Tecnologia e o mundo da vida: do jardim à terra

4 Adão e Galileu

 

 

Num exercício imaginativo, retorne para o novo Éden e para o nosso pré-tecnológico novo Adão. O que nosso Adão nu poderia ver e contemplar a olho nu dos céus noturnos? De nossa situação atual nós sabemos que esta questão é duplamente suspeita. Não apenas pedimos isto a partir de nossa perspectiva de mundo tecnologicamente constituída, mas também devemos suspeitar que a própria imaginação de uma percepção “inocente” é, no mínimo, uma abstração.

O céu noturno é um paradigma virtual e uma ambiguidade perceptiva. Se fôssemos imaginar a visão nua de Adão, poderíamos ser tentados a caracterizar tal percepção como uma vastidão sombria, um campo perceptivo escuro com ponto de luz com variação de grau e intensidade e padrões aleatórios. Se o nosso Jardim do Éden é no Hemisfério Norte, haveria certa esbranquiçada, mas amorfa, área que atravessa o meio. Nós poderíamos ir adiante e caracterizar esta visão como uma base microperceptiva à qual poderiam ser atreladas interpretações macroperceptivas. Nosso Adão pré-tecnológico poderia ver em nível de visão microperceptiva.

Mas tão logo nós comecemos nossas variações a partir de nosso tempo cientificamente saturado, mesmo ao nível de uma consciência científica minimamente mediada pelos documentários televisivos, deveríamos suspeitar que tal Adão não existe. Ao contrário, em cada caso de pré-científica, se não pré-tecnológica, cultura, nós encontramos alguma visão sobre os céus mais ricamente descrita. Com efeito, o despojamento de tal micropercepção presumida provavelmente não seria reconhecida por nosso Adão afinal. Onde nós fomos de certa forma criticamente precisos, ele poderia dizer que tal linguagem claramente pertence de um modo único à nossa própria tribo, porque certamente ninguém olha para os céus de tal maneira reducionista!

O que nós tomamos como uma visão nua já contém a mesma relação secreta à macropercepção. As histórias da percepção nos ensinam que cada versão da micropercepção já está situada junto a e nunca dissociada do humano e da macropercepção cultural que já a contém. Não existe um simples enxergar; existe apenas um enxergar situado que é igualmente um enxergar como ______ e um enxergar a partir _______. Ainda aqui existem pistas iniciais para o exame fenomenológico.

Qualquer Adão empírico veria os céus como ______, no âmbito de alguma macropercepção concreta. As cosmologias descritivas antigas tais como aquelas do Oriente Médio tomam nosso céu visível como sendo um domo, escuro à noite, azul durante o dia, mas obviamente “sólido”. Não há nenhuma ruptura em seu ser colorido ou em estar a esta ou aquela distância da terra. As luzes deste domo celeste podem ser buracos no domo por meio dos quais os fogos extracelestes aparecem, ou podemos achar que o sol, as demais estrelas e a lua são viajantes ao longo do domo. Contrariamente, quando estudamos as cosmologias do Oriente Próximo, podemos descobrir que o céu é o aberto. Ele vai indefinidamente além da visão. Ambas essas versões descritivas são microperceptivamente possíveis.

De modo similar, se tomarmos o que inicialmente descrevemos como sendo padrões aleatórios (ou variantes macroperceptivas) de nosso Adão empírico ancestral, nós deveríamos descobrir que existem agrupamentos que também são vistos como sendo ______. Existem figuras do zodíaco dos gregos e romanos, as cerâmicas de nossos ancestrais norte-americanos, ou a baleia, a foca e o peixe dos povos do Norte longínquo. Cada tribo agrupa as estrelas em padrões, não aleatoriamente, não consistentemente um com outro, ainda assim sempre em grupos. Os agrupamentos, frequentemente, refletem padrões de vida e ações de um grupo de pessoas. Em uma sociedade agrícola, os padrões estrelares são correlatos aos vários ciclos das estações e da reprodução. Se a atividade for a navegação, as estrelas devem ser correlatas às rotas e aos destinos. Questões acerca das distâncias relativas das estrelas para a terra, por exemplo, não estarão apenas ausentes, mas não farão nenhum sentido no âmbito de tais paradigmas culturais.

Ao nível microperceptivo, a ausência de tais questionamentos faz seu próprio sentido. Objetos localizados a grandes distâncias são escorçados. Nós não percebemos (microperceptivamente) distâncias relativas entre as estralas, e esta é talvez uma razão pela qual as cosmologias antigas posicionavam as estrelas muito próximas à Terra do que as cosmologias mais recentes o fazem. Os surpreendentes resultados obtidos pelos gregos, que antecipam medições modernas, surgem igualmente de suas crenças matemáticas e de seu uso primitivo de instrumentos de medição. Suas percepções já iam se tornando em parte tecnologicamente mediadas, mas o uso de instrumentalização permanecia altamente restrito. Não havia, de modo algum, tecnologias óticas.

Os antigos observavam dinamicamente, sutilmente. Eles não apenas conheciam os padrões que eram “constelações”, mas também mapearam os movimentos das estrelas e de outros corpos celestes de modo muito perspicaz. Agora nós sabemos que eles empregaram amplos e monumentais “compassos siderais”, tal como Stonehenge no intuito de elaborar tais mapeamentos. Estes círculos de pedras estavam alinhados para localizar precisamente as posições, indicando os tempos exatos dos solstícios ou do nascente e poente de importantes estrelas e planetas. As tecnologias relativas aos calendários, túneis para observação da localização solar e outros instrumentos eram empregados para o detalhamento de movimentos cruciais aos padrões variáveis da vida diária, tal como os ciclos das estações e os assuntos astrológicos. Não havia percepções puras, embora todas as suas percepções contassem com as observações a olho nu, feitas para se enquadrar nas formas de vida que se estendem para os céus a partir da terra.

