Tecnologia e o mundo da vida: do jardim à terra
5 Programa Um: A Fenomenologia da Técnica
5 Programa Um: A
Fenomenologia da Técnica
A tarefa da fenomenologia das relações humano-tecnologia é descobrir os vários aspectos estruturais daquelas relações ambíguas. Para realizar esta tarefa, devo começar com o foco sobre os aspectos experimentalmente reconhecíveis que estão centrados sobre os modos como somos corporalmente engajados com as tecnologias. O começo será junto aos vários modos nos quais “eu-enquanto-corpo” interajo com meu ambiente por meio das tecnologias.
A. Técnicas incorporadas
Muito da ciência moderna obteve sua nova visão de mundo por meio das tecnologias óticas, e o processo de incorporação é igualmente muito antigo e mais difuso. A incorporação da práxis através das tecnologias é em última instância uma relação existencial com o mundo. É algo que os humanos possuem sempre, desde que deixaram as percepções nuas como as do Jardim.
Anteriormente, de uma maneira mais sugestiva, já apontei alguns aspectos da incorporação visual das tecnologias óticas. A visão é tecnologicamente transformada através de tais óticas. Mas enquanto o fato de que a ótica transforma a visão possa estar claro, as variáveis e invariáveis de tal transformação ainda não estão precisas. Esta se torna a tarefa para uma fenomenologia estrutural mais rigorosa da incorporação. Eu devo iniciar por descrever a partir de alguns aspectos anteriormente mencionados na fenomenologia preliminar das técnicas visuais.
Junto à estrutura da relatividade fenomenológica, as técnicas visuais precisam primeiramente ser localizadas junto à intencionalidade do ato de ver.
Eu vejo – através dos artefatos óticos – o mundo
Este ato de ver é, em qualquer variação, ao menos minimamente distinto de uma visão direta ou nua.
Eu vejo – o mundo
Eu chamo este primeiro conjunto de relações existenciais tecnológicas junto ao mundo de relações de incorporação, porque neste contexto de uso eu tenho as tecnologias dentro da minha experiência de um modo particular pela via de perceber através de tais tecnologias e por meio da transformação reflexiva da minha percepção e dos meus sentidos físicos.
No uso que Galileu faz do telescópio, ele incorpora sua visão através do telescópio. Assim:
Galileu-telescópio-Lua
De forma equivalente, o uso de óculos incorpora a tecnologia dos óculos:
Eu-óculos-mundo
A tecnologia está de fato entre o observador e o observado, numa posição de mediação. Mas o referencial da visão, ao qual a vista é direcionada, é “por outro lado” a ótica. Enxerga-se através da ótica. Isto, no entanto, não é o suficiente para especificar esta relação como sendo um tipo de incorporação. Isto porque é preciso primeiramente determinar onde e como, junto ao que será descrito como sendo um continuum de relações, a tecnologia é vivenciada.
Existe um sentido inicial no qual este posicionamento é duplamente ambíguo. Primeiro, a tecnologia precisa ser tecnicamente capaz de se deixar ver através dela; precisa ser transparente. Usarei o termo técnico para me referir às características físicas da tecnologia. Tais características por ser designadas ou elas podem ser descobertas. Aqui as disciplinas que tratam de tais características são informativas, embora indiretamente, para a análise filosófica per se. Se o vidro não é suficientemente transparente, ver através não é possível. Se ele é suficientemente transparente, próximo ao que quer que seja “puro” para que a transparência possa ser empiricamente alcançável, então se torna possível incorporar tal tecnologia. Esta é a condição material para a incorporação.
Incorporar, enquanto é uma atividade, também possui uma ambiguidade. Ela precisa ser aprendida ou, em termos fenomenológicos, constituída. Se a tecnologia é boa, isto normalmente é fácil. A primeira vez que coloquei meus óculos, vi então o mundo agora corrigido. Os ajustes que eu tive que fazer não eram tipicamente irritações focais, mas ajustes marginais (tal como o ajuste o reflexo e algumas pequenas alterações na motilidade espacial). Mas uma vez assimilados, a relação de incorporação pode ser mais bem descrita como uma na qual a tecnologia se torna maximamente “transparente”. Isto é, tal como foi, levando em conta minha própria experiência de percepção corporal. Assim:
(eu-óculos)-mundo
Meus óculos tornaram-se parte do modo como eu ordinariamente vivencio meus arredores; eles “se retiram” e sequer são notados, afinal. Eu tenho então incorporado ativamente as técnicas da visão. Técnica é a simbiose do artefato e do usuário junto à ação humana.
