Tecnologia e o mundo da vida: do jardim à terra

8 Epílogo: A Terra Herdada

 

Nós estamos agora de volta ao início, a Terra tal como a encontramos, amplamente tecnologicamente texturizada, herdada das gerações anteriores de humanos, todas as quais deixaram para trás o Jardim. Antes de partir para as recomendações conclusivas de como cuidar desta herança, recorrerei, uma vez mais, a um conto contemporâneo. Neste caso o acontecimento é real, apresentado deliberadamente, para fins relevantes junto a esta narrativa, por um lado em certo sentido “heideggeriano tardio” e, por outro, com um comentário pós-moderno. A estória está ambientada no final do século XX no sopé do Montalbano, Toscana, Itália, agora quatro séculos depois das primeiras dores do parto do nascimento do moderno:

 

Há um fogo de madeira de oliveira e carvalho, queimando na antiga lareira no coração da fazenda, sua fumaça rodando em espiral até o topo da chaminé, como teria sido na Idade Média.

Um homem, uma mulher e sua criança pequena apenas puxaram suas cadeiras até a mesa de mármore branco sobre a qual é servido um jantar toscano simples, preparado para a noite fresca de outubro.

Primeiro, há uma massa, recém-preparada com molho de tomate e cogumelos, uma pitada de parmesão, seguida por um prato caseiro de “patate frite”, todos com um chianti local e água mineral da fonte próxima no vale.

A sobremesa é fruta: kiwi e abacaxi, não diferente do que teria agradado os fazendeiros inquilinos que uma vez já arrendaram a moradia de pedra.

Lá fora, sob a lua cheia, as oliveiras estão maduras e as uvas já foram colhidas. Figos frescos e amêndoas ainda permanecem, com o perfume do alecrim, orégano, tomilho e sálvia. (Os tijolos e as madeiras da casa foram agrupados a partir dos restos dos mosteiros e outras ruínas do passado, não diferentemente da bricolagem com que as pedras de Roma foram tratadas no período medieval, carregadas ao longo de toda a Europa.)

(Ele, terceira geração de americanos, cristão secular, germano-escandinavo. Ela, terceira geração secular de judeus, polonesa, russa, austríaca. A criança, quarta geração pós-moderna com características de bricolagem.

Mármore, comum aqui, material de construção habitual, também pode ser

encontrado na estátua de Davi, em Florença.)

(Massa, inicialmente da China, tomates, do Novo Mundo, cogumelos, um

elemento verdadeiramente pós-moderno internacional, encontrado em todas

as cozinhas. Batata, novamente do Novo Mundo, a galinha, não

industrializada, é genuinamente melhor que a versão norte-americana.

Chianti, cujas uvas são colhidas por máquinas e fermentadas em barris de

aço inoxidável em alguma cantina local próxima. Qualidade da água

controlada com propósitos saudáveis…)

(Obviamente importados, Nova Zelândia e África. Agricultores inquilinos e

contrato de trabalho substituíram os servos de sistemas anteriores.)

(Plantação de oliveiras e vinhedos, já com vários séculos de existência,

substituíram florestas que anteriormente pertenciam aos aristocratas, cuja

terra foi desmatada para deliberadamente diminuir seu poder em detrimento

às classes emergentes de comerciantes e guildas. Olivas e uvas estão entre

os poucos produtos capazes de crescer no clima agora árido. As ervas

mencionadas são típicas da mesma aridez. A lavoura é feita por trator de

esteira com disco de arado. O mundo é recolhido globalmente,

interconectado pelo comércio, pela história e mesmo pela culinária

pluricultural que embeleza a mesa. Na sala de estar podem ser encontrados

a televisão e o aparelho de som; no andar de cima, a máquina de escrever

eletrônica de alta tecnologia e o processador de textos.)

 

A cena descrita foi, naturalmente, amplamente agradável, centrada na intimidade da família e de um evento real. Mas o comentário foi feito deliberadamente para desromantizar a narrativa que imita os cenários de templos gregos, cabanas e oficinas de camponeses e a noção de um mundo reunido no qual a ambiguidade e a complexidade da situação mais ampla é deixada oculta.

Essa visão adapta um ponto de vista mais amplo da paisagem despojada para além do Parthenon, anteriormente descrito, na qual, ao romantismo residual de um Heidegger aqui imitado, percebe-se a necessidade de acrescentar as ambiguidades não ditas relativas ao antissemitismo de muitos dos camponeses e a ameaça do pró-fascismo.

Quando a compilação for reconhecida, é importante que seja reconhecida de maneira plena e multidimensional.

O “mundo” descrito acima não é tão isolado quanto os seus mundos precedentes. Se a narrativa fosse retomada, nota-se que depois do fogo e do jantar, a noite é estruturada por outro conjunto de escolhas pós-modernas. Depois que o jovem Mark é levado para a cama (com estórias contadas a partir de seus livros da Itália, Nova Zelândia e Estados Unidos), seus pais têm as opções de (a) ouvir o rádio estéreo (japonês), talvez uma ópera de Callas reconstituída digitalmente (italiana), (b) assistir à televisão italiana (que, pela manhã, traz notícias da americana CBS), ou (c) retirar-se para a cama para retomar a leitura: ela de Mary McCarthy The Stones of Florence; ele, do Merchant of Prato, de Iris Orego. (Para que o conto não seja tomado de forma excepcional, note que perto de Florença há dezenas de outros professores em licença sabática e, juntamente a centenas de estudantes na Itália para o seu terceiro ano no exterior, em padrões típicos das grandes viagens do mundo transcultural contemporâneo). O casal escolhe ler.