O que, agora, é percebido ao passo que nós nos voltamos para nossa própria variação. A criança precoce de hoje pode dizer que os céus são constituídos por galáxias de diversos formatos, espirais ou círculos concêntricos; que existem buracos negros ocultos e estrelas radioativas lá fora; que as estrelas não são todas de um mesmo tamanho, mas que incluem anãs brancas, gigantes vermelhas, ao infinito. Tais descrições, no entanto, não se entrosam facilmente com as visões antigas do céu noturno, mas contrastam com elas. Existe uma distância entre o que é visto olhando para cima numa noite clara distante das áreas urbanas poluídas com luzes artificiais e o que é apresentado para nós em fantásticas fotografias e representações das nebulosas e galáxias. E aqui nós podemos descobrir uma “distância” entre a velha versão do mundo da vida da percepção imediata e do mundo científico que nos distancia do primeiro.

Se fôssemos chegar a esta conclusão, no entanto, nós deveríamos deixar de lado precisamente o fator que contribui para a distância e simultaneamente para a proximidade da instrumentação tecnológica. Isto é assim porque existe uma diferença essencial entre nossa visão tecnologicamente incorporada e aquela de nossos antepassados. Nossas percepções não são nuas, mas mediadas. Nós enxergamos através de meios, primeiramente óticos, radioativos, espectrográficos e outras visões tecnologicamente incorporadas (ou ouvimos, ou tocamos). Enquanto existe uma grande distância visível entre a visão a olho nu do céu noturno e a representação dos céus na astronomia contemporânea, tal distância em si é mensurada por meio de nossas tecnologias sensoriais. Isso é o que nos distancia de nosso Adão mítico.

Igualmente a distância e a proximidade do tecnologicamente mediado e da visão nua são importantes. Não melhor do que nossos ancestrais, nós podemos microperceber as distâncias entre as estrelas. Nossa visão do céu noturno, sem o auxílio da ótica, não pode diretamente nos dizer que Rigel está mais próxima ou mais distante da terra do que Polaris; apenas que aquela é mais distante que a outra. Suas distâncias relativas não podem ser percebidas mesmo através de poderosos telescópios. Nós descobrimos as pistas para as vastas distâncias em parte porque o tamanho aparente dos discos estrelares permanecem os mesmos nos telescópios primitivos. No entanto, a lua e os planetas viajantes sofreram breves modificações. Ainda que, macroperceptivamente, nossa imagem seja o que é por meio da instrumentação que nos distancia de todos os Adãos, seus arranjos não são “errados” ou os nossos “certos”; eles são simplesmente incomensuráveis. Ambos são limitados ao relativismo que se liga ao visualizador e à visão, embora numa visão instrumentalmente mediada existam novos fatores.

Não apenas nossas percepções mudaram incomensuravelmente daquelas por meio de nossa instrumentalização incorporada em qualquer grau, mas também a nossa práxis. Apenas vestígios permanecem da ligação do mundo agrícola antigo em nossa visão. Nós suspeitamos que os ciclos das manchas solares podem estar relacionados, em certo sentido, a padrões climáticos de longos períodos. E estes, em contrapartida, aos ciclos de chuva e à estiagem, mas nossas inclinações instrumentais adentram em nossas práxis de maneira descontínua com os mundos dos antigos. Nós procuramos pelas próprias fronteiras, se é que exista alguma, do universo. A busca em si é possível apenas através do desenvolvimento de instrumentos cada vez mais poderosos. Esta inclinação não apenas é possível pela visão tecnologicamente incorporada, mas advém no âmbito do contexto da incorporação instrumental. Nossa episteme é diferente da de Adão, mas existem resquícios de interstícios de intersecção.

Os interstícios repousam entre os caminhos flexíveis e ambíguos em que as micro e macropercepções estão conectadas. No entanto, por mais complexos e multifacetados que eles possam ser, existem aspectos estruturais discerníveis para a fenomenologia da percepção. Os que serão isolados aqui dizem respeito às diferenças entre as percepções tecnologicamente mediadas e nuas. Iniciarei permanecendo junto ao domínio daquilo que é familiar. Isto inclui o uso habitual de exemplos visuais, os quais ecoam nas várias metáforas que nós temos usado para descrever a ciência como uma “visão de mundo”.

A diferença entre o novo Adão e nós mesmos é a diferença entre a micropercepção mediada e não mediada. Não precisamos voltar ao Jardim do Éden; a despeito de nosso próprio mundo tecnologicamente entrelaçado, continuamos tendo percepções não mediadas a nível micro: eu passeio ao ar livre no verão, em direção à praia. Lá, eu me dispo com exceção de um modesto traje de banho; primeiramente, eu sento na areia e me percebo. A sensação tátil da brisa, o calor da areia, o som das ondulações vindo das ondas, a visão dos arbustos nos limites da praia, as árvores plenamente cobertas de folhas ao longo da costa, tudo isto se apresenta para os meus sentidos de maneira não mediada. E chamarei isto simplesmente de (micro) percepção direta da situação. Eu tomo isto como certo. É familiar. E isto usualmente não é examinado. É uma forma fundamental na qual eu vivencio meu ambiente imediato ou mundo circundante. Formalmente denominarei tais percepções diretas ou não mediadas de relações eu-mundo.

Tais relações já incluem uma complexidade multidimensional. O que eu vivencio, qualquer coisa no mundo próximo a mim, é igualmente visto como e visto a partir de. Ondas, árvores, arbustos, areia, todos são “coisas” familiares da experiência, seres ordinários diante dos quais meus sentidos flexíveis possam ser direcionados. Eu não vivencio algo como uma construção destas coisas imediatas; elas já estão lá, sejam o que forem. Mas eu as vivencio no âmbito de um panorama, um campo disposto. As árvores estão do outro lado da enseada, com a árvore de faia à esquerda do bordo sicômoro. A gaivota voa acima do cisne que está nadando diretamente diante de mim. O panorama se estende até as bordas do que eu vejo ao meu redor.

Eu vivencio as diferenças entre o que se destaca no panorama em relação direta com a minha atenção e direção do olhar. Eu sou atraído, por curiosidade, ao caranguejo-ferradura que agora se aproxima lentamente ao limite da praia, acompanhado por seu insistente parceiro. Quando eu estou assim, direcionando meu olhar, aqueles itens à distância se tornam menos distintos e mais como campo de fundo ao drama imediato próximo aos meus pés.

