Tecnologia e o mundo da vida: do jardim à terra
A. Técnicas do Mundo da Vida: percepção do tempo
A matriz, no entanto, é muito complexa para demonstrar imediatamente a práxis que se tornaria concentrada no nascimento da ciência. Eu devo me voltar para um campo mais estreito de análises. O que Price chama de revelação artificial e eu denomino visão incorporada tomou forma em muitos lugares. O visualismo da Renascença, eu sugiro, embora preceda historicamente o uso que Galileu faz dele, já estava bem consolidado como sendo o sentido privilegiado; ele havia se transformado a partir das perspectivas artísticas e teatrais da Renascença na ciência moderna. As “leis da perspectiva” já eram interpretações geométricas de profundidade. Isto era sabido por volta de 1440. E Leonardo da Vinci, que foi muito mais engenheiro do que um cientista teórico, já havia transformado uma velha anatomia tátil em sua anatomia visual e artística. A fascinação não com o microcosmo, mas com a posição de
observação sob a perspectiva do voo do pássaro 14 era virtualmente bem difundida como sendo a perspectiva dominante dos séculos XV e XVI. Em suma, a redução da micropercepção para uma posição preferida de visão já havia começado. Além disso, o modo como os artistas olhavam os espaços geométricos tinha preparado o terreno para a modificação inicial da visão. Galileu pode tomar como sendo verdadeiro na já estabelecida modelagem da percepção.
Para obter um ponto de vista mais preciso, no entanto, examinarei algumas tecnologias especiais, particularmente como elas se relacionam com os sentidos e com a percepção do espaço e do tempo. Começarei com a percepção do tempo e as tecnologias relativas ao relógio e seu papel no mundo da vida.
A. Técnicas do Mundo da Vida:
percepção do tempo
Uma famosa passagem da filosofia do tempo de Santo Agostinho precede a era da cultura do relógio: “O que, então, é o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei; mas se eu tento explicar isso para alguém, então eu não sei.” Esta afirmação implica algo como uma forma intuitiva de acesso direto, mesmo que inefável, ao tempo. Ainda que o mundo da vida seja cheio de indicadores da percepção do tempo, que nas culturas modernas são predominantemente relógios.
O relógio é reconhecido há muito tempo como uma importante tecnologia para o Ocidente. O capítulo de Lewis Mumford em Técnica e Civilização sobre “O Monastério e o Relógio” (1934) é provavelmente uma das melhores exposições conhecidas sobre a relação entre a tecnologia e uma forma de vida. Ele argumenta:
O relógio, não o motor a vapor, é a máquina chave para a moderna era industrial. Para cada fase de seu desenvolvimento, o relógio é igualmente o fato marcante e o típico símbolo da máquina: mesmo hoje nenhuma outra máquina é tão ubíqua. Aqui, na gênese das técnicas modernas, apareceu profeticamente a precisa máquina automática que, apenas depois de séculos de esforço posterior, serviu também para provar a consumação final destas
técnicas em cada departamento da atividade industrial. 15
A exposição de Mumford primariamente relaciona o relógio a uma mudança do tempo social. Primeiro, no monastério, o relógio regula o movimento social, fazendo-o igualmente melhor ordenado e mais uniforme. Os primeiros relógios usados nos monastérios serviam apenas para dizer as horas. Estas, por sua vez, regulavam as horas de trabalho e devoção dos monges. Mumford nota que isso também mudou nossa percepção de tempo, ao menos em contraste com as culturas que não fazem uso do relógio. Tal mudança aumenta a quantificação. “A aplicação dos métodos quantitativos de pensamento para o estudo da natureza apareceram primeiro na medição regular do tempo; e a nova concepção mecânica do tempo
surgiu em parte no âmbito da rotina do monastério.”16
