Tecnologia e o mundo da vida: do jardim à terra
G. Sonhos de totalização
Que devemos parar com a falta de totalização não é em si estranho; o que é estranho é a persistência do sonho moderno cartesiano do perfeccionismo dos autômatos inteligentemente desenvolvidos como um substituto para os seres humanos.
G. Sonhos de totalização
Junto a este primeiro itinerário através das relações humano-tecnologia parece haver uma vasta anomalia. Por um lado, um exame das relações humano-tecnologia revela uma profunda continuidade nas formas que os humanos têm vivenciado suas tecnologias. Estas relações existenciais se aplicam igualmente para antigas e modernas, simples e complexas tecnologias. Enquanto que uma fenomenologia estrutural visa invariantes, isto é tal como deveria ser; ainda que esta ênfase sobre a igualdade deixe algo de fora particularmente no que diz respeito ao que aparece ao contemporâneo como sendo a vasta diferença entre todas as sociedade tradicionais e não industriais e nós mesmos.
Em parte, esta impressão é parte de uma tática deste primeiro programa na análise humano-tecnologia. Eu tenho tentado demonstrar que existe uma continuidade que compreende igualmente a história e as culturas humanas para além dos propósitos extravagantes daqueles que dissociariam a nós de nossos passados e de nossos pares. Ainda que desprezar a disjuntura entre as culturas maximalistas de hoje e aquelas minimalistas ou menos que minimalistas formas de vida, seria também uma distorção.
Não que sugestões sejam escassas no que diz respeito a estas diferenças. Tal tema, seguido estreitamente, mas propositadamente aqui, tem sido a ênfase sobre as disjunções que agora são possíveis por meio da instrumentação moderna. Ciência moderna, na minha visão, é distintivamente diferente de todas as ciências antigas em virtude de sua incorporação em instrumentação, sejam do tipo hermenêutico ou de incorporação, por terem feito possíveis visões do universo que tanto imaginativamente e perceptivamente excedem e se diferem de todas as cosmologias antigas. Alfred North Whitehead fez a mesma observação:
A razão para nós estarmos em um nível imaginativo mais alto não é porque
nós temos uma imaginação melhor, mas porque nós temos melhores
instrumentos. Na ciência, a coisa mais importante que aconteceu nos últimos
quarenta anos foi o avanço no design da instrumentação….um instrumento
fresco serve o mesmo propósito que uma viagem ao exterior; ela mostra
coisas em combinações incomuns. O ganho é mais do que uma mera
adição; ele é uma transformação.12
Esta transformação é a qualidade de disjunção que começa a ocorrer com o surgimento da ciência moderna, mas que foi enormemente acelerada apenas em tempos mais recentes.
Uma segunda pista para a disjunção entre tempos antigos e contemporâneos repousa nas formas como os sonhos de totalização são atualizados nas culturas maximalistas de hoje e nas minimalistas de ontem. De fato, humanos terem se tornado uma força geológica virtual através das tecnologias ampliadas dos tempos recentes é o assento de uma de nossas preocupações distintivas contemporâneas. Se os produtos industrializados são a maior causa do recentemente descoberto buraco na camada de ozônio na Antártida como se suspeita, se a eliminação de um número de espécies de pequenos animais ameaçados pela destruição das florestas tropicais (uma porcentagem grosseiramente equivalente em número às grandes espécies de animais extintas do passado), se a chuva ácida criando poluição ameaça as florestas nas mais altas altitudes do Hemisfério Norte, então nós temos razões para esta preocupação.
Ainda que a intensidade do impacto humano através da tecnologia no mundo atual seja claramente de uma magnitude maior que em qualquer tempo histórico, ele não é sem precedente. J. Donald Hughes, num livro notavelmente pessimista, Ecology in Ancient Civilizations, argumentou que a despeito de diferenças culturais, cada uma das civilizações circundando o Mediterrâneo produziu os mesmos resultados de (a) desmatamento, (b) pastoreio excessivo de ovelhas e cabras, e (c) erosão irreversível resultando (d) no clima árido de hoje ao longo de toda a bacia do Mediterrâneo.
