Tecnologia e o mundo da vida: do jardim à terra

Introdução: nível básico

 

 

Ao longo desta última parte do século XX, aqueles dentre nós que residem nas partes industrializadas do Hemisfério Norte, vivemos, nos locomovemos e temos nosso ser em meio às tecnologias. Nós podemos até afirmar que nossa existência é tecnologicamente entrelaçada, não apenas no que diz respeito aos pontos críticos que emergem numa civilização tecnológica tal como a ameaça de uma guerra nuclear ou a preocupação sobre a poluição global e seus possíveis efeitos irreversíveis, mas também no que diz respeito aos ritmos e espaços da vida cotidiana.

Se nós iniciarmos esta investigação com uma ampla, mas também empírica e concreta noção das tecnologias como sendo os artefatos da cultural material, as quais nós utilizamos em vários sentidos em nosso meio ambiente, poderemos começar, então, um calendário cotidiano de nossas interações humano-tecnologia que se provariam escalonadas numericamente. Imagine a abordagem mais mundana, cotidiana, que poderia iniciar pelos nossos primeiros movimentos.

É provável que nós sejamos chamados à consciência desperta por uma tecnologia, seja o soar de um alarme, o alarme de um relógio de quartzo ou os sons de um rádio-relógio.

O primeiro exame feito, assim que relutantemente deixamos o calor de nossa cama, pode revelar que nosso sono tem sido assegurado por nossas tecnologias relativas ao ato de dormir (seja por algum tipo de tecnologia avançada, tal como um cobertor elétrico ou de média tecnologia como a de um cobertor sintético, ou ainda por algum tipo de baixa tecnologia, tal como alguma fibra natural, que não é menos que uma tecnologia, pois passou por um processo de transformação implicando em tornar-se uma tecnologia).

Levantar-se torna-se um processo ainda mais associado ao contexto de tecnologias complexas, ao passo que nos movemos para o banheiro. Um vasto sistema de encanamento é empregado, a história dos quais remonta desde os etruscos e romanos, mas que hoje em dia emprega um vasto sistema hídrico e materiais oriundos da indústria do plástico e da metalurgia.

Então nós desjejuamos numa cozinha provavelmente dominada por aparelhos elétricos e que contrastam ainda mais com as cozinhas ao longo da história. As máquinas automáticas (torradeira, cafeteria provavelmente presentes com forno de micro-ondas, máquinas de lavar pratos, etc.) nos permitem fazer a primeira refeição do dia sem muito esforço.

Depois de acordar e comer, é provável que deixemos o lar por meio de um sistema de transportes com intrincados e extensos envolvimentos em redes. Nossos novos automóveis até mesmo nos informam sobre suas condições através de um sistema computadorizado e instrumentos eletronicamente dispostos que evidenciam sua forma de comunicação humano-tecnologia.

Todas essas atividades mundanas serão provavelmente acompanhadas por outras dimensões da interação humano-tecnologia. Por exemplo, enquanto comemos, a televisão pode estar conectada com o mundo; enquanto dirigimos para o trabalho, o rádio entretém ou informa; e se o motorista for mais workaholic, o editor de texto por voz também pode ser empregado.

Esta primeira hora da experiência do despertar já é suficiente para demonstrar o quanto nossas atividades são interconectadas com tecnologias. Permitam-me citar dois exemplos menos ordinários para demonstrar o mesmo entrelaçamento.

Algumas vezes a recreação toma a forma de uma escapada da intensa saturação da cultura material e urbana. Por exemplo, alguém pode desejar se retirar para um dos nossos muitos “museus naturais”, reservas que protegem a vida selvagem, parques, e coisas do tipo. Uma forma de desafio durante tal recreação pode ser a escalada de montanhas. A subida vai empregar ganchos e mosquetões de ligas metálicas, cordas de escalada, calçados de escalada especialmente manufaturados e, para uma escalada durante a noite, provavelmente uma barraca leve de fibra artificial, equipamentos de cozinha em miniatura e comida desidratada.

