Tecnologia e o mundo da vida: do jardim à terra
Recomendações de manejo para a Terra Herdada
Este senso de maior contingência é em si um legado da nossa imersão atual na textura tecnológica. É parte de nossa herança da Terra, uma dimensão da maneira não neutra em que recebemos e retomamos essa herança. Então, a questão mais difícil é como vamos cuidar e lidar com essa herança. Ela pode ser desperdiçada; poder ser conservada; e pode até ser aumentada.
O que devemos fazer para optar pelas duas últimas alternativas? Em parte, o projeto deste livro é precisamente uma recomendação preliminar em resposta a essa pergunta. É preliminar, no sentido filosófico, como uma tentativa séria de entender a compreensão mais adequada da forma e da estrutura de uma civilização tecnológica. É, nesse sentido, uma abordagem filosófica muito clássica ao delinear um quadro de compreensão. Tentei ser crítico e, no entanto, sem encorajar nem uma rejeição absoluta nem uma aceitação cega do nosso estado de coisas herdado. Mas, nesse processo, é filosoficamente inevitável que haverá perspectivas de avaliação implícitas que emergem simultaneamente a partir da própria investigação. É a estes que eu me volto para o fechamento deste projeto.
Recomendações de manejo para a
Terra Herdada
A. Conservar a Terra
Um dos principais subtemas deste projeto foi o reconhecimento de que os altos poderes de ampliação da tecnologia têm agora uma força de impacto geológico. Combinada com o que permanece uma ética dominantemente expansionista em relação à natureza, minha primeira recomendação deve ser uma ética de conservação em todo o mundo. Esta é, em minha opinião, a necessidade mais abrangente e urgente em resposta à relação frequentemente negativa que hoje a civilização de alta tecnologia colocou sobre o meio ambiente.
Enquanto os valores ocidentais dominantes não podem escapar da culpa, eles não são a única fonte do problema; a culpa precisa ser distribuída muito mais amplamente do que isso. J. Donald Hughes, em sua crítica mordaz sobre a falta de uma ética ambiental a todas as civilizações próximas que rodeavam o Mediterrâneo em tempos antigos, vê parte da culpa no abandono de um animismo ainda mais antigo. Quaisquer que fossem os modos de fuga do animismo, seja o grego, o hebraico, ou o romano, os resultados eram sempre os mesmos para a Bacia do Mediterrâneo. Não é evidente que as formas mais antigas de religião eram, no geral, melhores em qualquer aspecto.
Outras culturas não ocidentais têm frequentemente sido todas muito destrutivas do ambiente na prática. Uma das tribos nativas da Nação dos Iroqueses, com base na crença de que os animais tinham linguagem, e que eles fofocavam sobre qualquer viagem secreta ou rumo à guerra, matariam sistematicamente qualquer animal durante o percurso para que eles não informassem sobre seu paradeiro ao inimigo. Eu já observei antes a extinção sistemática das aves sem asas em toda a maior parte do Pacífico devido à marcha ao oeste das várias tribos dos meus navegadores favoritos. Mesmo entre as sociedades tradicionais, com demasiada frequência, parece que as sociedades delicadamente balanceadas, como o aborígene australiano ou os inuítes são exceções e não a regra na rigorosa prática conservatória.
O que permitiu que isso ocorresse até hoje reside na fecundidade da terra e em populações pequenas para não sobrecarregá-la. Sociedades que se utilizam da coivara poderiam continuar a existir, mas apenas em uma selva que poderia se recuperar após eles partirem em suas viagens e apenas na condição de que a população daqueles povos com tais práticas destrutivas permanecessem pequenas o suficiente para que a recuperação ocorra em tempo hábil.
Por outro lado, nosso próprio histórico não tem sido invariavelmente negativo. Heidegger estava certo sobre um aspecto da cultura camponesa europeia. Eles se preocupavam com a terra como solo. René Dubos apontou em Wooing the Earth que um resultado da melhoria das práticas agrícolas europeias após a invenção do arado e a descoberta da agricultura de rotação foi a produção real de um solo rico em nutrientes. Na França, esse solo melhorado tornou-se propriedade do agricultor arrendatário que fez a modernização e poderia ser levado com ele, caso ele se mudasse. Da mesma forma, uma das poucas áreas do mundo a ser seriamente reflorestada, após o virtual desmatamento, foi New England, nos Estados Unidos. Há mais floresta agora nos estados do norte em New England do que em qualquer momento desde que os colonizadores chegaram pela primeira vez.
