Tecnologia e o mundo da vida: do jardim à terra

C. “Controlando” a tecnologia

realmente enforcado?… Porque ele criou mulheres muito altas”. 16 É claro, mais tarde, o Paquistão viria a ser o primeiro país com uma mulher primeiro-ministro (Sra. Bhutto). E enquanto ela usa roupas tradicionais, o véu da purdah saiu de moda e o que se usa agora são roupas mais modernas. Mas o atual avivamento do fundamentalismo islâmico é o indicador da resistência contracultural a tais transferências.

Não estou aqui sugerindo que “novelas” e outros programas de televisão populares são um resultado cultural necessário da tecnologia de televisão. Embora possam ser ácidos para certos tipos de puritanismo cultural, a novela como tal não está em questão. O que está em jogo é uma questão cultural mais profunda: o pluralismo da transculturalidade, que constitui a não neutralidade última da cultura televisiva. Voltarei a esse tema em outro contexto.

 

C. “Controlando” a tecnologia

 

Agora já foi delineada a conjuntura em que a pergunta popular sobre o controle da tecnologia pode ser colocada ou, melhor, reformulada. Colocando a tecnologia dentro de um contexto cultural, as duas dimensões da ambiguidade estrutural essencial da tecnologia podem ser reaproximadas. Ao nível de uma fenomenologia, parte dessa ambiguidade essencial já era vista. A dupla ambiguidade de (a) qualquer artefato tecnológico que pode ser colocado em múltiplos contextos de uso, equilibrado por (b) qualquer intenção tecnológica que pode ser preenchida por uma gama de tecnologias possíveis, introduz certa indeterminação a todas as direções humano-tecnológicas.

Além disso, ao nível fenomenológico, esta ambiguidade estruturada foi obtida independentemente da simplicidade ou complexidade da tecnologia, pelo menos como possibilidade humana. As torres medievais do castelo que já foram usadas como escadas às ameias posteriormente foram mais frequentemente utilizadas para servirem de depósitos ou latrina. Da mesma forma, nos debates recentes sobre as usinas nucleares, veem-se abandonos que levam à conversão ou ao estabelecimento dos maiores “museus” do mundo de tecnologias abandonadas. O outro lado da ambiguidade em que muitas tecnologias diferentes podem servir para os mesmos propósitos inspira e extrapola a corrida armamentista com armas ilimitadas imaginadas para as variedades humanas de destruição. A gama infinita de possibilidades aqui, infelizmente, alimenta a demanda praticamente inesgotável por novos programas militares-industriais.

Ao nível de uma hermenêutica cultural, este problema torna-se mais complexo, mas não sem o aparecimento de padrões. Na medida em que as tecnologias são instrumentos culturais e na medida em que são vistos como especificamente incorporados nas matrizes culturais, também começam a ser reveladas formas mais elevadas de cultura-tecnologia. Este fenômeno origina a presente questão sobre o “controle” da tecnologia.

Dada esta dupla complexidade, agora vista igualmente nos níveis fenomenológico e hermenêutico, a primeira resposta à questão de se a tecnologia pode ser controlada deve ser uma resposta negativa. A razão pela qual a tecnologia não pode ser “controlada” se deve ao fato da questão ser colocada de maneira equivocada. Ou pressupõe que as tecnologias são “meramente” instrumentais e, portanto, neutras, ou pressupõe que as tecnologias são totalmente determinadoras e, portanto, incontroláveis. Ambas as extremidades estão presentes nos debates atuais, mas ambas não contemplam o aspecto das relatividades humano-tecnologia e a cultura-tecnologia que reconstituiriam o debate.

Reformular a questão, agora no contexto da integração das tecnologias nas culturas, é ver que a questão do controle da tecnologia é análoga à questão: as culturas podem ser “controladas”? Esta reformulação revela o grau de complexidade necessário para a sua resposta. Poucas, exceto pelos megalomaníacos historicamente associados a resultados desastrosos, responderiam rapidamente positivamente a essa reformulação. Há mesmo uma boa razão para ver a preocupação do século XX pelo “controle” da tecnologia como o equivalente contemporâneo da obsessão do século XIX pelo “controle” da natureza. Nenhuma das perguntas, em minha opinião, é posta corretamente.

Retrospectivamente, mesmo nos casos mais simples, a questão do “controle” permanece mal colocada. Na loja de ferramentas, por um momento, substituímos o martelo heideggeriano por um torno, na medida em que o contexto ferramenta-humano é constituído como uma relação em que o usuário “controla” o cinzel, é o torno e o seu giro do cabeçote que fornece o contexto que definem os movimentos do usuário junto ao torno. Entrar em qualquer relação humano-tecnologia é sempre tanto para “controlar” quanto para “ser controlado”. Uma vez que a noção de tecnologia no conjunto é levantada, particularmente na medida em que as tecnologias estão inseridas em complexos culturais, a questão do “controle” torna-se ainda mais sem sentido.