Num contexto mais íntimo, as mesmas observações podem ser feitas sobre a prática sexual no século XX. O que as pessoas contemporâneas empregam em suas relações sexuais sem alguma decisão em relação às tecnologias de controle de natalidade? A simples consciência de que existem tais técnicas envolvendo tecnologias de controle mudou o contexto da prática sexual. A “decisão” de não utilizar tais dispositivos é tomada à luz de sua experiência já conhecida. E o fato, em muitos casos, é precisamente a falta do uso ao invés do então agora comum uso que implica uma desaprovação social. Num nível demográfico, o tamanho reduzido das famílias na maioria das sociedades industrializadas demonstra o quão normatizada esta prática é.

Na nossa era, em contraste às sociedades mais tradicionais, a decisão de conceber filhos é uma exceção à norma de não conceber, e a responsabilidade para a concepção está claramente relacionada ao nosso conhecimento e uso das tecnologias contraceptivas. Isso pode ser bem ilustrado pelo que nós tomamos como sendo o maior problema social em sociedades com tecnologia avançada, isto é, gravidez na adolescência. Primeiro, gravidez na adolescência é considerado um problema na maioria destes países em contraste com o que é de fato a norma em muitas outras culturas de tradição diferente. Segundo, o problema surge não tanto por causa da aceitação ou não aceitação da atividade sexual adolescente como tendo “falhado” ao aderir em tal atividade “responsavelmente”. Para o espanto de muito professores iniciantes e voluntários em programas ligados às adolescentes grávidas, o que é usualmente descoberto é que havia conhecimento de controle de natalidade, mas um tipo de “decisão” frequentemente através de uma passividade comportamental foi tomada em relação a não usar anticoncepcionais. Seja qual for a razão, a expectativa social é que adolescentes são responsáveis apenas se evitarem possíveis gravidezes, o que é dizer que tal responsabilidade implica o uso das tecnologias disponíveis.

Tudo isto é familiar, incluindo a variedade e extensão às quais nossas atividades diárias estão envolvidas com tecnologias. E é por esta familiaridade que podemos simplesmente negligenciar tanto a necessidade de uma reflexão crítica sobre os resultados a serem atingidos quanto os impactos em nossas vidas dentro deste sistema tecnologicamente entrelaçado, sistema tal que poderia ser denominado mais adequadamente de tecnosistema. De fato, esta familiaridade pode ocasionar em sermos surpreendidos quando alguém for caracterizar esta vida como sendo, de alguma forma, peculiar.

No entanto, uma séria reflexão poderá começar apenas ao tomar-se uma distância suficientemente precisa deste nosso envolvimento mundano em que algum senso de sua singularidade, mesmo peculiaridade, possa ser apreendido. Existe uma ampla variedade de questões importantes, existenciais, à espreita, dentro do reino tomado, muitas vezes, como certo de nossas atividades cotidianas. Também não nos falta uma consciência comum de alguns destes problemas, que tomam a forma de crenças populares em certo sentido, mas que possuem contrapontos mesmo dentro dos alcances mais sofisticados de especialização. As seguintes perguntas e debates que as acompanham são indicativos:

Quão semelhante, ou diferente, é a nossa vida dentro do nosso tecnosistema, das formas de vida anteriores ou diferentes que os humanos já viveram? As consciências popular e especializada oferecem uma resposta mista a esta questão. De um lado, a crença talvez dominante é a de que as tecnologias contemporâneas são, de alguma forma, essencialmente e dramaticamente diferentes de todas as tecnologias passadas. Isto significa que deve existir alguma disjunção razoavelmente dramática entre nós e o passado, e entre aqueles que estão em sociedades amplamente industrializadas e tecnológicas, e aqueles que não vivem ainda no âmbito de tal tecnoesfera.

Mas seria este o caso? E, se sim, em quais aspectos? Robert Oppenheimer, o físico do Projeto Manhattan, teria dito ter observado que há mais físicos vivendo hoje do que em todos os séculos anteriores (dito ao qual o humorista Art Buchwald deu a apropriada crítica e filosófica resposta: “Nesta proporção, logo haverá dois físicos para cada pessoa viva!”). Esta extrapolação quântica é frequentemente citada e, no que diz respeito às várias “explosões” (informação, população, conhecimento, físicos e assim por diante), ela sugere que tal salto em quantidade implica um salto correspondente em qualidade. Seu objetivo, entretanto, permanece em reforçar a crença na disjunção entre a cultura científica e tecnológica e as culturas anteriores.