Eu posso não estar explicitamente consciente da intencionalidade desta minha mirada ou das relações de forma entre o foco em primeiro plano e o campo de fundo, mas isso pode ser facilmente recuperado numa reflexão. Ademais, eu posso recuperar minha visão dinâmica como sendo simultaneamente uma visão a partir de. Aquele panorama imediato reflexivamente me localiza. O que está diante de mim reflexivamente de volta para um ser-aqui que é concreto, a espacialidade corporal que eu sou; mas este espaço corporal não é distinto. É, também, flexível e multidimensional.

Eu vivencio minha presença como sendo corpórea, um tipo de ambiguidade com a qual eu sinto da mesma forma o que está diante de mim e o que está ao fundo. Meu passo em direção à agora aquecida areia pelo sol repentinamente muda meu foco de consciência para a interface entre os pés e a areia, e eu me encaminho rapidamente para a água para mudar o quente em frio. Mas agora aliviado, eu volto a concentrar-me totalmente nos caranguejos acasalando. Estou imerso no mundo circundante, mas esta imersão é tão flexível e dinâmica quanto o panorama sobre mim. Este é o quiasma, o entrelaçamento da carne sobre o qual Merleau-Ponty falou em suas últimas interpretações a respeito da percepção.

Tudo isto é o interstício que eu compartilho com nosso novo Adão imaginado. O que ele não compartilha comigo, no entanto, é o mediado, a experiência perceptiva incorporada que eu tenho quando eu deixo o Éden. Pouco de minha vida é vivido nuamente; e quando o é assim vivido, nunca o é muito distante das vestes materiais que são nossa incorporação tecnológica. De fato, meu mundo distante se apresenta para mim durante meus anos médios com certa ambiguidade visual que eu não conhecia em minha juventude. Até mesmo para a praia agora eu levo meus óculos de sol, com meu traje de banho, o que preserva o decoro da modesta civilização

tecnologicamente re-vestida em Poquott1.

Nem nosso Adão vivenciou a diferença entre seu mundo nuamente percebido ou o nosso. E aqui repousa a pista do que no novo Éden poderia ser a perda da inocência, mas, uma vez sobre a terra, torna-se mais que o conhecimento sobre o bem e o mal. E o conhecimento nasce a partir das diferenças, das variações que guardam os segredos para um mundo igualmente mais e menos inocente do que o de Adão. Mas tal como a própria familiaridade com a nossa dimensão Adâmica pode ser deixada sem exame e sem ser discernida, assim também pode, da mesma forma, a qualidade de nossa relação mediada para com o mundo e a sua diferença da nossa relação nua com o mundo. Analisar ambas as mediações e suas diferenças é adentrar na fenomenologia.

O primeiro conjunto de variações é ótico e pode ser localizado sobre o que pode ser chamado de um continuum ótico. Imagine nosso Adão escalando um promontório do seu reino (jardim) e descobrindo o panorama da selva. Seus correspondentes contemporâneos podem fazer isto de um modo diferente, por exemplo, ao tomar o elevador para os andares mais altos de um arranha-céu e visualizar o skyline urbano através de uma janela de vidro recém-limpa.

Aqui nós temos o que pode parecer, numa primeira análise, uma diferença mínima entre uma visão direta ou nua do mundo e uma visão tecnológica (neste caso ótica) e mediada. Formalmente, nós podemos notar que a janela ocupa uma posição entre o observador e aquilo que é observado. A relação eu-mundo é transformada em eu-janela-mundo. Isto é mais que mudança formal; o modo como o mundo é vivenciado é transformado ontologicamente.

Isto, no entanto, pode não ser imediatamente aparente. De fato, a visão acrítica pode muito bem ser tentada a dizer que o panorama é exatamente o mesmo através da visão mediada pelo vidro incorporado e da visão a olho nu. À primeira vista, o que parece ser impressionante é a própria transparência do meio. O vidro permite que eu olhe, através dele, o mundo. O vidro, retomando a terminologia heideggeriana, “se distancia” do objetivo projetado da visão. Pode até ser dito, do modo como eu vejo, que o mesmo ocorre com os óculos. E, e se formalizarmos a relação eu-janela-mundo mais especificamente, podemos bem diagramá-la como sendo

 

(eu-janela)-mundo

 

Aqui os parênteses significam que a janela se distancia de tal modo que é, no máximo, o meio e, claramente, não o objeto da minha visão.

Existe, na maioria das situações deste tipo, certa quantidade de brilho refletido, possivelmente alguma translucidez residual quase imperceptível nas melhores placas de vidro, o suficiente para uma delicada variação entre os dois pontos de vista, revelando que o distanciamento da janela nunca é total. Existe sempre um ligeiro, mas perceptível achatamento da profundidade do panorama, mas, imaginativamente, há várias destas extremamente sutis diferenças entre uma tentativa (mas nunca de fato obtida) transparência pura e algum grande grau de translucidez como um continuum em direção ao opaco.

Uma opacidade total não permitiria à nossa experiência visual ser mediada através do vidro. A placa de vidro em si seria transformada de meio para objeto da experiência. Ela seria o término da mirada visual. Apenas quando ela permanece ao menos parcialmente transparente é que pode ser tomada em nossa visão de modo tal que possamos ver através e para além dela. Entre a total opacidade e o mais alto grau de transparência existem muitas outras possibilidades, e estas possibilidades devem todas ser transformações mais agudas sobre qualquer outra forma prévia de ver o mundo com os olhos desarmados. Uma vidraça pintada transforma a coloração do panorama, uma vidraça com polaroide transforma a luz e apresenta relações junto ao panorama, etc. Pode-se imaginar aqui uma variedade não diferente daquelas multiplicidades de estilos de pintura e suas variações sobre a paisagem. A analogia não ocorre sem as nuances do mundo cientificamente e tecnologicamente incorporado no qual habitamos. Ao variar-se a coloração na sombra, ou fazendo as sombras azuis ou verdes em vez de cinzas (tal como os impressionistas na arte), nós aprendemos a enxergar diferentemente. O mesmo ocorre nas variações científicas contemporâneas com “cores falsas” ou por fotografia infravermelha. Nós aprendemos algo novo do mundo físico por meio de tais diferenças, e há “verdade” em cada variação.

