Tecnologia e o mundo da vida: do jardim à terra

Prefácio

 

A Indiana University Press tem orgulho em lançar a Indiana Series sobre Filosofia da Tecnologia com o seguinte trio: John Dewey’s Pragmatic Technology, de Larry A. Hickman; Tecnologia e o Mundo da Vida: do Jardim à Terra, de Don Ihde; e Heidegger’s Confrontation with Modernity: Technology, Politics, Art de Michael E. Zimmerman.

A Indiana Series é a primeira série norte-americana explicitamente dedicada à Filosofia da Tecnologia. (Existem outras séries que relatam filosofia e tecnologia, particularmente com alguns artigos interdisciplinares selecionados, mas nenhum deles totalmente devotados ao desenvolvimento de uma subdisciplina no âmbito da Filosofia). Amplamente concebidos, eles se destinam a uma ampla variedade de assuntos correlatos à tecnologia a partir de distintas perspectivas filosóficas. Filosoficamente, nossa abordagem vai ser pluralística; isso já é evidente em nossa primeira rodada de livros, os quais refletem igualmente as tendências das tradições do Pragmatismo americano e euro-americano.

Nosso trio é oportuno. Nós começamos com reavaliações radicais e novas interpretações dos dois filósofos do começo do século XX que fizeram das questões envolvendo a tecnologia centrais nas suas investigações, John Dewey e Martin Heidegger. E nós também iniciamos com uma sistemática reformulação do estatuto e do rol de questões concernentes à tecnologia em seu viés cultural descritas em Tecnologia e o Mundo da Vida. Depois, nós vamos adicionar outros volumes de natureza mais tópica e temática, com assuntos que vão desde Reprodução assistida, Tecnologias avançadas, Mídia e Racionalidade, Transformações tecnológicas da percepção e muitos outros.

Nossas metas são incluir críticas filosóficas e históricas e estudos interpretativos, bem como estudos originais e específicos, com uma perspectiva que é balanceada, racionalizada e rigorosamente relacionada ao novíssimo e emergente campo da Filosofia da Tecnologia.

Tecnologia e o Mundo da Vida propõe dar um ritmo para esta série. Ele procura evitar ambos os extremos utópicos e distópicos da tecnologia, que frequentemente acabam ocorrendo em relação a tal tema. Ele deriva de um contexto muito amplo de estudos científicos interdisciplinares. Nesse sentido, os dois pilares centrais são as relações entre o humano e a tecnologia e as relações de enraizamento cultural das tecnologias. É destinado para um público qualificado, porém amplo.

O que acabou de ser dito é apenas uma “perspectiva” editorial. Devido ao fato de que, neste caso, o editor é também o autor, eu aproveito a oportunidade para trocar de papel e assumir a perspectiva do autor e então descrever mais particularmente o panorama deste volume específico.

A jornada, igualmente intelectual e geográfica, por trás deste livro tem uma longa história. Por um lado, ela remonta até minha infância, numa fazenda comunitária no Kansas. Meu pai, meus tios e seus vizinhos eram todos “tecnológicos” em certo sentido. Um dos meus tios era, nos primórdios, um aviador dos velhos biplanos, que, em versões mais modernas, ainda são utilizados como pulverizadores nas plantações, e um primo em segundo grau, que costumava pousar em nossas pastagens, dava carona para meu irmão e eu no velho Aeronca. Todos haviam inventado ou sonhavam inventar alguma coisa; e, tal como inventores, meu irmão e eu arquitetamos uma máquina para levantar fardos do chão até o alto de uma carroça, um trabalho que nós não gostávamos de fazer manualmente. Existe igualmente um romantismo sobre as máquinas e a sensação de que tudo pode ser feito.

Aquele também era um tempo de transição, das máquinas de debulhar trigo de posse comunitária que eram levadas de fazenda em fazenda para debulhar o trigo à era das colheitadeiras. Colheitadeiras estas cuja multiplicação eu tenho testemunhado. No último outono, na Região de Chianti, na Itália, eu presenciei uma destas colheitadeiras, igualmente grande, mas que colhia uvas para a produção de vinho. E essa visão destruiu minha crença de que o trabalho manual ainda era amplamente usado neste processo.

