Tigres no Espelho e Outros Textos da Revista The New Yorker

Matando o Tempo

 

Se o romance publicado pela Secker & Warburg em Londres em 8 de junho

de 1949, e pela Harcourt, Brace em Nova York em 13 de junho (e escolhido

no Clube do Livro do mês de julho), tivesse se chamado O último homem

na Europa, título ainda vivamente considerado pelo autor e pelo editor

mesmo em fevereiro de 1949, este ano que se inicia em breve seria

diferente. Seria diferente no que concerne ao jornalismo, à produção

editorial, aos comentários políticos, aos pronunciamentos militantes e

editoriais, aos colóquios acadêmicos e ao setor geral das letras. De maneira

mais sutil, porém incisiva, poderia ser totalmente diferente no estado de

espírito político e na sensibilidade social, nas formas de representação e

expressão sintética que as gentes das letras usam para apresentar a imagem

que têm de si mesmas, de suas comunidades e de suas chances de

sobrevivência num planeta ideologicamente dividido e armado até os

dentes.

Mas, como todos sabem, George Orwell e Fred Warburg, grande amigo

e editor seu, escolheram outro título. (Orwell discute os dois títulos

possíveis numa carta a Warburg, datada de 22 de outubro de 1948.) Tendo

concluído o manuscrito em novembro desse mesmo ano, Orwell

simplesmente inverteu os dois últimos algarismos. Devido a esse

expediente mais ou menos adventício — se Orwell tivesse acabado de

escreveu em 1949, provavelmente estaríamos esperando por 1994 —, o

ano que vem, mais do que 1984, será “1984”.

A atribuição do ano ao livro promete ocorrer em escala megalítica e

repetitiva a ponto de enfastiar. O romance — “Não é um livro em que eu

apostaria como sucesso de vendas”, escreveu Orwell ao editor em

dezembro de 1948 — já saiu até agora em cerca de sessenta idiomas, com

vendas estimadas na casa dos oito algarismos. Na Inglaterra, a rádio e a

televisão começaram a tratar dele desde agosto passado. Um filme de

setenta minutos, chamado The Crystal Spirit [O espírito de cristal],

mostrará a vida isolada de Orwell, literalmente moribundo, na ilha de Jura,

nas Hébridas Interiores, onde foi escrita uma boa parte de 1984. Dois

outros programas de tevê devem mostrar as relações entre a vida e as obras

do romancista. Ao que consta, há um aceso debate sobre a questão da data

de transmissão. As possibilidades mais discutidas são 21 de janeiro, data

da morte de Orwell em 1950; 25 de junho, aniversário de seu nascimento,

em 1903; e 4 de abril, a data fictícia em que o anti-herói do romance,

Winston Smith, faz a primeira anotação em seu diário clandestino. A

Secker & Warburg vai lançar uma edição de luxo com as obras completas

de Orwell em dezessete volumes. A edição original em quatro volumes dos

Collected Essays, Journalism and Letters [Ensaios escolhidos, jornalismo

e cartas], lançada em 1968, será ampliada com mais quatro volumes,

passando de 500 mil palavras ainda não reunidas em coletânea. A Penguin

deve lançar em todo o mundo uma nova edição redesenhada de 1984. Sir

Peter Hall está pensando seriamente em montar uma produção teatral de A

revolução dos bichos, publicado pela primeira vez em 1945, no National

Theatre. O curso de verão sobre Orwell, a ser oferecido sob a égide do

professor Bernard Crick, o biógrafo “mais autorizado” de Orwell (essa

especificação absurda é necessária porque o próprio Orwell solicitou

expressamente que não fizessem nenhuma biografia nem celebração

fúnebre), é apenas um, embora sem dúvida o mais prestigioso, entre dezenas de outros seminários, palestras, mesas-redondas, conferências

acadêmicas literárias, que se realizarão de norte a sul e de leste a oeste da

terra que Orwell renomeou como Airstrip One.

Em 7 de junho deste ano, o Wall Street Journal declarou que chegara o

momento de todos os homens de bem decidirem se 1984 seria como 1984.

Nos eua, a resposta parece ter sido ampla. A rádio e a televisão já

anunciaram vários programas apresentando ou dramatizando Orwell e o

romance. O Instituto de Estudos e Pesquisas do Futuro na Universidade de

Akron pedirá a seus convidados que reflitam sobre a pergunta: “Depois de

1984, quais são os futuros para a liberdade pessoal, a autoridade política e

a cultura cívica?”. Uma conferência na Universidade de Wisconsin tem

com tema “Premonições e perspectivas de 1984: o mundo orwelliano

chegou?”. A Smithsonian está comemorando 1984 com a análise de se os

meios de comunicação de massa podem de fato exercer um controle sobre

o pensamento. Dezenas e dezenas de universidades, institutos de ensino,

programas de educação de adultos e cursos de nível secundário estão

seguindo o exemplo. Mas mesmo esses projetos — que encontram páreo

em listas semelhantes de praticamente todas as sociedades mais ou menos

abertas no mundo — ficarão modestos se se concretizar um projeto de

Tóquio que tem sido noticiado de várias formas: nada menos do que

convocar todos os ganhadores vivos do Prêmio Nobel para se reunirem no

Japão e exporem suas ideias sobre a veracidade e o grau de materialização

do pesadelo de Orwell de 35 anos atrás.

Nenhum outro livro jamais foi tão divulgado, vendido e esmiuçado desta

maneira. Numa comparação estatística, os centenários de Shakespeare são

discretos. Mas também nenhum outro livro na história da humanidade

procurou reservar e reservou antecipadamente para si um ano do calendário.