Vamos continuar, no entanto, junto à trajetória que varia apenas no âmbito da transparência incolor. Nossa janela de vidro pode conter algumas pequenas curvas e superfícies desiguais, tal como as velhas janelas de vidro das casas de New England. Em tal caso, nossas visões mediadas ou nuas poderiam variar em distorção. Então, em algum lugar na história do século XI, alguém descobre que certas curvas ampliam o que é visto, e as lentes foram inventadas. Ampliação, uma vez descoberta, sugere uma nova trajetória. Se uma pequena ampliação mostra algo como sendo “maior”, o que uma maior ampliação poderia mostrar? Aqui o exame deve seguir lentamente porque há muito que pode ser perdido pelo próprio rubor inicial de uma fascinação com as possibilidades tecnológicas.

O emprego das primeiras lentes foram lentamente adaptadas para o uso mais familiar que fazemos delas hoje, monóculos (século XIII), ou óculos, que no século XX se tornaram lentes de contato e até mesmo lentes implantadas numa incorporação ainda maior. Mesmo no século XIII não havia apenas monóculos, mas mesmo lentes compostas e um tratado sobre lentes (VITELLIO, 1270). Os óculos, que mais tarde pareceriam apenas uma relativamente pequena ampliação, demandam uma breve consideração inicial: primeiramente, eles são ainda melhores exemplos da relação (eu-vidro)-mundo do que a placa de vidro. Em uso, nós dificilmente nos damos conta deles; eles se distanciam e se tornam a transparência pela qual nós vemos o mundo. Mas, tal como o martelo de Heidegger, eles podem se tornar notáveis por estarem ausentes, por estarem quebrados, ou por não mais servirem ao propósito tal como a prescrição apropriada. Todos esses casos são uma obstinada obstrução funcional. Então, o significado dos óculos muda de meio a objeto da experiência.

Na capacidade de ampliação dos óculos, há, de certa forma, a “intencionalidade” tecnológica. A ampliação seleciona o panorama em certo sentido, e no processo há uma mudança tanto do tempo quanto do espaço. Minha visão tal como é ampliada enxerga como tal. E quando uma nova prescrição é dada, a pessoa precisa reaprender a usar sua visão através da lente a partir dos pequenos ajustes que foram feitos, e isto pode ser vivenciado mais dramaticamente quando alguém usa lentes muito mais fortes do que as necessárias. Aqui a variação de uma atividade motora normal é bem mais marcada.

Isso ocorre porque toda a nossa visão tal como é também é uma visão a partir de; e a transformação da visão através das lentes muda, mesmo que sutilmente, nosso senso de espacialidade corpórea. O que antes era longe, agora é próximo; e quando a mobilidade é envolvida, isto requer um novo ajuste. A mais radical dessas variações é o bem conhecido experimento de inversão das lentes no qual aquele que vê enxerga o “mundo” de ponta cabeça. São necessários vários dias para que o agente da visão reaprenda sua forma de interagir tal como o mundo pareça estar “certo” novamente, mas ele parecerá.

A fisiologia tem uma dificuldade responsável por este fenômeno. Uma fenomenologia mais orientada pela forma reconhece que eu sou certa constelação de relações junto ao mundo e que esta constelação é aprendida e reaprendida dinamicamente. Estar em pé ou de ponta cabeça são relatividades junto ao contexto da mobilidade corpórea, tal como Merleau-Ponty já apontou.

O espaço corpóreo da visão se aplica até mesmo para situações menos motoras e pode ser notado em observações fixas. Existe até mesmo um sentido no qual nossa descrição usual sobre aquilo que a ampliação faz seja errado. Nós dizemos que o microscópio faz o microscópico “maior”, mas isto é apenas em uma relação comparativa entre o que nós vemos com o olho desarmado e o que é visto por meio do microscópio. Colocado de maneira mais fenomenológica, o que muda é o sentido de distância ou proximidade para com o objetivo da visão. O paramecium visto através das lentes não é maior ou menor em meu campo visual do que outras coisas que eu coloco perto do meu nariz; mas eu, em um sentido corpóreo parcialmente irreal, estou agora “mais perto” do paramecium. O que eu tomo como meu “real” ou espaço corporal desarmado é transformado através do microscópio. Esta transformação da corporeidade espacial é notável, mas menos dramática no caso dos óculos. Porque os óculos são mais usados para corrigir a visão, para retraduzir o mundo turvo em outro distante e claro, e nós alegremente o aceitamos. Mas a mudança não é sem custo para aquele que não prefere ver o mundo claramente sem eles? Simultaneamente com o novo mundo corrigido, existe sua redução. Existe, por exemplo, o preço muito pequeno de carregar o equipamento em si para nossa mediação: agora eu preciso ter cuidado com os meus óculos ou minhas lentes de contato e com toda a parafernália que os acompanha. Mais ainda, particularmente com os óculos, meu mundo agora me é dado enquadrado, invadido, talvez quase imperceptivelmente, com os reflexos que ocorrem, com a poeira ou com as manchas de água que se acumulam e com a remota consciência de que o mundo visto através das lentes é, mesmo que levemente, modificado. Com lentes de contato, que estão ainda mais próximas do meu corpo, a situação é aprimorada e tais efeitos colaterais como reflexos ou enquadramentos desaparecem, mas, novamente, ao custo de uma nova “invasão” tátil ou pelo contato do meu corpo que as lentes trazem (porções do anteriormente imperceptível pó agora são tacitamente ampliados como irradiações, etc.), ainda que poucas pessoas que necessitem óculos parem de pagar este preço. Mas para cada transformação reveladora existe simultaneamente uma ocultadora transformação do mundo, que é dada através da mediação tecnológica. Tecnologias transformam a experiência, ainda que sutilmente, e esta é uma raiz de sua não neutralidade.

