Tecnologia e o mundo da vida: do jardim à terra

E. Fenômeno horizontal

 

Os limites desta primeira análise estão agora ao alcance da mão. Com os aspectos de campo e indiretos das relações de segundo plano, também se indica o fenômeno horizontal, que marca as fronteiras da fenomenologia. (Deve-se notar que o termo “horizonte” na fenomenologia é um conceito-limite. Diferentemente da expressão comum “expandir os horizontes”, tal possibilidade não existe aqui. O horizonte é o limite além do qual a investigação cessa de apresentar suas características internas e, como uma viagem pelo mar, o horizonte sempre permanece aquela fronteira distante entre o céu e o mar ou terra e mar. Ele nunca fica mais próximo.)

Horizontes, no entanto, podem ser indicados num número de formas no que diz respeito ao extremo fenômeno de borda. Eles são de um uso importante e indicativo aqui, sendo que tal menção deve ser feita ante de se mover para o segundo programa. Em toda a análise precedente, a experiência da tecnologia sempre foi tal que existia alguma diferença experiencial recorrente entre o que é vivido e o vivente. Todas as transparências têm sido notadas como sendo quase transparências, todas as alteridades como quase alteridade, e até mesmo as ausências presentes dos fenômenos de segundo plano são pelo menos indiretamente recuperáveis.

Tal posicionamento das tecnologias como pertencentes a um continuum de relações, que aponta para propriedades artefactuais essenciais junto à práxis humana, tem sido um constante achado em todas as variações. Ainda que a questão das extremidades, além do que não tem recuperação, onde talvez as tecnologias deixem de serem tecnologias, continua intrigante. Eu devo tentar localizar tal fenômeno junto ao espectro das fenomenologias explícitas que eu tenho seguido.

No caso das relações de incorporação, existem incorporações que caem “abaixo” de recuperação? Tecnologias de incorporação são tomadas junto às experiências pessoais, mas permanecem distintivas, ao menos na borda ou eco fenômeno, como outra que não eu mesmo. Mas o que dizer sobre o desejo secreto de ter a tecnologia se tornando eu? Tais desejos são aproximados nas trajetórias biônicas das tecnologias contemporâneas. Um exemplo de fronteira é o dente obturado. Embora haja pouca dúvida de que algo está sendo “adicionado” à minha boca durante o procedimento dental e há um período de acomodação no qual vivencio a estranheza da cobertura, depois de um tempo o dente se torna quase que totalmente incorporado. Mesmo ainda aqui, permanece uma consciência menos distinta recuperável da diferença na textura, a sensação de quente ou frio, e o fato de o dente ficar mais escorregadio, aspecto que demanda por gomas de mascar especiais que não ficaram grudadas. Mas a artifactualidade da cobertura é, de fato, um extremo de recorrer como sendo uma relação. Ela se aproxima de “ser eu”.

São menos os implantes que, segundo reportam os usuários, são vivenciados como sendo um diferente modo de ser o seu próprio corpo. Articulações do quadril de aço inoxidável e teflon permitem ao previamente debilitado caminhante a recuperar a caminhada próxima do normal, mas as diferenças discerníveis permanecem uma consciência de borda do indivíduo bionicamente transformado. Ainda que tais implantes protéticos possibilitem um “ser junto ao mundo” como sendo um ser corporalmente modificado.

Tais transplantes mecânicos ainda não alcançaram a extremidade do fenômeno horizontal. Um ainda mais extremo conjunto de exemplos emerge das transformações químicas, o que eu devo chamar de tecnologias ingeríveis. A história das pílulas de controle de natalidade é instrutiva neste caso. As primeiras usuárias das pílulas reportaram dois resultados: elas de fato sentiram mudanças no corpo, naquele período dores foram sentidas de forma diferente; e algumas vezes houve outros efeitos colaterais, tais como uma pequena náusea. Mas tal como na fascinação com as transformações de ampliação previamente notadas de todas as novas tecnologias, a maioria de tais efeitos colaterais foi reprimida em favor da exaltação acerca da habilidade de envolvimento em relações sexuais livre de preocupações, próximo ao “natural”, livre de gravidez.