Este, claro, é o grande ponto central. Nenhum outro artefato literário tem

um título tão seu quanto 1984 de Orwell. O último homem na Europa teria se adequado com muito maior precisão à política que o livro sustenta: seu

apelo de advertência em favor de uma Europa social-democrata, capaz de

resistir tanto ao sistema totalitário do stalinismo quanto à desumanidade

asseptizante de uma tecnocracia e de uma hipnose por meio da mídia, tal

como Orwell julgava ser o rumo tomado pelos eua. Ao optar por 1984,

George Orwell executou um gesto de mestre. Apôs sua assinatura e sua

reivindicação a um período de tempo. Nenhum outro escritor jamais fez

isso. E nos registros da consciência, creio eu, existe apenas um único

paralelo genuíno. Kafka sabia (e temos seu testemunho a este respeito) que

tinha se apropriado de uma letra no alfabeto romano. Kafka sabia que “K”

viria a representar por muito tempo a máscara de condenado que adotou em

suas obras de ficção, que “K” apontaria inelutavelmente para ele mesmo. A

litania da letra é escandida pelo poeta inglês Rodney Pybus em seu poema

“In Memoriam Milena”:

 

K e mais K e mais K

K de Kafka

K d’O castelo

K d’O processo

K a mnemônica do medo:

Oh Franz não consigo

escapar a essa letra K depois de K —

 

Mas, ainda que agora ocorra em dezenas de línguas (ao que sei, o adjetivo

“kafkiano” existe até em japonês), a identificação de “K” com Kafka

provavelmente não se estende além de uma minoria letrada. Numa escala

muitíssimo além do enorme público leitor do romance em si, 1984 tem sido

e continuará a ser inculcado no senso temporal do homem. Shakespeare não

é dono do “S”; nenhum ciclo de doze meses é monopólio seu. A reserva

antecipada de 1984 é uma coisa com a qual a teoria literária e a semântica

não estão realmente preparadas para lidar.

Numa das inúmeras pesquisas de opinião pré-1984 que andam

povoando a mídia, Len Murray, o sensatíssimo secretário-geral do

Congresso Sindical britânico, colocou a questão da seguinte maneira:

“Raramente pode-se riscar um ano antes do tempo com a eficácia de

George Orwell em relação a 1984”. A sintaxe meio capenga é uma

contraparte honesta da tremenda complexidade do tema. O que se faz com

uma obra literária, com uma ficção, que “risca antes do tempo” um ano na

vida dos homens? É claro que existiram outros anos maléficos e fatídicos

na numerologia do apocalipse. Sabemos do grande pânico que tomou conta

das comunidades da Europa Ocidental quando se aproximava o ano 1000;

sabemos dos fiéis que agora estão indo se entocar no sul da Califórnia, na

expectativa do juízo final em 2000. Astrólogos e teólogos viam 1666 como

o ano da vinda final da ira divina, como profetizava o Livro da Revelação.

Mas esses chamados histéricos não provêm da tática adventícia usada para

escolher o título de um livro moderno. Len Murray podia ter sido ainda

mais enfático: nunca nenhum homem ou nenhuma canetada arrancou um

ano fora do calendário da esperança. Se, no ano que vem, ocorrer uma

catástrofe termonuclear, se a fome se alastrar além das áreas onde impera

atualmente, serão incontáveis as pessoas que, desafiando a razão, vão

achar que Orwell havia de alguma maneira previsto 1984, que havia em

seu 1984 a presença não só de uma clarividência, mas também — ideia

bem mais inquietante — de uma concretização que ocorreu simplesmente

porque foi enunciada. E aqui também o caso de Kafka oferece um paralelo

possível. O processo, A metamorfose e, acima de tudo, Na colônia penal

anunciam uma previsão alucinatória da ordem nazista e dos campos de

morte onde Milena e as três irmãs de Kafka iriam morrer. A profecia tem

força de coerção? Existe na clarividência de exatidão tão assoberbante

alguma semente de sua própria materialização?

O fenômeno 1984 coloca nada menos do que a questão dos direitos

fundamentais da imaginação. Desde Platão estende-se o debate sobre os

limites aceitáveis da literatura. A representação esteticamente eficaz da

sexualidade, do sadismo, do fanatismo político, da obsessão econômica

induz o leitor, o espectador, a audiência a adotar uma conduta por imitação?

Deste ponto de vista, a censura não é uma restrição da liberdade do homem

social. Ela cria para o ser humano médio aquelas esferas de espontaneidade,

de experiência pessoal, de ignorância terapêutica ou de indiferença dentro

das quais a imensa maioria dos seres humanos deseja levar sua vida

cotidiana. Terá o artista, terá o inventor literário ou filosófico de absolutos

algum direito de viver por nós nossa vida interior? Precisamos, devemos

confiar nossos sonhos ou pesadelos a seu controle de mestre? O próprio

Orwell tinha uma preocupação nervosa, puritana, quanto aos efeitos da pulp

fiction e das histórias de crimes mais ou menos sádicos sobre a sociedade e

a imaginação em geral. Daí dois de seus ensaios mais penetrantes: “Boys’

Weeklies” [Semanários dos meninos] de 1939 e “Raffles and Miss

Blandish” de 1944. Observando a ficção de James Hadley Chase, Orwell vê

nela um filão sádico corrompedor. Tem os gestos e os valores do fascismo.

Orwell leu atentamente. Em He Won’t Need It Now [Ele não vai precisar

disso agora], de Chase, Orwell comenta que “o herói […] aparece

pisoteando o rosto de um homem, e depois, tendo-lhe esmagado a boca,

afunda e gira o calcanhar em volta dela”. Em 1984, essa exata imagem iria

render, digamos assim, frutos aterradores. Mas e as próprias imagens de

Orwell? A injeção de ferocidade, de vulgaridade, de tédio febril, ministrada

à sociedade pela literatura barata e pela indústria da pornografia, é um

fenômeno repugnante, mas também muito difuso, cujos efeitos concretos

sobre o comportamento continuam a ser discutíveis. A reserva antecipada, a

eliminação prévia de 1984 por 1984 é uma façanha muito mais específica e

forçosa. A literatura tem a licença moral de retirar ao tempo futuro a

conjugação da esperança?