Trajetórias do desenvolvimento tais como a ampliação na ótica tem sido descritas como resultado de “intencionalidades” instrumentais. Ainda que no nível hermenêutico, também se pode notar que tais trajetórias nem sempre foram seguidas, dependendo do campo cultural mais amplo e mais complexo. A própria questão do controle toma sua forma junto a uma metafísica implícita, porém ultrapassada do determinismo. Assim como o debate do determinismo social versus o determinismo cultural é rejeitado aqui, então se deve ter conta que as tecnologias em uso não determinam, como tal.

No entanto, elas não são simplesmente neutras. As tecnologias, ao fornecerem uma estrutura para a ação, formam intencionalidades e inclinações junto às quais os padrões de uso tomam a forma dominante. Isso também pode ser visto no nível fenomenológico. Em uma atividade altamente familiar aos filósofos, observe os seguintes exemplos de tal “inclinação” nos usos variantes de três instrumentos de composição: a caneta de tinteiro, uma máquina de escrever e o processador de texto.

Neste exemplo, considere (a) a atividade de edição, (b) a velocidade da composição e (c) a sutileza de estilo. Eu fiquei familiarizado com o uso da antiquada caneta quando meus dois filhos mais novos entraram em uma escola primária em Paris. A arte de escrever com canetas de penas foi ensinada a eles como o fora para meus avós, com cópia cuidadosa, instrução estrita e papel alinhado. Fiquei fascinado pela uniformidade do resultado. Depois que as crianças iam para a cama, eu também comecei a escrever com a caneta. A princípio, o que se destaca é a lentidão do processo de escrita (eu compus, em seguida, com uma máquina de escrever). Mas eu também descobri que, enquanto os processos mentais de alguém acontecem bem à frente do tempo da escrita real, a edição (mental) poderia tomar forma enquanto o processo estava em curso. Pode-se formular ou reformular uma frase várias vezes antes da conclusão. Sendo que reescrever era realmente doloroso, e fosse o objeto para ser descrito em letra composta, isso demandaria recomeçar sempre, desde que não houvesse nenhuma simples rasura.

Depois de alguma experiência, acompanhada por outro fenômeno, o fascínio com a aparência real da escrita, cuja rotulação poderia ser muito bonita, pois as curvas e os diversos traços poderiam alcançar a qualidade estética, redescobri a “arte” desta escrita. Eu não poderia afirmar que o uso da pena e do tinteiro “determinou” que eu escreva no estilo das belleslettres, mas a propensão ou inclinação certamente lá estavam.

Contrastando essa experiência de escrever com a da máquina de escrever (que era manual), podia-se ver que a proporção da velocidade do pensamento para a aparência em si das palavras no papel foi consideravelmente reduzida. Já a edição, ainda que dolorosa, não era tanto assim. E uma abordagem cortar/colar foi muito boa para os rascunhos. Não era necessário estar preocupado com a caligrafia do texto, já que isso era predeterminado pela máquina. Novamente, o estilo não estava sendo “determinado”, embora a beleza das letras fosse agora eliminada e, assim, junto com ela, uma das características das belas letras. Dada a velocidade da composição, pode-se argumentar que um padrão de estilo mais jornalístico ou mais próximo à fala era o mais provável “centro gravitacional” para esse modo de composição. Ainda assim, é na melhor das hipóteses uma ligeira inclinação e poderia ser tão variada quanto a autodisciplina do escritor.

O processador eletrônico introduz uma estrutura instrumental e um conjunto de possibilidades diferentes e é agora o instrumento favorito de muitos acadêmicos. O que se destaca aqui é a transformação do processo de edição. Se tornar muito fácil do que com as tecnologias predecessoras, dada a possibilidade de reescrever e de mover blocos inteiros de sentenças ao longo do texto. Ainda que a velocidade da composição seja apenas pouco aumentada em relação às máquinas de escrever elétricas, ela é ligeiramente aumentada com o eletrônico em comparação com o teclado elétrico de máquinas de escrever mais antigas.

Precisamente porque o processo de edição é fácil, a composição agora oferece uma tentação focal. A facilidade de reescrever torna-se uma maneira de ver todo o projeto como mais maleável e, portanto, não permanente. Michael Heim aponta algo semelhante em seu Electric Language. Ele argumenta que o computador implica uma noção totalmente diferente do trabalho, da composição e da linguagem em uma revolução que não é diferente do movimento da cultura oral para a alfabetizada. O processamento de texto também encoraja o reaparecimento do que eu chamo de “tomo germânico”, o altamente comentado e documentado livro erudito agora tornado mais fácil pelos vários programas de rodapé favorecidos por estudiosos já inclinados a isso. Bruce Lee, editor da William Morrow and Co., descreveu na Newsday, 29 de janeiro de 1989, que “cerca de 80% do tempo é provável que eu receba um manuscrito que é mais longo do que o comprimento contratado do livro. De fato, desde que os processadores de texto surgiram, manuscritos de livro dobraram em comprimento… Uma razão é a facilidade em se fazer anotações”.)

