Tecnologia e o mundo da vida: do jardim à terra

B. Desmitificando (e desmasculinizando) a Ciência Tecnológica

Ainda assim, não existe um modelo pós-moderno, esperançosamente mais rico, que possa competir por um reconhecimento mais amplo aqui sem recair em alguma associação nostálgica com visões religiosas ou pré-científicas mais antigas sobre a natureza. Novamente não estou discutindo contra aqueles que introduziriam elementos de fragmentos culturais passados, que é uma das próprias tendências do pós-modernismo sobre as quais eu argumentava e que caracterizavam a pluriculturalidade, mas a bricolagem permanece teoricamente insatisfatória.

Assim, tão urgente e tão claro como o estabelecimento de uma ética ambiental conservacionista promulgada em um acordo de leis internacionais ou multinacionais possa parecer, também parece improvável que um resultado tão esclarecido ocorra imediatamente. A estratégia, então, deve permanecer intersticial e fragmentada.

 

B. Desmitificando (e desmasculinizando) a

 

Ciência Tecnológica

 

Em seu sentido crítico, a hermenêutica tem uma função desmistificadora. No contexto dos programas de abstenção de nossa compreensão da tecnologia, tenho repetidamente tomado uma visão modificada da ciência como ferramenta conceitual da cultura tecnológica em seu sentido de alta tecnologia. E, se mudar ou remodelar uma ferramenta tem efeito, então se pode esperar que uma ação intersticial significativa possa vir a ser direcionada para esse fim. A história e a filosofia da ciência sofreram mudanças radicais nas últimas duas décadas e uma série de críticos começaram a chegar a um consenso sobre vários aspectos importantes da compreensão e interpretação da ciência contemporânea. Eu denominaria a dimensão crítica deste consenso algo que visa desmitificar mitos exagerados sobre a ciência.

O surgimento da educação científica tem sido visto como essencial para a manutenção da cultura tecnológica; a ciência é o conjunto factualmente mais dominante de disciplinas dentro da academia; e há uma crença quase religiosa que adere à ciência como socialmente salvacionista; estas funções estão todas profundamente enraizadas na cultura de alta tecnologia. A desmitificação tem como parte de sua tarefa equilibrar e, em alguns casos, reduzir as distorções que podem ocorrer através dos mitos atuais sobre ciência.

Em seu esboço mais amplo, o consenso emergente concorda que a ciência deve ser vista como uma das muitas atividades intelectuais e culturais humanas; e como algo que deve tomar seu lugar (mais democraticamente) entre seus pares. Esse não é o papel que ela desempenha atualmente em qualquer um dos países tecnológicos avançados, particularmente o nosso. Especialmente dentro da educação e, mais especificamente, dentro das grandes universidades de pesquisa, a ciência e seus parentes “aplicados” associados exibem o papel predominantemente dominante. Isso é evidenciado econômica e politicamente. Em nível nacional, um pequeno indicador é o tamanho relativo e a estrutura de apoio entre a ciência, as artes e as humanidades, como se vê no National

Endowments 8 . O orçamento de quase US$ 2 bilhões da NSF, programado para ser duplicado pelo presente regime, avilta os

aproximadamente US$ 135milhões do NEH 9 10 e NEA, respectivamente. Acrescente-se o apoio da indústria e o apoio das forças armadas, às vezes oculto, mas cada vez mais explícito, apoiando grande parte de muitos orçamentos de pesquisa

acadêmica (ver o gráfico a seguir), e note-se que não há de forma alguma nenhuma aristocracia ou nobreza aqui.

Parcela proveniente do Departamento de Defesa no total do

Financiamento Federal (Ano Fiscal de 1985)11

Então, quando se adicionam os aproximadamente US$ 8 bilhões do orçamento destinado ao National Institutes of Health, que apoia amplamente o establishment da Biologia, nota-se que entre as disciplinas existe uma disparidade muito contundente de suporte maior do que a existente entre os tamanhos relativos de Davi e Golias. Nunca nem se ouviu falar de Golias simplesmente abandonando voluntariamente sua posição superior.

A maioria dos Davis que desafiam os Golias tem um final triste, mas nas estórias algumas vezes eles ganham um ou dois pontos; e contar estórias é o que os historiadores, filósofos e críticos literários sabem fazer de melhor. É neste campo da interpretação e crítica que a reformulação pode ocorrer. Essas críticas assumem várias formas. Eu não ensaiarei aqui todas elas, mas vou me concentrar somente em algumas das mais pertinentes e novas formas de críticas que a ciência enquanto instituição vem sofrendo.

Meu primeiro exemplo do consenso desmistificador emergente vem de uma nova virada em uma controvérsia focada entre ciência e filosofia da ciência, que apareceu a partir de uma batalha sobre um comentário possivelmente comissionado, “Onde a Ciência falhou”, na revista Nature, uma das mais prestigiadas das revistas científicas britânicas. É uma forte evidência de que a narrativa davidiana se faz sentir.