Não existem indicações de que Orwell tenha respondido a essa pergunta. A

metafísica e a grandiloquência não eram seu forte. Sua rude sensibilidade

resistia a se elevar a qualquer altura, tanto quanto o pudim de um bar inglês

numa noite de inverno. Além disso, quando Orwell escreveu 1984, seu

próprio tempo estava chegando ao fim. A tuberculose que, desde muito

antes, vinha-lhe em surtos desencadeou toda a sua virulência cabal em

1947-48. O próprio Orwell sabia que estava à morte. (Morreu cerca de seis

meses após a publicação do livro.) De fato, pode ser que a doença terminal

seja a única constante na história íntima de 1984. Apesar das cartas, dos

textos auxiliares e dos testemunhos da época, muitos elementos sobre a

gênese e as intenções da obra continuam obscuros.

Na carta de 22 de outubro de 1948 a Warburg, Orwell afirma que

concebeu inicialmente o romance em 1943. Em 26 de dezembro, para a

sinopse do editor, Orwell diz que o que 1984 “realmente pretende fazer é

discutir as implicações de dividir o mundo em ‘zonas de influência’

(pensei nisso em 1944 em virtude da Conferência de Teerã), & além disso

indicar pela paródia as implicações intelectuais do totalitarismo”. A

pequena discrepância sobre a data da concepção inicial — 1943 numa

declaração, 1944 na outra — é trivial. O que importa é que não temos

nenhuma outra indicação para qualquer uma delas. George Orwell tem

uma invejável reputação de honestidade, e não há nenhuma razão para

supor que ele estivesse tentando enganar a si mesmo ou aos outros. É

plenamente plausível que a ideia para algum tipo de sátira utópica sobre

um mundo ideologicamente dividido, num planeta perigosamente repartido

entre superpotências, tenha vindo a Orwell nos anos finais da guerra na

Europa e depois de alguma das reuniões de cúpula entre Churchill,

Roosevelt e Stálin. Mas é de se notar que uma datação precoce era de

grande interesse para Orwell. Pois 1984, como ele escreveu e agora nós

conhecemos, depende muito e intimamente de outro livro. E sobre esse ponto nevrálgico Orwell — para escolher os termos com cuidado —

reserva seu testemunho.

A resenha de Orwell sobre o livro Nós, de Y. I. Zamiátin, saiu no dia 4

de janeiro de 1946 num semanário independente de esquerda, o Tribune.

Orwell havia lido o texto russo numa tradução francesa. Qualificou-o

como “uma das curiosidades literárias nesta época de queimar livros”.

Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, e cuja influência sobre 1984

Orwell reconheceu várias vezes sem nenhuma dificuldade, “deve ter

derivado parcialmente” de Zamiátin. Apesar das aparências, apesar do

exílio voluntário de Zamiátin e da proibição completa de seu livro na

União Soviética, Nós, segundo Orwell, não visa a nenhum país ou regime

em particular. É uma sátira, é uma advertência sobre “os objetivos

implícitos da civilização industrial”. Prova disso, afirma Orwell, é o fato

de que Zamiátin, vindo para o Ocidente, “escreveu algumas sátiras

mordazes sobre a vida inglesa”. Com efeito, Zamiátin tinha se visto em

1922 encarcerado no mesmo corredor da mesma prisão na qual a polícia

czarista o colocara em 1906, mas Nós devia ser lido como “um estudo da

Máquina, o gênio que, num gesto imprudente, o homem soltou da garrafa e

não consegue guardá-lo de volta”. O resenhista aponta qualidades na

fantasia de Zamiátin. Suas intuições políticas e a percepção do “culto ao

Líder” realmente fazem do romance russo uma obra “superior à de

Huxley”. Mas, “até onde consigo julgar, não é um livro de primeira

categoria”. Escrevendo a Warburg em 30 de março de 1949, quando 1984

estava indo para o prelo, Orwell se mostrou favorável ao lançamento de

uma tradução de Nós em inglês. Mas aqui também seu entusiasmo é

claramente moderado. Não existe nenhuma indicação de que tivesse

mudado de ideia sobre a estatura da obra.

Nós, de Zamiátin, publicado em 1924, fala da existência humana no

“Estado Único”. Esse Estado, dirigido pelo “Benfeitor”, impõe controle

total e absoluto sobre todos os aspectos da vida física e mental. A

vigilância e a punição ficam a cargo da polícia política, os “Guardiães”. (O

pastiche satírico de Zamiátin sobre a República de Platão é evidente.) Os

súditos do Benfeitor moram em casas de vidro, nus para contagem e

inspeção constante. A identificação de homens e mulheres é feita por

números, não por nomes. Talões racionados lhes dão o direito de abaixar

as persianas e gozar “a hora de sexo”. O enredo de Nós é a tentativa de

uma rebelião de D-503, que, como era o próprio Zamiátin, é um

engenheiro competente, mas ao mesmo tempo “uma pobre criatura

convencional” (como diz Orwell na resenha). D-503 se apaixona e é

levado a participar de uma conspiração. Apanhado pela polícia que tudo

vê, ele trai a amada, I-330, e seus associados. Assiste à tortura de I-330,

submetida a ar comprimido sob uma redoma de vidro. Ela não cede e

precisa ser eliminada. D-503, pelo contrário, recebe tratamentos de raio X

que o curam de um tumor chamado “a imaginação”. Ele sobrevive e

reconhece o zelo onipotente do Benfeitor.

Citei expressamente os elementos da ficção de Zamiátin que Orwell

selecionou na resenha sobre o livro. O “Estado Único” se converte na

“Oceania” de 1984; o “Benfeitor” é transposto para o “Grande Irmão”; os

Guardiães equivalem à “Polícia do Pensamento” de Orwell; Winston

Smith, na verdade, conserva um nome, mas é oficialmente conhecido e

chamado como “6079 Smith W.”. A questão da sexualidade autêntica em

oposição à sexualidade programada, de um ato de amor entre homem e

mulher como fonte última da insurreição libertária, é o ponto central nas

duas narrativas. As torturas físicas e psíquicas sob a redoma de vidro são

retomadas de perto na Sala 101 de 1984. O efeito das moradias de vidro de Zamiátin é exatamente o mesmo alcançado pelas teletelas de Orwell.