O mesmo argumento foi apresentado antes ainda, por Martin Heidegger em Ser e Tempo (1927). Tal como acontece com as ferramentas para ele, tecnologias “levam em conta” a natureza em certo sentido. A plataforma coberta da ferrovia leva em conta o clima chuvoso; a iluminação, da escuridão; e o relógio, dos ritmos do tempo. Tempo, Heidegger aponta, é um fundamento da existência. Ele é baseado no senso humano de finitude, e a contagem do tempo é a contagem sobre aquilo que se pode fazer com o tempo de finitude; também, a temporalidade surge da pré-ocupação. Isto, ele argumenta, define igualmente as culturas que fazem e as que não fazem uso do relógio, mas em ambos os casos o tempo é figurado em relação ao que humanos concretamente encontram no mundo. Nas culturas sem relógio, estes são fenômenos primários tal como o surgir e o pôr do sol e o movimento das estações. Existe uma analogia quase natural entre o movimento natural e o relógio. “E porque a temporalidade na qual o Dasein deve ser tomado em
seu tempo é finito, seus dias já estão contados.”17
Agora nós notamos como Heidegger toma o reino dos equipamentos como sendo aquilo que é próximo da vida cotidiana. O mesmo se aplica aos relógios. Para o jovem Heidegger, relógios são baseados na temporalidade existencial. “Temporalidade é a razão para o relógio. Como sendo a condição para a possibilidade que o relógio é factualmente necessário, temporalidade é como a
condição para que possa ser descoberto.” 18 O tempo de Heidegger, paralelamente ao tempo de Mumford, é também um tempo social. O tempo é intencional de modo que ele é sempre direcionado; é tempo para ______, tempo-em-relação-a ______, tempo para o qual, etc. “Apenas agora, em todo caso, pode o tempo com o qual nos ocupamos ser completamente caracterizado por sua estrutura; ele é datável, mensurado e público; e por ter tal estrutura, ele pertence ao
mundo em si.”19 Nesse sentido, relógios apontam de maneira reflexiva novamente para uma base existencial primitiva.
Relógios, no entanto, uma vez desenvolvidos, transformam a percepção do tempo. Por exemplo, a medição em si se torna uma atividade focal possível. Relógios são a condição para fazer tais medições mais explícitas, mesmo se fundadas sobre a temporalidade existencial. Mas com a emergência da medição que leva em conta sua própria trajetória de possibilidade, relógios também podem, junto ao enraizamento social, abrir o caminho para a separação do tempo social da cultura sem-relógio:
Comparações apontam que, para o Dasein “avançado”, o dia e a presença da luz solar não mais possuem aquela função especial tal como possuem para o Dasein “primitivo” sobre o qual a nossa análise do cômputo do tempo natural foi baseada; pelo Dasein “avançado” ter a “vantagem” de mesmo ser capaz de transformar a noite em dia. Similarmente, nós não mais precisamos olhar explícita e imediatamente para o sol e sua posição para determinar o tempo. A própria fabricação e uso de equipamentos de medição permite ler o tempo diretamente por um relógio produzido especialmente para este
propósito.20
Aqui está a temporal saída tecnológica do Jardim do Éden.
O relógio não apenas muda o que é enfatizado na contagem do tempo, mas é uma aquisição do mundo da vida. Ele torna possível outros movimentos que diferem da percepção da contagem do tempo sem-relógio. Heidegger nota que a natureza é lida diferentemente via relógio: “Nosso próprio entendimento do relógio natural desenvolve-se com a descoberta da natureza e nos instrui assim para novas possibilidades de um tipo de medição do tempo que é relativamente independente do dia e de qualquer observação
explícita do céu”. 21 Em termos heideggerianos, o relógio igualmente muda a variável em contagem do tempo (ele torna as medições em si um tema da dimensionalidade temporal) e abre o caminho para um tipo de autonomia que parcialmente distancia da “natureza”. Galileu pode tomar ambas estas aquisições como garantidas. Elas já eram parte da forma de vida característica do mundo da vida do século XVII. Lynn White Jr., também apontou como o relógio foi central para a consciência do Ocidente, ainda mais especificamente para o Ocidente Latino. Ele nota que o relógio era assimilado de maneira bastante diferente na práxis cultural no Ocidente Latino em comparação com o Oriente Bizantino:
Em um prédio separado fora da Hagia Sophia, Justiniano colocou uma clepsidra e relógios solares, mas relógios nunca foram permitidos juntos a ou em igrejas orientais; coloca-los lá seria o mesmo que contaminar a eternidade com o tempo. No entanto, tão cedo quanto os relógios mecânicos foram inventados no Ocidente, eles rapidamente se difundiram não apenas
para as torres das igrejas latinas, mas também para os seus interiores. 22