Já agora nos anos 1990, é evidente que uma revolução intelectual de grande porte abrangendo muitas disciplinas começou a tomar forma no início dos anos 1960. Nas humanidades, este foi o período do surgimento de todo um espectro da “teoria”, o nascimento de muitos métodos agora chamados de “Nova Escola”. Incluía o impacto da fenomenologia e hermenêutica do pós-guerra, o estruturalismo, o avivamento dos métodos neomarxistas e neofreudianos e, posteriormente, as técnicas feministas e desconstrutivas. Mas ao mesmo tempo, embora quase que de forma isolada das grandes tendências continentais acima citadas, surgiu o que eu chamarei de Nova Filosofia da Ciência. Na América do Norte, esta nova interpretação da ciência centrou-se em A Estrutura das Revoluções Científicas (1962), de Thomas Kuhn. Na Grã-Bretanha, uma reformulação menos radical da interpretação científica foi desenvolvida por Karl Popper.

O que pode ser chamado de Velha Filosofia da Ciência tendia a interpretar a ciência de uma forma descontextualizada, focando quase unicamente sobre sua lógica, proposições e procedimentos racionais. Como resultado, a ciência enquanto instituição pareceu ser a-histórica e a-cultural, e o mais relevante para uma investigação da tecnologia, claramente distinta e frequentemente separada de suas tecnologias.

Cada uma dessas características era desafiada por variáveis sobre a Nova (história e) filosofia da ciência. Esses novos movimentos exigiam uma interpretação da ciência que a tornasse um fenômeno situado, um fenômeno com-textualizado. Sem entrar aqui nas particularidades desta “mudança de paradigma” no que diz respeito à interpretação da ciência, apenas observo que temos duas décadas e meia de contestação dentro da história e da filosofia da ciência junto aos círculos científicos em que os defensores da Velha filosofia da ciência rotulam epítetos de “relativismo” e “ideologia” aos proponentes da Nova. Mas, apesar disso, é justo concluir que a Nova filosofia da ciência tem garantido seu lugar com muita propriedade em uma ampla linha de frente. Muitas das ciências agora interpretam seu próprio trabalho de forma kuhniana e pós-kuhniana. A Nova filosofia da ciência, davidiana em sua hermenêutica inicial, não havia matado, mas ao menos ferido o velho gigante.

O que eu estou chamando aqui a “controvérsia da Natureza” é parte de uma reação a esta batalha, mas em uma nova roupagem. Os autores não ressuscitam os antigos filósofos da ciência como seus defensores, embora eles assumam algo próximo a uma postura positivista precoce. Em vez disso, entretanto, atacam os resultados presumidos da batalha com respeito ao que eles percebem como um apoio público erodido para os esforços científicos. Essa questão motivadora foi o declínio dos gastos públicos com a ciência na Grã-Bretanha, particularmente nas universidades, ao longo da era Thatcher. Os autores observaram que o clima público para gastar com ciência começou a esfriar nos anos 1970. Eles têm colocado parte da culpa, até mesmo a parte mais profunda da culpa por este declínio de apoio, na conta da Nova filosofia da ciência: “nosso objetivo é identificar e esforçar-se para combater o que consideramos o mais fundamental, e, no entanto, a causa menos reconhecida da situação atual da ciência, não só na

Grã-Bretanha, mas em todo o mundo.” 12 Invejando a transmissão pública de programas que discutem questões de objetividade na ciência e que implicam críticas por posições da Nova filosofia da ciência, os gêmeos Bennett-Bloom observaram:

 

Estes eram ataques contra a objetividade, a verdade e a ciência […] Pelo

menos na Grã-Bretanha, as repercussões desses argumentos equivocados

já estão acontecendo. Cientistas em outros países estão devidamente

avisados.

Referir-nos-emos a essas ideias errôneas e nocivas como as posições

antíteses epistemológicas, posições (não) filosóficas que são contrárias às

teses 13 tradicionais e bem-sucedidas da filosofia natural. (grifo nosso).

 

O tom é bastante óbvio, e a polêmica do artigo corresponde à preocupação. Observe, é claro, que a preocupação é direcionada à diminuição do que poderia ser chamado de dano à aura mitológica da ciência no reino da crença pública. Igualmente, contudo, um tom fortemente sacerdotal também vem à tona:

É um objetivo deste artigo refutar essas ideias e argumentar que a epistemologia correta é indispensável em qualquer trabalho científico sério e responsável. Pois o que realmente está em jogo não é nada menos que o

futuro progresso de nossa civilização 14 . (grifo nosso).

 

O fervor desses defensores da ‘epistemologia correta’ foi naturalmente fortemente desafiado, não só pelos filósofos, mas pelos cientistas que viram os méritos da lógica rigorosa praticada por muitos filósofos e as percepções fornecidas pela situação da ciência em contextos históricos, sociais, teóricos contextuais e paradigmáticos. A controvérsia durou mais de um ano e, ao final, os autores finalmente responderam aos seus críticos assim:

 

Uma objeção frequente e apaixonada foi a forma dogmática em que expressamos algumas opiniões. Nós nunca deixamos de ser surpreendidos pela frequência e veemência desta objeção, como alguém pode seriamente dizer com tal paixão qualquer coisa se não tiver total confiança no que diz? A razão pela qual tantas pessoas ficam horrorizadas com o dogmatismo é, obviamente, porque muitos casos no passado causaram muito mal. Mas em todos esses casos o mal foi feito porque aquilo sobre o que as pessoas eram dogmáticas não era verdadeiro. Se o que é dogmático é verdadeiro, este

dogmatismo não pode ser prejudicial. 15

 