Pode-se suspeitar que se a trajetória rumo a uma maior ampliação é seguida e é latente na própria descoberta da lente, pode-se também esperar encontrar uma maior e mais óbvia estrutura de ampliação/redução à visão incorporada. Pelos nossos padrões, estes instrumentos primitivos foram relativamente pobres; mas eles ilustram ainda melhor o fenômeno da ampliação/redução.

Olhar através de uma lente mais poderosa é obter uma ampliação maior. O objeto visto parece estar mais perto, mais detalhado; minha posição corporal em direção a ela é simultaneamente colocada junto a uma grande sensação de quase proximidade. O objeto também é trazido mais focado para o centro da minha visão, ainda que esta proximidade seja simultaneamente acompanhada por mudanças que reduzem outros aspectos do objeto que é visto. Por exemplo, quanto maior for a ampliação, quanto mais fino for o plano focal, então o senso de profundidade se perde ao passo que a ampliação aumenta. Assim é a extensão e localização do objeto em seu próprio ambiente. Ver a lua através de um telescópio é vê-la mais próxima, mas também é perdê-la em sua posição no céu. Tecnologias de lentes transformam o próprio senso de espaço que eu vivencio, numa modificação significativa igualmente do espaço corporal e do mundo. Ela transforma o “mundo” numa espécie de irreal, achatando-o e estreitando-o. Seu distanciamento é sempre uma forma peculiar de distância-proximidade. Mas nós “esquecemos” disso ao passo que aprendemos a incorporar a tecnologia no âmbito de nossas ações familiares.

A despeito dessa redução, a qual é perceptível, continuamos a seguir a fascinante trajetória da mais dominante dimensão da ampliação da visão incorporada. Virtualmente é possível contemplar a redução em si e aqui repousa outro segredo para a saída de Adão do Jardim: o que a ampliação mostra, ao passo que se torna mais forte, é genuinamente novo, não descoberto. Ser visualmente incorporado através das lentes é adentrar em macro e micromundos que eram anteriormente desconhecidos, e isto se dá tecnologicamente.

Eu estive descrevendo fenomenologicamente a visão tecnologicamente incorporada, a visão do mundo mediada através de variações sobre a ótica, uma ótica simples e até primitiva comparada à diversidade da ótica no final do século XX. Latente nos nossos primeiros movimentos a partir do Éden, já se encontravam diferentes formas de visões de mundo. No âmbito do contexto das simples tecnologias óticas, pode-se reposicionar a figura paradigmática de Husserl usada para a sedimentação da ciência moderna: Galileu.

Nos últimos anos, tem aparecido uma infinidade de livros sobre Galileu, muitos dos quais debatem os assuntos tradicionais sobre a teoria em relação à experimentação. Eu não devo entrar nestes debates, mas, ao invés disto, tomar dois outros temas interpretativos que correspondem ao mundo da vida e à ênfase perceptual desta investigação. Talvez Husserl demonstrou primeiro, antes de Kuhn, como Galileu tornou um novo paradigma da ciência possível.

O Galileu de Husserl descobriu a matematização indireta do universo, mas neste processo também originou o grande esquecimento do mundo da vida, o qual Husserl posiciona à porta do renascimento de Galileu de uma antiga depreciação dos sentidos. Galileu, antes de Descartes, distinguiu entre qualidades primárias, qualidades que estavam nos ou pertenciam aos objetos, e secundárias, que estavam localizadas no sujeito ou observador, fazendo assim certas qualidades “objetivas” e outras “subjetivas”. Essa doutrina, ainda não inteiramente apagada da ciência sedimentada, é pré-fenomenológica. Onde quer que estejam localizadas, extensão em forma e formas coloridas estão igualmente presentes para a experiência microperceptiva; a organização sistêmica da percepção, porém, tal como as histórias da percepção de Michel Foucault têm demonstrado, é altamente variável. O próprio Galileu fez esta organização epistêmica clara:

 

Tão logo eu formo uma concepção da substância material ou corpórea,

simultaneamente eu sinto a necessidade de conceber que tal concepção

possuir limites de alguma forma ou de outra; esta relatividade aos outros, se

é maior ou menor; se esta neste ou naquele lugar, neste ou naquele tempo;

se está em movimento ou repouso; se esta ou não em contato com outro corpo; se é única, rara ou comum; e nem por qualquer ato de imaginação eu posso dissociá-la de tais qualidades. Mas eu não me encontro completamente compelido a apreendê-la como sendo necessariamente acompanhada por tais condições tal como se deve ser branca ou vermelha, amarga ou doce, sonora ou silenciosa, com odor agradável ou desagradável; e se os sentidos não demonstrarem estas qualidades; linguagem e imaginação por si mesmas jamais chegariam até elas. Desta forma eu penso que estes gostos, cheiros, cores, etc., no que diz respeito ao objeto no qual eles aparentam residir, não são mais do que meros nomes. Eles existem apenas no corpo sensitivo…. Eu não acredito que exista nada fora dos corpos que excite gostos, cheiros e sons, etc. exceto tamanho, forma,

quantidade e movimento.2

 

Aqui nós temos a notória doutrina do sujeito/objeto e das qualidades primárias e secundárias. Hoje é fácil desconstruir esta episteme arcaica, ao ver através dela, como ela era.

Como Husserl viu, é do isolamento de um conjunto de possibilidades perceptivas, aquelas localizadas nas metafísicas geométricas, que se forma a episteme da ciência moderna inicial. Agora é fácil de ver que Galileu não foi muito cuidadoso com a interface entre imaginação e percepção. Ver é de fato ver junto a um campo de algum conjunto de formas correlatas, extensões e corpos, mas apenas quando se volta para as variações imaginativas é que tais formas podem ser modificadas. Na imaginação, o quadrado poderia muito bem ser um círculo ou um amontoado amórfico e caótico de bolhas. A percepção não pode eliminar a cor; mas, novamente, quando a imaginação entra em cena, pode-se sempre presenciar algo em cores diferentes das que estão ali. (Eu poderia argumentar, no entanto, que não existe tal coisa como uma imaginação visual incolor, embora o campo de fundo da imaginação visual possa ser colorido por alguma cor distinta). Se isto é assim, então, as variações imaginativas sobre forma de qualquer objeto particular podem ser indefinidamente reformuladas imaginativamente, ainda que qualquer que seja a forma, existe uma forma-presença junto à presentificação visual. E o mesmo se aplica às cores. E mesmo que a cor da coisa varie, ao extremo do aparentemente incolor ou transparente objeto, resta ainda a mesma constância da cor-presença. O fundo, entretanto indistintamente colorido (cinza, sombreado, etc.), permanece uma constante cor-presença. Microperceptivamente, ao menos, nenhuma das qualidades secundárias nunca está ausente como qualidades do pleno. Isola-se, então, extensão geométrica numa abstração especial ou ato redutivo ao qual é dado o status de “preferido”, tal como Husserl reconheceu. Assim, Galileu teve que tomar como sendo sua seleção, por um ato de abstração, um conjunto favorito de qualidades e deslocar as outras para, assim, obter o seu “mundo” geométrico.

