Tecnologia e o mundo da vida: do jardim à terra

C. Artefatos e tecnofatos

No caso de Colombo, esta breve descrição deve ser suficiente para demonstrar que a localização já estava geometricamente estabelecida; e que o estabelecimento de tais localizações demandam percepções hermenêuticas; e que junto a este contexto hermenêutico, a instrumentalização é usada para mediar as percepções. Este é o paralelo prático para as técnicas da Renascença no que diz respeito à perspectiva e à geometrização. Colombo e da Vinci foram, afinal, contemporâneos. Esta práxis já era comum um século antes de Galileu utilizá-la em um novo contexto. Ela era parte do mundo da vida que ele pode assumir e tomar como certo.

 

C. Artefatos e tecnofatos

 

Nossas ações são incorporadas nas múltiplas formas em que interagimos com nossas tecnologias e as pressupomos, ainda que esta multiplicidade permaneça perceptiva e praxiologicamente ambígua. O que existe sobre os artefatos que empregamos? A junção humano-tecnologia apresenta uma ambiguidade enigmática. Imagine que existe, sobre minha mesa de centro, uma pedra em forma simétrica. Ela é de forma ovalada com uma das pontas mais afiada que a outra, achatada por ter sido lascada, de forma que uma marca afiada corre por toda a circunferência. Meus convidados chegam; e depois da primeira rodada de drinques, alguém pega a pedra e pergunta: “O que é isto?”

O artista que está na festa toma a pedra e pronuncia que ela é um objet toruvé (um objeto escolhido aleatoriamente considerado esteticamente agradável). É uma espécie de objeto artístico. O escritor, que nota que a brisa está agora agitando as páginas da revista sobre a qual a pedra estava colada, rebate dizendo que a pedra é meramente um contrapeso para papel, um objeto prático. Mas o antropólogo zomba deles, e com deduções como as de um detetive afirma que ela é, na realidade, um machado de mão acheuliano. Ele nota não apenas que o objeto é formatado apropriadamente, mas que objetos deste tipo são uma parte familiar ao conjunto de ferramentas da Idade da Pedra, encontrados desde as margens do Rio St. Acheul na França até o Rio Vaal na África do Sul.

A dificuldade latente a este questionamento é genuína. O que é o objeto? O objeto é ou pode ser qualquer das coisas denominadas, ou pode se tornar algo a partir da forma como for usado. Isto, também, é uma ambiguidade essencial às tecnologias. Sendo um objeto, o machado de mão acheuliano pertence a um variado número de contextos de uso; mas o antropólogo replica: ele foi projetado para ser um machado de mão, e assim tem sido tomado por décadas pelos classificadores no campo.

Todavia, outro convidado informado menciona ter lido um artigo em uma recente edição da Revista de História Natural sobre este mesmo machado. Parece, depois de décadas de noções aceitas sobre o seu uso projetado que existe uma anomalia para o machado de mão, a circunferência afiada teria sido certamente perigosa para o usuário. E em uma pequena mudança de forma, o autor propôs que talvez o “machado” era de fato um projétil, que servia para ser lançado como um disco. Empregando uma boa prática científica contemporânea, o autor do artigo pediu para que arremessadores de discos profissionais lançassem o objeto e assim constatou que a parte pontuda e afiada tocou o chão primeiro em 31 de 45 arremessos! Uma nova interpretação sobre o uso projetado começa a tomar forma.

O que nós temos neste exemplo poderia ser reconhecido pela literatura humanista como sendo o correspondente antropo-arqueológico de uma falácia intencional. Em círculos literários, faz tempo, muito antes de deixar de ser moda, que se parou de procurar pelas “intenções” de um autor em uma estória escrita; de fato, tem sido argumentado que sequer é possível fazer isto. Neste caso, as intenções do designer são procuradas, mas permanecem em questão. De modo similar, em qualquer bom exercício interpretativo (hermenêutico), o humanista viria a reconhecer que enquanto existirem intenções, a estória pertence a um diferente contexto e é possível para múltiplos contextos. Então, do mesmo modo, acontece com a pedra. As intenções do designer desempenham apenas um pequeno papel para a subsequente história do artefato. Afinal, foi a intenção de Nobel, com a invenção da dinamite, que ela fosse usada para a mineração e em benefício da humanidade. Design, na história da tecnologia, usualmente ocupa uma posição secundária junto à multiplicidade de usos, poucos dos quais foram intencionais no momento de seu lançamento.