Se tal resposta tivesse ocorrido dentro de círculos literários, poderia muito bem ter sido considerada uma sutil paródia satírica de uma antiga voz. Mas a minha razão para incluir este exemplo quase ridículo, não importa quão prestigiosa a revista em que apareceu, é que revela algo sobre um mythos que é muitas vezes utilizado para tomar o establishment da ciência-tecnologia. De uma consciência pós-moderna, tais convicções dogmáticas sobre uma presumida verdade universal e objetiva justificando uma guerra santa contra a opinião contrária, poderia dificilmente ser percebida como outra coisa que não uma posição arcaica. Ou então é o surgimento de outra forma de fundamentalismo do século XX.

Há também algo de uma ironia pós-moderna aqui visto que o artigo é direcionado para a questão da perda de apoio para a ciência no orçamento britânico, particularmente para a acadêmica britânica. No entanto, os EUA, liderados por um governo igualmente reacionário, não parece ser afetado pela dissolução “causada” pela Nova filosofia da ciência. Em vez disso, a acumulação de dólares em Pesquisa e Desenvolvimento (PD), especialmente ligado a contextos militares e industriais, aumentou drasticamente. Em uma avaliação do apoio da era Reagan à ciência e à tecnologia, a

AAAS 16 relata um nível de suporte quase duplicado (verifique a tabela na sequência).

Os anos Reagan: Pesquisa e Desenvolvimento (PD) Defesa vs. não Defesa (em bilhões de dólares)

 

Investimento em PD relacionados à Defesa (Segurança Nacional e Forças Armadas):

 

Ano Fiscal Ano Variação 1980 Fiscal Percentual

1988

Executado Estimado Atual Constante (US$) (US$) % %

PD Defesa 15.0 40.3 169 83

 

Pesquisa Básica 0.6 0.9 64 11

 

Pesquisa 1.9 2.6 38 -7 Aplicada

 

Desenvolvimento 12.5 36.7 194 99

 

Investimento em PD não relacionados à Defesa:

 

Ano Fiscal Ano Variação 1980 Fiscal Percentual

1988

Executado Estimado Atual Constante (US$) (US$) % %

 

PD Não-Defesa 16.7 18.8 13 -24

 

Pesquisa Básica 4.2 8.6 107 40

 

Pesquisa 5.0 6.5 29 -13 Aplicada

 

Desenvolvimento 7.5 3.7 50 -66

 

Os anos Reagan: Investimento em Pesquisa Básica pelas Agências Federais (em milhões de dólares)

 

Ano Fiscal Ano Fiscal Variação 1980 1988 Percentual

Executado Estimado Atual Constante

Agência1 (US$) (US$) % %

 

NIH 1.644 3.855 134 59

 

NSF 830 1.438 73 17

 

Defesa 552 901 63 11

Energia 523 1.172 124 52

 

NASA 559 1.074 92 30

 

Agricultura 280 471 68 14

 

Outros 328 613 87 26

Total 4.716 9.526 102 37

Fonte: AAAS e “OMB Data for Special Analysis J, FY 1989

Budget”.

1 NIH: National Institutes of Health (Instituto Nacional de Saúde);

NSF: National Science Foundation (Fundação Nacional de Ciência);

NASA: National Aeronautics and Space Administration

(Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço).

 

Deve-se concluir com isto que o aumento global de 85 por cento para a Pesquisa e Desenvolvimento da ciência nos EUA ocorreu porque nossos secretários departamentais e seus funcionários não conseguiram ler os novos filósofos da ciência, enquanto o gabinete britânico e seus funcionários o fizeram e então seguiram uma conclusão presumivelmente implícita na leitura de que o financiamento da ciência deveria ser cortado? Todo o escrito na Nature evitou o óbvio sobre a desilusão pública relacionada com os efeitos negativos de uma política de grande parte da ciência. A poluição radioativa do Mar da Irlanda, as chuvas ácidas, a poluição atmosférica, etc., são questões bastante públicas tanto na Grã-Bretanha quanto aqui. E enquanto os puristas podem argumentar que esta é meramente a política errada para a aplicação da ciência, o público vê frequentemente a ciência-tecnologia como uma única e

grande unidade.17

Embora eu suspeite que o declínio do apoio britânico à ciência acadêmica se relacione com a poda severa de todo o fenômeno de crescimento universitário pós-1960 e um retorno ao pré-1960 em que existia um quase monopólio Oxbridge (Oxford e Cambridge) do ensino superior de elite do que a diminuição da fé na ciência, o que estou usando deste incidente é o seu índice sobre certa falta de maturidade dentro de grandes segmentos da comunidade científica em relação à crítica. Embora a ciência institucional possa legitimamente se orgulhar de seus padrões internos de crítica (dirigida à crítica da experiência, da coleta de dados, do design da pesquisa, do raciocínio matemático e dedutivo, etc.), nem sempre é tão madura em relação à crítica autorreflexiva.

