Tecnologia e o mundo da vida: do jardim à terra

B. Técnicas do Mundo da Vida: percepção do espaço

O término desta trajetória é alcançado com a introdução do relógio digital ordinário. Agora o instante e com ele a irregularidade do salto de um número para outro foram tão enfatizados que a representação do campo ou da duração do tempo desaparecem totalmente. Logo foi reconhecido que tal dispositivo não se tratou apenas de uma magnificação de alguma dimensão do tempo, mas a eliminação virtual e o deslocamento ou a redução total perceptiva na representação do tempo. Ao rejeitar esta perda, as pessoas optam novamente por modelos de relógios que são tanto digitais quanto analógicos. De passagem, pode-se notar também que o processo de leitura em si muda. Um relógio analógico encaixa-se na forma da percepção visual, pois é lido num relance em que igualmente o instante e o campo são simultaneamente dados. O relógio digital representa apenas o instante, e assim a duração precisa ser inferida, demandando, dessa forma, um diferente processo mental.

As culturas que fazem uso do relógio leem o tempo através do relógio. A percepção do tempo é mediada, percepção hermenêutica. Nós observamos que para a Europa Ocidental esse tempo práxis já foi sedimentado antes da Renascença e do surgimento da ciência moderna. E este é o maior fator das diferenças culturais, particularmente aquele que contrasta com as culturas do relógio solar.

 

B. Técnicas do Mundo da Vida:

 

percepção do espaço

 

Se a ciência de Galileu poderia pressupor o contexto da cultura do relógio em suas sutis transformações no que diz respeito ao tempo, então ela poderia assumir uma percepção do espaço tecnologicamente mediada e matematicamente interpretada. Mais uma vez eu sugiro que Galileu foi, de fato, quem apontou tardiamente certas consequências para uma já estabelecida práxis de mundo da vida, embora isto de forma alguma lance dúvidas sobre sua genialidade científica.

O exemplo da percepção espacial aqui é encontrado nas navegações de longa distância. Pelos padrões mundiais, europeus eram navegadores transoceânicos retardatários. Navegadores do Pacífico Sul de fato se espalharam pelo Pacífico um milênio antes mesmo de Leif Ericson; os chineses foram os senhores do comércio do Pacífico Norte e dos oceanos indianos; e os árabes cobriram os oceanos séculos antes de Cristóvão Colombo descobrir o Novo Mundo. Também de maneira precedente às viagens que viriam a preencher nossas histórias, existem evidências de longas viagens acidentais, tais como aquelas nas quais esquimós encalharam na Irlanda em tempos medievais e destroços de galeões romanos recentemente foram encontrados na costa brasileira. Também é provável que muitas migrações pré-históricas aconteceram via barcos. As viagens transoceânicas da Europa moderna se deram relativamente tarde.

Estimulados pela fome por bens que viriam a alimentar o apetite dos europeus desde as Cruzadas, os primeiros navegadores praticaram navegação costeira durante séculos antes de Colombo. Mas navegação costeira é amplamente uma operação feita a “olho”. Os navios não precisam se distanciar muito da costa; eles podem ancorar ou aportar em tempo adverso; e eles podem fazer assim uma viagem prazerosa e relativamente segura. Isto não é dizer que técnicas às cegas para certas travessias não existiam; elas podem ser encontradas já nos tempos dos fenícios, gregos e romanos. Mas a navegação transoceânica de longa duração apresenta muito mais problemas difíceis de orientação espacial.

Excluindo-se as lendas, tal viagem primeiramente documentada foi a de Leif Ericson e de seus parentes, os vikings, que descobriram a Groelândia e a Terra Nova e ali desenvolveram suas colônias. Infelizmente, pouco se sabe de tais métodos de navegação utilizados, mas existem algumas dicas de que tão cedo quanto estas viagens uma forma primitiva de mediação tecnológica pode ter sido empregada.