Fazer filosofia sobre a tecnologia, evidentemente, começou muito tempo depois de minha infância na fazenda. Talvez suas raízes começaram a tomar forma quando eu era um pós-graduando na Boston University e trabalhava no Massachusetts Institute of Technology (MIT) junto à elite da Faculdade de Desenvolvimento Tecnológico. Mas não foi antes de 1975, depois de eu já estar seis anos na Stony Brook, que publiquei meu primeiro artigo, “A Phenomenology of Man-Machine Relations” [A Fenomenologia das Relações Homem-Máquina], cujo título foi criticado por um revisor que o qualificou como um título “machista”, forçando-me então a utilizar o termo “human-technology” [humano-tecnologia] como sendo uma expressão melhor. Depois disso, meu interesse começou a acelerar. Em 1979, publiquei uma coleção de ensaios como o primeiro volume sobre Filosofia da Tecnologia na Boston PhilosophyofSciences Series, Technics and Praxis (Reidel). Há um tempo, como uns dez anos, Filosofia da Tecnologia na América do Norte dificilmente poderia ser chamada de uma subárea da Filosofia. De fato, neste mesmo ano, o filósofo da ciência Mario Bunge escreveu: “Tecnofilosofia ainda é imatura e incerta sobre o seu objeto central e não explora o escopo total de suas próprias possibilidades. Que ela é uma ramificação subdesenvolvida da acadêmica é evidente pelo fato de que, até agora, nenhum filósofo proeminente fez dela seu foco principal ou escreveu alguma

monografia importante sobre ela.”1

Na Europa, é claro, já existia uma tradição muito maior. O primeiro livro usando o título Technikphilosophie foi publicado em 1877 pelo neo-hegeliano Ernst Kapp, que morou na Alemanha e no Texas. A sociedade alemã sobre Filosofia da Tecnologia já existia há várias décadas no início da década de 1980, quando foi presidida por Friedrich Rapp (que escreveu o segundo livro sobre Filosofia da Tecnologia na Boston Series, Analytic Philosophy of Technology, 1981). Rapp e Paul Durbin, o “pai” da Sociedade para Filosofia e Tecnologia (Society for Philosophy and Technology), que já promovia encontros há algum tempo, mas que foi oficialmente organizada apenas em 1983, lançou uma conferência com filósofos seletos, americanos e alemães, doze de cada cidadania. Isso ocorreu em 1981, em Bad Homburg, Alemanha. Aquele grupo, agora expandido a um amplo círculo internacional, ainda se encontra em anos alternados, usualmente alternando também Estados Unidos e Europa.

Talvez fosse natural que tais sociedades devessem alocar-se dentre as universidades industrialmente desenvolvidas e de tecnologias avançadas do Hemisfério Norte. E foi neste contexto euro-americano que, até então, eu havia desenvolvido meu próprio trabalho. Por volta de 1982, entretanto, em parte em resposta a uma, de certa forma, surpreendente recepção de Technics and Praxis em regiões em desenvolvimento, comecei a receber convites das universidades do Hemisfério Sul.

O primeiro deles veio da El Rosario Universidad (em cooperação com outras três universidades) em Bogotá, Colômbia, América do Sul. Ali, num seminário sobre Filosofia da Tecnologia intensivo para o corpo docente em desenvolvimento, em fevereiro de 1982, recebi algo como um despertar sobre o provincianismo do meu contexto euro-americano anterior. Eu não descobri apenas sobre a existência de uma impressionante diferença entre o contexto sul-americano e suposições sobre ciência e tecnologia que estavam sendo feitas, mas tive que recriar meu programa inteiro já planejado enquanto eu estava no processo de atender aos novos tópicos. As preocupações euro-americanas sobre as relações entre ciência e tecnologia pareciam-me algo bordado sobre o tema mais substantivo do impacto cultural da ciência tecnologizada sobre os latinos, uma vez que ciência e tecnologia eram vistas como um simples e unitário fenômeno, divulgado amplamente através de um cenário político-cultural e que foi percebido muitas vezes como tendo uma influência negativa sobre os valores e práticas indígenas. Foi então que eu comecei a ver as tecnologias como instrumentos culturais, bem como instrumentos científicos do meu trabalho inicial.

Depois, ainda no mesmo ano, eu visitei algumas universidades na África do Sul. Recusando qualquer ajuda de custo ou bolsa governamental, mas curioso para ver em primeira-mão esta aflitiva parte do mundo, e recebendo apoio através do interesse da BMW em Filosofia da Tecnologia e da University of Zululand (uma universidade negra), eu fiquei um mês na África do Sul. A postura ali foi bem diferente daquela relativamente negativa em Bogotá. O tema da conferência principal e da série de leituras foi “Technology and Utopia” (Tecnologia e Utopia) e, em muitos setores de ciência tecnológica, foi percebido como a forma de saltar para o século XXI.