Como D-503, Winston Smith será curado do câncer da imaginação

autônoma, do crescimento maligno das lembranças pessoais. Quanto ao

desenvolvimento do enredo, a diferença é que a heroína de Zamiátin morre

sem ceder, enquanto a Julia de Orwell se soma ao ex-amado na traição de

si e dos outros.

Salvo uma única exceção — e, como veremos, é este o toque de gênio

em 1984 —, todos os temas principais e a maioria das situações narrativas

concretas no texto de Orwell derivam de Zamiátin. Sem Nós, 1984, tal

como o conhecemos, simplesmente não existiria. Não sabemos qual pode

ter sido o germe do projeto de Orwell em 1943 ou 1944. Mas sabemos que

o efetivo delineamento e a execução de 1984 nasceram de uma leitura de

Zamiátin no inverno de 1945-46. E é forçoso concluir que foi esta

dependência absolutamente central de 1984 em relação a seu predecessor,

em larga medida esquecido, que tornou tão displicentes, tão canhestros os

veredictos que Orwell formulou em suas referências a Zamiátin.

Prontamente ocorrem outras fontes de sugestão. Entre elas estão The

Sleeper Awakes [O adormecido acorda], de H. G. Wells, O tacão de ferro

(livro de Jack London que marcou claramente grande parte da visão de

Orwell) e, claro, Admirável mundo novo. Mais significativos do que

qualquer um deles, porém, parecem ter sido os escritos de James Burnham.

Orwell publicou o artigo “Second Thoughts on James Burnham” no

periódico Polemic de maio de 1946. O conceito de “gerencialismo” de

Burnham, que remonta a 1940, e sua concepção de um nivelamento

apocalíptico das sociedades humanas sob a tecnocracia causaram grande

impressão em Orwell. Ele considera suspeito o retrato de Stálin que

Burnham pinta em “Lenin’s Heir” [Herdeiro de Lênin], de 1945; o fascínio

de Burnham pelo grande potentado e comandante de guerra gerou “um gesto de homenagem e até de autodegradação”. Mas certos temas da

descrição de Burnham realmente afloram no Grande Irmão. “Enquanto o

homem comum tiver quem o ouça”, conclui Orwell, nem tudo está perdido

e as profecias de Burnham podem se mostrar equivocadas. Aqui também

vemos um tema que será desenvolvido em 1984. Em 29 de março de 1947,

quando o trabalho no romance estava a todo vapor, Orwell publicou uma

longa resenha sobre The Struggle for the World [A luta pelo mundo], de

Burnham, em The New Leader de Nova York. Parece-lhe de uma

estridência excessiva a ideia de Burnham de que é iminente o massacre

soviético contra o Ocidente. A imagem implícita do globo

irremediavelmente dividido entre o capitalismo americano e o marxismo

soviético é demasiado simplista. Existe, segundo Orwell, uma terceira via:

o “socialismo democrático”. E é obrigação histórica da Europa, depois de

duas guerras homicidas e basicamente intestinas, mostrar que o

“socialismo democrático” pode funcionar. Talvez seja muito difícil criar

uma federação de “Estados Socialistas Unidos da Europa”, diz Orwell,

mas certamente não é inconcebível. Na verdade, pode conter a solução

frágil e fugidia para a sobrevivência humana. O debate de Orwell com

Burnham aponta inegavelmente para o eixo “eurocêntrico” em 1984. Põe

em nítido relevo o pleno significado do título do romance que acabou

sendo descartado, O último homem na Europa. A tentativa malograda de

Winston Smith de preservar a individualidade, de conhecer e lembrar o

passado histórico, representa uma recusa essencialmente europeia tanto do

totalitarismo stalinista quanto da cultura anti-histórica de massas do

capitalismo americano. Com a derrota e a degradação de Julia e Winston

Smith, extingue-se “o último homem na Europa”.

O artigo de Orwell sobre “The Prevention of Literature” [A prevenção da

literatura] saiu em Polemic em janeiro de 1946. Aqui podemos ver mais uma vez as ideias — e os elementos que logo seriam usados em 1984 —

amadurecendo, por assim dizer, com as sugestões de Zamiátin. “‘Ousar

ficar sozinho’ é não só um perigo em termos práticos, mas também um

crime em termos ideológicos.” Nenhuma ordem totalitária pode permitir o

jogo anárquico do sentimento ou da invenção literária individual:

 

Uma sociedade totalitária que conseguiu se perpetuar provavelmente montaria um sistema de pensamento esquizofrênico, no qual as leis do senso comum funcionariam bem na vida cotidiana e em algumas ciências exatas, mas seriam desconsideradas pelo político, pelo historiador e pelo sociólogo. Já existem inúmeras pessoas que achariam escandaloso falsificar um manual científico, mas não veriam nada de errado em falsificar um fato histórico. É no ponto onde se cruzam a literatura e a política que o totalitarismo exerce sua máxima pressão sobre o intelectual.

 

Nessa ideia de uma esquizofrenia sistemática, imposta e controlada pelo

Estado, vemos as origens do “Duplipensar”. Quando estava trabalhando no

romance, Orwell veio a considerar o simples ato de escrever como uma das

últimas possibilidades de resistência humana. Ele publicou suas reflexões

sobre “Writers and Leviathan” [Os escritores e o Leviatã] em Politics &

Letters do verão de 1948. Em função de seu socialismo pragmático, Orwell

considerava que as lealdades de grupo são indispensáveis: “E no entanto

são um veneno para a literatura, visto que a literatura é criação dos

indivíduos”. É quando Winston Smith, homem fraco como é, começa a

escrever um diário clandestino, colocando suas palavras pessoais na página,

que o Grande Irmão fica sob ameaça. A verdadeira escrita, observa Orwell,

“sempre será o produto do eu com maior sanidade, que se põe de lado,

registra as coisas que são feitas e lhes reconhece a necessidade, mas se

recusa a ser iludido quanto à verdadeira natureza delas”.