Até mesmo em um nível mais profundo, esta multiplicidade de usos revela uma pista fenomenológica inicial que precisa ser seguida. Não existe a “coisa-em-si”. Existem apenas coisas em contextos, e contextos são múltiplos. Pode-se facilmente voltar para o nosso ex-machado de mão e ir além, imaginando a pedra numa estória primal de caçadores da Idade da Pedra, escondendo-se junto aos juncos dos antigos rios, agora emergindo como um grupo da “artilharia” bombardeando ou apedrejando um rebanho de antílopes ou um bando de gansos. Agora podemos localizar a pedra em inumeráveis contextos. Eu poderia tê-la utilizado como uma pedra angular em alguma de minhas lareiras em Vermont; os meus vikings poderiam tê-la colocado no porão do navio, como um lastro; ou alguém poderia tê-la cimentado, com a ponta para cima, ao longo do topo das cercas de pedra, tal como os europeus faziam.

A ambiguidade dos objetos acheulianos é a ambiguidade da tecnologia em geral. Existe outra razão por não começar com um objeto como sendo objeto. Um objeto tecnológico, qualquer que ele seja, torna-se o que ele “é” por meio de seus usos. Isto não dizer que as propriedades técnicas dos objetos são irrelevantes, mas é dizer que tais propriedades em uso tornam-se parte da relatividade humano-tecnologia. E nem isto é negar que existe um tipo específico da história para o desenvolvimento das propriedades técnicas.

Técnicas animais são frequentemente o uso temporário de simples objetos encontrados (espinhos, gravetos, etc.) e este é, sem dúvida, o caso dos primeiros humanos. Mas gravetos não permanecem gravetos. Eles se tornam lanças, e neste processo há uma formatação e manufatura em artefatos tecnológicos. Os aborígenes australianos regularmente arrancavam as longas e retas hastes de certas plantas para suas lanças, mas em seguida eles prendiam pontas de madeira endurecida pelo fogo nas extremidades das lanças, usando colas e rejuntes vegetais. Eles começaram a transformar a qualidade simplesmente “encontrada” em tais objetos.

Transformações mais complexas ou de alta ordem também começaram a ocorrer no passado, mas foram aceleradas nos contextos atuais de alta-tecnologia. O que eu chamarei de tecnofatos é um objeto no qual a matéria em si tenha sofrido níveis de transformação. Plásticos, agora onipresentes, simplesmente não ocorrem na natureza. (Embora substâncias similares possam ser aproximadas ao plástico. Eu lembro-me de ter visto pisos pretos e brilhantes nas tradicionais cabanas em forma de colmeia dos zulus, e notado o quanto estes materiais se pareciam com o plástico. Quando eu perguntei como eles eram feitos, a resposta foi “formigueiro e esterco de vaca”.)

Uma vez que a trajetória tecnológica tenha começado, artefatos e tecnofatos se tornaram gradativamente diferenciáveis dos produtos naturais. Mas isto também é um sinal da entrada na relatividade humano-tecnologia. Mesmo as propriedades técnicas adquirem uma significância no contexto do uso. Pedra, uma vez formatada, adentra na práxis. A dureza se torna dureza para ______; ponta afiada, ponta afiada para ______. Assim o que é “natural” na pedra se torna artifactual junto à relatividade.

Se a ambiguidade do objeto é um lado do problema, então o outro lado é que virtualmente qualquer objeto pode se tornar finalmente uma tecnologia, se puder ser trazido junto à variedade da práxis humana. E se nosso machado de mão pode ter sido ou pode ter se tornado um objeto em uso em uma variedade de contextos, o inverso também é o caso. Qualquer contexto de uso também pode utilizar qualquer número de artefatos ou tecnofatos. Se o martelo de Heidegger pode ser usado como um martelo (seu propósito projetado), mas também como a arma de um assassino, um objeto de arte, um contrapeso, etc., então qualquer número de itens pode ser usado para martelar, incluindo o machado de mão acheuliano.

Esta ambiguidade de objetos em contextos de uso é abundantemente ilustrada nas histórias de transferências tecnológicas. A roda de oração hindu (um moinho de vento que é uma máquina de oração autômata, que faz com que a oração vá para os céus toda vez que o vento gira a roda), de Lynn White, tornou-se uma fonte de energia para drenar as terras baixas holandesas. Os conquistadores espanhóis bastante cientes usaram sinos de aves (pequenos sinos de bronze utilizados na falcoaria) e espelhos, ambos projetados para diferentes propósitos, como bugigangas para o comércio e a fascinação dos indígenas da América Central e do Caribe. Quando o objeto é transferido, seu uso pode ser bem diferente daquele de seu contexto cultural prévio.

Todas estas ambiguidades podem ser notadas antes de uma fenomenologia mais rigorosa das relações humano-tecnologia. O propósito de tal fenomenologia, no entanto, é reduzir a abertura notada junto à ambiguidade para uma análise estrutural que atravessa e representa a variedade de possibilidades que ocorrem dentro da ambiguidade essencial da tecnologia.