Mais recentemente ainda houve a viagem para Nova Déli, Índia. Num país em que ainda existe um vivo debate sobre a direção “gandhiana” ou “nehrudiana” na política, existe ao menos acordo sobre a retenção da autonomia nacional de desenvolvimento no contexto de uma abordagem semisocialista, com uma política oficial para o rápido e positivo desenvolvimento técnico-científico. O Instituto Nacional para Desenvolvimento de Ciência e Tecnologia (The National Institute for Science and Technology Development) é um instituto de pesquisa impressionante, servido por algumas das melhores mentes jovens da Índia, mas desafiado por uma das maiores tarefas imagináveis em face da superpopulação e da pobreza contínua.

Estas e outras experiências ajudaram a convencer-me de que um livro tentando reenquadrar a questão da tecnologia tem que levar em conta o multicultural, que é o cenário mais internacional no qual cada cultura tecnológica é tomada e terá lugar. Esta é a razão para a ênfase específica aqui, particularmente na segunda e na terceira parte do “programa” que idealizei.

O foco que eu havia escolhido inevitavelmente deixava outras dimensões do mundo tecnológico pouco desenvolvidas. Havia falhas e a maior e mais importante delas era a dimensão sociopolítica. Embora esta dimensão não estivesse completamente ausente, permanecia em segundo plano. Igualmente, a sociologia e a política da ciência tecnológica em si estavam totalmente ausentes. Eu nem havia tentado cobrir todas as fronteiras das tecnologias emergentes. A ausência mais notável era uma discussão mais profunda sobre biotecnologia, claramente de crucial importância para o futuro da tecnologia. Eu não primei muito pela abrangência, mas, ao contrário, busquei focos mais temáticos que relacionavam ciência e tecnologia às suas dimensões culturais e de vivência humana.

Também sou bem claro a respeito do papel de minhas experiências pessoais no livro. Isto tem sido sempre uma característica do meu estilo e reconheço que alguns leitores podem gostar disso e outros podem não gostar dessas vinhetas autobiográficas. Embora escritores sejam guiados por e em respostas às suas próprias experiências pessoais, tenho utilizado as minhas experiências pessoais para se prestarem, por um lado, como a base que emprega seriedade às minhas questões e, por outro, para fazer o dever de casa no âmbito da tradição acadêmica, através de uma escrita cuidadosa e ávida, para um patamar que vai além de alguma coisa simplesmente autobiográfica. Isto é o que ocorre com o caso das múltiplas culturas utilizadas como exemplos aqui. Desde os primeiros dias junto aos programas de pós-graduação na Stony Brook (em que nosso currículo demandava que ensinássemos em grupo durante um ano num trabalho interdisciplinar, no qual eu compartilhei interfaces entre Filosofia e Antropologia) à viagem a Australian National University, em 1985, destinada a aprofundar os meus estudos sobre os aborígenes e os grupos do Pacífico Sul, aos quais eu me referia, eu tenho procurado examinar e investigar o que pode ser afirmado sobre estas culturas.

Existem mais duas experiências que são relevantes. A primeira é a questão do atraso em ter o livro pronto de acordo com a agenda inicial decorrido pelo fato de eu ter assumido o decanato das Humanidades e Artes na Stony Brook, em setembro de 1985. Embora aquele trabalho impedisse a finalização do manuscrito até eu obter uma licença para pesquisa no outono de 1988, ele me oportunizava uma experiência inédita em “sociologia e política” nas faculdades de ciência e tecnologia. Stony Brook, como é típico nas grandes universidades públicas que se destinam à pesquisa, não é apenas dominada pelas ciências (naturais), mas também é administrada nos altos níveis por uma equipe de cientistas (das ciências da natureza) transformados em gestores. Com esta situação eu aprendi muitas lições e apenas algumas delas ecoam aqui.

A outra experiência coloca o “você é o que você come” no centro de muitos dos meus contos. Durante os recrutamentos para o Departamento de Filosofia, nós costumávamos brincar que depois de determinar os indivíduos que eram boas promessas para a filosofia, as questões “reais” poderiam começar com “Que culinária você pratica?” na esperança de que um novato pudesse ser incluído no repertório social.