O tema das relações entre linguagem e política, entre a condição da fala e

da escrita humana, de um lado, e a do corpo político, de outro, tinha

atingido o próprio cerne das preocupações de Orwell. Ele deixou isso muito

claro no famoso ensaio sobre “Politics and the English Language” [A política e a língua inglesa], de 1946. A propaganda de guerra, de ambos os

lados, deixara-o nauseado. Sentiu o que seria a erosão do estilo causada

pelas mentiras bem maquiadas dos meios de comunicação de massa. A

própria política, escreveu Orwell, “é um amontoado de mentiras, evasivas,

loucura, ódio e esquizofrenia”. E justamente porque “todas as questões são

questões políticas”, esse amontoado ameaça invadir e extinguir a vitalidade

consciente e responsável de todo discurso humano. A decadência do inglês

ainda podia ser remediada. Nunca use uma palavra comprida onde basta

uma curta; use a voz ativa em vez da passiva, sempre que puder; nada de

jargão quando o inglês corriqueiro servir; “quebre qualquer uma dessas

regras antes de dizer algum franco barbarismo”. O final do ensaio tem a

eloquência da exasperação:

 

A linguagem política […] é concebida para que as mentiras soem verdadeiras e o assassinato respeitável, e para dar uma aparência de solidez ao puro vento. Não há como mudar tudo isso de uma vez só, mas pode-se ao menos mudar os próprios hábitos, e de vez em quando, se zombarem demais, até se pode jogar alguma expressão inútil e batida — tacão da bota, calcanhar de Aquiles, viveiro de vícios, caldeirão de raças, pedra de toque, verdadeiro inferno ou qualquer outra pelota de lixo verbal — na lata de lixo a que pertence.

 

Note-se de passagem que essa última expressão reproduz um celebrado

“trotskismo”. Trótski e sua retórica já tinham avultado bastante em A

revolução dos bichos; reapareceriam nos assuntos do Airstrip One.

A percepção das reciprocidades orgânicas entre linguagem e sociedade

é tão velha quanto Platão. Foi reexaminada e aprofundada na teoria

política e na teoria da história de Joseph de Maistre, a grande voz da

reação e do pessimismo cultural entre o final do século xviii e o começo do

século xix. Os escritos de Bernard Shaw muitas vezes constituem um

exercício explícito para expurgar a ilusão e as frases feitas do discurso

público e privado. Orwell acrescenta a essa tradição polêmica o especial

interesse pela corrupção da linguagem nos livros infantis, nas artes populares, na literatura “ruim” e de entretenimento de massas (cf. o ensaio

de 1942 sobre Kipling, analisando a fascinante rudeza da linguagem desse

escritor). Mas entre essas críticas e o passo que Orwell dá em 1984 ainda

há uma grande distância.

A atitude de Orwell em relação a Jonathan Swift era ambígua. “Em

sentido político e moral sou contra ele, até onde o entendo. Mas,

curiosamente, é um dos escritores que admiro com menos reservas, e As

viagens de Gulliver, em particular, é um livro do qual parece impossível eu

me cansar.” É um dos seis livros, diz Orwell, que ele preservaria se todos os

demais tivessem de ser destruídos. O retrato de Swift latente em “Politics

vs. Literature” (Polemic, setembro-outubro de 1946) parece quase um

autorretrato: “Swift não tinha grande sensatez, mas de fato possuía uma

intensidade tremenda no olhar, capaz de isolar uma verdade oculta e então

ampliá-la e distorcê-la”. Orwell enxerga na Parte iii das Viagens de Gulliver

uma “previsão excepcionalmente clara do ‘Estado policial’ infestado de

espiões”. Informantes, acusadores, delatores, promotores, testemunhas

perjuras proliferam no Reino de Tribnia. A acusação e a contra-acusação

compõem o mecanismo de funcionamento dos assuntos públicos. Swift,

observa Orwell, antecipa o macabro automatismo dos Processos de Expurgo

de Moscou. Filtrados por Nós, de Zamiátin, esses diversos elementos serão

utilizados em 1984. Mas é em outro pequeno trecho da Parte iii que, creio

eu, Orwell encontrou a sugestão principal. Na “Grande Academia de

Lagado”, ferozmente satirizada por Swift, cientistas serviçais se dedicam a

inventar novas formas de linguagem sistematicamente simplificadas. Estão

criando, claro, a “Novilíngua”.

 

Ao adotar, desenvolver e sistematizar a sugestão de Swift, Orwell permite

que 1984 reivindique grandeza. É aqui que Orwell rompe e ultrapassa o

modelo fornecido por Zamiátin. O “Duplipensar”, o “Grande Irmão”, os

“proles”, o “Ministério do Amor”, a própria “Novilíngua” ingressaram na linguagem. O “elemento”, designando uma pessoa que assim se torna uma

“não pessoa”, adquiriu uma presença pavorosamente indispensável nos

relatos atuais das burocracias do terror, seja na União Soviética, na

Argentina, na Líbia ou na Indonésia. Em nível mais profundo, e mesmo sem

levar em conta o fantasmagórico jogo de palavras com que Orwell se

diverte, usando alguns termos da dialética de Hegel como aparecem na

lógica marxista, as famosas inversões na Novilíngua — “Guerra é Paz”,

“Liberdade é Escravidão”, “Ignorância é Poder” — tocam os pontos

nevrálgicos de nossa política. O apêndice sobre “Os princípios da

Novilíngua” guarda uma implacável autoridade que falta a grande parte da

própria ficção. Era como se toda a carreira de Orwell como jornalista,

analista político, romancista das ideias e crítico literário e linguístico fosse

um prelúdio a esta tétrica afirmação:

 

Uma pessoa criada tendo a Novilíngua como sua única linguagem não saberia que igual tinha sido antes o significado secundário de “politicamente igual”, ou que livre significara outrora “intelectualmente livre”, da mesma forma como, por exemplo, alguém que nunca ouviu falar em xadrez ignora os significados secundários associados a rainha e a torre. Existiriam muitos crimes e erros que não estariam em seu alcance cometer, simplesmente porque não teriam nome e, portanto, seriam inimagináveis. E seria de se prever que, com o passar do tempo, as características próprias da Novilíngua se tornariam cada vez mais pronunciadas, o número de palavras diminuindo sem cessar, seus significados se fazendo cada vez mais rígidos, a chance de lhes dar um uso impróprio sempre se reduzindo.

 

Esse axioma econômico é talvez a única imprecisão no vaticínio de

Orwell, baseado como era em Swift. A Novilíngua que de fato falamos é

de inflação verbal: o assassinato é rotulado nos serviços de informação

como “separação com extrema consequência”; os fatos recentes em El

Salvador ou nas Filipinas são definidos como “percepções promissoras dos

princípios dos direitos humanos”. Mas o método é igual. A representação

lúcida, a heresia do pensamento se tornarão impossíveis devido à

eliminação ou ao ofuscamento da linguagem em que poderiam ser concebidas e transmitidas. Uma das máximas de Orwell lança uma luz

quase insuportável sobre grande parte do ensino primário e secundário nos

eua. Palavras complexas, polissílabos, termos difíceis de pronunciar são,

ipso facto, tidos na Novilíngua como palavras ruins e indesejáveis. Sujeitas

a mal-entendidos, a ambiguidades, não são apenas elitistas — abrem

espaço para o inconformismo.

Há um virtuosismo sádico e autodestrutivo nos usos dados a toda essa

invenção em 1984. Aqui também um dos juízos de Orwell sobre Swift é

esclarecedor: “Da maneira mais estranha, prazer e asco vêm associados”.

As amostras de transposição da Velhilíngua para a Novilíngua, a diluição

estilística e a estenografia de mentiras praticadas por Winston Smith,

quando apaga ou falsifica todos os textos do passado que possam de

alguma maneira lançar dúvidas sobre a linha atual do partido, são muito

convincentes. O “bom-pensante”, a “crimideia”, o “campilegre” e a

“pensepol” ainda não entraram no vocabulário da língua, mas funcionam

bem no livro. E basta abrirmos nossos jornais ou assistirmos à tevê para

saber como é útil um termo como “falafácil”: “É uma daquelas palavras

interessantes que têm dois sentidos contraditórios. Aplicada a um

adversário, é um insulto; aplicada a alguém com quem você concorda, é

um elogio”. Exemplo: na Polônia, a lei marcial é uma descarada tirania

contra os direitos humanos fundamentais; na Turquia, é uma preparação

necessária para o surgimento de instituições democráticas num futuro

incerto. Igualmente interessantes e engenhosos são os contraexemplos de

Orwell, as explorações da Novilíngua por inferência negativa. Chaucer,

Shakespeare, Milton e Byron não podem ser expressos no vocabulário do

Grande Irmão. Serão traduzidos, claro; a tradução irá transformá-los não

só em algo diferente, mas “em algo contraditório com o que costumavam

ser”. Na Novilíngua do intercurso sexual e da procriação autorizada, a própria frase “Eu te amo” será um “sexcrime” arcaico e intraduzível.

(Vários manuais atuais sobre as alegrias do sexo ou sua psicologia social

não estão distantes dessa especulação de Orwell.) Mesmo “eu sonho”,

devido à sua aura de liberdade privada e clandestina, logo será uma frase

intraduzível da Velhilíngua, a ser erradicada. A gente se pergunta se o

autor de 1984 teria chegado a ouvir a bravata do Reichsorganisationsleiter

Robert Ley, vociferada logo após a ascensão dos nazistas ao poder, em

1933: “Hoje, o único indivíduo na Alemanha que ainda tem uma vida

privada é quem está dormindo”.

O tema da Novilíngua se desenvolve de maneira brilhante. Numa

indireta à Enciclopédia Britânica, Orwell nos diz que a versão usada em

1984 encarnava a nona e a décima edição do Dicionário de Novilíngua.

Mas é “à versão aperfeiçoada e definitiva, tal como vem na undécima

edição”, que se refere o apêndice. Há ainda quantidades enormes de

história, informações, belles-lettres a ser expurgadas e traduzidas. Mas em

2050 a grande tarefa estará concluída. E a essa feliz altura a linguagem,

como era antes conhecida, não será mais necessária: “Na verdade, não

existirá nenhum pensamento, como o entendemos hoje. Ortodoxia

significa não pensar — não precisar pensar. Ortodoxia é inconsciência”.

Ou analfabetismo; ou televisão 24 horas por dia. Ou designação de um

teste termonuclear como Operação Luz do Sol.

Poucas outras coisas em 1984 têm essa mesma força. A questão das

mulheres e do sexo, tratada nos textos de Orwell, é de um sentimentalismo

enjoativo. Julia não é exceção. Os jacintos florescem exuberantes no solo;

o tordo começa “a verter um caudal de melodias”; Julia arremessa suas

roupas “com aquele mesmo magnificente gesto com o qual toda uma

civilização parecia se aniquilar”; seu corpo cintila de alvura ao sol. O sexo

recebe um tratamento indefinido — não na Novilíngua, mas em Orwell (“Você gosta de fazer isso? Não digo eu, simplesmente; digo a coisa em

si”, “Adoro isso”). Um sentimentalismo muito parecido, ao mesmo tempo

genuíno e irônico consigo mesmo, tinge o gesto de revolta de Winston

Smith ao descer para a “velha Londres”, para o mundo proibido da loja de

antiguidades. Há o peso de papéis vitoriano com “um objeto estranho,

rosado, cheio de curvas que evocava uma rosa ou uma anêmona do mar”

no centro coberto de poeira. “Laranjas e limões, cantam os sinos de St.

