Tigres no Espelho e Outros Textos da Revista The New Yorker
As Línguas dos Homens
Para o público em geral, o professor Noam Chomsky, do mit, é um dos
críticos mais eloquentes e infatigáveis da Guerra do Vietnã e do papel do
complexo industrial militar na vida americana. Marchou sobre o Pentágono;
apoiou as táticas mais radicais dos pacifistas e dos objetores de consciência;
trabalhou para dissociar sua universidade e a comunidade acadêmica
americana do que julga ser seus entrelaçamentos corrosivos com a
tecnologia militar e a expansão imperialista; correu graves riscos
profissionais devido a suas convicções e seus alertas de catástrofe. A voz de
Chomsky foi uma das primeiras a denunciar o que entende como injustiça e
insanidade da operação no Vietnã, e foi uma das mais importantes para
alterar a disposição de espírito dos americanos instruídos e dar origem ao
impulso atual de desengajamento.
Há um segundo Noam Chomsky. Para os epistemólogos, para os
psicólogos comportamentais, para os teóricos do desenvolvimento e
educação infantil, para os linguistas, Chomsky é um dos trabalhadores
mais interessantes em atividade nesses campos e fonte de debates
acalorados. Suas contribuições ao estudo da linguagem e do processo
mental são altamente técnicas e de considerável dificuldade intelectual.
Mas, como a antropologia de Claude Lévi-Strauss, com a qual mostra
afinidades, a gramática generativa e transformacional de Chomsky é uma
daquelas hipóteses especializadas que, por seu puro fascínio intelectual e
pela amplitude de suas implicações, chegam ao mundo dos leigos. O próprio Chomsky, além disso, é um expositor eloquente e um divulgador
entusiasmado de seus trabalhos técnicos; em seus melhores momentos, é
um “explicador” na tradição de Mill e T. H. Huxley. Assim, uma boa
proporção de sua argumentação profissional se torna acessível, pelo menos
em parte, ao observador externo. O esforço para entender vale a pena, pois,
se Chomsky estiver certo, todo o nosso senso de ancoragem humana na
realidade, de interação entre mente e mundo, se modificará ou, mais
precisamente, irá se unir a modalidades do sentimento que não têm tido
muita influência ou peso científico desde o século xvii e o começo do
século xviii.
A “revolução chomskiana” é anterior a Chomsky. Em um grau maior do
que os discípulos recentes se dispõem a admitir, o campo foi estabelecido
pelo mestre de Chomsky, o professor Zellig Harris, da Universidade da
Pensilvânia. Harris é um linguista muito ilustre, e foi em seus Methods in
Structural Linguistics [Métodos de linguística estrutural], publicado em
1951, que apareceram pela primeira vez algumas noções centrais de
profundidade e transformação gramatical. O livro Syntactic Structures
[Estruturas sintáticas], de Chomsky, que para muitos é a exposição clássica
e mais persuasiva de suas hipóteses, saiu seis anos depois. Então, em 1958,
surgiu um artigo importante, “A Transformational Approach to Syntax”
[Uma abordagem transformacional da sintaxe], lido na iii Conferência do
Texas sobre Problemas de Análise Linguística em Inglês, e em 1961 foi
publicado na revista Word o artigo “Some Methodological Remarks on
Generative Grammar” [Algumas observações metodológicas sobre
gramática generativa]. Em 1963, Chomsky contribuiu com um capítulo
rigorosamente técnico e de grande importância sobre as “Formal Properties
of Grammars” [Propriedades formais das gramáticas], para o segundo
volume do Handbook of Mathematical Psychology [Manual de psicologia matemática]. Um ano depois, o livro Current Issues in Linguistic Theory
[Questões gerais em teoria linguística] marcou o prestígio e a ampla
influência de toda a abordagem chomskiana. Linguística cartesiana (1966)
é uma saudação interessante, mas em certos aspectos deliberadamente
antiquarista, àqueles gramáticos e filósofos franceses que Chomsky
considera como seus autênticos predecessores. Linguagem e mente
(Harcourt, Brace & World, 1968) foi apresentado inicialmente no ciclo das
palestras Beckman em Berkeley, em janeiro de 1967, e publicado um ano
mais tarde. (Foi reeditado em data mais recente pela Harcourt, em
brochura.) É ao mesmo tempo uma síntese da linguística generativa e um
programa de trabalho posterior. Em torno desse núcleo de textos
profissionais multiplicam-se entrevistas explicativas ou polêmicas —
notadamente com o filósofo inglês Stuart Hampshire, reproduzida em
Listener, da bbc, em 30 de maio de 1968 — e uma série de conferências
recentes ministradas em auditórios lotados em Oxford, Londres e
Cambridge.