As relações de incorporação, no entanto, não são todas restritas às relações visuais. Elas podem ocorrer em qualquer dimensão dos sentidos ou da micropercepção. Um aparelho de audição faz isto para a audição, e a bengala do cego pela mobilidade tátil. Observe que nestas tecnologias corretivas se obtém os mesmos aspectos estruturais da incorporação tal como no exemplo visual. Uma vez aprendidos, bengala ou aparelho de audição “se retiram” (se a tecnologia é boa e aqui nós temos uma pista experimental para o aperfeiçoamento das tecnologias). Eu ouço o mundo através do aparelho de audição e sinto-o (e ouço-o) através da bengala. A junção (eu-artefato)-mundo se dá através da tecnologia e é trazida para perto por ela.
Tais relações através das tecnologias não são limitadas seja para as tecnologias simples ou complexas. Vidros, ao passo que eles são sistemas projetados, são muito mais simples que aparelhos de audição. Mais complexos ainda que estes dois dispositivos monosensórios são aqueles que desempenham a motilidade do corpo-todo. Uma destas tecnologias comuns é a direção automotiva. Embora dirigir um automóvel compreenda mais que relações de incorporação, é prazeroso e frequentemente está associado com relações de incorporação.
Vivencia-se a estrada e os arredores através da direção do carro, e o movimento é a atividade focal. Em carros esportivos sofisticados, por exemplo, pode-se ter um sentimento mais preciso da estrada e da tração sobre ela do que nos carros maiores e mais antigos dos anos 1950. Incorpora-se o carro também em atividades tal como o estacionamento paralelo: quando bem incorporado, sente-se em vez ver a distância entre os carros, e o sentido da carroceria é “ampliado” para os parâmetros do “corpo” do motorista. E embora estas relações de incorporação demandem maiores e mais complexos artefatos e empreguem de alguma forma um mais longo e complexo processo de aprendizagem, o aprendizado tátil sobre o corpo que se está a apreender é percepção-corporal.Aqui está a primeira pista para o sentido polimórfico da extensão corporal. A experiência de uma “imagem corporal” não é fixa, mas maleavelmente extensível e/ou reduzível em termos do material ou das mediações tecnológicas que possam ser incorporadas. Eu restringirei o termo incorporação, no entanto, àqueles tipos de mediação que podem ser assim vivenciadas. O mesmo polimorfismo dinâmico pode também ser localizado na experiência não mediada ou direta. Pessoas treinadas nas artes marciais, tal como o caratê, aprendem a sentir os vetores e trajetórias dos movimentos do oponente junto ao espaço de combate. O espaço próximo em torno de seu corpo material é modificado.
As relações de incorporação são um tipo particular de contexto de uso. Elas são tecnologicamente relativas em um duplo sentido. Primeiro, a tecnologia deve “enquadrar” o uso. De fato, junto ao reino das relações de incorporação pode-se desenvolver um conjunto bem específico de qualidades para o design no que concerne a obtenção do requisito tecnológico “se afastar”. Por exemplo, ao manusear materiais altamente radioativos a distância, braços e mãos mecânicos que são desenvolvidos para pegar e derramar tubos de vidro no interior do compartimento blindado devem fornecer um “feedback” de um senso de toque delicado para o operador. O mais próximo da invisibilidade, transparência e extensão do próprio sentido de alguém que esta tecnologia possa proporcionar, melhor. Note que o design perfeito não é aquele relacionado à maquina em si, mas à combinação da máquina com o humano. A máquina é aperfeiçoada junto a um vetor corporal, moldado para as percepções e ações humanas.