Em 1977, Langdon Winner publicou seu livro Autonomous Technology: Technics-out-of-Control as a Theme in Political Thought. Embora o título por si só indica que ele está se dirigindo a um modo de interpretação da tecnologia, leitores acríticos e revisores frequentemente consideravam o resultado como sendo antitecnológico. No tempo em que escreveu The Whale and the Reactor, que apareceu em 1986, ele aprendeu a seguinte lição:

 

Se fosse uma crítica literária, todos entenderiam imediatamente que o propósito subjacente é positivo. Um crítico da literatura examina um trabalho, analisando suas características, avaliando suas qualidades, buscando uma apreciação mais profunda que possa ser útil para outros leitores do mesmo texto. Da mesma forma, os críticos da música, do teatro e das artes têm um papel valioso e bem estabelecido, servindo como uma ponte útil entre artistas e audiências. A crítica da tecnologia, no entanto, ainda não tem a mesma satisfação. Os escritores que se aventuram além das concepções mais pedestres e aborrecidas sobre as ferramentas e usos para investigar formas pelas quais as formas técnicas estão implicadas nos padrões e problemas básicos de nossa cultura são frequentemente saudados com a acusação de serem meramente “antitecnologia” ou por “culpar a tecnologia”. Todos os que passaram recentemente à frente como críticos neste reino foram tomados pelo mesmo pincel idiota, uma expressão do desejo de parar

um diálogo muito necessário em vez de ampliá-lo. 18

 

Na “controvérsia da Natureza”, pode-se ver que as mesmas tendências não autorreflexivas ocorrem dentro de alguns círculos científicos. Deve-se ter cuidado aqui para qualificar qualquer reivindicação muito ampla, uma vez que, mesmo nessa controvérsia, cientistas e filósofos reagiram criticamente ao artigo de Theocharis-Psimopoulos.

Contudo, ao contrário das artes e das letras, o papel da crítica, particularmente para além dos limites mais estreitos e internos da autorregulação, ainda não está totalmente assimilado à ciência e à tecnologia como instituição. A história e a filosofia da ciência devem ser consideradas análogas à crítica artística e literária e ao historiador e ao filósofo como profissionais que proporcionam uma visão e, muitas vezes, uma apreciação mais profunda, bem como mais corretivas e criticamente negativas. Esse foi claramente o objetivo dos quatro novos filósofos da ciência retratados na Nature em uma exposição fotográfica intitulada “Betrayers of truth? Left to right: Karl Popper, Imre Lakatos, Thomas Kuhn and Paul

Feyerabend”.19

Antes de deixar esta controvérsia tomada, um ponto mais sugestivo é revelado no incidente. O próprio apelo à defesa (indefinida) da “verdade” e da “objetividade”, no contexto da preservação de um mito que efetivamente apoiaria de forma acrítica a pesquisa científica, passou a ser examinado pela sociologia da ciência. O pedido de isenção da crítica pode ser ele próprio ideológico:

 

Talvez não ficássemos muito surpresos se os membros da sociedade que

mais desejassem subscrever a noção de neutralidade científica fossem os

próprios cientistas. Muitos cientistas praticantes, inconscientes ou

desconhecedores como são da filosofia da ciência, se apegam a uma

concepção idealizada de sua profissão e propagam uma visão da “verdade

científica” que implica numa completa certeza, objetividade e desapego. Tal

visão pode ser mantida com o pleno conhecimento de que muitos tipos de

ciência só podem ser praticados em virtude do apoio financeiro fornecido por

governos ou empresas industriais com objetivos que são frequentemente

obscuros e quase sempre dirigidos por interesses políticos ou econômicos.

Incompatíveis como parecem essas duas posições, ainda é verdade que o

prestígio e a autoridade da ciência são tais que são amplamente aceitos,

mais ou menos sem pensar, pelo público em geral. Até certo ponto pelo

menos, a ciência usurpou o território anteriormente mantido pela religião.20

 

Se a relação ciência/filosofia-da-ciência e as tradições de debate sobre a interpretação da ciência e da tecnologia são bastante recentes, um debate muito mais antigo que remonta aos primórdios da ciência moderna, a relação e debate religião/ciência deve pelo menos ser mencionado. E apesar de não abordar extensivamente esta questão, pode-se notar que muitas vezes mythos contrários estão também aqui em disputa. Expressões em livros escolares de, pelo menos, uma variante dominante do mito científico relaciona-se com sua própria versão de desmitificação. De fato, a já examinada teoria das revoluções progressistas (copernicana, darwiniana, etc.) é em si mesma um exemplo desse mito. O mito da ciência procura afastar-se do mito religioso que a ciência chama de superstição, que deve ser substituída pelas metáforas racionais e geralmente redutoras de um tipo mecânico ou eletrônico. Mas ao fazê-lo, a ciência também desvia a possibilidade de certo tipo de avaliação preservada no mito religioso. Assim, continua uma contestação entre esses dois tipos de mitos.