Este resultado é similar quando falamos dos gregos, hebreus, romanos, fenícios ou de qualquer outro dos progenitores de nossa civilização antiga europeia. Ecologicamente falando, Hughes fornece um contraponto antirromântico à glorificação de Heidegger do templo grego:
Aqueles que olham para o Parthenon, aquele símbolo incomparável das realizações de uma civilização antiga, normalmente não enxergam sua configuração mais ampla. Atrás da Acrópole, as descobertas e secas montanhas de Ática mostram seus ossos rochosos contra o azul do céu mediterrâneo, e as ruínas do mais luxuoso templo construído pelos gregos antigos são circundadas pelas mais vastas ruínas de um meio-ambiente que
eles devastaram ao mesmo tempo. 13
Ainda mais antigas são as implicações dos humanos para as extinções dos grandes mamíferos do final da Era do Gelo. Ou, para voltar para um exemplo mais recente e não ocidental, extinções similares de todas as grandes aves sem asas na maioria das ilhas do Pacífico ocorreram com a expansão ao oeste dos navegadores polinésios de quem falei anteriormente. Tais resultados não são claramente os únicos efeitos seja de nossos ancestrais culturais ou de nossas histórias, mas repousam profundamente nas estruturas de possibilidade do humano.
Tais trajetórias emergem a partir dos sonhos de totalização sugeridos aqui? Novamente, a resposta precisa respeitar a ambiguidade cultural. Para completar este primeiro itinerário, desejo contrastar o que devo chamar dois sonhos diferentes de totalização. Devo tomar como meus exemplos nossa própria cultura maximalista e contrastá-la com uma das culturas tecnologicamente mais minimalista por mim conhecida, a do interior dos aborígenes australianos.
Para propósitos ilustrativos, apenas porque encontrei profundas falhas em tal interpretação, devo assumir que aqueles críticos do nosso desenvolvimento histórico estão corretos em caracterizar a tendência dominante de nossa cultura Tecnológica (com “T” maiúsculo) como sendo aquela cujo sonho de totalização é gerado para trazer a natureza em si sob o controle da cultura. Se o propósito da tecnologia é controlar a natureza ou torná-la disponível para os propósitos humanos, então, interpretações tais como aquela de Lynn White Jr., que viu na história do Ocidente uma busca por poder emergindo a partir da consciência religiosa (subjugar e dominar a terra), ou esta de Heidegger, que viu o revelador poder da tecnologia moderna como tendo revelado o mundo como sendo uma fonte de “matéria-prima” (minha tradução de Bestand), estão corretas.
Se um deles toma as culturas aborígenes do interior em contraste às do litoral, pode parecer que aqui se encontra uma exceção à direção precisamente tomada por nossas histórias. Assim tomado, o exemplo é impressionante: primeiro, deve-se notar que os ancestrais dos aborígenes chegaram ao menos 40.000 anos atrás, tal como evidenciado por artefatos encontrados no Sul da Austrália; segundo, eles ficaram amplamente isolados de invasões externas e migrações (uma exceção aparentemente ocorreu no Norte por volta de três mil anos atrás quando o dingo foi introduzido; esta introdução não neutra de um cachorro selvagem conduziu à extinção do lobo marsupial, um dos poucos predadores marsupiais). Assim, os aborígenes, pode-se dizer, são uma das culturas continuamente isoladas por mais tempo no mundo.
Que eles sobreviveram afinal em tais condições áridas é impressionante, mas para terem sobrevivido de tal forma que sua cultura primária pode ser caracterizada pelo que nós podemos chamar de “atividades de lazer” é ainda mais notável. Nesse contexto, deve-se notar que pouquíssimas horas do dia são gastas juntando ou preparando comida. Muito mais tempo, relativamente, é gasto em suas versões de tempos de argumentação filosófica, de contar estórias e argumentar sobre o sistema mítico-religioso que se destaca por sua complexidade. Atividades de celebração tomam muito do tempo cultural comum. Casamentos, funerais e festivais sazonais duravam semanas como foi notado no tempo dos primeiros exploradores europeus. Atividades artísticas também foram destacadas, tanto em sua forma visual quanto auditiva. As pinturas em “raios-X” em Arnheim Land e a música Didgeridoo são hoje valorizadas pelos habitantes da nossa cultura pós-moderna.
Esta cultura milenar foi claramente uma das culturas tecnológicas mais minimalistas, não que faltassem artefatos materiais por perto, pois havia coleções de armas, incluindo a invenção dos bumerangues retornáveis e não retornáveis, lanças (pré-Idade da Pedra, as pontas eram de madeira endurecida), dispositivos para lançamento de lanças que aumentavam o poder das armas, fundas, etc., mas não o arco e a flecha encontrados virtualmente em todo o mundo em outras culturas antigas.