Galileu substitui, para parte do pleno sensório do mundo da vida microperceptivo, sua seleção de uma abstração do “mundo” geométrico. Este movimento torna possível uma nova aquisição, mas, simultaneamente, encobre outra mais antiga. Se Husserl está certo, como se pode recuperar não o que Galileu diz sobre sua visão, mas sua relação secreta daquela visão que abre caminho para seu novo “mundo”? A resposta, eu asseguraria, repousa numa reinterpretação histórica sensitiva não do que Galileu diz sobre sua teoria, mas sobre o que deve ocorrer ao nível da práxis. Para isto eu troco Galileu de Husserl para Galileu de Derek Price; no Galileu de Price encontra-se a ciência em íntima proximidade ao continuum ótico e suas estruturas fenomenológicas.

Price reforça o papel do telescópio para a práxis de Galileu. Ele nota que, independentemente da ciência como tal, o emprego da lente tinha chegado ao ponto em que as lentes eram fortes o suficiente para que mesmo a diminuição fosse possível. Ele sustenta que existe uma ligação forte e espontânea entre filosofia da ciência e história da tecnologia. Tal ligação é o desenvolvimento atual da instrumentalização:

 

O arquétipo deste fenômeno é o mais antigo causador de uma ruptura,

nomeadamente, o uso do telescópio por Galileu. Sob o ponto de vista da

história da tecnologia nós podemos ver que o telescópio se tornou possível

quando o componente crucial das fortes lentes de diminuição se tornaram

comumente disponíveis durante o final do século XVI. A produção de lentes

tinha sido um ofício honrado e comum para a fabricação de óculos no final

da Idade Média; mas as lentes para pessoas míopes foram fruto de um

desenvolvimento tardio, e os óculos com uma capacidade muito forte de

diminuição tinham muito pouca utilidade comercial.3

O argumento de Price, uma versão sobre o lema histórico de que o motor a vapor tem mais a ver com o desenvolvimento da ciência do que com motor a vapor, demonstra o uso inicial de tais lentes fortes num domínio outro que não a ciência, tal como: “Na Renascença, com a preocupação sobre a perspectiva dos artistas e outras ilusões, sob tal perspectiva os óculos atraíram interesse, desde que eles mostravam o mundo em miniatura como um

microcosmo.”4

Isto ecoa a observação de Michel Foucault de que a Renascença estava mais preocupada com o espetáculo do que com a ciência em si. Mas a própria prática de criar perspectivas junto aos óculos primitivos teve que ter sido tomada junto à ciência. O que precisa ser levado em conta é que o modo de ver que era ver através destes óculos é parte de um paradigma familiar ao tempo de Galileu. E o mesmo se aplica à presença das lentes.

O uso de lentes era comum, um fenômeno tido como certo. Era parte do cotidiano do mundo de Galileu, o macroperceptivo mundo da época. Mais ainda, existe uma relação estrutural, epistêmica, entre a fascinação da Renascença com o microscópio e perspectivas e o mundo geométrico que Galileu ajudou a transformar em uma visão de mundo. A perspectiva renascentista, uma das várias formas para se representar a espacialidade, já era em si “geométrica”. Isto é dizer que tal modo de ver as coisas já era parte do mundo da vida no qual Galileu estava localizado. Não se trata apenas de uma forma de visão, mas uma práxis.

Price observa que o tipo de fascinação com lentes usadas para a produção de poderosas lentes de diminuição foi a base para o uso posterior que Galileu fez dos telescópios. De fato, o primeiro uso não foi totalmente desenvolvido para os propósitos de Galileu. Os primeiros telescópios foram desenvolvidos por fabricantes de lentes flamengos e havia igualmente microscópios e telescópios compostos no tempo de Galileu. Não diferentemente das tecnologias nos nossos dias, no entanto, as esperanças comerciais dos desenvolvedores eram primeiramente direcionadas para o melhor uso comercial de seu produto: o militar. Price observa que, “como tecnologistas, os fabricantes de lentes tentaram vender sua invenção como um dispositivo militar ao Pentágono mais rico do seu tempo. Eles estavam equivocados, tal como inventores usualmente estão, sobre a utilidade de seu invento. Isto se deu anos antes do telescópio ser usado para a guerra, mas apenas para a sinalização

em vez de servir para a espionagem”.5

De acordo com Price, nem mesmo Galileu inicialmente fez uso deliberado de seu telescópio para seu propósito eventual. Novamente num vislumbre marcante da versão neomoderna da combinação ciência-indústria-governo:

 

Quando Galileu duplicou o dispositivo, ele não tinha ideia de que o mesmo

seria de muito mais valia para ele próprio do que uma simples forma de

ganhar alguma comissão dos patrões Médici. O telescópio de Galileu tinha

um campo de visão tão refinado que ver através dele por dois buracos de

fechadura em conjunto jardas de distância não seria difícil. 6

 

Ainda que ele tenha olhado através dele, mesmo com sua já seletiva visão, a macrovisão da seletividade geométrica e perspectiva, Price argumenta:

 