Clement; Você me deve três tostões, cantam os sinos de St. Martin’s.”[2]

Há “moças em flor, de lábios borrados de batom” e rapazes a persegui-las.

A mescla de fascínio e repugnância que se apodera de Winston Smith, cuja

sensibilidade há de nos parecer insípida e batida, é em muitos aspectos, e

de maneira bastante incômoda, a do próprio Orwell.

Já antes de 1984 existiam inúmeros relatos de tortura em celas

totalitárias, de aplicação metódica de dor e humilhação ao corpo humano.

Depois de Auschwitz e do gulag vieram as bestialidades sistemáticas das

guerras na Argélia e no Vietnã. Nosso estômago se empanturrou de

horrores descritos com vividez e acabou se acostumando. Mesmo assim, a

terceira parte da “Utopia” de Orwell (e é exatamente o termo que ele lhe

dá) continua a ser quase intolerável. De modo geral, é como deveria ser. O

que se espera é que imaginemos em nossa própria medula, por assim dizer,

a pavorosa dor física infligida a Winston Smith. O que se espera é que

sintamos ânsias de vômito ao que nos é narrado:

 

O cotovelo! Ele tinha caído de joelhos, quase paralisado, agarrando o cotovelo atingido com a outra mão. Tudo explodira numa luz amarela. Inconcebível, inconcebível que um único golpe fosse capaz de causar tanta dor! A luz clareou e ele conseguiu ver os outros dois olhando-o de cima. O guarda estava rindo de suas contorções. Uma pergunta, pelo menos, estava respondida. Nunca, por nenhuma razão no mundo, você haveria de querer que a dor aumentasse. Da dor, você só poderia querer uma única coisa: que ela parasse. Nada no mundo

era tão terrível como a dor física. Diante da dor não há heróis, não há heróis, pensava ele sem cessar enquanto se retorcia no chão, agarrando inutilmente o braço esquerdo mutilado.

 

Isso carrega grande autoridade. Demonstra a percepção implacável de

Orwell quanto aos direitos do corpo humano, à plena legitimidade com que

esses direitos às vezes podem vencer mesmo os mais elevados ideais e

deveres. Como Jonathan Swift, Orwell se firmava na autenticidade dos

cheiros e ferimentos da carne.

Mas não é essa vazão da agonia que torna tão difícil ler o final de 1984.

Estamos diante de algo mais complicado de definir, creio eu: uma certa

lascívia macabra, uma tendência ao kitsch sádico exatamente do mesmo

tipo que Orwell rastreara em seus estudos de literatura barata (pulp

fiction). O próprio Orwell declara — podia estar, claro, condescendendo a

seu missivista — que achou embaraçosos os procedimentos notórios da

Sala 101. A tortura dos ratos engaiolados que vão ser soltos para arrancar

os olhos e devorar a língua de Winston Smith não era invenção de Orwell.

Ela consta naqueles tomos sensacionalistas sobre “Punições” ou “A

história da tortura e da mutilação” que ainda se encontram no fundo dos

sebos nas cercanias da Charing Cross Road. Mas sua aplicação em 1984

tem uma espécie de sortilégio onanista. Há “morbidez” aqui, mas em mais

de um sentido. A carta a Warburg em 22 de outubro de 1948 traz uma pista

clara. O livro, diz Orwell, “é uma boa ideia, mas a execução teria sido

melhor se eu não o tivesse escrito sob a influência da tuberculose”. Essa

influência parece atravessá-lo por inteiro. As torturas, as degradações, as

autotraições impostas a 6079 Smith W. são muito visivelmente uma

transposição das sofridas por George Orwell em seus sucessivos períodos

de hospitalização, absolutamente ineficazes. “Era inútil: todas as partes

dele, mesmo a cabeça, estavam imobilizadas. […] Houve uma violenta

náusea que o convulsionou por dentro, e ele quase perdeu a consciência. Tudo havia escurecido. Por um instante ficou insano, um animal a gritar.”

Este é Orwell falando da dor nos pulmões afetados, das marcas do

tratamento sem efeito. Como é anódino, em comparação, o alastramento

elegante da tuberculose, observado metafisicamente na Montanha mágica

de Thomas Mann.

Por fim, a dificuldade com 1984 é seu enfoque. Durante grande parte da

composição do romance, Orwell parecia entendê-lo como uma sátira

premonitória sobre a administração tecnocrática, sobre a mecanização

desenfreada. A essa luz, 1984 seria uma versão mais lúgubre de R. U. R.

— a que devemos a palavra “robô” —, de Karel Capek, ou de Tempos

modernos, de Charlie Chaplin. Mas o livro não é nada disso. É uma

alegoria levemente velada do stalinismo, onde os fatos reais e as

implicações ideológicas do conflito Stálin-Trótski ocupam papel central.

Em muitos níveis, 1984 é uma ampliação, uma “humanização” literal da

fábula esquemática apresentada em Revolução dos bichos. A declaração do

próprio Orwell, em resposta a uma pergunta de Francis A. Henson, da

United Automobile Workers, logo após o lançamento de 1984 nos eua, é

bastante conhecida:

 

Meu romance recente não é um ataque ao socialismo […] e sim uma mostra das perversões a que está sujeita uma economia centralizada e que já se concretizaram parcialmente no comunismo e no fascismo. Não acredito que o tipo de sociedade que descrevo necessariamente irá surgir, mas acredito (descontando o fato, claro, de que o livro é uma sátira) que algo semelhante poderia surgir. Também acredito que as ideias totalitárias criaram raízes na mente de intelectuais em todo o mundo, e tentei levar essas ideias até suas consequências lógicas. O cenário do livro é ambientado na Inglaterra para ressaltar que os povos de língua inglesa não são inatamente melhores do que qualquer outro e que o totalitarismo, se não for combatido, pode triunfar em qualquer lugar.