Associada a esta crença existe outra, neste caso, frequentemente mantida no nível dos especialistas. É a crença de que o fator crucial para criar tal disjunção é a ciência, particularmente em sua forma teórica. No âmbito mais restrito das comunidades da filosofia da ciência, dentre muitos cientistas, e mesmo dentre alguns historiadores, a crença dominante é a de que a tecnologia contemporânea é resultado da ciência, seja cronologicamente ou, mais comumente, devido à dependência da aplicação da teoria.

A relação entre ciência e tecnologia tem sido frequentemente a questão central nos círculos norte-americanos e europeus envolvidos com reflexões sobre a tecnologia. A visão dominante continua sendo a de que a tecnologia é ciência aplicada. E também que tais tecnologias são fortemente diferenciadas do trabalho manual do artesão ou das tecnologias artesanais do passado.

No entanto, essa visão dominante vem gradativamente sendo contestada. Ao menos, ela é agora posta em questão. Qual é a relação entre ciência e tecnologia? E quais são as implicações destas relações tanto para casos especiais do conhecimento científico e, mais amplamente, para a gama completa de nossas atividades do saber?

Um segundo conjunto de questões, igualmente importante, orbita em torno do questionamento de as tecnologias serem ou não neutras. Seriam as tecnologias meras coisas que, como uma matéria inerte, não fazem nada por si mesmas? Ou as tecnologias afetam a forma como agimos, percebemos e entendemos? No senso comum, a crença de que tecnologias são meros artefatos-em-si é algumas vezes demonstrada em adesivos de automóveis: “Armas não matam pessoas, pessoas matam pessoas”. Mas tal crença pode também tomar forma em discussões especializadas nas quais se afirma que as tecnologias não fazem nada; trata-se apenas da forma como elas são utilizadas.

Por exemplo, debates em torno do desenvolvimento tecnológico podem tomar forma a partir de um argumento entre aqueles que adotam a posição do determinismo social e aqueles que tomam a posição do determinismo tecnológico. Cientistas sociais frequentemente adotam de alguma forma a primeira posição, argumentando em favor de que o realmente importante no desenvolvimento tecnológico é o conjunto de decisões tomado pela elite dominante. Tecnologias, sob esta perspectiva, são resultantes de tais decisões (neste caso, o substituto da elite dominante para a teoria superior do argumento anterior da ciência/tecnologia) e a tecnologia é o resultado. Sob a perspectiva dos deterministas sociais, as tecnologias particulares usualmente permanecem como fatores atuando num plano secundário contra os quais os conflitos sociais, humanos e políticos tomam forma.

Um bom exemplo desta posição pode ser ilustrado pelo desenvolvimento da Ceifadeira McCormick. A ceifadeira é uma tecnologia que substituiu as foices de mão de um grande número de trabalhadores de fazendas. Sua lâmina cortava uma ampla quantidade de trigo e juntava este trigo em feixes. A lâmina era guiada mecanicamente por um complexo grupo de engrenagens que, inicialmente, eram feitas por habilidosos artesãos que produziam os moldes para a fundição, fundiam e acertavam o acabamento dos produtos irregulares.

Administradores, entretanto, logo consideraram os custos laborais demandados pelos artesãos como sendo muito caros. Então, uma nova técnica que dividia o processo em fases individuais foi desenvolvida, de forma que qualquer pessoa, sem nenhuma habilidade, poderia aprender alguma dessas fases do processo e praticá-la. Essa era uma prática desprezível, típica do século XIX, projetada e empregada amplamente para desqualificar os sindicatos nascentes.

O resultado foi muito relevante para qualquer imperativo tecnológico em relação à eficiência e ao custo. A produção de engrenagens por tais processos de fabricação sem especialização eram igualmente mais lentos e mais caros que o processo artesanal empregado anteriormente, tornando, assim, as ceifadeiras mais caras. Essa prática de produção-administrativa logrou um êxito: a eliminação dos sindicatos. Depois a fábrica McCormick retomou a sua antiga forma de produção empregando novos artesãos treinados.

Na medida em que a análise é socialmente determinista, alguém pode simplesmente notar que o processo e o produto da tecnologia ocupam um papel secundário no contexto da controvérsia entre administração/trabalho e, em última análise, quaisquer que sejam as tecnologias envolvidas fazem pouca diferença para o caso em si mesmo. Tal perspectiva simplesmente não trata com as tecnologias per se. Os efeitos funcionais são a interpretação da tecnologia como sendo neutra.