E quando tais desenvolvimentos alcançam grande sucesso, eles podem fazer surgir certa romantização da tecnologia. Em muito da literatura antitecnologia existe um nostálgico chamado para uma volta às simples ferramentas tecnológicas. Em parte, isto pode ocorrer porque ferramentas de longo desenvolvimento são excelentes exemplos da expressividade corporal. Eles são igualmente diretos em termos acionais e imediatamente vivenciados, mas o que se perde é que tais relações incorporadas podem tomar qualquer direção. Igualmente o motorista do carro esportivo junto aos limites da pista de corrida e o motorista do trator de esteira destruindo uma floresta podem ter a satisfação das poderosas relações de incorporação.
Existe ainda um profundo desejo que pode surgir da experiência das relações de incorporação. É o desejo duplo de que, de um lado, há a vontade pela transparência total, incorporação total, para que a tecnologia verdadeiramente possa “se tornar eu”. Se isso fosse possível, seria o equivalente a não ter nenhuma tecnologia, a transparência total seria meu próprio corpo e sentidos. Eu desejo o face a face que eu viria a vivenciar sem a tecnologia. Mas esta é apenas uma face do desejo. O outro lado é o desejo de ter poder, a transformação que a tecnologia torna disponível. Apenas ao usar a tecnologia é que o meu poder corporal é aprimorado e ampliado pela velocidade, através da distância ou por qualquer uma das outras formas nas quais a tecnologia muda minhas capacidades. Tais capacidades são sempre diferentes das minhas capacidades nuas. O desejo é, no mínimo, contraditório. Eu desejo a transformação que a tecnologia proporciona, mas eu a quero em certo sentido que eu possa basicamente não sentir sua presença.
Eu a quero de uma forma que ela se torne eu. Tal desejo, da mesma forma que secretamente rejeita o que as tecnologias são, omite os efeitos transformadores que são necessariamente ligados às relações humanos-tecnologias. Este desejo ilusório equivale a ser a favor e contra as tecnologias nas interpretações sobre elas.
O desejo é igualmente a fonte dos sonhos utópicos e distópicos. A tecnologia atual ou material sempre carrega consigo apenas uma parcial ou quase transparência, com o seu preço para a extensão ou ampliação que as tecnologias proporcionam. Ao ampliar as capacidades corporais, a tecnologia também as transforma. Nesse sentido, todas as tecnologias em uso não são neutras. Elas mudam a situação básica, de maneira sutil, todavia minimamente; mas este é o outro lado do desejo. O desejo é simultaneamente um desejo para a mudança da situação para habitar a terra ou mesmo para ir além da terra enquanto algumas vezes inconsciente e secretamente desejando que este movimento possa ser sem a mediação tecnológica.
A direção do desejo aberto pelas incorporações tecnológicas também possuem seus golpes positivos e negativos. Instrumentalização nas atividades do saber, notavelmente na ciência, é a extensão gradual da percepção para novos reinos. O desejo é ver, mas enxergar é enxergar através da instrumentalização. Negativamente, o desejo pela pura transparência é o desejo de escapar das limitações da tecnologia material. É um platonismo que ressurge numa nova forma, o desejo de escapar da nova extensão corporal da união tecnológico. No desejo resta a contradição: o usuário igualmente deseja e não deseja a tecnologia. O usuário quer o que a tecnologia dá, mas não quer os limites, as transformações que um corpo tecnologicamente expandido implica. Há uma ambivalência fundamental diante da própria criação das nossas ferramentas terrestres.
A ambivalência que pode surgir a respeito das técnicas é a reflexão do tipo sobre a ambiguidade essencial que pertence às tecnologias em uso. Mas esta ambiguidade, eu argumentarei, possui sua própria forma distintiva. As relações de incorporação apresentam uma estrutura essencial de ampliação/redução que tem sido apontada nos exemplos sobre a instrumentalização. As relações de incorporação simultaneamente ampliam ou amplificam e reduzem ou colocam de lado o que é vivenciado através deles.