A leitura é reveladora: o comerciante, Francesco Datini, que deixou como legado aos arquivos da posteridade 503 de suas cartas, papéis e livros, traz o período final da Idade Média com grande detalhe e exemplos pessoais. No final dos anos 1300, quando um papa habitava Avignon e estava constantemente em conflito com os italianos do Norte, na véspera do Renascimento, já era possível ver os sinais da era moderna. Este empresário, muito disposto a negociar qualquer coisa, vendendo armaduras e artigos religiosos de todas as partes (mesmo de guerreiros mercenários rivais), viajando a maior parte do mundo civilizado significativo na época ou possuindo postos avançados de negócios como um prenúncio dos conglomerados sobrenaturais do nosso próprio tempo e em um tempo, já previamente notado, como tendo estabelecido sua própria revolução tecnológica, revela-nos os seus medos em seu próprio mundo de vida.

Existe a peste, da qual ela dificilmente escapou e para a qual ele perdeu a maioria de sua família, duas vezes. Existem as guerras religiosas, a última das quais finalmente o demoveu de Avignon, permitindo a ele retornar a tempo de ver sua mãe adotiva e a tutora antes dela morrer. Existem os roubos e os perigos da viagem. E existe a fome, que ocorre com surpreendente regularidade, mesmo na Itália do século XIV.

Menos de cem anos mais tarde nascerá, ilegitimamente, como era tão frequente na época, um Leonardo; nascido em 1452, em Vinci, uma aldeia ao redor das encostas de Montalbano, apenas quatro décadas antes do Novo Mundo ser descoberto. Ele se tornaria o próprio símbolo de um polímata renascentista. Ele era claramente um arauto da ciência tecnologicamente incorporada que emergiria no Renascimento. Oportunista ao extremo, ao contrário de seu predecessor toscano, Datini, Da Vinci ofereceu-se a uma série de aristocratas ricos e lordes em guerra. Ele escreveu para Ludovico il Moro uma oferta para construir máquinas de batalha inovadoras:

 

1. Eu sei construir pontes muito leves e fortes, feitas para serem

facilmente transportadas, seja para perseguir ou para escapar do inimigo […]

2. Conheço técnicas úteis para invadir um território, como drenar

água dos fossos e como fazer um número infinito de pontes e passarelas cobertas muito úteis […] para tais expedições.

3. Item, se no curso de uma ofensiva, a altura de um dique ou a

força de um local forem impedir o avanço, eu conheço técnicas para destruir qualquer fortaleza ou outra fortificação que não for construída em rocha contínua […].

4. Sempre que os avanços falharem, inventarei catapultas,

mangais, armadilhas e outros instrumentos incomuns e

igualmente maravilhosos. 1

 

Esta forma de engenharia científica já se espalhou como praga para o “complexo militar-industrial”, ao modo como todo Eisenhower sempre sonhou! (Já observamos que Galileu, mais de um século depois, seguiu o mesmo caminho).

No século XX a mesma coisa aconteceu. Pouco depois da descoberta da fissão, Werner Heisenberg, procurando recuperar sua reputação, escreveu cartas secretas ao Ministério da Guerra do Terceiro Reich e, mais tarde, organizou uma conferência cujos trabalhos foram intitulados Probleme der Kernphysik, na qual ele propôs a criação de submarinos nucleares, navios de batalha, e um superexplosivo que seria o lançamento da tentativa nazista em construir uma bomba atômica. A diferença com Da Vinci é principalmente estrutural, pois agora a ciência do século XX é

corporativa e multiautoral.2

O nascimento da ciência renascentista é o nascimento no âmbito de uma roupagem tecnológica e institucionalmente direcionada para as mesmas fontes de financiamento que a Grande Ciência possui hoje. É apenas um mito bem-sucedido do século XIX que nos convenceu de que fora de outra forma. Aqui, também se encontra a dupla relação à tecnologia que ocorre no nascimento da ciência moderna. Ela é incorporada em tecnologias instrumentais, mas conectada em uma matriz de engenharia e ligada aos patrocínios de larga escala disponíveis.

Em um último olhar para as luzes do Vale Florentino, o homem contemporâneo do conto reflete sobre suas próprias preocupações: parte da névoa permanece sobre o vale, que pode ser visto em algum grau todos os dias. A peste desapareceu, substituída por um processo muito mais lento na poluição atmosférica. Os alemães ao norte começaram a perceber que seus dois amores intensos, pelas florestas e pelos automóveis, já chegaram a um estreitamento contraditório. Eles iniciaram ações relativas aos controles da poluição e às gasolinas sem chumbo, mesmo contra as delícias das políticas do Mercado Comum. Mais ao norte ainda, os suecos decidiram que nem sempre se pode ter tanto a baleia quanto o

reator3 e optaram por eliminar seus reatores (embora, até recentemente, seus vizinhos ao oeste, a Noruega, por exemplo, é um dos países que ainda caça baleias).

Sobre a fome não se ouve mais falar nestas partes agora, e a Itália superou a Inglaterra em produção e no PIB. Mas o homem sabe que no Sul, na antiga colônia italiana, a Etiópia ainda é assolada pela fome, incitada pelo próprio governo indígena que substituiu os colonizadores, pela desertificação gerada pelas práticas agrícolas e pela falta de ajuda suficiente devido às tensões políticas mundiais.

A moral do conto é suficientemente clara: embora nostalgias e romantismos possam em pequenas doses cativar nossa visão, eles também podem obnubilar e algumas vezes obscurecer perigosamente os assuntos. O que é mais amplamente necessário do que estas medicações e um senso profundo sobre a ambiguidade da civilização tecnológica igualmente nos vetores positivos e negativos, que é senso mais amplo de contingência.