O melhor ponto de partida é o ataque de Chomsky ao professor B. F.
Skinner, de Harvard. Chomsky nos conta que foi ouvindo uma palestra de
Skinner que se desencadeou sua própria linha de raciocínio, e que as
ciências comportamentais, representadas por Skinner, são seu alvo
constante. O comportamento verbal, de Skinner, saiu em 1957. O ataque
de Chomsky, uma extensa resenha publicada em Language, saiu dois anos
depois, mas já vinha circulando em manuscrito. O que Skinner tentara
fazer era uma extrapolação de seu famoso trabalho sobre o comportamento
por estímulo e resposta nos animais para o comportamento linguístico
humano. Parecia sustentar que os seres humanos adquirem e usam a
linguagem de maneira muito mais sofisticada, mas na essência não
diferente da maneira como um rato aprende a percorrer um labirinto. Assim, um entendimento preciso e uma teoria capaz de prever a fala
humana não demandariam muito mais do que um refinamento das técnicas
de estímulo, reforço e resposta condicionada que nos permitem ensinar um
rato a apertar um determinado botão para receber a comida em
recompensa. Ao mesmo tempo, a criança aprenderia as habilidades
linguísticas (o que Chomsky chamava de “competência”) por meio de
processos de estímulo e resposta segundo um modelo totalmente análogo
ao que já se mostrara eficaz — em todo caso, pelo menos em parte — no
“ensino” de organismos inferiores. As aspas são necessárias, porque hoje
há dúvidas se os ratos de Skinner realmente “aprenderam”.
Chomsky considerou escandalosas as propostas de Skinner, pelas
restrições que pareciam impor à complexidade e à liberdade da consciência
humana, bem como por sua ingenuidade metodológica. A abordagem
pretensamente científica de Skinner, disse Chomsky, não passava de uma
regressão à já desacreditada psicologia mentalista. Não fornecia nenhuma
verdadeira explicação de como os seres humanos, que se diferenciam neste
aspecto fundamental de todas as outras formas de vida conhecidas, são
capazes de adquirir e usar o instrumento da linguagem infinitamente
complexo, inovador e, em todos os níveis, criador. Chomsky viu — e esta
foi, a meu ver, sua percepção mais penetrante — que um modelo de
comportamento linguístico, para ser válido, precisa explicar o fato
extraordinário de que todos nós usamos sempre e sem maior esforço
sequências e combinações de palavras que nunca ouvimos antes, que
nunca nos foram especificamente ensinadas e que, é bastante óbvio, não
nascem como uma resposta condicionada a qualquer estímulo identificável
em nosso ambiente. Quase desde os primeiros estágios de sua vida
linguística, uma criança é capaz de construir e entender uma quantidade
fantástica de enunciações que são totalmente novas para ela, mas que de alguma maneira sabe que são aceitáveis em sua língua. Ao contrário, a
criança demonstra com muita rapidez sua rejeição instintiva a ordens
lexicais e disposições sintáticas inaceitáveis (isto é, sua incapacidade de
captá-las), embora nenhuma delas lhe tenha sido especificamente
apontada. Em todos os estágios, desde o início da primeira infância, o uso
humano da linguagem ultrapassa em muito qualquer precedente formal ou
“ensinado”, e vai além do conjunto de experiências individualmente
adquiridas e armazenadas. “Essas capacidades”, diz Chomsky, “indicam
que devem existir processos fundamentais em operação totalmente
independentes de uma ‘retroalimentação’ do ambiente.” A dinâmica da
comunicação humana nasce de dentro.
