Tecnologia e o mundo da vida: do jardim à terra
3 Mundo da Vida: práxis e percepção
3 Mundo da Vida: práxis e
percepção
Do ponto de vista de um humano atual, o mundo da vida sem tecnologia pode ser no máximo uma projeção imaginativa. Ainda que qualquer análise de tal mundo ou mesmo da diferença entre os mundos tecnológicos e não tecnológicos deva começar de tal modo que as tecnologias possam tomar seu lugar próprio no mundo. As dificuldades de não prejudicar o caso em qualquer direção não são sem precedentes nas tradições filosóficas que adotei: a fenomenologia e a hermenêutica. Antes de me voltar aos meus próprios exemplos, olharei brevemente para três análises prototípicas no âmbito desta tradição: o martelo, de Heidegger; o Galileu, de Husserl; e a pena, de Merleau-Ponty.
A. O Martelo de Heidegger
Martin Heidegger certamente é conhecido como um dos filósofos mais importantes da tecnologia. Já em Ser e Tempo (1927), existem análises prototípicas da experiência tecnológica e suas implicações. Ser e Tempo de fato precede a Crise (1936), de Husserl, e como uma resposta e crítica ao seu antigo colega de trabalho, ele também ajuda a provocar uma virada em sua ênfase tardia acerca da noção de mundo da vida.
O que estava em jogo era a diferença entre as orientações epistemológicas e praxiológicas para a filosofia. Um modo de caracterizar o debate era comparar as formas como os humanos conhecem ou interagem com os objetos do conhecimento à sua interação com os objetos em uso ou equipamentos. Heidegger considerava que estes últimos estão mais próximos de nossa experiência comum e também que essas experiências são mais básicas, com formas especificamente tematizadas do conhecimento de objetos derivadas da primeira. “O tipo de operação que está mais próxima de nós, como temos demonstrado, não é uma estrita cognição perceptiva que manipula coisas e as coloca em uso; e isto
tem o seu próprio tipo de ‘conhecimento’.”1 Foi para este tipo de conhecimento que o famoso exemplo do martelo foi concebido. A análise foi sobre um martelo de um exemplo de uma oficina tipicamente heideggeriana, muito provavelmente tomada a partir do contexto de um sapateiro. A análise era para ser uma profunda fenomenologia das ações em que ocorrem o ato de martelar em tal oficina. As variantes primárias do exemplo podem ser denominadas o uso normal, o sapateiro ou o marceneiro usando o martelo para colocar pregos em contraste com uma situação anormal em que o martelo acaba sendo quebrado ou está ausente. Dentre estas duas variáveis, Heidegger desenvolve suas operações fenomenológicas. Nesta análise, Heidegger desenvolve sua própria versão da fenomenologia, moldada para a ênfase pragmática. Tomando ferramentas ou equipamentos como coisas básicas encontradas no ambiente circundante, ele aplicou o que já vimos como sendo as características de forma da fenomenologia: primeiro, todos os objetos (neste caso objetos em uso também) são relativos a um contexto. Não existem objetos em si mesmos. Num contexto de objeto em uso, “tomado estritamente, um instrumento nunca ‘é’. O instrumento só pode ser o que é num todo instrumental que sempre
pertence a seu ser”. 2 Este campo em que uma ferramenta é o que pode ser é um campo complexo permeado com “envolvimentos” ou relações transversais; segundo, estas relações transversais possuem o que pode ser chamado de uma “intencionalidade” instrumental, ou referência, definida pelo projeto de trabalho. Instrumentos são “algo para ______. Na estrutura ‘ser para’, acha-
se uma atribuição ou referência de algo para algo”. 3
Mesmo o simples exemplo de um martelo contempla estas descrições: o marceneiro toma o martelo com o avental cheio de pregos, talvez um pouco de telhas, e atravessa os pregos nelas em um telhado. Aqui o envolvimento do martelo com os pregos, as telhas e o telhado junto a um projeto é suficientemente evidente. E a referência focal também é aparente.