Na verdade, porém, as especificidades do tema Stálin-Trótski percorrem

as generalidades da sátira. E aqui a atitude de Orwell é de extrema

ambivalência. “Goldstein” (Trótski) é retratado com admiração e

desagrado. O longo excerto extraído dos escritos proibidos de Goldstein é

uma franca paródia da prosa de Trótski. Quando Winston Smith e Julia

caem na armadilha de se juntar à irmandade secreta dos dissidentes

trotskistas, Orwell deixa claro que essa organização é tão homicida, tão

opressora, tão dogmática quanto o regime do Grande Irmão. O judaísmo

incomodava Orwell. Esse reflexo fica evidente em 1984. Aparece no tema

bizarro da mulher que “podia ser uma judia” metralhada no filme de guerra

a que assiste Smith; adquire vividez na pessoa de Goldstein. E, acima de

tudo, aparece no apêndice magistral, num momento pouco notado, mas de

grande importância: “O que se exigia de um membro do Partido era uma

perspectiva semelhante à do antigo hebreu que, sem saber muito mais,

sabia que todas as outras nações, afora a dele, adoravam ‘falsos deuses’.

Não precisava saber que esses deuses se chamavam Baal, Osíris, Moloch,

Astaroth e similares: provavelmente quanto menos soubesse sobre eles,

melhor para sua ortodoxia. Ele conhecia Jeová e os mandamentos de

Jeová; sabia, portanto, que todos os deuses com outros nomes ou outros

atributos eram falsos deuses”. Belo trecho. Mas impressionante num

defensor, num descendente de Bunyan e de Milton.

Em outros pontos nevrálgicos, há ambiguidades ou confusões

semelhantes. “No final, o Partido anunciaria que dois e dois são cinco, e

você teria de acreditar.” Sob tortura, é exatamente nisso que Winston

Smith irá acreditar. Mas aqui há mais do que uma imagem muito grosseira

da degradação irracional. O próprio direito de proclamar que dois e dois

são cinco, em face de todos os precedentes, de todas as ortodoxias, de

todos os ditames do bom senso convencional, é o elemento com que o “Homem do Subterrâneo” de Dostoiévski identifica a liberdade humana.

Enquanto a imaginação humana, ensina Dostoiévski, puder negar a

concordância com os axiomas euclidianos universais, ela continuará em

liberdade. Orwell conhecia essa célebre passagem, claro. Então, como

deveríamos entender o uso e a inversão dela em 1984? Que valores,

paródicos, niilistas ou simplesmente desnorteados, devemos atribuir à

injunção de que os sãos e corajosos o suficiente para resistir aos Grandes

Irmãos teriam de estar dispostos a “atirar ácido sulfúrico no rosto de uma

criança”? Winston Smith inventa um “Camarada Ogilvy” para fins

hagiográficos do Partido:

 

Pareceu-lhe curioso que fosse possível criar mortos, mas não vivos. O camarada Ogilvy, que nunca existira no presente, agora existia no passado e, depois que se esquecesse o ato de falsificação, ele iria existir tão autenticamente, e sobre as mesmas provas, quanto Carlos Magno ou Júlio César.

 

Devemos concluir desse engenhoso conceito que nossa história passada

é uma invenção inverificável?

Enquanto preparava este artigo, reli A condição humana, de Malraux, e

O zero e o infinito, de Koestler. Quanto ao impacto, à influência difusa,

1984 sem dúvida é o terceiro neste conjunto. Mas, em estatura intrínseca,

ele fica bem abaixo. A condição humana continua a ser um grande

romance, com um sentido convincente da densidade incerta e das

complexidades da conduta humana. O foco de Koestler é penetrante, o de

Orwell não. O puro entendimento filosófico-político, o conhecimento de

dentro, que se evidencia em O zero e o infinito é de classe diferente da de

1984. Essas comparações sugerem a interessante possibilidade de que o

livro de Orwell pertença a uma categoria muito particular e restrita: a dos

textos de tremenda força ou engenhosidade que devem ser lidos logo cedo na vida, e lidos integralmente apenas uma vez. Esses textos se imprimem

em nossa mente e em nossa lembrança como um entalhe profundo.

Quando voltamos a eles, é difícil vencer a impressão de déjà vu, de

invenção forçada, como em algumas fotos famosas de jornal.

Pessoalmente, eu incluiria Cândido e O emblema rubro da coragem sob

esta mesma rubrica do “uma vez só e inesquecível”.

1984 irá se apagar do convívio e da consciência de massa após 1984? A

pergunta me parece muito difícil. “A perspectiva atual”, escreveu Orwell

na Partisan Review de julho-agosto de 1947, “é muito sombria, e qualquer

reflexão séria deve partir desse fato.” Nada em nossos assuntos atuais,

internos ou internacionais, nega essa proposição. Para centenas de milhões

de homens e mulheres no mundo, o famosíssimo clímax da visão de

Orwell — “Se quiser uma imagem do futuro, imagine uma bota pisoteando

um rosto humano — para sempre” — não é propriamente uma profecia,

mas um quadro banal do presente. Se a catástrofe nuclear vier ou nossos

sistemas políticos ruírem sob o peso dos armamentos e da ganância, haverá

aqueles — muitos, talvez — que lembrarão o romance de Orwell como um

ato inspirado de anunciação. Mas pode ser também que suas debilidades

como enredo, como obra de arte, falem mais alto. As comemorações que

se acumularão no próximo ano indicam uma obra pertinente até “em

excesso”, mas também um livro com falhas bastante peculiares. Muito

provavelmente não poderia ser de outra maneira. Pois, como diz Thoreau,

pode alguém matar o tempo sem ferir a eternidade?

 

12 de dezembro de 1983

 

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