Há dois séculos, 70% da terra em Rhode Island tinha sido desmatada da
floresta que uma vez a havia coberto quase completamente. A floresta
primordial tinha sido transformada em terra agrícola pelos colonos brancos
originais. No final do século XIX, no entanto, as fazendas menos produtivas
foram abandonadas e as árvores retornaram tão rapidamente que menos de
30% do estado permanece desmatado hoje. 4
Um efeito colateral foi o exitoso retorno migratório ou reintrodução de muitas espécies autóctones de animais que não eram vistos há um século ou mais. Em Vermont, minha própria casa de veraneio é agora um recanto para perus selvagens, pássaros pescadores e ocasionalmente até coiotes que se adaptaram à vida na floresta.
Enquanto a notícia geral permanece que o desmatamento nocivo está claramente avançando mais rapidamente do que reflorestamento, movimentos de conservação com algum sucesso estão ocorrendo no meio dos setores mais populosos do mundo. A Europa, por exemplo, conta com as áreas geográficas mais densamente povoadas (pessoas por quilômetro quadrado) na face da terra e, no entanto, quando tentativas reais são feitas para controlar ou reverter os efeitos negativos, pequenos sucessos podem ser notados:
Na área de Londres, o rio Tamisa foi extremamente poluído, como atestado
por Michael Faraday em carta muito divulgada pelo Times em 1855. A
abundância e a variedade de peixes tinha começado a diminuir quase dois
séculos antes […] e apenas enguias sobreviveram em certas áreas por volta
de 1855. Em 1976, porém, havia oitenta e três espécies de peixes no estuário, e mesmo o salmão foi capturado em Londres pela primeira vez em
aproximadamente 150 anos. 5
Distribuir a culpa, entretanto, não é a mesma coisa do que deixar as próprias tradições de fora com base em circunstâncias atenuantes. Eu me juntei a Martin Heidegger, Lynn White, Jr., J. Donald Hughes, René Dubos e muitos outros que colocaram uma grande parte da responsabilidade na conta de algumas de nossas crenças dominantes, sejam culturais ou religiosas. Elas devem ser modificadas se com isto as condições para uma verdadeira ética de conservação forem encontradas. Essas crenças incluem (1) a crença de que a terra é principalmente um bem de consumo para o privilégio dos humanos; e (2), estreitamente ligada, a crença de que existe uma grande e valiosa diferença significativa entre os seres humanos e o resto do reino animal, de modo que nossa precedência é justificada em praticamente todos os casos.
Contribuindo para o fortalecimento destas crenças está uma longa e interligada história que não inclui apenas uma vertente de crenças de predominância judaico-cristã, mas também a vertente de interpretação sobre a terra que advém do antigo atomismo grego, o qual reduz a terra de um modo diferente a uma espécie de matéria aleatória (que pode, em combinação com a crença religiosa, tornar-se a maneira de subjugar essa terra como bem de consumo).
Se a visão dominante é tanto redutora quanto dominadora, eu ainda não estou convencido de que qualquer revivificação do animismo antigo ou de seus relativos seja uma opção, ou seja, mesmo algo desejável.