Mas em tais contextos práticos, uma terceira característica complica a análise, porque ocorre a peculiaridade no que diz respeito ao usuário. A ferramenta ou o equipamento em uso se torna o meio, não o objeto, da experiência. “O que está imediatamente à mão se caracteriza por recolher-se em sua
manualidade para, justamente assim, ficar à mão”. 4 Este afastamento da tecnologia do âmbito das experiências diretas é o que depois eu denominarei uma relação de incorporação [embodiment relation].
Mesmo se objetos de conhecimento estivessem “simplesmente ali” para inspeção, em contraste à indirecionabilidade dos objetos em uso, a questão de como fazer as situações de uso visíveis deveriam permanecer um problema. A tentativa de Heidegger para fazer isto se dá por um giro “negativo” (como eu denominei) junto à indirecionabilidade. O campo completo de envolvimentos e a referencialidade do contexto de uso pode ser mostrado através da quebra, do mau funcionamento ou da ausência de uma ferramenta.
Na ocupação, o ente que está mais imediatamente à mão pode ser encontrado como algo que não é passível de ser empregado ou como algo que não se acha em condições de cumprir seu emprego específico. A ferramenta se apresenta danificada, o material inadequado. Em todo o caso, um instrumento está aqui à mão. Mas o que a impossibilidade do emprego descobre não é a constatação visual de propriedades e sim a circunvisão do modo de lidar no uso. Nessa descoberta da impossibilidade de emprego, o instrumento
surpreende. 5
Eu não examinarei todas as sutilezas da análise de Heidegger aqui, mas vou destacar duas características de sua análise, as quais retomarei depois como peculiaridades seletivas. Primeiro, Heidegger é bastante apontado por seus críticos por sua escolha por exemplos comuns a uma oficina. Seus exemplos positivos de tecnologia frequentemente são itens simples, tais como um martelo, neste caso, ou, depois, o farol de um automóvel. Similarmente, no reino dos artigos avaliados positivamente, podem-se encontrar os sapatos de um camponês, moinhos de vento ou templos gregos, enquanto que usinas hidroelétricas no Rio Reno recebem caracterizações negativas. Mais interessante, no entanto, é a derivação igualmente da objetividade e do conhecimento objetivo de certos aspectos do uso de objetos por meio de giros indiretos ou negativos. Depois eu devo apontar para aquilo que eu penso ser o resultado dessa coloração implícita das relações humano-tecnologia.
Essa advertência não pretende de forma algum demonstrar que a análise de Heidegger é incorreta. Que num contexto de envolvimentos relacionados a alguma tecnologia pode ser demonstrado por avarias ou mau funcionamento parece realmente claro. De fato, na primeira grave escassez mundial de combustíveis fósseis, a crise da gasolina de 1973, o conjunto de envolvimentos dos automóveis em uma rede muito vasta e complexa de envolvimentos industriais tornou-se igualmente óbvio e assustador. Isso até estimulou algumas reflexões mais sérias sobre a necessidade por fontes de energia alternativa e motivou algumas práticas de conservação em certa medida. No entanto, vou contra-argumentar que tal giro não é a única forma de fazer um determinado contexto ficar aparente.
Retornando à análise, uma razão pela qual o fenômeno de objetos em uso e seus tipos particulares de “conhecimento” podem ser negligenciados, de acordo com Heidegger, é precisamente porque durante o emprego de tais tecnologias o usuário é “absorvido”. “O próprio Dasein, no âmbito de seu empenho ocupacional com o instrumento manual, não possui uma possibilidade ontológica em que, de certo modo, a mundanidade se
lhe evidencia 6 junto com o ente intramundano da ocupação?” É esta absorção e a consequente retirada do equipamento em uso, acredita Heidegger, que justifica a rota indireta que ele toma.
Se fôssemos deixar repousar por si mesmos os insights a respeito de nossa absorção em projetos de trabalho e a retirada simultânea da ferramenta vivenciada, as implicações mais amplas de tais relações acionais poderiam ser desperdiçadas. Em última instância, Heidegger argumenta, ainda nos tempos de Ser e Tempo, que o “conhecimento” prático implica questões concernentes à tecnologia para uma interpretação da natureza em si.
A obra no horizonte de sua ocupação não é manuseada somente no mundo
doméstico da oficina mas também no mundo público. Com ele, descobre-se