A visão das montanhas da lua, através de todo o poder transformacional do telescópio, retira a lua de seu conjunto na expansão dos céus. Mas se nossas tecnologias servirem apenas para replicar nossa experiência corpórea imediata, elas seriam de pouca valia e, por fim, de pouco interesse. Alguns exemplos absurdos podem ser apresentados aqui:
Numa anedota humorística, o professor irrompe para dentro de seu clube e anuncia que ele acaba de ter inventado uma máquina de leitura. A máquina faz escaneamento das páginas, as lê e então as reproduz perfeitamente. (A estória aparentemente foi escrita antes da invenção da fotocopiadora. Tais máquinas, pode-se dizer, são “máquinas de leitura perfeitas” de fato.) O problema, como o inocente pode notar, foi que esta máquina nos deixa precisamente com o problema que tínhamos antes de sua invenção. Ao serem reproduzidos através da “leitura” mecânica, todos os livros do mundo meramente apenas nos deixam na biblioteca.
A variante sobre a capa invisível do rei pode funcionar também. Imagina a invenção da roupa perfeitamente transparente através da qual nós podemos tecnologicamente vivenciar o mundo. Podemos ver através dela, respirar através dela, cheirar e ouvir através dela, tocar através dela. De fato, ela não produz nenhum efeito, apenas é perfeitamente invisível. Quem se proporia a usar tal roupa (mesmo se o presumível usuário pudesse encontrá-la)? Apenas ao perder alguma invisibilidade, ficando com uma coloração translúcida, é que essa peça passaria a ser vestível e mais interessante. Pois aqui, ao menos, a moda teria sido inventada, mas ao preço de perder a total transparência ao tornar-se aquilo através do qual nos relacionamos a um ambiente.
Tais estórias pertencem à imaginação extrapolada da ficção, que se coloca em contraste até as relações mínimas de incorporação atuais, que em suas dimensões materiais simultaneamente ampliam e reduzem, revelam e escondem.
Nas atuais relações humano-tecnologia do tipo de incorporação, as estruturas transformacionais podem também ser exemplificadas por variações: nas tecnologias óticas, eu já demonstrei como significações espaciais mudam em observações através da lente. Toda a formatação muda. Quando o aparente tamanho da lua muda, junto a ele a aparente posição do observador se transforma. Relativisticamente, a lua é trazida para “perto”; e de maneira equivalente, esta distância-proximidade ótica se aplica igualmente para a aparência da lua e meu senso de posicionamento corporal. Por exemplo, com mais e mais ampliação, o bem familiar fenômeno de profundidade, instrumentalmente mediado como sendo um “plano focal”, também muda. A profundidade é reduzida em aproximações óticas.
Um fenômeno relacionado ao uso de um instrumento ótico é que ele transforma as significações espaciais da visão de uma maneira instrumentalmente focal. Mas minha visão sem a instrumentalização é uma visão totalmente corpórea, eu vejo não apenas com meus olhos, mas com todo o meu corpo em uma experiência sensorial unificada das coisas. Em parte, isto se dá porque há uma notável irrealidade para a aparente posição do observador, a qual apenas diminui com os hábitos adquiridos por meio da prática com o instrumento. Mas o instrumento ótico não pode transformar tão facilmente todo o panorama sensorial. O senso focal que é ampliado através do instrumento é unidimensional.
Aqui talvez seja a ocasião (embora eu não esteja sugerindo a causa) para certa interpretação dos sentidos. Historiadores da percepção têm observado que, nos tempos medievais, não apenas a visão não era o sentido supremo, mas som e cheiro podem ter tido papéis bastante reforçados na medida em que a interpretação dos sentidos prossegue. Ainda na Renascença e ainda mais exageradamente no Iluminismo, ocorreu uma redução à visão como sendo o sentido favorito, e junto à visão, certa redução da visão. Este favoritismo, no entanto, também carrega implicações para os outros sentidos.
Uma destas implicações foi que cada um dos sentidos era interpretado como sendo claro e distinto dos outros, com apenas alguns aspectos podendo ser reconhecidos mediante tal sentido. Tal interpretação dificultou os primeiros estudos em eco localização.
Em 1799, Lazzaro Spallanzani fazia experimentos com morcegos. Ele notou não apenas que eles podiam localizar alvos de comidas no escuro, mas que eles também podiam fazer isto com os olhos vendados. Spallanzani perguntou-se se os morcegos poderiam guiar-se por seus ouvidos no lugar de seus olhos. Experimentos posteriores, nos quais os ouvidos dos morcegos eram tapados, demonstraram que de fato eles não poderiam guiar-se sem os ouvidos. Spallanzani supôs que ou os morcegos poderiam localizar objetos através da audição ou que eles possuem algum sentido sobre o qual os humanos nada sabiam. De acordo com a doutrina de separar sentidos e a identificação das formas e objetos apenas através da visão, George Montagu e Georges Cuvier virtualmente jogaram Spallanzani para fora da profissão.