Mesmo que provavelmente Galileu tenha visto apenas a Lua em sua primeira

noite e que talvez não tenha muito mais do que se divertido ao ver a ilusão

de que a Lua parecia como se tivesse montanhas nela ao invés da face de

uma na Lua A ideia brilhante o atingiu apenas quando ele olhou novamente

alguns dias depois e viu que as sombras das montanhas ilusórias agora

pareciam completamente diferentes do modo como pareciam antes. Galileu

sabia o suficiente de astronomia para se dar conta que uma conta rápida

seria o suficiente para ele calcular o peso daquelas montanhas. Ele levou

adiante os cálculos e descobriu que elas eram do mesmo tamanho que as

montanhas da terra e isto deu a ele o que em alguns momentos é chamado

de “click”; tudo fez sentido. Ele sabia que as montanhas eram reais e não

ilusão. Ele sabia que pela primeira vez na história e havia visto algo que não

poderia ser atestado pelas experiências comuns dos sentidos. 7

 

Em suma, aqui nós descobrimos, por aproximação, a macrovisão seletiva de Galileu e sua nova micropercepção. O domínio das sombras, das medições e dos ângulos dera a Galileu os meios para ver as montanhas da lua em distância similar àquelas da terra. Mas, contrariamente à sua depreciação dos sentidos, foram também as sombras coloridas (que se todas fossem “qualidades secundárias” teriam sido invisíveis?) que tornaram as medições possíveis. A visão, embora já no secretamente favorito “preto e branco” no pensamento da geometria moderna inicial, enquadrava o pleno em uma nova maneira. Aqui se encontra uma mudança dramática de paradigma junto à visão, mas esta é uma mudança paradigmática igualmente perceptiva e que envolve tecnologia. A tecnologia do telescópio possibilitou a mudança da percepção em si.

Price argumenta que aqui repousa a pista para a junção entre filosofia da ciência e a história da tecnologia. Mudanças de paradigmas não são simplesmente apenas revoluções intelectuais. Na minha terminologia, elas são também novas formas nas quais a visão científica pode ser incorporada. Price estende sua argumentação:

 

A magnitude desta descoberta não pode ser subestimada. Que a Lua tinha montanhas foi uma descoberta importante, mas ofuscada a uma relativa trivialidade quando comparada com a natureza do experimento em si. Galileu concluiu que ele havia manufaturado para si mesmo um conhecimento revelador do universo que fez do seu pobre cérebro mais poderoso que o de Platão, Aristóteles e de todos os Padres da Igreja somados. O princípio da revelação artificial foi o que foi ao ponto de preocupar a Igreja sobre o comportamento para além dos limites da tolerância e do aceitável para um Católico devoto…. Seu pequeno tubo com lentes vestiram o olho nu,

permitindo-o exceder toda a experiência humana anterior.8

 

A saída de Galileu do Éden foi dramática. Ela tomou a forma de uma ciência incorporada tecnologicamente em contraste – e muito além – ao que foi alcançado pela ciência dos gregos antigos. Equipamentos para a medição, incidentais para a ciência grega, vieram a ser um dos fatores centrais num novo conjunto de relações perceptivas do que se tornaria um grande mundo em expansão.

O que Galileu viu ele não havia previsto e nem buscado. Ele viu um novo mundo astronômico que incluía não apenas as montanhas da lua, mas as fases de Vênus, os satélites de Júpiter e as estrelas mais distantes e mais numerosas do que as disponíveis para o olho nu. Price observa, novamente em um ato de antecipação do status moderno do aspecto da propensão da ciência à publicidade, que Galileu imediatamente começou uma campanha para fazer conhecidas as suas novas descobertas. Mas mais importante: o que a revelação artificial de Galileu através da ótica alcançou foi uma forma de fazer da nova ciência mais simples e mais imediata pela via perceptiva do que por meio de cálculos.

 

Saindo da mudança tecnológica para a científica, vamos considerar a

natureza das observações atuais de Galileu e seus efeitos sobre a teoria.

Claramente, desde que ele não sabia o que esperar, ele não pode iniciar as

suas observações com o propósito de testar a teoria de Copérnico…. [Mas,

uma vez vistas,] estas imagens inesperados, de uma inquestionável

realidade [percebida], fez-se óbvio quase sem argumentação e certamente

sem matemática que o universo era copernicano.9

 

Price salienta o bem-conhecido fato de que, com base na teoria e simplicidade eficiente, Copérnico foi, efetivamente, não mais capaz de dar conta matematicamente do movimento estelar do que Ptolomeu, mas com as novas observações tecnologicamente incorporadas ajudar a resolver este caso. Assim, para além de qualquer coisa que Husserl possa reivindicar, Galileu também alcançou um novo e tecnologicamente mediado paradigma para a visão científica:

 

Voltando a Galileu, há pouca dúvida de que o retumbante sucesso do

telescópio … compartilha da nova forma de fazer filosofia que se dá pelas

revelações artificiais ao invés do poder do cérebro…. Ele “observou a

Natureza nua” e aprendeu a partir da experiência que isto poderia ser feito

de novo e de novo. Seu insight foi que o novo auxílio aos seus sentidos

poderia ser generalizado para outras experiências; isto mudou o pensamento

para a Nova Filosofia da ciência experimental. Isto não foi o teste de teorias,

mas a tentativa de novas técnicas para ver o que elas poderiam fornecer,

esperando pelo inesperado. 10

 

O que Galileu diz sobre seu método de observação é obtido por aquilo que ele faz na situação observacional. Pelo menos, a descoberta da revelação artificial tão significante quanto a indireta matematização da natureza.

Embora não seja tão radical quanto a afirmação de Heidegger, Price enxerga a tendência em enfatizar o teórico sobre as condições materiais como sendo a origem de certas concepções equivocadas acerca da ciência em si. Ele argumenta que o que temos denominado de o modelo nomológico de interpretação assume a função de experimento a ser confirmado pela teoria. Aqui está um exemplo concreto de como a instrumentação ocupa um papel secundário e aplicado junto ao velho paradigma. Price localiza esta tendência a minimizar o papel dos instrumentos como uma característica do tipo específico de episteme associada com a velha filosofia da ciência.