Langdon Winner, em sua apreciação usualmente perspicaz sobre a ambiguidade, colocou muito bem o dilema tanto no título quanto na experiência de seu livro The Whale and the Reactor. Podemos ter ambos? Em uma experiência que Winner compara à epifania de Henry Adams em “The Virgin and the Dynamo”, mas, inversamente, ele acredita que a escolha é cristalizada:
Olhei para uma vista que me deixou cambaleando. Debaixo de nós, aninhado nas margens de uma enseada minúscula, estava o gigantesco reator nuclear, ainda em construção, um enorme bloco retangular marrom e
duas cúpulas brancas. Em conjunto, as cúpulas pareciam ligeiramente
obscenas, como os seios salientes de uma deusa gigantesca que havia sido
enterrada cuidadosamente na areia pelos escorregadios escavadores […]
Naquele momento, outro olhar me chamou a atenção. Em uma linha com o
reator e a Diablo Rock, mas muito mais distante para dentro ao mar, uma
baleia-cinzenta emergiu de repente à superfície, expeliu através da narina
um jato de vapor muito alto, e desapareceu então abaixo das ondas. Um
silêncio sobrepujante se abateu sobre mim. 6
Existe uma assimetria nesta questão. Nós podemos ou poderíamos promover substitutos para o reator. Pode haver outras tecnologias; e pode haver outras contextualizações multiestáveis de tecnologias; mas nós não podemos substituir as baleias. Isto se aplica igualmente para quase metade das espécies sob ameaça devido às práticas de desmatamento na floresta tropical. Em um artigo, “No Dinossaurs This Time”, uma questão é posta:
‘A biota da Terra agora parece estar entrando em uma era de extinções que
pode rivalizar ou superar em escala o que ocorreu no final do Cretáceo, há
cerca de 65 milhões de anos.’ Esta visão sombria e mais do que um pouco
surpreendente foi expressa por Paul Ehrlich, da Stanford University, em um
recente encontro sobre a dinâmica da extinção. O desenvolvimento
desenfreado, incluindo o desmatamento urbano, agrícola e florestal, é a
causa do colapso iminente, diz ele. 7
E embora eu aprecie os argumentos da “floresta” contra o “deserto” que os biólogos utiliza atualmente para afirmar que se nós perdermos esta riqueza das variedades da flora e da fauna, nós perderemos também muitas “soluções” potenciais para o futuro da farmácia do mundo, o que permanece apenas uma lamentável variante da visão da terra como sendo um bem de consumo. Certamente a terra é mais rica do que um potencial farmacológico, mas nós podemos ver isto sem retornar ao animismo obscuro de nossos ancestrais?
Ver a necessidade de uma ética de conservação mundial com apoio jurídico para os seus aspectos particulares está longe de ser uma recomendação única. Tem sido chamada e reconhecida repetidamente como uma necessidade. Também não é suficiente queixar-se de que, enquanto existir a estrutura atual de estados-nação, corporações multinacionais e necessidades de nações em desenvolvimento, nenhuma ação significativa resultará. Mais profundas, mas mais difíceis de lidar, são as questões culturais/filosóficas que definem o contexto no qual o debate ocorre. Enquanto a natureza é vista como um instrumento redutivamente instrumental para uma humanidade elevada acima de todos os seus vizinhos biológicos, ao modo de nossa atual mitologia dominante com tudo o que resulta dessa mitologia, provavelmente não haverá motivação suficiente para a mudança. Nem argumentos instrumentais nem estéticos, particularmente na cultura moderna, a estética sempre ocupa o segundo lugar das posições utilitárias que vão influenciar a sensibilidade.
O problema é que qualquer maior mudança da gestalt nas sensibilidades terá que ocorrer dentro das culturas tecnológicas. Se a hermenêutica cultural deste livro está sugestivamente correta, então não há cultura maior externa com força suficiente para nos convencer de sua superioridade. Não há frota chinesa no nosso horizonte. Isso é meramente a rejeição secular de qualquer “deus” salvador como provável ou possível.
O cenário mais amplo parece, então, sombrio em relação a qualquer persuasão global imediata sobre a promulgação de uma ética de conservação. Mas dentro dos interstícios existem pequenos indicadores positivos que podem ser aprimorados. Primeiro, a criação de redes em todo o mundo através de várias tecnologias existentes é uma condição para qualquer mudança global genuína. Essa rede continua a ser um fator simultâneo ao “domínio” tecnológico. Segundo, como o fenômeno demonstrado na pluriculturalidade, um efeito imprevisível de qualquer ligação é o fluxo bidirecional de influências culturais ao longo dessa rede. Um efeito já detectável é o enfraquecimento de certas tradições dos valores precisamente ocidentais que prevaleciam. A pluriculturalidade não indica nada como a ascensão e o domínio de algum modelo cultural não ocidental específico. Embora muitos gostariam de ver a adoção de várias crenças orientais diversas como uma forma de equilíbrio para a atual tensão dominante ocidental, eu não vejo isso como uma probabilidade em parte alguma. Esse enfraquecimento, enquanto condição de qualquer mudança definitiva na sensibilidade, também não necessariamente pressagia uma melhora ou um agravamento da situação. O surgimento de fortes tendências pós-modernas da cultura popular é, no máximo, ambíguo e ainda muito difícil de ser medido em relação a uma formação cultural mais particular.