Isto não é sugerir que tal interpretação da distinção sensorial ocorreu apenas devido simplesmente à familiaridade com as tecnologias óticas, mas a experiência comum da visão aprimorada por meio de tais tecnologias foi ao menos a prática padrão do tempo. Tecnologias auditivas estavam para chegar depois. Quando as tecnologias auditivas se tornaram comuns, foi possível detectar a mesma estrutura de ampliação/redução na experiência humano-tecnologia.
O telefone usado atualmente recai em uma relação de incorporação auditiva. Se a tecnologia é boa, eu ouço você através do telefone e o aparato “se retira” para a posição de fundo:
(eu-telefone)-você
Mas como um instrumento monossensório, sua presença fenomênica é a presença da voz. A presença ordinária multidimensional do encontro face a face não ocorre, e eu devo no máximo imaginar aquelas dimensões através das quais sua voz gesticula. Também, tal como o telescópio, as significações espaciais são modificadas. Há aqui uma versão auditiva da distância-proximidade visual. Faz pouca diferença se você está geograficamente perto ou longe, nem mesmo se você está ao norte ou ao sul, e nada diz respeito a nada, mas apenas a sua relação corporal para com o instrumento. Sua voz retém sua parcialmente irreal distância-proximidade, reduzida de toda dimensionalidade das situações perceptuais diretas. Esta distância telefônica é diferente tanto dos encontros imediatos face a face quanto da distância visual ou geográfica normalmente existente. Sua distância é a distância mediada com suas próprias significações identificáveis.
Enquanto meu conjunto de variações primárias está para ser localizado e demonstrar a invariância da estrutura de ampliação/redução para qualquer relação de incorporação, também existem efeitos secundários e importantes notados nas histórias da tecnologia. Na primeira vez que se fez uso do telefone, os usuários estavam fascinados e intrigados pela sua transparência auditiva. Watson ouviu e reconheceu a voz de Bell, mesmo que o instrumento imprimisse um alto nível de ruído à mensagem. Em suma, a fascinação ligada à ampliação, à amplificação e ao realce. Mas, contrariamente, pode existir um tipo de esquecimento que igualmente está ligado à redução. O que é revelado é o que excita; o que está oculto pode ser esquecido. Aqui se encontra um segredo para as trajetórias tecnológicas no que diz respeito ao seu desenvolvimento. Existem relíquias latentes que acontecem por meio das invenções.
Tais relíquias são evidentes o suficiente na história da ótica. A ampliação fornece o fascínio. Embora houvessem períodos de tempo com pouco progresso técnico, esta fascinação emerge de tempo em tempo ao ponto de chegar às lentes compostas nos dias de Galileu. Se alguma ampliação mostra o novo, abrindo para aquilo que anteriormente era detectado de maneira muito precária ou não detectado, o que uma ampliação maior pode fazer? Em nosso próprio tempo, a explosão de tais variantes sobre a ampliação é fascinante. Aprimoramento do elétron, melhoria da imagem computadorizada, escâneres internos CAT e NMR, telescópio “big-eye”, a lista contemporânea da ampliação e dos instrumentos visuais é bastante longa.
Estou aqui me restringindo àquilo que pode ser denominado uma trajetória horizontal, isto é, tecnologias óticas que trazem vários micro ou macrofenômenos para a visão por meio das relações de incorporação. Ao restringir os exemplos a tais fenômenos, um aspecto estrutural das relações de incorporação pode ser apontado no que diz respeito à relação com a macropercepção e seu contexto adâmico. Enquanto o que pode ser visto mudou drasticamente, o Novo Mundo de Galileu foi agora ampliado pelo fenômeno astronômico nunca suspeitado e pelo microfenômeno ainda sendo descoberto e que permanece uma constante fenomenológica forte em como as coisas são vistas. Todas as lentes e tecnologias óticas do tipo sendo descritas forneceram o que está para ser visto junto ao espaço corporal e às distâncias normais. O macroscópico e o microscópico aparecem iguais junto à distância-proximidade. O “tamanho da imagem” de uma galáxia ou de uma ameba é o mesmo. Tal é a condição existencial para a visibilidade, o correspondente para condição técnica, que os instrumentos fazem as coisas visualmente presentes.