Polaris, a Estrela do Norte, era, sem dúvida, familiar. Para os navegadores do Hemisfério Norte, esta estrela fixa fornecia uma constante não disponível para o Hemisfério Sul. Um segundo fenômeno fortuito é o Polo Norte magnético, que, grosso modo, corresponde à posição espacial de Polaris. Tais pontos fixos podem ser muito úteis para orientação espacial e foram assim usados em tempos antigos. Existem dicas de que os vikings podem ter tido um ímã primitivo. Ele pode ter sido um dispositivo de mediação tecnológica. (Os chineses definitivamente tiveram a bússola e fizeram dela central para muito de suas técnicas de navegação.) Tal dispositivo, tal como o relógio, permitia certo distanciamento do fenômeno imediato natural. Por exemplo, num nevoeiro, nem o Sul ou Polaris poderiam ser vistos, e o ímã poderia, assim, prover uma constante pela qual podia se direcionar.

É remotamente possível que os vikings tiveram um dispositivo anteriormente desconhecido por nós, a pedra azul. Os navios vikings têm sido frequentemente descobertos e dentro da desordem encontrada no interior dos cascos estão várias pedras. Grandes pedras deveriam ser, sem dúvida, o lastro. Mas em meio a estas pedras grandes encontram-se um número de pedras planas, em formato de disco, estriadas com linhas paralelas de quartzo ou algum outro mineral. Tem sido sugerido que tais pedras foram usadas na neblina ou em nevoeiros leves para localizar a posição solar da qual eles refletiam efeitos visíveis, mesmo quando o sol não podia ser visto. Um conhecido meu, piloto da Scandinavian Airline System (SAS), afirma ter usado tais pedras azuis para tal propósito e confirma que elas de fato funcionam. Tais auxílios para a navegação poderiam sugerir que os vikings já haviam seguido o que se tornaria a trajetória dominante europeia da navegação tecnologicamente mediada.

Se tomarmos Colombo como nosso exemplo, contudo, esta conclusão é evidente, e é paralela à transformação da percepção do tempo com o relógio, a navegação transoceânica europeia foi para eles igualmente tecnológica e matematicamente mediada. Ele usou cartas de navegação divididas em meridianos similares aos que são usados atualmente. Do século XIII em diante, Portulanos, que eram cartas náuticas das costas demarcadas pelos padrões dos ventos dominantes, já eram familiares. Aqui a perspectiva do voo de pássaro já estava estabelecida, uma prática que contém implicações sutis, mas profundas para a orientação espacial. E Colombo calculou sua latitude por meio de indicações astronômicas e aferiu seu posicionamento em conformidade a isto (medições longitudinais surgiram séculos depois até que relógios marítimos de alta precisão surgiram para mediar estas medições). Este cálculo foi auxiliado por instrumentos como, ao menos, um simples astrolábio. Outros instrumentos de medição também eram comuns, tal como a barquinha ou barca, uma corda com uma prancha na ponta, na qual eram feitos nós para se medir a velocidade. Quando lançada ao mar, a velocidade do navio podia ser calculada com base numa medição em uma ampulheta, de acordo com quantos nós eram contados num determinado tempo. “Nós” e “barca” tornaram-se termos da navegação a partir deste dispositivo.

Em suma, Colombo empregou, com base numa práxis familiar, uma série de instrumentos para calcular simplesmente em termos matemáticos a posição onde ele se encontrava. A peculiaridade desta práxis não será evidente até que variações contrárias aos modos de navegação fossem estabelecidas; mas no contexto imediato, basta notar que a forma tecnologicamente mediada da percepção espacial já era familiar um século antes de Galileu e, portanto, era parte do mundo da vida cotidiana, pelo menos, para os navegadores da época.

As tensões sobre o quão distante o Oriente deveria estar vieram à tona não tanto porque indivíduos temiam cair fora dos limites do mundo (todas as pessoas educadas sabiam que a terra era redonda), mas porque o tamanho da terra era seriamente subestimado. Essa crença na pequeneza não foi corrigida durante alguns séculos, mas a crença pode estar relacionada com as prévias subestimações acerca do tamanho dos céus feitas já mesmo antes dos gregos. Eu suspeito que o escorço que pertence à micropercepção desempenhe algum papel neste fenômeno de crença.