Chomsky observa que tais processos são com muita probabilidade de
enorme complexidade. Podem estar situados naquela zona intermediária
entre o “mental” e o “físico”, entre o “psíquico” e o “neuroquímico”, e
para a qual nosso vocabulário ultrapassado — com suas distinções
grosseiras, mas profundamente entranhadas, entre a mente e o corpo —
está mal aparelhado. A criança formula hipóteses e processa a informação
numa grande variedade de maneiras muito específicas e altamente
complexas que ainda não sabemos descrever ou sequer começamos a
entender, e que podem ser em larga medida inatas, ou podem se
desenvolver por meio de algum tipo de aprendizado ou pelo
amadurecimento do sistema nervoso. O cérebro produz as regras da
gramática correspondente “por uma ‘indução’ de subitaneidade e
complexidade de graus visivelmente fantásticos”. Assim, reconhecemos
um novo item em nossa linguagem como frase não porque ele se
assemelhe a algum item conhecido, previamente aprendido de alguma
maneira simples, “mas porque ele é gerado pela gramática que cada
indivíduo interiorizou de alguma maneira e sob alguma forma”. A linguagem humana, como Chomsky viria a reafirmar em 1967, é um
fenômeno único, “sem análogo significativo no mundo animal”. É
absurdo, ao contrário do que podem achar inúmeros biolinguistas e
etnólogos, teorizar sobre sua possível evolução a partir de modos de
comunicação mais primitivos e condicionados pelo ambiente exterior,
como os sinais que, visivelmente, são transmitidos pelos sons dos
pássaros. De alguma maneira, o uso espontâneo e inovador da linguagem
define o homem. É como se as pessoas fossem seres “especialmente
projetados” para gerar regras de construção e compreensão linguística
imediata, como se possuíssem “uma capacidade de processamento de
dados e de ‘formulação de hipóteses’ de natureza e complexidade
desconhecidas”.
O vocabulário do primeiro Chomsky merece um exame atento,
sobretudo porque sua força interna aumentará mais tarde. “Projeto
especial”, “processamento de dados”, as referências posteriores à crucial
“pré-programação” do cérebro, tudo aponta para a imagem de um
computador. Chomsky negaria isso, mas são fortes as indicações de que a
noção, talvez em parte inconsciente, de um computador muito potente bem
no fundo da estrutura da consciência humana guarda relação com grande
parte de seus argumentos. Na história da filosofia e das ciências naturais,
essas imagens ou metáforas ocultas desempenham papel importante. É de
se duvidar se os avanços mais recentes na biologia molecular poderiam ter
ocorrido quando a imagem dominante da comunicação veloz era o código
Morse. Os usos de “código”, “retroalimentação”, “armazenagem” e
“informação” na genética atual apontam a presença implícita da tecnologia
computacional e do processamento eletrônico de dados. O mesmo se aplica
à linguística de Chomsky, fato que pode se demonstrar importante ao
tentar determinar se ela é válida ou não.
A interpretação chomskiana dessas capacidades de “natureza e
complexidade desconhecidas” se dá em dois níveis. Um, altamente
técnico, consiste numa tentativa de conceber e descrever um conjunto de
regras que irão produzir, ou “gerar”, frases gramaticais em inglês ou em
qualquer outra língua, e não produzirão frases sem gramática. O outro
nível pode ser qualificado com toda justiça como filosófico ou
epistemológico. As concepções de Chomsky sobre as gramáticas
transformacionais levam a certas inferências sobre a natureza da mente
humana e sobre as relações entre o ser e a percepção. Salvo para fins de
estudo, esses dois planos de argumentação não podem ser efetivamente
separados. E nem devem. O problema é que, às vezes, Chomsky
argumenta como se pudessem sê-lo e então, em outros pontos muitas vezes
decisivos, apoia suas hipóteses formais em inferências que são filosóficas e
introspectivas no velho sentido, frouxo e vago. A lógica formal tende a se
sobrepor a palpites que às vezes são muito nebulosos.
Na virada do século, a matemática e a lógica passaram por uma fase de
rigoroso exame interno. Ambas procuravam estabelecer fundamentos
formalmente coerentes e autossuficientes para os processos de raciocínio e
cálculo que tinham se desenvolvido com tremenda força nos séculos
anteriores, mas sobre uma base um tanto ad hoc. Haviam restado
extraordinárias falhas e emendas nos fundamentos da análise e da
demonstração lógica e matemática. Os resultados desse trabalho de reforço
das bases, ao qual associamos pensadores como Russell, Carnap, Tarski e
Gödel, incluem a lógica combinatória, a teoria dos conjuntos e sistemas de
notação simbólica de alto grau de refinamento. Essas ferramentas foram
aplicadas às proposições matemáticas e às estruturas formais da
argumentação lógica. Noam Chomsky decidiu aplicá-las ao material muito
mais recalcitrante e variegado da fala humana concreta. (Se o fez de fato é um dos problemas espinhosos de toda a empreitada chomskiana.) Apenas a
análise do discurso comum, insistia ele, levaria a um verdadeiro
entendimento da linguagem.