 

Eu sugiro que esta infeliz posição… evoluiu a partir do que agora me parece uma linha principal equivocada dentro da filosofia da ciência na qual se supõe que a função da experiência científica consiste em testes de hipóteses e teorias. Esta suposição originada num período atípico no início do século XIX quando experimentos com eletricidade e magnetismo eram comuns, e ele continuou a florescer porque aqueles que tiveram sua experiência de ciência obtida em livros ao invés do banco de laboratórios naturalmente consideram a história da ciência como se fosse um empreendimento

intelectual, puro e simples. 11

 

Price argumenta que é muito mais o processo de revelação artificial que se encontra na articulação entre ciência moderna e tecnologia que cria as condições para subsequentes mudanças de paradigmas.

 

Cada inovação radical nesta tradição artesanal dá origem não para o teste de novas hipóteses e teorias, mas sim para a prestação de nova informação que afeta o que as teorias científicas devem explicar. Este processo, que eu descrevo como “revelação artificial”, está na origem de muitas mudanças de

paradigmas, talvez não de todos, mas da maioria. 12

 

Em suma, nova instrumentalização proporciona novas percepções, as quais, num contexto kuhniano, vai ser minimamente a fonte de novas possíveis anomalias. Mas mais fortemente, esta nova e agora necessária ligação da instrumentalização entre ciência e tecnologia é em si a extensão da visão científica que vem a ser a forma de todo um novo contexto.

Este foco sobre o desenvolvimento da instrumentalização, que Price toma como sendo o conector entre a filosofia da ciência e a história da tecnologia, sugere outra nova interpretação do papel da tecnologia na ciência. Se Price está certo, pode-se facilmente ver que não só são alegações epistêmicas negativas de Galileu sobre os sentidos na melhor heurística, mas que sua própria experiência tem uma nova forma em um novo arranjo das próprias qualidades primárias e secundárias como mediadas por tecnologias de observação. Isto leva Price a dizer:

 

Eu alego uma considerável vantagem sobre a descrição de Kuhn das

revoluções paradigmáticas e da interpretação do filósofo da ciência sobre o

experimento como sendo um servo para testar teorias. Eu acredito que a

história da produção da ciência experimental é o elo perdido entre a história

da tecnologia e a da ciência. 13

 

O mesmo insight vem de uma fenomenologia da visão incorporada.

O que as instrumentações perceptivas fazem é colocar o observador em todas as novas posições no que diz respeito ao universo, seja aos níveis macro ou micro. O espanto ocasionado pelas descobertas iniciais de Galileu é recorrente na astronomia. Apenas neste século muitas novas anomalias e variados novos fenômenos têm sido “vistos”. Mais ainda, muito da astronomia moderna deve sua profunda penetração a um conjunto de dimensões múltipla-sensitiva adicionado. Radiotelescopia, um ouvido “artificial” instrumental, começou a “ouvir” há algumas décadas algum tipo de atividade estelar nas áreas até então “escuras” ou “vazias” dos céus. Esta revelação artificial é a versão high-tech de uma experiência muito mais ordinária de ouvir algum ruído no escuro, que apenas depois é então visualmente identificado (talvez com a ajuda de uma lanterna). Não é apenas nova teoria que nos separa de nossos antepassados, mas também a nova percepção ampliada que acontece através da incorporação instrumental. Para ancorar o fato inversamente, tire fora toda a instrumentalização da comunidade científica e pergunte se seria possível saber. Seus limites seriam rapidamente reduzidos justamente àquelas admiráveis, mas na melhor das hipóteses, noções especulativas, de nossos antepassados gregos.

A descoberta de Galileu, então, não foi apenas a indireta matematização da natureza, mas também, seguindo a noção de Price, a artificialmente adicionada percepção da natureza. Sua percepção, incomensurável em relação a qualquer dos antigos padres da Igreja, estava na vanguarda da nossa tradição da ciência moderna tecnologicamente incorporada que caracteriza o nosso tempo.

Se o foco que está no centro da nova ciência de Galileu é a percepção incorporada por revelação artificial, o campo no qual ela ocorre é no âmbito de um mundo da vida (lifeworld).

Os historiadores Price, Lynn White Jr. e, anteriormente, Lewis Mumford nos deixaram sutilmente muito mais cientes da rápida acumulação das tecnologias “modernas” que, primeiro a Renascença, e depois os primeiros cientistas modernos tomariam como certos. Mas esta consciência também pode ser prenunciada por um atento olhar fenomenológico sobre aquilo que repousa latente na práxis, em macropercepção cultural.

Observe, inicialmente, algo sobre a textura da vida tecnológica do século XVII. A enorme extensão de invenções é impressionante.

Ótica, que levou à percepção astronômica e depois microcósmica dos anteriormente insuspeitados aspectos do universo, começou já no século XI. Tecnologia relativa à ótica era comum em óculos nos idos do século XII, e lentes foram compostas para telescópios e microscópios por volta do século XVII.

Havia maquinaria, mais frequentemente para a madeira do que para o ferro para grandes obras, menores no caso do ferro, que bem antecipa o advento da ciência moderna. As terras baixas foram drenadas; as catedrais foram construídas; havia enormes guindastes, elevadores, moinhos de vento e de água, todos comuns a partir do século XIII em diante. Nem devemos esquecer-nos do frequentemente primário emprego das tecnologias, o militar. Canhões apareceram no século XII e eram sofisticados no tempo de Galileu; e rifles enquanto armas de fogo já estavam em uso. Existia até mesmo o taxímetro. Em suma, a textura tecnológica da Europa pós-medieval era impressionante. Era parte da vida cotidiana de, ao menos, todo cidadão urbano.

Ademais, tal textura foi enriquecida pela exploração e pelo comércio, que iniciou antes da descoberta do Novo Mundo por Colombo. Ouro e especiarias afluíam para a Europa durante muitos séculos antes de Galileu ter visto o lustre como um pêndulo. Tal era o relativamente sofisticado tecnológico mundo da vida da alta Renascença. Um olhar sensível para o tempo de Galileu apresenta a impressionante matriz das tecnologias já comuns, mas também sugere que esta infraestrutura disponível adquiriu a forma de vida comum.