Muito do interesse e da importância tem surgido a partir deste debate, particularmente no que diz respeito às metáforas-míticas chaves sobre o universo, a ideia do ser humano, etc. Embora o resultado varie dos extremos atuais de uma reação fundamentalista à própria ciência em si sintomatizada nos atuais debates “criacionistas” sobre possíveis acomodações entre a ciência e a religião em contextos mais liberais, o impulso geral tem sido claramente para uma crescente secularização nos países onde a ciência-tecnologia enquanto instituição aprofunda as suas raízes. Isso faz parte da não neutralidade institucional da cultura tecnológica.

Uma terceira, e para mim, a crítica contemporânea mais interessante surge a partir de um revisionismo filosófico e histórico acerca de como a ciência opera e deve ser entendida. Um efeito colateral interessante deste debate contrasta o entendimento do processo histórico de alguns filósofos e historiadores com o de alguns cientistas que às vezes desejam igualmente controlar tal história e mantê-la dentro da matriz das narrativas sobre “grandes homens, grandes eventos”.

Embora nem todos os cientistas interessados na história da ciência possam ser acusados de ingenuidade histórica, a forma dominante de histórias originadas na ciência (como evidenciado pelas resenhas de livros na Science) é a de narrativas biográficas ou autobiográficas. Em si, tal abordagem pode não parecer prejudicial. Mas, na medida em que serve para perpetuar um dos mitos-padrão sobre a ciência, tais narrativas precisam, pelo menos, de um suplemento mais crítico; no máximo, uma séria desmitificação.

Esse mito é o do herói-cientista, trabalhando sozinho ou, pelo menos, individualisticamente fazendo alguma grande descoberta, imerso em algum cenário dramático e romântico. A Grande Ciência Contemporânea não funciona dessa maneira, agora ou no passado, exceto em alguns casos, de acordo com a maioria dos historiadores sociais. Mas a perpetuação dessa estrutura mística desempenha um papel:

 

Thomas S. Kuhn, por exemplo, destacou que os jovens devem ser

recrutados para a ciência através de promessas implícitas de aventuras

heroicas nas fronteiras do conhecimento; eles não seriam atraídos ao saber

que 99% deles passariam suas vidas apenas resolvendo os enigmas da

“ciência normal” que constituem a vasta maioria das pesquisas hoje. Nem

podemos acrescentar que eles seriam atraídos pela perspectiva de um “bom

trabalho na linha de montagem” na produção do conhecimento científico que

é a forma social dentro da qual a ciência normal é praticada.21

 

No entanto, mesmo essa “visão padrão mitológica” pode permitir que as pessoas cheguem a algo bem distante do que previa a intencionalidade dessa visão. Ainda usando esta forma narrativa, A Dupla Hélice de James Watson revelou mais do que a maioria das pessoas nas ciências desejavam, tal como as resenhas indicavam. Em sua abordagem de “grandes homens, grandes eventos”, o relato de sobre a corrida por um prêmio Nobel de Watson, Crick e Wilkins por meio da quebra de um código de DNA, revelou uma faceta humana embaraçosa e avessa para o processo. Não só os diretores eram frequentemente competitivos, invejosos, muitas vezes chegando às fronteiras da fraude e relutantes em dar crédito, mas A Dupla Hélice mostrou a forma aberta e direta do chauvinismo masculino que se tornou o alvo mais apontado pelos críticos da ciência contemporânea, as críticas feministas.

A atitude condescendente de Watson em relação a “Rosie” se mostra. Foi a partir das imagens cristalográficas de Rosalind Franklin (novamente imagem-tecnologia) que Watson obteve a sua visão, mas ele também revela repetidamente seu chauvinismo e condescendência com nossas mulheres em ação. Ruth Bleier apontou severamente esta característica:

 

Não poderia haver uma demonstração mais fina da centralidade das metáforas de gênero na ciência [que continuam como] […] a arrogância misógina [que] continuou a prosperar entre os prêmios Nobel da ciência. James Watson foi o menino de ouro de Harvard quando […] ele ganhou o Prêmio Nobel em 1962 por descrever a estrutura helicoidal dupla do DNA […] depois de ilícita e secretamente ver as imagens cristalográficas inéditas

do DNA de Rosalind Franklin. 22

 

O mesmo “menino de ouro”, já em 1985, queixando-se do movimento para regular a engenharia genética, foi citando como tendo dito:

 

Poder-se-ia esperar que os republicanos fossem mais sensatos quanto aos regulamentos, mas eram tão tolos quanto os outros […] A razão é que a Casa Branca recebe seus conselhos de pessoas que sabem alguma coisa sobre física ou química. A pessoa responsável pela biologia ou é uma mulher ou alguém sem importância. Eles tiveram que colocar uma mulher em algum

lugar […].23

 