Chomsky defendia que todas as sentenças gramaticais possíveis em
inglês (ou em qualquer outra língua) poderiam ser derivadas, ou “geradas”,
a partir de um pequeno número de sentenças básicas, ou “nucleares”, e de
um conjunto de regras de operação e transformação. Podemos pensar essas
regras como similares, de certa maneira, àquele número
surpreendentemente reduzido de convenções de adição, subtração,
substituição e equivalência a partir das quais podemos construir a estrutura
de complexidade e multiplicidade imensas da aritmética e da álgebra.
Dadas as regras corretas de manipulação, basta um pequeno número de
blocos para a construção. As regras da gramática chomskiana
“transformam” certas configurações primárias, como o símbolo do
substantivo seguido pelo símbolo do verbo, em configurações correlatas,
assim como as equações algébricas resultam em outras equações com a
aplicação das devidas regras de substituição. Assim, “João ama Maria”
passa a ser, por uma regra transformacional que é não só específica, mas
também, imagina-se, de poder muito abrangente e generalizador, “Maria é
amada por João”. Essa transformação particular da voz ativa em voz
passiva permite que um falante humano reconheça e processe corretamente
a quantidade literalmente incontável de proposições organizadas e
relacionadas de modo similar que virá a encontrar durante toda a vida. O
fato de as regras de transformação serem “corretas” garante que não seja
gerada nenhuma sentença sem gramática ou numa ordem aleatória. Se não
houvesse esse mecanismo operante, cada nova situação verbal — digamos,
“eu corto este bolo”, “este bolo é cortado por mim” — ofereceria dilemas insolúveis e exigiria um novo ato específico de aprendizagem.
Evidentemente não é esse o caso, insiste Chomsky.
Uma sentença gerada dessa maneira tem dois níveis distintos, e é em
virtude dessa dualidade que Chomsky se considera alinhado com certos
gramáticos e lógicos que desenvolveram seus trabalhos na França dos anos
1660 em diante. “João ama Maria” é a estrutura superficial da frase. Ela
constitui o tipo de “sinal físico” ou enunciação fonética ao qual podemos
perfeitamente aplicar a sintaxe tradicional que aprendemos na escola:
sujeito, verbo, objeto e assim por diante. Mas essa estrutura de superfície
não nos revela muito e, é óbvio, varia de língua para língua. “Lá embaixo”,
por assim dizer, está a estrutura profunda, a partir da qual foi gerada nossa
expressão fonética e da qual a sentença enunciada, audível, é em alguns
aspectos uma projeção ou mapeamento.
Como é essa dita estrutura profunda? Nesse ponto, crucial para toda a
sua teoria da linguagem, Chomsky se mostra arredio e nem sempre
coerente. Teria sido melhor, embora longe de satisfatório, se ele dissesse
que não podemos descrever adequadamente em palavras um sistema
psíquico que, de alguma maneira, funciona aquém ou muito além da
linguagem. Em sentido kantiano, poderia haver uma “pele final” do eu e da
consciência, que não podemos descrever porque não podemos sair dela.
Em vez disso, Chomsky faz sugestões em geral obscuras e tangenciais. A
estrutura profunda “pode ser altamente abstrata”. Pode ter ou não uma
“correlação exata com a materialização fonética”. Isto é, os contornos
visíveis da paisagem podem ou não simular ou reproduzir a dinâmica e as
camadas geológicas subterrâneas de onde essa paisagem foi moldada e
aflorou à superfície. Pior, o terreno visível pode ser totalmente enganador.
As estruturas superficiais — as frases que ouvimos e falamos — não são
“como” os núcleos a partir dos quais são geradas segundo regras transformacionais. A estrutura profunda de onde, segundo Chomsky,
brotam nosso entendimento e nosso uso de todas as línguas envolve
propriedades de uma generalidade, de uma abstração e poder formal até
agora incompreensíveis. Evidentemente, não devemos pensar nesses
“núcleos” ou unidades linguísticas primárias como elementos verbais ou
sintáticos em qualquer sentido comum dessa ideia. O que há, se estou
acompanhando de forma correta as sugestões de Chomsky, são relações —
“pré-programações” tremendamente simplificadas, mas funcionais, que
relacionam sujeito e objeto, pessoa e verbo. Aqui também, penso eu, a
imagem do computador, com sua capacidade de transcrever a linguagem
computacional num texto em inglês ou em qualquer outro idioma, está
presente em algum estágio vital da argumentação de Chomsky, embora
talvez não se o reconheça.