Depois, efeitos colaterais atrasados foram associados com a pílula (em alguns casos, pressão sanguínea elevada, preocupações com o câncer, etc.), mas isto podia ser no máximo indiretamente vivenciado. A pílula, uma vez ingerida, operava como uma espécie de relação de segundo plano interna do tipo mais extremo de borda. Como ocorre com todas as tecnologias ingeríveis, o “eu sou aquilo que eu como” é um fenômeno que coloca a maioria dos efeitos à distância ou eles ocorrem com certo atraso.

Este caso específico, no entanto, é instrutivo de um modo diferente. As tecnologias ingeríveis são tecnologias no final das contas? Elas são claramente produtos tecnológicos (da indústria química) e são claramente entidades tecnologicamente transformadas; porém, ao passo que elas são absorvidas junto ao nosso próprio corpo, elas, muito mais próximas do que nossos exemplos prévios artefactuais, são profundamente incorporadas.

Ainda mais ambiguamente, a questão da tecnologia biológica deve ser levantada neste horizonte extremo. Eu me refiro aqui não aos assuntos populares que circulam em torno de se a vida animal, por meio de manipulação genética, pode ser ou não patenteada, mas a reflexividade literal que agora as tecnologias biológicas podem ter sobre a transformação da vida corporal humana em si. A transformação genética apresenta os mesmos aspectos estruturais transformadores que as outras relações humano-tecnologia apresentam, mas na medida em que como resultado genético se torna o que nós somos, ela cai, pelo menos, abaixo do nível da análise contrastante existencial tomada aqui. E isto não é dizer, no entanto, que uma análise hermeneuticamente estruturada é evitada.

Com técnicas biológicas, alcançou-se uma nova fronteira entre tecnologia e vida em que os horizontes da natureza e da artificialidade são embaraçados. Ainda enquanto a habilidade em manipular material genético, mais precisamente por meio da identificação de genes particulares ou sequências (uma façanha tornada possível pela habilidade instrumental de ampliar os microníveis do ser, porém, condicionada por uma possibilidade essencial de tecnologia), tais técnicas biológicas também são antigas. A criação de plantas e animais, hibridismo e outras manipulações de produtos selvagens são tão antigos quanto a civilização e ocorrem independentemente em muitas partes do mundo.

Para além disso, o emaranhamento da fronteira dos produtos vivo/artificial é antecipado nas mudanças de postura e nos usos frente às plantas e aos animais domésticos. Elas se tornam claramente “seres de uso” sob o controle humano e para o uso humano.

Os horizontes pertencem às fronteiras do campo ambiental vivenciado. Como os “limites” do campo visual, eles situam o que é explicitamente presente, enquanto sendo um fenômeno em si mesmo, os horizontes recuam. E onde quer que nós nos refiramos a um tipo de horizonte interno (as bordas da incorporação) ou as extremidades do horizonte externo (a forma definitiva de texturização que uma cultura tecnológica específica pode tomar), o resultado é o tipo de uma “atmosfera”. Isto não significa que os elementos, particularmente em termos de fenômeno social, não possam ser identificados. Por exemplo, em situações contemporâneas, um fenômeno atmosférico é o medo vago ou a ansiedade relatada com a possibilidade de uma ameaça nuclear. Este medo é sentido por crianças e por seus pais e atravessa todas as culturas industrializadas, pelo menos. Ele é parte da textura da cultura tecnológica que possui um poder ampliador destrutivo definitivo e universalizável. Mas este fenômeno do medo atmosférico social é o efeito de algo a mais: do sonho da totalização tecnológica que marca um dos aspectos maximalistas das culturas tecnológicas.

Há um número de formas em que o medo nuclear pode ser historicamente analisado. Obviamente, a destruição do inimigo tem sido um objetivo humano tão antigo quanto a humanidade. Igualmente óbvio, nunca foi possível até o século XX atualizar este objetivo universalmente. Mas o potencial, seja instantâneo (ataque massivo entre as superpotências) ou lento (inverno nuclear), em eliminar as espécies é possível apenas para o presente e para o futuro. O problema inerente de uma solução universal totalizada é igualmente óbvio, ele é autorreflexivo e se aplica tanto para o assassino quanto para o assassinado. A necessidade política em preservar tais meios universalmente genocidas de “defesa” toma a forma das tentativas em negar a autorreflexividade. Governantes precisam encontrar meios para convencer populações de que haverá sobreviventes (o inverno nuclear será apenas um outono, etc.).