Uma vez que o tempo pode ser percebido através da percepção do relógio, igualmente medidos e distanciados dos “relógios” naturais, tais como o sol ou a estação ou movimentos dos corpos celestes, pode-se também tomar o movimento mecânico como sendo paradigmático. De fato, compreender o movimento celeste como sendo um “relógio” é anacronismo, mas compreendê-lo é ou pode ser uma metáfora para o entendimento focando em si mesmo. E este movimento aconteceu cedo, muito antes da ciência de Galileu:
É nas palavras do grande eclesiástico e matemático Nicolas de Oresme, que
morreu em 1382 como Bispo de Lisieux, que nós encontramos primeiro a
metáfora do universo como sendo um vasto relógio mecânico criado e
colocado em movimento por Deus e assim “todas as engrenagens se movem
o mais harmoniosamente possível”. Era uma noção com um futuro:
eventualmente a metáfora tornou-se uma metafísica. 23
Natureza em si foi assim lida como sendo um relógio, e sua ontologia assim interpretada, mesmo que o relógio tenha chegado mais tarde à cena. Nicolas foi muito rápido em adaptar sua metáfora-metafísica, desde que relógios com divisões em minutos e a perfeição do relógio mecânico têm sido datados em 1345 e 1370, respectivamente. Pode-se suspeitar que esta rápida fascinação pelo artefato humano esconde uma tentação que ainda persiste no final do século XX. Em nosso tempo, não apenas o universo, mas também nós mesmos somos lidos por meio de nossas tecnologias.
Essas observações preliminares são indicativas do papel difuso do relógio junto ao mundo da vida da ciência nascente. As fenomenologias implícitas da história e filosofia dos relógios podem ser feitas mais explicitamente. Primeiro: ler o tempo através de um relógio substitui o que é lido; lê-se o relógio ao invés dos céus. Mesmo que os ritmos da natureza não sejam totalmente abandonados, eles gradativamente tornam-se um pano de fundo em vez de possuir uma significância primária. Segundo: o tipo de movimento do relógio em si (até os recentes elétricos) toma uma forma diferente, uma forma notada desde o início; o movimento dos primeiros relógios era “irregular”, pois se dava por saltos mecânicos. A descrição de Turing sobre uma máquina de estado finito, baseada nos movimentos discretos do relógio, o próprio modelo para o computador, se aplica muito bem para o relógio medieval:
[Máquinas de estado discreto] se movem por saltos súbitos ou cliques de um estado definido para outro. Tais estados são suficientemente diferentes para a possibilidade de confusão entre eles ser ignorada. Falando estritamente, não existem tais máquinas. Tudo realmente se move continuamente. Mas existem muitos tipos de máquinas que podem proveitosamente serem
considerados como sendo máquinas de estado discreto. 24
Relógios medievais progrediram através de mãos que saltavam de um instante para outro, e o mesmo movimento de salto ocorre nas atuais versões a quartzo.
Oresme, nos anos 1300, fez a conexão entre os céus e o relógio; outro uso metafórico foi praticado por Galileu. Diz-se que ele usou, para medir o tempo em seus experimentos de aceleração, não um relógio, mas seu pulso. Mas ele já havia feito a conexão entre seu pulso e um relógio: ele lia seu pulso como sendo um relógio, indicando que o digital ou quantitativo já tinha começado sua forma de ler o tempo.
Terceiro: a precisão e regularidade do relógio, a despeito de sua analogia na metáfora da corrida harmoniosa das esferas, também contrasta com os movimentos celestes. De fato, uma vez que a regularidade do relógio se tornou instrumental igualmente nos níveis micro e macroperceptivos da medição científica moderna inicial, a própria descoberta das anomalias celestes se tornou possível. O movimento “perfeito” circular e regular como o de um relógio foi logo descoberto como não sendo o movimento dos céus. A descoberta de Kepler dos movimentos elípticos e as descobertas tardias de perturbações em movimentos planetários são anomalias em contraste com o movimento instrumental sugerido ou de fato instanciado pelos relógios. Aprende-se, nesse sentido, tanto pela diferença entre a “intencionalidade” instrumental quanto pelas similaridades que usualmente dominaram as aquisições iniciais do mundo da vida.