Dentro das culturas mais amplas, em grande parte juvenis, do pós-modernismo, existem alguns indicadores menores de direções positivas. Já citei as empatias animais, às quais devemos acrescentar uma consciência de interconexão ecológica muito mais forte apresentada pela maioria das crianças educadas na televisão de hoje. Outro fator positivo é que parece estar sumindo ou ter desaparecido em sua maioria, por meio da consciência formada através da educação televisiva, a antiga forma de estereótipos negativos associados a certas espécies animais. (O “grande lobo mau” pertence agora mais claramente aos contos de fadas, menos aos lobos e seus habitats, o que também é um fator positivo na verdadeira educação científica disseminada pelos meios de comunicação de massa).
Estas formas de consciência empáticas e ecológicas tem um efeito secundário no enfraquecimento das crenças que justificam um distanciamento entre o humano e seus vizinhos animais. Além disso, elas também ajudam precisamente o nosso lado materialista do passado a emergir. As próprias ciências que des-animaram (e des-antropomorfizaram) tanto o animal quanto o humano agora estão gradualmente reduzindo os aspectos subexperienciais do hiato humano/animal. Isso está ocorrendo igualmente na biologia e na psicologia.
Nós temos condições agora de reconhecer um fenômeno tal como uma “cultura animal”, comportamentos aprendidos e repassados similarmente às culturas históricas humanas, ao menos dentre os animais superiores. Lobos, antes desprezados, são reconhecidos como tendo padrões sociais específicos transmitidos à sua progênie através de comportamento social. As baleias mudam suas canções (elas teriam uma cultura popular pós-moderna?) entre os anos de suas migrações, indicando algo muito mais forte do que as repetições inatas. O uso de ferramentas, padrões de primatas muito mais próximos aos nossos comportamentos, até mesmo habilidades de protolíngua e, abaixo do nível de comportamento, sobreposição genética (de 99 por cento entre humanos e primatas), tudo isto diminui a distância biológica entre nós e nossos vizinhos animais.
Apesar desta modificação da lacuna entre nós e os animais, ainda há fortes evidências de que estamos dispostos a modificar nossos próprios padrões comportamentais em relação aos animais. As notícias desta manhã, entretanto, traziam as recomendações do estudo da National Academy of Science (NAS) contra qualquer mudança na lei a respeito do controle do uso de animais em experiências de laboratório relacionadas à pesquisa. Eu não estou aqui argumentando que os que defendem os direitos dos animais têm ou não têm um argumento contra o establishment da ciência; estou apontando que, ao mesmo tempo em que a noção de nossas fronteiras de vizinhança está mudando, as práticas da ciência estabelecida estão sendo defendidas como necessárias. (A NAS muitas vezes age de uma forma semelhante à AMA (American Medical Association) em relação à medicina, isto não deve causar surpresa). No entanto, será visto que enquanto o reino animal continua a ser parte da natureza “bem de consumo”, a diminuição da distância pode fazer pouca diferença por si só.
Se há pequenos sinais de mudanças no conjunto das relações humano/animal, será que o mesmo se aplica aos nossos conceitos de natureza? O sentido dominante e redutor da natureza permanece penetrante. Pode o nosso conceito de natureza ser des-instrumentalizado sem ao mesmo tempo retornar a alguma forma de animismo? Existem indicadores internos que possam modificar a atitude dominante atual em relação à natureza? A resposta não é fácil, nem há fugas fáceis do cenário atual. Obviamente, qualquer consciência ampliada da interação humana com o sistema ecológico da Terra é positiva. E, além dos ataques à “Hipótese de Gaia”, que ainda se associam ao antropomorfismo, o conceito que vê uma interligação entre as dimensões biológicas e não biológicas da terra parece provável e plausível para o futuro da compreensão do planeta. No mínimo, ver a civilização tecnológica como uma espécie de força “geológica” ativada biologicamente deveria ser agora evidente. Com ou sem a metáfora da “Natureza nos dizendo algo”, a autorreverberação de ações ambientais negativas é mais amplamente conhecida.