Se houvesse uma mudança para os historiadores sociais, um quadro inicial diferente emergiria. Derek de Solla Price, nosso anterior intérprete de Galileu, também fazia parte da revolução revisionista do início dos anos 60 com sua agora bem conhecida Little Science, Big Science (1963). Lá ele começou a mostrar algumas das características sociais e históricas do que é agora comumente conhecido como Grande Ciência. Ele mostrou que, a partir do século XIX, a instituição da ciência começou a crescer exponencialmente e, com ela, a literatura científica. Mas também começou a ser verdadeiramente uma ciência corporativa, ilustrada de acordo com a forma indiciada pela forma como as autorias das publicações o fizessem. Hoje é raro que qualquer artigo científico tenha um único autor (além da opinião ou sumários do estado da arte escritos pelas lideranças no campo, mesmo nosso comentário na Nature citado anteriormente foi em coautoria!). E, apesar do esboço igualmente importante do que Price chamou de Colégios Invisíveis do pequeno grupo dos líderes da elite e editores em qualquer campo, as publicações em coautorias foram muitas vezes o resultado de um exército de trabalhadores de laboratório com controle apenas escasso e distante do “P.I.” (investigador principal). Esta estrutura corporativa de publicação e pesquisa está muito longe das histórias sobre o Grande Homem ainda favorecidas por muitos escritores individuais. Evidência da distância demasiado frequente da elite P.I. do trabalho de laboratório e de coleta de dados da “fábrica” é o fenômeno crescente de manipulação de dados e outras formas de fraude corporativa, que agora desempenham um papel constante na discussão de muitas das principais revistas científicas.

A Dupla Hélice de Watson, no entanto, permanece na tradição do Grande Homem, embora fosse autobiográfica o suficiente para revelar as próprias verrugas, bem como o presumido heroísmo intelectual.

A reação da comunidade científica a essa abordagem roupa-suja era muitas vezes fortemente negativa. Ela demonstra muitos pontos fracos humanos e fraquezas sobre o processo que, miticamente, muitos sentem ser necessário para que possa ser retratado mais romanticamente. Essa perspectiva histórica ingênua fez mais para humanizar a operação da ciência do que muitas outras obras que ainda estão sendo publicadas. Mas também telegrafou um senso de contingência elevado e apropriado para perceber a ciência como apenas mais um empreendimento humano dentro do qual os humanos falíveis trabalham.

Nem se deve negligenciar o mais revolucionário dos revisionistas, o próprio Thomas S. Kuhn. Embora Kuhn provavelmente tenha feito mais para desmitificar a interpretação dos filósofos da ciência do que ele fez para a história da ciência em si, ele claramente reformulou a forma como as descobertas frequentemente ocorreram. Mesmo que sua própria versão dessa história permaneça parcialmente imersa em uma versão um tanto idealizada da primazia da teoria, ele foi capaz de transferir a atenção para elementos importantes da práxis perceptiva dentro da ciência. Esta mudança na história da ciência é agora bem conhecida, e eu não vou levá-la ainda mais adiante aqui. Mas ele desempenhou parte do papel da desmitificação, que eu estou apoiando como sendo necessário.

Eu também segui duas outras vertentes desta história revisionista neste livro. Uma delas refere-se ao revisionismo da visão-padrão de que a tecnologia moderna é “aplicada” à ciência ou derivada da ciência. O revisionismo mais radical dessa visão era heideggeriano; ele inverte a visão usual e vê a ciência como o resultado necessário de um braço tecnológico da ciência. De uma forma mais moderada, uma visão similar aparece na versão de White da revolução tecnológica medieval, revolução que prepara o cenário que inclui a poderosa metáfora para a ciência moderna. Ainda num nível mais moderado, porém acumulativo, Rachel Lauden aponta de modo similar:

 

Recentes ataques ao conceito de tecnologia como ciência aplicada se utilizam de duas estratégias, uma empírica e outra analítica. Na frente empírica, historiador após historiador tem narrado episódios sobre o desenvolvimento da tecnologia em que os avanços principais devem pouco ou nada à ciência. Quer se trate do vapor, energia hidráulica, máquinas-ferramentas, relojoaria ou metalurgia, a conclusão é a mesma. A tecnologia desenvolvida sem o auxílio da teoria científica, uma posição resumida pelo slogan, “a ciência deve mais à máquina a vapor do que a máquina a vapor

deve à ciência 24 ”.

 

Esse revisionismo era contextualmente apropriado para meu foco na tecnologia. Mas, indiretamente, faz parte da desmitificação da ciência como sendo a mais importante atividade de coleta de conhecimento cultural humano, e as afirmações aqui foram simplesmente muito fortes e precisam ser moderadas para trazer a ciência de volta à sua escala humana.

A segunda vertente revisionista, mais uma vez não exclusiva dessa perspectiva, mas que surge mais diretamente da visão da ciência, tanto corporificada na tecnologia (instrumentação) como contextualmente localizada, está e sempre esteve profundamente enraizada em suas conexões concretas com as tecnologias em seus papéis mais amplos. Estes incluem, minimamente, a fabricação de ferramentas e o desenvolvimento de instrumentos (de Solla Price) e, mais amplamente, as necessidades por engenharia das forças armadas e da indústria. Exceto pelos criadores de mitos do século XIX e os idealizadores teóricos positivistas do início do século XX, não vejo necessidade de conceber a ciência de outra maneira. No mínimo, esta visão não purista da ciência como uma instituição social ajuda a mantê-la no equilíbrio como uma – não como a – atividade humana de conhecimento privilegiada.