Seja como for, o que tem sido apresentado é o seguinte: a variedade
ilimitada de sentenças que os seres humanos entendem e usam em todas as
ocasiões da vida pode ser derivada de um conjunto restrito de elementos
formais e de um corpo de regras, também presumivelmente restrito, para a
manipulação e rearranjo desses elementos. Tê-lo mostrado — e penso que
Chomsky mostrou — é, em si, uma proeza de grande força e elegância
lógica. Tanto em conteúdo quanto em termos históricos, a sugestão
modelar veio da matemática e da lógica matemática. No sistema de
notação binária, por exemplo, dois símbolos, 0 e 1, e um conjunto de
regras sobre como devem ser colocados e “lidos” bastam para operar com
qualquer número ou grupo de números no universo. A lógica luta para
conseguir o mesmo rigor e economia em suas bases. É compreensível e
intelectualmente estimulante a esperança de Chomsky de que a linguagem
humana possa ser esquematizada de maneira análoga. Mas a questão não
se resume a isso. Chomsky não está defendendo um modelo matemático, uma hipótese — como os cientistas do Renascimento chamavam qualquer
proposição formal à qual não atribuíam necessariamente uma verdade
material. Chomsky trata do fato humano. Ele sustenta que apenas tal
esquema de geração e transformação a partir de estruturas profundas é
capaz de explicar como o Homo sapiens efetivamente adquire a linguagem
e se comunica. Ele sintetizou esse ponto em sua primeira palestra Locke,
em Oxford, em abril passado:
Uma pessoa que conhece uma língua domina um conjunto de regras e princípios que determinam um conjunto infinito e descontínuo de sentenças, cada uma das quais possui uma forma fixa e um significado ou potencial de significado fixo. Mesmo nos níveis mais baixos de inteligência, o uso característico desse conhecimento é livre e criativo […] no sentido de que a pessoa pode interpretar instantaneamente um leque indefinidamente amplo de enunciações, sem qualquer sensação de estranheza ou falta de familiaridade.
O postulado de que a linguagem é exclusiva do homem (com o que
concordo inteiramente) e a noção correlata de estruturas profundas têm
amplas consequências filosóficas. No último período, Chomsky tem se
disposto mais do que antes a examinar essas consequências e a avançar
além do campo da análise linguística formal. A questão central é a
natureza e a localização dessas estruturas profundas e do processo pelo
qual os seres humanos alcançaram sua capacidade exclusiva de expressar
significados e enunciar conceitos imaginários. Em seu ataque a Skinner,
Chomsky frisou que o caráter de toda essa questão é “completamente
desconhecido” e admitiu que poderia resultar de alguma forma de
aprendizado ou de um amadurecimento gradual do sistema nervoso. Mas, à
medida que suas hipóteses conquistaram confiança e prestígio, Chomsky
passou a adotar o que ele pessoalmente chama de posição cartesiana, mas
que poderia ser considerada com mais precisão como um desenvolvimento
das teorias da percepção de Kant.
O que Chomsky está inferindo são ideias inatas ou programas inatos
para todo o potencial e todos os mapeamentos da experiência. A existência
de uma “estrutura mental inata” lhe parece indispensável para a geração da
linguagem. O “esquema da gramática universal”, por meio da qual todos
os homens podem operar em sua língua e adquirir outra, deve ser atribuído
“à mente como uma característica inata”. O conhecimento da língua só
pode ser obtido “por um organismo que está ‘pré-programado’”. Apenas o
homem está inatamente equipado ou programado dessa maneira específica
e ainda assim criativa. Como todos os indivíduos humanos são organizados
dessa forma, existe entre eles o elo da gramática universal e a possibilidade
concomitante da tradução de uma língua para todas as outras. Daí se segue
também que nenhuma espécie orgânica inferior será capaz de dominar
mesmo as mais rudimentares formas de linguagem (o que é muito diferente
de dizer que não é possível ensinar alguns animais a imitar sons da fala
humana). Como nota Chomsky, estudos recentes da visão animal sugerem
que várias espécies enxergam ângulos, movimentos e outras propriedades
complexas do mundo físico de acordo com as formas específicas como
seus sistemas nervosos estão moldados ou “conectados”. Esses moldes-
padrão são inatos e inalteráveis, a não ser por lesões artificiais. Exatamente
da mesma maneira, o homem comunica a realidade a si e aos outros em
formas linguísticas porque foi moldado de maneira única e exclusiva com
a capacidade e a necessidade para operar assim.