O determinismo tecnológico, por outro lado, encontra no desenvolvimento da tecnologia em si mesma toda uma fonte de possibilidades que determinam as futuras direções para a sociedade. Um bom exemplo é encontrado na reformulação de James Burke dos trabalhos iniciais de Lynn White sobre a tecnologia

medieval. 2 Ambos, Burke e White, viram no desenvolvimento do estribo uma conjuntura tecnológica crucial que afetou o desenvolvimento social da baixa Europa Medieval. Assim que o estribo foi inventado ou descoberto (ele pode ter sido emprestado, como muito da tecnologia medieval foi, das fontes orientais), um novo estilo de montaria tornou-se possível. Um guerreiro, em vez de usar sua lança para atacar um soldado com uma punhalada, podia agora atacar com velocidade, usando o poder do cavalo para empalar o inimigo. Todo um conjunto de mudanças poderia ocorrer e, de fato, aconteceram: as lanças mudaram de forma, passaram a ter uma travessa ou um nó para evitar que cravassem muito fundo nas vítimas e assim fosse difícil retirá-las. O tampão ou a travessa e a faixa colorida (que depois se tornaria individualizada para indicar o proprietário) foram inventadas. O selim tornou-se mais longo e foi equipado com um apoiador para a lança. Depois veio a armadura, a criação de cavalos maiores, e a emergência de uma cavalaria de elite (knights) e os custos mais altos envolvidos até que tudo resultasse nos caros e bem armados “tanques” medievais. Mais tarde, outra tecnologia, o arco longo, que servia como “artilharia” de longo alcance e o qual foi capaz ainda de perfurar armaduras,

decretou o fim da combinação do cavaleiro pesado. 3

Aqui, claramente, a tecnologia ocupou uma posição de primeiro plano, e é igualmente claro que a tecnologia não é central em relação a qualquer ação ou efeito. Mas há a sugestão de que, uma vez inventada, as tecnologias simplesmente sigam uma linha de desenvolvimento quase sem contexto, por assim dizer.

Em um extremo ainda maior do debate neutralidade/parcialidade, existem aqueles que, além de sustentar que as tecnologias não são neutras, defendem também que uma vez criada e inserida, a tecnologia (frequentemente descrita com T maiúsculo: Tecnologia) assume uma vida própria e se torna um autonomous. Os anos 1960 e 1970 deram popularidade a uma larga série de livros distópicos que argumentavam que a tecnologia havia superado o controle humano e, como no mito de Frankenstein, havia escapado. Dois dos mais amplamente lidos foram O Homem Unidimensional (One Dimensional Man), de Hebert Marcuse, e A Sociedade Tecnológica (The Technological Society), de Jacques Ellul. Ambos argumentavam no sentido de que a tecnologia era equipada com certas técnicas calculistas (“racionais”) que, por sua vez, se tornavam não apenas dominantes, mas totais, fazendo, assim, a tecnologia como sendo a cultura absoluta. Ellul, indo além, e em companhia de muitos outros escritores, contrastava este meio social cultural com o meio social prévio, o qual ele caracterizava como sendo o da natureza. “Técnica se tornou o novo e específico meio social no qual se requer que o homem exista, meio o qual suplantou

o antigo meio social, a saber, o da natureza.” 4

Com esta interpretação de tecnologia, surge outra crença popular: a de que a tecnologia, por ser produzida, é artificial e o artificial é para ser contrastado com o natural. Tal crença pode tomar uma forma muito popular, por exemplo, desde a prática de evitar comidas com aditivos de qualquer espécie até o uso apenas de fibras puramente “naturais” no vestuário. Ou toma uma forma sofisticada nos argumentos dos filósofos como aqueles que são comumente feitos por Hans Jonas sobre o modo como as tecnologias afetam até mesmo a essência da humanidade. Jonas argumenta que a inclinação para se buscar poder sobre a natureza feita para a “estreiteza que está pronta a sacrificar o resto da natureza para as pretensas necessidades (do homem), (e isto) pode apenas resultar na desumanização do homem, na atrofia de sua essência, mesmo

no caso fortuito da sobrevivência biológica”.5 A implicação disto é que a tecnologia, por estar inserida entre os humanos e a natureza, pode até mudar a essência da humanidade (ou aquilo que já foi a “natureza humana”).