Em nenhuma destas variações a tecnologia “determina” o estilo ou o tipo de composição, mas ela “inclina” para algumas possibilidades simplesmente em virtude de qual parte da experiência escrita é facilitada e qual se torna difícil (aqui retorna a estrutura ampliação/redução). Projetam-se tais inclinações dentre muitos usuários, o resultado fica próximo de ser previsível no nível social em larga escala.

O que situa este fenômeno completamente, contudo, é o contexto cultural. Modos de escrita isolados e especializados são os que resistem a todas essas inovações tecnológicas, a cópia das Torás nas tradições ortodoxas, por exemplo, ainda é feita em pergaminho e com caneta de pena. Ironicamente, enquanto as subculturas religiosas se mantêm vivas, alguns de seus praticantes hoje operam as mais altas tecnologias de imagem, computação e negócios eletrônicos na cidade de Nova Iorque, fato que aponta para o ecletismo tecnológico, pelo menos! No entanto, a diferença entre o pergaminho e o computador não é sempre confortável, mesmo dentro do ecletismo:

 

Quando o projeto para computadorizar o comentário sobre a lei judaica

estava em andamento na Bar Ilan University em Israel, os programadores se

depararam com um enigma. As leis judaicas proíbem que o nome de Deus,

uma vez escrito, seja apagado ou que o papel em que foi escrito seja

destruído. Poderia o nome de Deus ser apagado do monitor de vídeo, dos

discos, das fitas? Os rabinos ponderaram a questão dos programadores e

finalmente determinaram que esta mídia não era considerada escrita; eles

poderiam ser apagados.17

 

Se a questão de “controlar” a tecnologia é mal concebida, como eu tenho argumentado aqui, isto não significa ignorar os tópicos cruciais apontados naqueles debates. Existem tópicos sérios sobre se tecnologias devem ou não devem ser desenvolvidas (existe uma questão política sobre o desenvolvimento tecnológico implicada aqui). O tipo e o grau de avaliação de tecnologia atualmente praticados são claramente demasiado mínimos e primitivos, bem como muito controlado por precisamente aqueles que precisam ser “controlados”. Se o exemplo de avaliação de risco é ele próprio o maior exemplo de pensamento quantitativo, existe aqui uma forma mais nova e mais sutil de conflito de interesses regulatórios. As próprias agências, cujas práticas devem ser avaliadas, insistem em que os termos de avaliação sejam tecnocráticos em sua forma. Por sua vez, o estilo de avaliação torna-se modelado sobre o mais quantitativo da variação teórica ética e política do utilitarismo.

Há questões cruciais relacionadas com o debate sobre “controle” que gira em torno de conflitos entre a conservação dos habitats naturais (florestas tropicais, ambientes oceânicos, etc.) e o desenvolvimento de recursos, quais as formas de tecnologia precisam de subsídio (alternativas de produção de energia), tecnologias correlatas ao trabalho (intensivo versus não intensivo, particularmente entre países desenvolvidos e em desenvolvimento), etc. Entretanto, em um sentido profundo, embora essas questões sejam cruciais, elas também são primordialmente políticas em urgência e forma e situam-se dentro do campo cultural mais amplo. Na medida em que tal é o caso, esses debates são medianos e devem engajar uma cidadania, esperançosamente, bem instruída e informada, nem tecnologicamente analfabeta e nem hipnotizada pela mistificação da “expertise”. No entanto, nenhuma dessas questões de nível intermediário atinge diretamente os valores culturais mais profundos e amplos que situam todo o campo dos debates.

Poderia gostar-se de dizer que estes valores culturais são questões filosóficas, o que de fato são, mas precisamente porque são, são também as menos suscetíveis de “controle”. Pode ser fácil para o filósofo ver que uma metafísica da natureza como bem de consumo é uma metafísica pobre para melhorar a conservação até mesmo dos “museus sobre a natureza”, mas não é uma questão fácil mudar a sensibilidade cultural difundida ao longo de toda uma tradição.

A crítica da dominação ocidental da natureza por meio da ciência já tem sido um longo tema da crítica filosófica, recentemente

incorporado pelo criticismo feminista deste fenômeno.18 Precisamente porque os papéis macho/fêmea são parte da estrutura cultural, profundamente entrincheirados e há muito estabelecido, é difícil mudar estes padrões. Depois de décadas de ataque, permanece que, sociologicamente, as ciências naturais, junto com a engenharia, continuam predominantemente províncias masculinas, resistentes às mudanças de recrutamento e ainda mais resistentes às profundas mudanças conceituais mesmo em relação à triste história da metáfora da violação ou da sedução da “amante Natureza” (frases que ocorreram em um dos discursos de aceitação do prêmio Nobel do ano passado!). Parece mais fácil acomodar homens de culturas ainda mais dominadas pelos homens do que os nossos dentro desse quadro institucional (isso faz parte da história de sucesso em relação a muitos novos emigrantes) do que atrair ou acomodar mulheres nesse mesmo estabelecimento.