Aqui estamos de volta a Kant e àquelas estruturas mentais a priori ou às
categorias de tempo, espaço e identidade por meio das quais o homem
interage com o mundo “exterior” e que comandam tanto a liberdade quanto
os limites conceituais dessa interação. Estamos de volta também às
doutrinas dos grandes gramáticos de Port Royal na segunda metade do século xvii, referentes à gramática universal da qual, em última instância,
todas as línguas humanas derivam suas formas particulares.
Até onde podemos sondar essas estruturas profundas e “programações”
da consciência? Que tipo de provas estamos buscando? Aqui, uma vez
mais, Chomsky se mostra arredio e se inclina para modestas retratações:
“De fato, os processos pelos quais a mente humana alcançou seu estágio
atual de complexidade e sua forma particular de organização inata
constituem um mistério total, assim como as questões análogas sobre as
organizações físicas ou mentais de qualquer outro organismo complexo”.
Na medida em que Chomsky tinha acabado de recorrer, e com bastante
sagacidade, aos resultados positivos alcançados nos estudos da percepção
animal, essa cláusula adicional fica estranha. Além disso, em outra parte
ele se mostra menos circunspecto. Os universais linguísticos, diz Chomsky
a Stuart Hampshire, devem “ser uma propriedade biológica da mente
humana”. E acrescenta, num lance que faz lembrar muito Freud quando
este nutria esperanças de que a neurofisiologia viesse confirmar seu
modelo do subconsciente (confirmação essa que nunca chegou), que
“definitivamente algum dia haverá uma explicação fisiológica para os
processos mentais que agora estamos descobrindo”.
Essa asserção confiante significa que a linguística generativa se alinha
com o materialismo, com uma concepção da consciência pura e
simplesmente neuroquímica? Alguns de seus adeptos parecem crer que sim.
As declarações do próprio Chomsky são mais sutis. Ele destaca com razão
que as fronteiras entre “mental” e “físico” estão em constante mudança.
Inúmeros fenômenos outrora tidos como exclusivamente espirituais, fora do
alcance dos estudos empíricos, agora se tornaram inteligíveis em sentido
fisiológico e experimental. Começam a surgir uma química da esquizofrenia
e uma bioquímica dos sonhos, assim como já faz algum tempo que existe
uma fisiologia da digestão ou da reprodução. “A questão”, diz Chomsky, “é apenas se os processos fisiológicos e os processos físicos que agora
entendemos já são suficientes em princípio — e talvez de fato — para
abranger os fenômenos mentais que começam a emergir” (estas, de novo,
poderiam ser palavras de Freud). O trabalho desenvolvido nos últimos
quinze anos sobre códigos genéticos e a neuroquímica dos impulsos
nervosos mostra como são fantasticamente complicadas e criativas as
energias operando nos processos moleculares orgânicos. O
desenvolvimento desse trabalho pode — e Chomsky está dizendo que deve
— levar a algum entendimento da “anatomia” das estruturas profundas
inatas e da geração linguística.
De forma simplificada e obviamente muito abreviada, tais são as teorias que
o professor Chomsky tem apresentado nos últimos doze anos. Desde o
grande linguista franco-suíço Saussure, nas décadas iniciais do século xx, e
I. A. Richards nos anos 1930, ninguém teve mais impacto sobre o estudo da
linguagem, nem contribuiu mais para mostrar que a linguística é realmente
uma disciplina central para o entendimento da mente e do comportamento.
Mas isso não significa que as ideias de Chomsky têm aceitação universal.
Elas têm sido muito questionadas por outros linguistas e agora há sinais de
que a onda chomskiana pode estar recuando. Que tal recuo ocorra no
momento em que as ideias de Chomsky estão recebendo sua repercussão
pública e “jornalística” mais ampla é uma coincidência bastante comum na
história da ciência e das ideias.
Boa parte da controvérsia na área é de caráter extremamente técnico.
Envolve diferenças de abordagem em relação à lógica combinatória, à
psicologia matemática e à semântica que não são muito acessíveis ao leigo.