O revisionismo que veria a ciência desde o início mais ligada à tecnologia pode ser debatido em relação a momentos históricos; mas no século XX, há pouca dúvida de que alguma forma de instituição ciência-tecnologia é o modo dominante. Mesmo uma visão mais conservadora sustentaria que:

 

A convergência da ciência com a tecnologia em grande escala começou,

então, com o aparecimento do laboratório de pesquisa e desenvolvimento

industrial no final do século XIX, uma tendência que começou na Alemanha e

seguiu rapidamente nos Estados Unidos e depois na Grã-Bretanha […]

Simbiose industrial depois disso se tornou autoperpetuada porque era cada

vez mais perigoso para governos e corporações comerciais ser deixado para

trás na corrida competitiva por novos processos tecnológicos e produtos […]

Os resultados no século XX deste quase-sindicato da ciência e da tecnologia

são muito numerosos e muito conhecidos para serem repetidos.25

 

Estas formas entrelaçadas de revisionismo, naturalmente, reverberam positivamente com as críticas fenomenológicas e hermenêuticas originárias das tradições filosóficas euro-americanas. Aqueles que colocam a ciência como uma instituição dentro de um campo e veem-na como uma forma, mesmo que uma forma única, da práxis humana, são aqueles que guiaram a investigação até este ponto.

Uma das entradas mais recentes no campo das críticas desmitificadoras, no entanto, tem sido o aparecimento da crítica feminista. Esta linha de crítica é particularmente interessante. Não só é distintamente pós-moderna, como também isolou um tema que gira em torno de perspectivas de gênero, que lhe deram uma perspectiva muito focalizada e, ainda assim, alcançando culturas e histórias. À desmitificação deve-se acrescentar o projeto de “desmasculinização” ou, positivamente, a pluralização de gênero.

Deve ser dada especial atenção a este modo de crítica porque o feminismo, em um aspecto, atravessa todas as combinações culturais previamente notadas. Seja qual for a variedade de estratégias culturais para os gêneros e se as feministas estão certas, a estratégia dominante tem sido, de longe, favorecer os homens, pois essa nova perspectiva deve ser engendrada investigando as perspectivas do papel do sexo nos níveis micro e macro. Dentro da ciência, em pequena escala e em áreas específicas, as críticas feministas e as perspectivas já conseguiram revolucionar os subcampos. Uma das mais sugestivas foi a área da primatologia em suas dimensões comportamentais. No entanto, como observa Watson, há uma porcentagem maior de mulheres nas ciências biológicas do que nas ciências físicas e químicas (que, corretamente ele aponta, tiveram a pista interna em arenas políticas) e dentro de algumas das ciências biológicas, as mulheres cientistas, novamente apontando para o campo da primatologia, vieram à tona. Jane Goodall e Dian Fossey capturaram a imaginação popular com seus respectivos estudos de chimpanzés e gorilas.

O que ainda não pode ser plenamente apreciado é o modo como a perspectiva feminista transformou a primatologia em relação aos papéis sexuais entre os primatas. Um exemplo vem do trabalho de Sarah Blaffer Hrdy sobre lêmures. Atacando a longa tradição darwiniana, que interpretava a fêmea da espécie na seleção sexual como passiva, tímida e recatada (obviamente ligada aos valores vitorianos para a fêmea), Hrdy estabeleceu o que poderia ser chamado de contra-versão da seletividade sexual entre os lêmures imitando mais de perto a libertada, pós-moderna fêmea do presente.

Hrdy argumenta que “a dicotomia inicial entre machos ativamente cortejadores e promíscuos e fêmeas não andróginas passivamente escolhidas remonta aos tempos vitorianos. ‘Os machos são quase

sempre os brincalhões’, escreveu Darwin”. 26 Em seus próprios estudos e observações, Hrdy diz: “Eu argumentaria que um componente poliédrico está no cerne dos sistemas de criação da maioria dos primatas que habitam as tropas: as fêmeas se acasalam com muitos machos, cada um dos quais pode contribuir um pouco

para a sobrevivência da prole.”27

Os estudos de Hrdy não são apenas feministas; eles são parte do anteriormente mencionado encurtamento da distância entre nós e nossos vizinhos animais, embora aqui a questão orbite em torno de questões de gênero. Ela juntamente a outras, ao tomar uma perspectiva diferente, claramente desmasculinizou o campo da primatologia. A fêmea recatada desapareceu definitivamente em uma diversidade de espécies desde as drosófilas até os felinos, da perda brilhante aos babuínos das savanas, as fêmeas de todas estas espécies demonstram envolver-se em atividades de cortejo e apresentam um comportamento nada tímido.

Um alerta de precaução deve ser inserido sobre as histórias de tais mudanças de “paradigma”. Donna Haraway, uma editora de biologia transformada em historiadora da ciência, reconhece criticamente a necessidade de uma cuidadosa hermenêutica de todas essas mudanças. Reconhecendo que as feministas que fizeram um grande impacto e que nas áreas de seleção sexual de primatologia são agora provavelmente as pesquisadoras dominantes, também devem enfrentar as ambiguidades de ler o humano através do animal (texto). Haraway mostra a atitude crítica mais sofisticada da historiadora em relação à ciência, que afirmei que muitas vezes é escasso demais dentro da própria comunidade científica.