O banquete, como cenário para o filosofar, é ao menos tão antigo quanto o Symposium, embora eu vá um pouco longe com o que uso nos meus esforços em elaborar metáforas. Essa metáfora distante talvez possa servir, em parte, para falar sobre a finalização da escrita que ocorreu nas colinas da Toscana, Itália, na terra de uma das melhores culinárias do mundo. A escolha desta localização, feita mais por necessidade acadêmica de escapar das pressões diárias de sua própria universidade do que por qualquer outro motivo, não foi, contudo, a única razão para eu ter escolhido a Toscana.

A Toscana também possui implicações históricas e filosóficas muito fortuitas justamente por ter sido o berço do Renascimento Científico, a ciência moderna. Vinci, a vila de Leonardo, estava localizada logo na esquina da minha casa na fazenda, e Pisa, a terra de Galileu, não ficava mais que a uma hora de distância. Essa circunstância me oportunizou uma inesperada, mas agora muito apreciada, concretude para o processo de escrita.

Depois desta longa gestação, Tecnologia e o Mundo da Vida agora está finalizado. Os estágios iniciais deste livro foram possibilitados por um período sabático gozado em Paris, em 1984, seguido de um verão como Professor Visitante na Australian National University, Camberra, em 1985, mediante os auspícios de Richard Campbell e da Faculdade de Artes. O semestre de pesquisa em Spazzavento, Itália, no outono de 1988, foi financiado, novamente, pela Stony Brook.

O livro tomou forma no âmbito de uma comunidade intelectual. Aqui, também, o projeto iniciou na Stony Brook, mas alcançou todos os cantos do planeta. Eu sempre tive segundo e terceiro pensamentos sobre quem eu deveria mencionar e preocupações sobre quem deveria ser mencionado e em quais contextos. Dadas estas circunstâncias, vou simplesmente nominar alguns dos indivíduos que muito diretamente contribuíram nas discussões críticas e na edição, e a quem eu devoto uma gratidão especial: na Stony Brook, existe Patrick Heelan, bem como Marshall Spector, Ruth Cowan, John Truxal e, mais recentemente, Ann Kaplan; depois, também, eu devo mencionar os dois que se tornaram doutores em Filosofia da Tecnologia durante as dores do parto deste livro, Paul Thompson e Larry Kilbourne.

Uma crítica e atenção muito especial foram feitas por Robert Ackermann, Albert Borgman, John Compton e Frecerick Ferre, com discussões ampliadas por Robert Cohen, Paul Durbin, Lester Embree, Larry Hickman, Joseph Kockelmans, Lenore Langsdorf, John McDermott, Joseph Pitt, Langdon Winner e Marx Wartofsky e, recentemente, Sandra Harding, Susan Squier e Anthony Weston.

A lista de fora da América do Norte é igualmente grande e, dentre outros, eu devo citar Friedrich Rapp, Richard Sylvan, C. C. DeBerr, Maurita Harney e R. Sinari.

É claro, nada disto teria ocorrido, particularmente dentre as múltiplas pressões e esforços de viagem, decanato, e todo resto, se não fosse por minha super-secretária, Jean Kelley. Ela foi capaz de superar o sistema pré-moderno de correio italiano e obteve o manuscrito completo reduzido a disquetes durante o afastamento para o semestre de pesquisa e o recesso seguinte. Então, durante as noites e ao longo dos finais de semana, ela produziu a primeira edição de texto a partir das minhas notas e manias de inserir anotações. Eu apenas espero que ela não tenha sofrido com a nova doença causada por computadores que eu descobri na Austrália chamada LER (lesão por esforço repetitivo), que ocorre depois que se passa muito tempo diante de um computador na mesa de trabalho. Outras horas foram gastas por Curt Naser, do Instituto de Humanidades, checando as notas de rodapé e os detalhes técnicos. E Mary Jane Gormley, editora da Indiana Press, que não só corrigiu e reduziu o excesso de prosa, mas fez isso com o maior senso de humor e adicionou insights à minha longa experiência com pessoas que executam esta tarefa.

Em casa, minha esposa Linda Einhorn-Ihde, que com seu suporte no inglês, de bom grado, me emprestou suas habilidades em gramática e estilo. E meu filho mais novo, Mark Hillel Ihde, a quem este livro é dedicado, forneceu igualmente um novo senso de entusiasmo e uma razão para ver, por meio dele, esperança nos caminhos que nossas tecnologias podem seguir no futuro.