A presença mediada, no entanto, deve ajustar-se, ser aproximada para posição corporal e visão atuais. Assim existe uma referência junto ao contexto instrumental com minhas capacidades face a face. Isto permanece primitivo e central junto ao novo contexto de mediação. A teoria fenomenológica sustenta que para cada mudança naquilo que é visto (o objeto correlato), existe uma mudança perceptível em como (o correlato experimental) a coisa é vista.
Nas relações de incorporação, tais mudanças mantêm igualmente um equivalente e uma diferença das situações não mediadas. O que permanece constante é o foco corporal, a referência reflexiva volta para minhas capacidades corporais. O que é visto precisa ser visto a partir do meu campo visual ou junto dele, a partir da distância aparente na discriminação no que diz respeito à profundidade, etc., pode ocorrer, tal como nas relações face a face. Mas o conjunto do que pode ser trazido junto a esta proximidade é transformado por meio do instrumento.
Vamos imaginar por um momento o que nunca de fato foi um problema para a história da instrumentalização: Se o “tamanho da imagem” tanto da galáxia quanto da ameba é o “mesmo” para o observador usando o instrumento, como nós podemos dizer que um é macroscópico e outro é microscópico? A “distância” entre nós, humanos, e estas duas magnitudes eram, como Pascal notou, as mesmas que aquelas com as quais os humanos foram interpretados como estando entre o infinitamente grande e o infinitamente pequeno.
O que ocorre através da mediação não é um problema porque nossa construção da observação pressupõe a espacialidade de nossa práxica ordinária. Nós manuseamos o paramecium, colocando-o numa placa e então sob o microscópio. Nós apontamos o telescópio para o lugar indicado no céu e, antes de olhar através dele, notamos que a distância é, ao menos, aquela do domo cósmico. Mas em nosso experimento imaginário, o que seria se nosso humano estivesse totalmente imerso em um mundo tecnologicamente mediado? Aqui o problema pode se tornar mais difícil. Mas em nossa distância de Adão, é precisamente a presumida diferença que faz possível vermos igualmente a olho nu e mediatamente e, assim, sermos capazes de localizar a diferença que nos posiciona ainda mais distantes de qualquer Jardim. É porque mantemos esta espacialidade ordinária que nós temos o ponto reflexivo de referência com o qual fazemos nossos juízos.
A reflexividade noética ou corpórea implicada em toda visão também pode ser constatada de uma forma ampliada no período de aprendizagem da incorporação. O telescópio de Galileu tinha um campo pequeno, o qual, combinado com o fato de que era inicialmente empunhado, fez com que fosse muito difícil localizar qualquer fenômeno particular. O que deve ter sido notado, no entanto, mesmo se não houve comentários sobre isto, foi o exagerado senso de movimento corporal vivenciado por meio da tentativa de fixá-lo em um corpo celeste, e mais, pode-se aprender rapidamente algo sobre o próprio movimento da terra na tentativa de se usar tais telescópios primitivos. A despeito da aparente posição fixa das estrelas, o telescópio empunhado apresentava claramente o movimento da terra nos céus. Este efeito de ampliação se dá junto à experiência da própria visão corporal do observador.
Este ponto de referência corpóreo e ativo guarda certo privilégio. Toda experiência se refere a ele de uma maneira recuperável e tida como certa. A condição corporal da possibilidade para enxergar é agora duplamente indicada pela própria situação na qual a experiência mediada acontece. As relações de incorporação continuam a localizar tal privilégio do meu ser aqui. A simbiose parcial que ocorre nas tecnologias incorporadas bem projetadas guarda aquela mobilidade que pode ser chamada de expressiva. As relações de incorporação constituem uma forma existencial de todo o conjunto do campo do humano-tecnologia.