Tecnologia e o mundo da vida: do jardim à terra

Prefácio à edição brasileira

 

É com grande satisfação que eu abro esta tradução brasileira de Tecnologia e o Mundo da Vida. Apenas recentemente eu fui capaz de visitar o Brasil e seu exuberante ambiente natural de florestas e cachoeiras, borboletas e pássaros e de conviver com pessoas vibrantes. Graças a Maurício Bozatski e suas habilidades de tradutor e seu entusiasmo pela Filosofia da Tecnologia e ao cometimento da Editora UFFS, é que este livro agora está disponível para a leitura em língua portuguesa.

Eu considero Tecnologia e o Mundo da Vida como o meu trabalho mais sistemático sobre as relações humano-tecnologia e, embora sua primeira publicação conte já com mais de duas décadas, ele continua muito atual. A minha fenomenologia da técnica que está aqui tem sido republicada em quase todas as antologias sobre Filosofia da Tecnologia em língua inglesa e traduzida para muitos outros idiomas. Mas, pessoalmente, olhando para trás, eu tenho orgulho em dizer que minhas previsões na seção “Formas do mundo da vida” também se saíram muito bem. Eu aprendi muitas lições sobre as dificuldades em prever quais as trajetórias e direções das tecnologias que serão afetadas pelas formas como o humano e a cultura respondem a elas, mas sobre estas eu estou correto.

Antes de Tecnologia e o Mundo da Vida, meu Technics and Praxis (1979) tem sido citado como sendo o primeiro livro em língua inglesa sobre a Filosofia da Tecnologia. Isso significa que eu tenho trabalhado muitos anos com o que hoje eu denomino melhor de “tecnosciência”, esta ligação dominante entre ciência-tecnologia que faz do mundo contemporâneo, pós-moderno, o que ele é.

Minhas origens filosóficas incluem as três maiores correntes tradicionais contemporâneas da filosofia – a analítica, a pragmática e, principalmente, a hermenêutica-fenomenológica. No que concerne às tecnologias, eu não penso que seja acidental que as filosofias da práxis tenham dominado o campo do interesse filosófico – Marxismo e a Teoria Crítica, Pragmatismo e Fenomenologia. No meu caso, mesmo antes deste trabalho, comecei a entender, ainda no começo do século XX, que as filosofias da práxis precisavam ser modificadas para poder tratar com as tecnologias dos nossos tempos, cada vez mais complexas e difusa. Assim, o que hoje eu chamo de “pós-fenomenologia” denomina o estilo de análise que eu – e agora muitos outros – empreendem. Tecnologia e o Mundo da Vida nasceu num tempo crucial e com sua ênfase sobre o multiculturalismo, a incorporação e, na ontologia de inter-relações, ele também vai em direção a uma nova práxis.

 

Don Ihde

Distinguished Professor of Philosophy, Emeritus,

Stony Brook University.