Igualmente, representações discretas e circulares do relógio contando teriam separado o Novo Adão de qualquer percepção monodimensional do Jardim; mas a separação nem é total e nem é sem a possibilidade de algum tipo de recuperação. Pode-se enxergar a olho nu os movimentos do sol e das estrelas, como muitos têm feito no século XX para propósitos especiais, mas uma vez que se deixou o Jardim as formas antigas de se obter conhecimento são mais frequentemente perdidas ou esquecidas. Pouquíssimos de nós “sabem” o que qualquer camponês teria conhecido sobre tempo de semeadura ou ter em conta com a mesma seriedade a passagem das estações. Nossa práxis irreversivelmente foi modificada.
Note, agora, muitos aspectos da percepção do tempo na leitura do relógio: a percepção do tempo através de um relógio é uma percepção hermenêutica. Se “lê” o relógio e, indiretamente através dele, o tempo; mas como todas as leituras, a “intencionalidade” ou a inerente pré-fornecida “interpretação” do tempo já é seletiva. Primeiro, observe que a representação do tempo em um relógio bem como face à sua percepção espacial é temporal. Se fosse possível simplesmente reduzir o movimento temporal como uma característica perceptível em relógios, o já notado estranho ou irregular movimento do tempo poderia muito bem ser selecionado. Mas tempo é sempre tempo-espaço, então num sentido mais fundamental a quase espacialidade da representação do tempo não é em si algo como uma distorção total. Quando isto é levado em conta, pode-se perceber que relógios tradicionais representam duas dimensões de tempo – simultaneamente e visualmente.
Uma dimensão é o instante do tempo. Esta é a representação localizada analogicamente na posição precisa das mãos. Em relógios de ponteiro único, aquele instante em si poderia ser considerado algo “amplo” no que a mão poderia ser posicionada em algum clique, sobre ou entre as horas. A outra dimensão é o “vão” ou duração do tempo, que é representado pela face do relógio, seja circular (tal como em algum relógio de água muito antigo) ou seja um círculo parcial ou arco (como nos relógios solares).
Além disso, o instante do tempo em que o ponteiro se encontra é localizado junto ou sobre o campo da representação de duração do tempo. Essas duas dimensões permanecem constantes na evolução dos relógios até recentemente. No entanto, houve refinamentos na evolução dos relógios que apontam para uma trajetória particular. Essa trajetória segue precisamente aquelas tendências já notadas igualmente por Mumford e Heidegger.
Relógios de ponteiro único, que fazem a discriminação entre horas, foram substituídos logo cedo por relógios com dois ponteiros, que depois dividiam ou quantificam o tempo em minutos. Duas coisas aconteceram com este refinamento da medição: não apenas o tempo foi mais finamente quantificado em unidades menores, mas num senso muito sutil, pode-se dizer que os minutos gradualmente se tornaram mais “importantes” do que as mais amplas unidades hora. A trajetória se dá rumo ao instante, fazendo-o mais focal e consequentemente colocando a duração do tempo mais para o segundo pano.
Se se deseja saber “exatamente” que horas são, olha-se para o ponteiro da hora e simultaneamente para o campo do ponteiro do minuto. Pode-se ver num relance, na forma visual familiar, que são dez para as doze. Depois, ainda, um terceiro ponteiro foi adicionado, e uma forma mais avançada de precisão do instante se tornou possível, o segundo. Eu não preciso destacar a importância desta gradual precisão do instante para a práxis da ciência e para a arte das medições, além de indicar que isto é também outra exemplificação da ciência tecnológica tal como ela emerge historicamente.
A trajetória rumo à primazia do instante pode também ser ilustrada em termos do tempo público. A análise do tempo da Revolução Industrial, no qual estudos sobre o movimento-tempo se tornaram os próprios exemplares da medição, e tempo digital ou atomizado na práxis da fábrica enfatizaram acerca da percepção e uso do tempo. Pode-se notar uma experiência ainda mais ordinária. Quanto dura o quociente de ansiedade se compará-lo no espaço das culturas com e sem relógio? Tome como exemplo o simples encontro marcado para um almoço. O habitante da cultura sem-relógio talvez concordasse em encontrar o outro “sob a árvore do Baobá quando o sol estivesse alto no céu”. O primeiro a chegar não vivenciaria o esperar como uma ansiedade ou se afligiria por um longo período, por horas em alguns casos, porque a sensação do tempo aqui não é apenas focada no instante, mas porque toda a concepção do tempo cultural se perdeu. Contrariamente, o homem de negócios na Trade Tower começará a ficar ansioso em questão de minutos, certamente em muito menos que meia hora, se o seu cliente se atrasar.