de “intuicionabilidade” também ocorre como na exemplificada revolução de Galileu, aquele em que certas combinações de perspectivas praxiológicas alcançadas podem tornar possível outra realização intuicionável, uma aquisição cultural como a ciência.

Tal aquisição, no entanto, também é ambígua, porque o que é adquirido pelos próprios meios da matematização, Husserl argumenta, perde um sentido essencial de concretude por negligenciar o mundo da vida fundamental.

 

Galileu, o descobridor… da física, ou da natureza física, é ao mesmo tempo uma descoberta e um gênio da dissimulação. Ele descobre a natureza matemática, a ideia metódica, ele abre caminho para o número infinito de descobertas e descobridores da física. [Mas] imediatamente e em seguida a Galileu, começa a substituição sub-reptícia da natureza idealizada pela

natureza intuída pré-cientificamente.17

 

A aquisição de um novo paradigma esconde o fundamento da dimensão ordinária do mundo da vida.