As interpretações distópicas da tecnologia foram populares nas duas últimas décadas, mas as utópicas também foram no século passado. Algumas foram tão longe como no caso de exaltar as propriedades estéticas das indústrias poluidoras cuja fumaça ajudava a criar um pôr do sol mais bonito. Os utópicos poderiam, então, ter sido denominados de globalistas na esperança. Ciência-tecnologia, corretamente aplicada e desenvolvida, acredita-se, pode eventualmente resolver mais, se não todos, os problemas pessoais e sociais humanos. Certamente os maiores como a pobreza, o crime, as doenças, as pestes e aqueles que poderiam ser eliminados de uma vez por todas. Hoje alguém raramente se encontra tal como um utópico globalista. Mas o que pode ser chamado especificamente ou simplesmente sistema utópico continua abundante em várias crenças na solução tecnológica.

Recentemente, os principais candidatos para a utopia da solução tecnológica têm sido os “fundamentalistas” da inteligência artificial (AI). Tal como Hubert Dreyfus sarcasticamente apontou em seu What Computers Can’t Do (O que os Computadores Não podem Fazer), estes apologistas têm sido rápidos em alimentar a pauta dos jornalistas. Em 1970, a revista Life alegava, nas mesmas bases apresentadas pelos apologistas da inteligência artificial, que já existiam computadores que “viam”, “compreendiam”, “aprendiam” e “pensavam”. E “distintos cientistas da computação eram citados como prevendo que de 3 a 15 anos ‘nós teremos uma máquina com a inteligência completa de um ser humano médio… e em poucos

meses (depois disso), tais máquinas estariam no nível dos gênios.’” 6 Um bom resultado da revolução dos computadores domésticos é que computadores agora são muito mais familiares a um amplo conjunto de usuários, com o resultado predicável de que o uso ordinário fez da mística destes “experts” muito menos reveladora; hoje a comunidade AI, embora ainda não povoada o suficiente por fundamentalistas AI para manter a mitologia viva, tem se tornado predominantemente mais modesta sobre esses processos de modelagem metafóricos parecerem promissores.

Mais seriamente, entretanto, o sistema utópico único agora tem levado em conta muito da atividade envolvendo a biônica nas ciências da saúde. Desde os claramente úteis utensílios protéticos e os experimentos correlatos (minirradares para as máquinas de “leitura” cegas e brutas; membros artificiais melhorados por computador para os paralisados, etc.), os experimentos médicos de tecnologia avançada tem se transformado em biônicos internos (rim artificial, coração artificial, embora o cérebro artificial ainda pareça estar muito distante!). Incorporada em tais experimentos, está clara a indicação das crenças sobre as soluções tecnológicas vis-à-vis com as relações humano-tecnologia. Qual é o alcance de tais relações? E quais estruturas experienciais elas apresentam?

Mais sério ainda são os atuais experimentos sobre a solução tecnológica que podem presumivelmente proteger países contra um ataque nuclear: Star Wars. Aqui as implicações econômicas e políticas são genuinamente impressionantes e, se promulgadas, empenham as futuras gerações a um questionável sistema político-tecnológico. Novamente, as suposições contidas neste movimento político em relação à solução megatecnológica são basicamente utópicas.

Um terceiro conjunto de questões existenciais envolvendo o futuro. O que o alto desenvolvimento tecnológico anuncia para o futuro de nossa espécie? Os sensos comum e especializado apresentam avaliações variadas desde as distópicas até as utópicas. Se o conjunto das tecnologias poderia ser apreendido, e mesmo a questão sobre a possibilidade de tal avaliação é difícil, tal conjunto indicaria um fenômeno Frankenstein tal como os distópicos defendem? Ou o futuro se tornará estável, e o corrente conjunto de problemas, que emerge devido ao passado do progresso científico e tecnológico, será solucionado? Na medida em que existem desde épocas anteriores, as catástrofes da natureza têm sido muitas vezes substituídas por ameaças que são muito mais relacionadas à própria atividade humana, isto é, à atividade tecnológica humana. Humanos-com-tecnologias têm claramente se tornado uma força global. Efeitos oceânicos e atmosféricos causados pelas práticas industriais são indicadores claros deste fato. Assim, muitas vezes a questão sobre o futuro assume a forma da questão sobre o controle da tecnologia. O estrito fato de que a questão dominante do século XIX sobre o controle da natureza é agora colocada lado a lado com a questão do controle da tecnologia em si mesma é sugestiva desta mudança na sensibilidade.