E se o repertório de caça dos homens deve ser igualado por um conjunto igual de tecnologias no lado da atividade feminina da coleta (e esta era o fonte de comida mais importante), então as cestas avançadas, adaptadas para carregar ovos de Emu, escavação e outras ferramentas também podem ser destacadas.
Junto à prática religiosa havia máscaras e uma ampla variedade de artefatos estético-religiosos, incluindo as famosas pinturas de pele e desenhos nas cavernas que eram representações “raios-X” de animais, ainda que o espectro seja mínimo em qualquer comparação a qualquer outro conjunto de ferramentas ou objetos manufaturados de outras pessoas não migratórias.
O conhecimento “técnico”, no entanto, era vasto e complexo, particularmente no que diz respeito às fontes de alimento. Assim que comecei a estudar esta cultura, fiquei tentado a especular que um axioma central cultural podia bem ter sido: “Tudo é potencialmente comida; a única questão é como fazer isto acontecer.” Os aborígenes descobriram ou inventaram processos de desintoxicação que algumas vezes tem três passos, em contraste ao processo de muitas outras culturas que são simplesmente técnicas de aquecer por fervura, assar ou imergir. A variedade das fontes de comida incluía cerca de trinta variedades de pães feitos de relva e sementes de ervas selvagens, iguarias de morcegos assados apanhados por crianças e as escassas larvas de inseto wiitchetty (uma larva de uns dez centímetros de comprimento que habitam os sistemas de raízes das árvores wittchetty). A larva é encontrada ao bater-se o calcanhar do pé de alguém ao longo da base da árvore e ouvir aos sons dos buracos por eco localização.
Contos foram ditos sobre o espanto dos aborígenes quando os primeiros europeus tentaram cruzar os desertos centrais da Austrália. Muitos destes morreram de sede, dessecação e exposição. A resposta aborígene foi a de admirar-se, afinal como numa terra com tanta fartura alguém poderia ser tão estúpido. Para água, por exemplo, tudo o que se precisava fazer era encontrar a rachadura no chão de terra seca de uma localização apropriada e cavar cerca de sessenta centímetros até encontrar uma rã envolvida por uma membrana e, assim, cercada por água aguardando pelas próximas chuvas (o que pode significar vários anos de espera), beber a água, e comer a rã de brinde!
Aqui, então, é uma cultura minimalista que necessariamente aprendeu a lidar com um ambiente hostil. Para a cultura obter sucesso, no entanto, existem preços a serem pagos. Um segundo axioma, depois de maximizar o comestível, deve ser um direcionado a minimizar o crescimento populacional. Aqui, como esperado, há meios que podem ser encontrados: um meio incomum é uma forma de “controle de nascimento dos machos” na prática do ritual de subincisão nos adolescentes machos nos ritos da puberdade. Subincisão consiste em um buraco permanente feito na parte de baixo da base do pênis por meio do uso de um espinho inserido durante a cerimônia de iniciação. Subsequentemente, um “homem” de verdade terá que segurar este buraco quando urinando para marcá-lo como um homem. Um efeito colateral inesperado é que haverá um número limitado de espermas escapando durante o intercurso, diminuindo, assim, efetivamente, a contagem de esperma e também diminuindo a probabilidade de inseminação. É claro, medidas mais drásticas também podem ser tomadas para manter a população baixa. Associada com a crença de que nenhum casal deveria ter mais do que duas crianças (que poderiam assim ser carregados numa fuga; uma terceira teoricamente teria que ser deixada para trás), há evidência de outro método de controle de natalidade familiar no Pacífico Sul: infanticídio.
Tais preços são improváveis de serem pagos por aqueles de nós que habitam nossas próprias culturas. Similarmente, expectativa de vida, tolerância aos climas extremos e coisas do gênero não estão prestes a ser negociados por nós pela sobrevivência em tal forma de vida. E a resposta intercultural definitiva também parece ser visível bem como dentre os aborígenes de hoje, é uma cultura amplamente subsumida junto às bordas de uma cultura dominante europeia que já conta com dois séculos de duração.