Para dizer se Colombo já era “tecnológico” em sua ciência de navegação, ainda resta detectar alguns aspectos sutis do mundo da vida das percepções que pertencem a sua práxis. E há um aspecto muito peculiar que pode ser encontrado nas práxis navegacionais europeias (e depois de todo o Ocidente) no que diz respeito ao da qual, ou posição a partir da qual a localização é determinada. Eu me refiro ao que pode ser chamado de posição do voo do pássaro. Colombo não declara estar posicionado simplesmente “aqui” (a bordo, encarnado, localizado junto às percepções circundantes imediatas). Antes disso, ele “lê” a si mesmo como estando em alguma posição sobre um mapa como se ele estivesse de alguma forma acima do navio no qual estava viajando e julga esta posição a partir de uma perspectiva imaginativa ou desencarnada (disembodied) que, de fato, ele não ocupa.

Eu descrevi o caso deliberadamente dessa forma, porque a premissa da perspectiva do voo do pássaro é tão familiar para nós que automaticamente acompanhamos suas peculiaridades como sendo uma segunda natureza práxica. A situação pode ser mais cuidadosamente analisada se atentarmos para a fenomenologia da leitura de mapas.

Um mapa ou carta de navegação é literalmente lido de cima. Enquanto ele representa o terreno, tal terreno é visto a partir dos céus. É o mesmo que “ver” a terra a partir de uma posição que eu de fato não ocupo. E porque isto é assim, para fazer a leitura intuitiva de mapas, para constituir a intuição, eu preciso aprender a fazer um salto hermenêutico. Imagine nosso Colombo com um

mapa sobre águas desconhecidas (Figura 3).

 

Ele conhece, a partir de experiências anteriores e pela cartografia vigente, os aspectos costais da Europa. Ele navega para o Oeste ao longo de uma latitude de aproximadamente um paralelo, traçando o seu progresso com distâncias estimadas. Mas ele continua a localizar a si mesmo neste gráfico, do alto. Agora, esta é, efetivamente, sua posição de leitura e, nessa medida, a micropercepção é encarnada, mas esta não é sua posição de fato no que diz respeito ao ambiente imediato do oceano. Para estabelecer isso, precisamos correlacionar a posição do voo do pássaro com uma segunda posição encarnada; e isso demanda um ato hermenêutico específico.

A questão pode ser clarificada através de uma série de possíveis variações cartográficas. Mapas precisam não ser elaborados a partir da perspectiva do voo do pássaro. Alguns mapas são simplesmente leituras de direções: “Para alcançar minha casa a partir da universidade, tome a saída do fundo da nossa universidade, vire à esquerda para a Nicolls Road até alcançar o semáforo, então vire à direita para a 25A.” Aqui, uma instrução escrita funciona como um mapa. Ou um mapa pode ser desenhado para representar, como se fosse uma foto, uma série de representações perceptivas que podem ser isomórficas no que diz respeito à posição do motorista e da paisagem circundante. Neste caso, eu posso ter instruído o motorista para olhar em sequência para um conjunto de fotos que deu a ele mostrando primeiro a partir da posição do motorista a saída da universidade, depois o semáforo na intersecção, etc. Tal série pode, de maneira isomórfica, representar o que pode ser visto a partir do assento do motorista em tal-e-tal estágio da viagem.

Nossos mapas usuais, no entanto, fazem algo mais. Eles estabelecem posições ao requerer uma percepção hermenêutica, e a posição do mapa pode ser “lida” junto a nossa posição perceptiva corpórea. A dificuldade que isto acarreta é óbvia para qualquer um que tenha navegado longe da costa, particularmente em condições obscuras e num território não familiar. O que o mapa revela é retratado a partir do alto – e então se pode traduzir que esta marcação aqui no mapa deve ser aquela torre ali na costa (?). Mesmo que fosse para se ler o mapa a partir da posição de um avião voando à baixa altitude, deveria ainda assim haver mais que um modelo de isomorfismo, mesmo que nós façamos tais atos hermenêuticos em contexto bastante ordinários. O próprio processo de leitura tornou-se uma aquisição de nosso mundo da vida que faz com que um aspecto de nossa própria noção de perspectiva seja habitual.