A tecnologia pode ser controlada? Ou ela se tornou autônoma e fora de controle? Se controlável, como ela deve ser controlada? E sob quais formas de autoridade? Questões sobre o futuro contêm nossos medos e esperanças. A outra forma necessária que este conjunto de questões toma é se existe alguma trajetória única e esmagadora para a tecnologia como um todo. Existirá uma única e universal civilização tecnológica? Se sim, ela será democrática ou totalitária? Centralizada ou descentralizada? Ela possuirá variações ou será monolítica? A literatura que opera com tais questões é bastante pautada na nossa cinematografia de ficção científica, bem como em toda uma variedade de livros sobre os presumíveis efeitos da tecnologia.

Não é preciso voltar à literatura especulativa para ter em conta as direções divergentes presentes. Nos debates em torno da produção nuclear de energia, um medo tem sido o de que tecnologias avançadas contenham uma determinação frente à centralização e à autoridade hierárquica. Igualmente a segurança (de produtos nucleares utilizáveis por terroristas, à produção de subprodutos radioativos por gerações) e as necessidades de segurança parecem clamar por estruturas secretas de autoridade altamente controladas. Num nível mais comum, a veloz introdução dos computadores nos lares e no comércio nos tornou cientes igualmente do grande potencial para a comunicação e para as trocas (linhas diretas com nossos bancos, trabalhar em casas e estar em contato com o escritório, etc.) e das ameaças de invasão de privacidade e de maciças avarias e erros. Muitos de nós temos sido pegos em um problema persistente relativo ao faturamento das empresas de computadores. Todos nós recebemos novas ondas de spams devido à disseminação de listas de e-mails pelos anunciantes. Em uma escala mundial, as culturas tradicionais estão a desaparecer rapidamente agora. Estaria esta marcha da tecnologia contemporânea a determinar o fim desta variedade de formas de vida humanas? Atualmente os antropólogos estão correndo atrás das culturas previamente isoladas para registrar aquilo que, muitos acreditam, desaparecerá momentos antes de sua absorção às culturas de tecnologia avançada de origem ocidental.

Ainda mais predominantes são as amplas questões sobre se a nossa geração ou a próxima vai submeter-se ou sobreviver a um holocausto nuclear, ou se os efeitos em longo prazo das tecnologias industriais produzirão alguns irreversíveis e possivelmente deletérios efeitos climáticos, fazendo da vida que nós conhecemos diferente, mais difícil ou até mesmo insuportável.

Essas questões e as respostas conhecidas igualmente do senso comum e dos especialistas parecem apontar para uma séria crítica filosófica. Ainda que filósofos, particularmente aqueles na América do Norte, têm sido poucos e tardios em fazer da tecnologia o tema central de sua investigação. De fato, o que vem agora tardiamente tornando-se conhecido como filosofia da tecnologia apenas recentemente apareceu em cena. Existem razões para esta entrada tardia, mas, por agora, a pura magnitude igualmente no escopo e na profundidade destas questões deve ser impressionante o suficiente para gerar até mesmo no filósofo mais ambicioso uma pausa. Ainda que seja precisamente o objetivo deste livro adentrar na arena a qual possa agora ser denominada de filosofia da tecnologia, deve-se entender desde o início que a tarefa da filosofia, não importa o quão vasta ou profunda, é também limitada. O filósofo não pode fornecer respostas tal como fórmulas às questões colocadas e nem existe qualquer probabilidade de tais respostas serem simples. Existem duas coisas que um filósofo pode fazer: fornecer uma perspectiva a partir da qual se pode vislumbrar o terreno, neste caso, o fenômeno da tecnologia, ou melhor, o fenômeno das relações humano-tecnologia; fornecer um quadro ou “paradigma” para o entendimento. Esses objetivos filosóficos gerais serão realizados aqui.

A primeira destas tarefas é estabelecer a perspectiva a partir da qual se vislumbrará o vasto e complexo terreno da tecnologia e de seu contexto humano. Eu sugiro, de início, que parte do que a realização desta perspectiva demanda é uma medida certa de distanciamento, de modo que a singularidade e mesmo a peculiaridade da nossa cultura tecnológica possam, assim, serem avistadas. Na medida em que o pensamento crítico é como enxergar igualmente o que está muito perto (a ponta do nosso nariz) e o que está muito longe (para além do horizonte), ele não é simplesmente e claramente discernível.