Eu não disfarçarei certa admiração pela aprendizagem humana e adaptabilidade que os aborígenes exemplificam, particularmente em relação ao que eu chamaria de sistema ético-religioso que funcionava como um conservacionista ético. Duas crenças simples indicam como tal ética funcionava. Uma regra relata-se à proibição contra matar qualquer animal junto de seu território sagrado. O contexto para esta regra é explicado em termos não suscetíveis de serem acreditados por nós. Ele inclui elementos do totemismo, no qual os animais célebres pertencem a um grupo de parentesco (embora o relacionamento próximo entre humanos e animais é uma matéria que vai se tornando uma questão mais interessante em nosso próprio tempo).
A forma como esta regra conservativa funciona é clara. Animais podem ser comidos, mas apenas dentro de limites. De forma que isso deriva que um território sagrado é precisamente o território de reprodução e a fonte de água para o animal. Em tempo de secas severas ou em tempo de acasalamento, o animal precisa ser poupado, mesmo em condições extremas, mesmo ao ponto de que algo da tribo precise ser sacrificado em prol do animal. Dessa forma, o balanço das populações humano/animal é assegurado, assegurando, por sua vez, o futuro.
Uma segunda regra similar, novamente baseada em crenças totêmicas, diz respeito aos animais raros não utilizados ou utilizáveis. Sanguessugas, por exemplo, não podem ser mortos desnecessariamente. E a razão dada é que sanguessugas pertencem à grande série de relacionamentos que caracterizam o mundo aborígene: eles são parte do ecossistema intimamente ligado. Tal entendimento possui um significado funcional profundo num delicado ambiente de deserto. Ele é moldado em termos pré-científicos, mas é “contemporâneo” no que diz respeito a soar como
um entendimento ecológico. 14
O ponto aqui, no entanto, não é recomendar substituir a cultura aborígene pelas nossas, nem simplesmente romantizar o modo minimalista de vida exemplificado por aquela cultura; antes, é fazer o contraste com nossa cultura no que diz respeito ao papel relativo desempenhado pelas tecnologias. Não é simplesmente a ausência de tecnologias complexas que faz duas culturas diferentes, mas o que pode ser chamado de duas radicalmente diferentes formas nas quais o mundo é revelado. O aborígene também segue o sonho de totalização, mas um sonho diferente, o sonho do Dreamtime.
O Dreamtime é a “natureza” trazida junto à “cultura” de uma forma diferente do entendimento heideggeriano de matéria-prima. Ainda que toda a natureza seja “levada em conta” no Dreamtime, por meio de estórias que fazem dos elementos da paisagem espaços sagrados. Assim, o promontório é “onde a goanna sonha” num longo e complexo conto que é contado e que também exemplifica alguns valores morais e tribais. Os caminhos das águas são “onde a grande cobra vagava” em algum outro conjunto de contos similares. O Dreamtime é tomar o mundo da natureza não tecnológico junto a esta cultura, ainda que isso seja uma tentativa de totalização, o modo do mundo revelado.
Funcionalmente, tal modo de revelar o mundo, particularmente quando considerado sobre mais de 40.000 anos de história destes povos, fez pouco para modificar o atual meio-ambiente. E ele foi história cultural que não desenvolveu a fascinação por invenções artefactuais que se mostra em nossa própria história.
Então, ao final deste primeiro itinerário, ao menos, existe, da mesma forma, uma igualdade em nossas trajetórias em sonhar com totalidade e uma profunda diferença. O sonho de tomar a natureza tecnologicamente para o interior de uma cultura é apresentado como pertencente à história, à nossa história. O enigma que aparece nesta junção é que nossa própria história distintiva parece ser a atualmente dominante. A cultura aborígene hoje é vestigial no sentido de que, com exceções isoladas, os métodos antigos não são mais transmitidos, ao menos não em suas formas originais. Mesmo a vibrante religio-arte dos povos precisa agora enquadrar-se num contexto que a reposiciona num intercâmbio transcultural, para ser considerada como uma commodity de arte não mais pertencente ao seu relacionamento Dreamtime. Mas este é o destino de virtualmente todas as culturas tradicionais deste tipo.
Existe, então, uma única e maciça trajetória para a ascensão da cultura de alta tecnologia e sua consagração como sendo a cultura mundial? Se assim for, os Marcuses, Jonas e Elluls viriam a ser os profetas para os nossos tempos.