Haraway sublinha o caráter literário e simbólico da própria ciência em suas últimas tentativas de chegar à tênue linha entre o animal e o humano nos primatas e do novo papel que as mulheres estabeleceram na primatologia. Em seu “Primatology in Politics by Other Means”, Haraway destaca os avanços realizados:

 

Até muito recentemente na história da primatologia, praticamente nenhuma

mulher tinha o estatuto de cientista neste campo […] [Mas agora] essas

mulheres fizeram uma grande diferença nas construções científicas na

primatologia no que diz respeito a que significa ser um animal fêmea, E

assim do que significa ser um homem ou uma mulher em sociedades para as

quais a construção social do animal é parte da construção social do

humano. 28

 

No entanto, é precisamente por causa deste status limítrofe que os primatas são difíceis de “ler”. Haraway destaca que “os ocidentais têm acesso a macacos e primatas apenas sob circunstâncias simbólicas e sociais específicas […] É muito difícil

estabilizar a verdade sobre macacos e primatas”. 29

Como uma historiadora da ciência pós-kuhniana, Haraway acertadamente nota que mesmo o que é chamado de “fato” é algo que depende de um campo ou de um contexto; ainda mais, é dependente de campo no sentido de ser “carregado de história”:

 

Valores parece ser uma palavra anêmica para transmitir as múltiplas vertentes de significado tecidas nos corpos de macacos e primatas. Por isso, prefiro dizer que a vida e as ciências sociais em geral e a primatologia em particular são carregadas de história; Essas ciências são compostas por práticas históricas complexas e historicamente específicas. Os fatos são carregados de teoria; as teorias são carregadas de valor; os valores são

carregados de história. 30

 

Esta é a “nova” ou pós-kuhniana filosofia da ciência-padrão. (Ela é também boa fenomenologia).

Com a cautela hermenêutica agora aguçada, podemos retornar ao exemplo de Hrdy. Podemos ver que, sem de forma alguma rebaixar suas observações de campo sobre o comportamento dos lêmures, com seus “fatos”, Hrdy fez mais: ela contou uma nova história, desde um novo contexto de interpretação. Mais uma vez, Haraway:

 

Raramente as competições feministas para o trabalho do significado científico substituirão um paradigma com outro, levantando e estabelecendo com êxito contas e teorias completamente alternativas. Em vez disso, como uma forma de prática narrativa ou de contar histórias, a prática feminista em primatologia tem trabalhado mais alterando um “campo” de histórias ou possíveis relatos explicativos […] Toda história em um “campo” altera o status de outros. O conjunto inter-relacionado de histórias é o que eu chamo

de 31 campo narrativo .

 

Isto é o que Hrdy fez com os lêmures, mas neste caso é também o que pode ser chamado de “desmasculinização” positiva da ciência. Eu não tenho a intenção de lançar um tom pejorativo ou negativo sobre o masculino exceto em sua tendência para o chauvinismo (tal como no exemplo acima de Watson), mas indicar que a alteração do campo narrativo possibilita à multiplicidade de aspectos de gênero ser reavaliada e reposicionada em um quadro mais completo. A desmasculinização, idealmente, é o primeiro passo rumo à pluralização de gênero, uma condição pós-moderna mais apropriada.

No entanto, a história anterior da ciência pode ser vista como a progressão da masculinização. Sanda Harding, em uma das mais abrangentes e reveladoras das críticas feministas à ciência, faz a seguinte afirmação:

 

Quando a teoria de Copérnico substituiu o universo centrado na terra por um

universo centrado no sol, também substituiu um universo centrado na mulher

por outro centrado no homem. Para o Renascimento e o pensamento

anterior dentro de uma concepção orgânica da natureza, o sol estava

associado à masculinidade e a terra com dois aspectos opostos da

feminilidade. A natureza, e especialmente a terra, foi identificada, por um

lado, com uma mãe nutriente uma fêmea amável e benéfica que supriu as

necessidades da humanidade num universo ordenado e planejado e, por

outro lado, a selvagem e incontrolável [fêmea] natureza que poderia se voltar

à violência, tempestades, secas e caos geral. Na nova teoria de Copérnico, a

terra feminina, que fora a criação especial de Deus para o sustento do

homem, tornou-se apenas um minúsculo planeta movido externamente que

circundava uma órbita insignificante em torno do sol masculino.32

 

Eu não sei se, tal como algumas feministas afirmam, os valores do cuidado, da nutrição, da empatia são acidentalmente ou intrinsecamente mais femininos do que os valores de proteção, dominação ou controle, que às vezes são tidos como valores masculinos. Mas é claro que a ciência dominada por este último claramente precisa de uma dose pesada do primeiro, se um equilíbrio deve ser atingido e ainda mais, se a terra deve ser conservada. Por esta razão, uma das tarefas intrínsecas para o presente deve ser a desmasculinização da ciência dentro e ao lado da tarefa de desmitificar sua falsa mística.

Sabia Galileu, quando confirmou a teoria copernicana através de sua nova revelação artificial, que ele também estava descentrando a terra como nossa fonte de nutrição? Mas, então, Galileu deve servir aqui como nosso “primata”, na medida em que é através de Galileu ou dos múltiplos Galileus que já vimos que a história da ciência é contada e recontada. A desmitificação e a desmasculinização associada fazem parte da nova narrativa necessária para alterar o campo atual das histórias.