As perspectivas filosóficas comuns ou dominantes frequentemente podem ser chamadas de lucrecianas. No clássico De Rerum Natura, Lucrécio descreve a perspectiva filosófica como sendo análoga à de uma Torre Alta (e, em algumas traduções, Torre de Marfim), a partir da qual as aflições e os atos humanos parecem distantes e triviais, como no reino das formigas, sob o ponto de vista humano. Nesta metáfora de distanciamento em busca de objetividade, se trai igualmente as preferências por uma posição fixa e distante. Numa analogia contemporânea, poderíamos optar por uma visão de satélite. Como atualmente nós começamos a fazer “medições de toda a terra” via satélite, assim o filósofo pode preferir esta longa distância.

Ainda neste caso de análise da cultura tecnológica, há algo radicalmente errado com esta escolha. Não mais do que uma pretensa visão marciana sobre nós mesmos, poderemos nos desperceber de certa proximidade oculta pela metáfora do satélite. Ao contrário, habitar o satélite seria uma metáfora melhor para ilustrar o enredamento, o invólucro que temos em nossa tecnoesfera. O veículo espacial é apenas um exemplo extremo de um casulo tecnológico que nos fornece um suporte à vida, um ambiente construído, uma camada hermética, através e por meio da qual nós estaríamos formulando nossas imagens. Longe de nos dar distanciamento sobre o fenômeno, terminaríamos simplesmente tomando-os como um dado adquirido.

Por esta e por outras razões que apontarei depois, eu prefiro usar uma metáfora mais kierkegaardiana como ponto de partida a fim de estabelecer esta perspectiva. Em Temor e Tremor, no contexto da descrição da inevitabilidade da decisão, Kierkegaard faz uma imagem de nós como capitães de navios no mar, navegando. A pessoa ao leme já está em movimento; e fazer acontecer ou não fazer acontecer já é igualmente tomar uma decisão. Eu modificarei esta imagem por observar que o ângulo desta perspectiva é basicamente marítimo. O navegador, exatamente no meio do mar, quando o barco e o mar encontram-se igualmente em movimento, deve seguir um rumo, encontrar uma direção e situar a si próprio e a sua destinação. Essa perspectiva ocorre numa dinâmica e situação fugidia e é bastante realística, ainda que tal situação seja normal para o navegador.

A perspectiva marítima é suficientemente autoconsciente de estar em meio daquilo que está acontecendo, mas o problema navegacional é localizar os pontos de referência através de algumas variações do meio. Aqui há, pelo menos, uma boa lição que pode ser aprendida a partir também das viagens espaciais. Astronautas que vivem junto aos vários casulos que nós projetamos encontram-se sem peso. O seu ponto de referência terrestre, a gravidade normalmente relacionada à nossa postura ereta, foi perdido. Eles devem escolher um ponto de referência a partir do qual vão se movimentar. Frequentemente eles farão isso arbitrariamente: “Esta maçaneta ali vai significar ‘para cima’, e aquela alavanca lá, ‘para baixo’”. Em resumo, eles devem reaprender um tipo de mobilidade corporal em um novo quadro de referências e, desta forma, eles inventam um novo tipo de navegação corporal. Similarmente, dentre os variados estilos de navegação, alguns pontos de referência e alguns conjuntos de variações devem ser constituídos para se atingir as localizações relativísticas cruciais para encontrarmos o nosso caminho.

Embora eu deva desenvolver em breve tais sugestões de uma maneira mais técnica e precisa, a instauração da investigação pode ser feita, bem informalmente, com um dispositivo muito familiar para os filósofos. Um mito ou conto contemporâneo servirá, não muito diferente da estória da Caverna inventada por Platão, para pontuar tal teoria epistemológica, para demonstrar aquilo que deve ser buscado. Nesse caso, entretanto, vou elaborar, de maneira bastante proposital, a partir daquele que seja talvez o mito mais familiar em nossas tradições, o mito que apresenta nossos apetites de inocência e nossas preocupações sobre deixar para trás o paraíso, a história do Jardim do Éden.