Mesmo assim, é possível destacar algumas dúvidas mais salientes. Elas
foram levantadas com grande agudeza pelo professor Charles F. Hockett,
da Cornell, em The State of the Art [O estado da arte] (Mouton, 1968).
Hockett rejeita todo o modelo chomskiano da geração de sentenças gramaticais a partir de regras e conjuntos finitos ocultos. A imagem
chomskiana da linguagem, diz Hockett, é absurdamente ultra-abstrata; é
uma ficção moldada não pela linguagem humana real, mas pelas
tautologias e proposições artificiais da lógica formal. A maneira como
Hockett formula esse ponto decisivo é árdua, mas inequívoca: uma
linguística matemática segundo as linhas chomskianas é absurda porque a
fala humana não é um “subconjunto definido dentro do conjunto de todas
as sequências finitas num alfabeto definido”. Em termos mais simples:
quando nos ocupamos da linguagem humana, não estamos lidando com um
sistema fechado, rigorosamente definível, cujas variantes possam ser
derivadas de um só conjunto ou grupo de elementos imutáveis; não
estamos olhando a tabela periódica de elementos químicos, cujas estruturas
e pesos atômicos podem ser reduzidos a combinações de certas unidades
básicas estritamente definidas. A gramática transformacional de Chomsky
não consegue explicar a capacidade vital fascinante dos falantes humanos
não só de saber como enfileirar palavras para formar uma sentença, mas de
saber como e quando parar. Esse é um dos pontos óbvios, mas profundos,
do qual pode depender a plausibilidade de uma teoria da linguagem. Vou
tentar simplificar como puder. “Um mais um é igual a dois” é uma
sentença plenamente aceitável em inglês (“One plus one equals two”).
“Um mais um mais um é igual a três” é um pouco esquisito e quase supõe
um contexto didático ou especial. “Um mais um mais um mais um é igual
a quatro” já fica insuportável, e serão insuportáveis todas as demais
sentenças construídas com o mesmo padrão. Mas, formalmente, todas
essas sentenças são transformações da primeira em virtude, supõe-se, da
“regra aditiva” estabelecida de alguma maneira na passagem da estrutura
profunda para a estrutura superficial. Pela teoria de Chomsky, nada há de
gramaticalmente errado numa sequência de vários “um” ligados por “e” ou “mais”, ou, como apontou o professor Victor Yngve, da Universidade de
Chicago, com outras sentenças mais complexas que são incompreensíveis.
Mesmo assim sabemos, e sabemos num ponto preciso e desde logo, que já
não estamos falando mais um inglês aceitável, que estamos no máximo
imitando uma linguagem de computador. O que nos dá esse conhecimento
definido, mas extraordinariamente sutil, talvez “musical”?
Não existe nenhuma prova genuína, afirma Hockett, para nada parecido
com a estrutura profunda postulada por Chomsky. Pelo contrário, abundam
as provas de que diferentes línguas tratam o mundo de maneiras muito
diferentes e que todas as línguas trazem em si “fontes de abertura” que
Chomsky ignora. Seu erro fundamental, insiste Hockett, é crer que um
estudo da semântica possa alguma vez se dissociar de um estudo da
gramática e do léxico concretos da língua ou família de línguas em
questão. Com um trabalho paciente de comparação entre as línguas tal
como realmente são faladas, e por uma cuidadosa indução, podemos
chegar a descobrir “generalizações cruzadas”. Universals of Language
[Universais da linguagem], de Joseph H. Greenberg, publicado em 1962, e
análises comparadas de línguas indígenas do sudoeste americano, que
estão em andamento, são passos na direção correta. Os traços ou hábitos de
linguagem comuns empiricamente localizados e verificados, que estão
surgindo desse tipo de estudo etnolinguístico, podem não ter nada a ver
com estruturas profundas universais. Uma gramática universal no sentido
chomskiano é, segundo Hockett, simplesmente descabida. Não são
sentenças nucleares universais ou regras transformacionais, mas sim um
denso contexto específico de história política e sensibilidade social que faz
um homem “stand” a um cargo em inglês britânico e “run” a ele em inglês
americano.[5]
A crítica de Hockett a Chomsky, de que ele deixa de fora a
espontaneidade e a variação da linguagem concreta, diz respeito a uma
discordância filosófica mais abrangente. Ela foi bem formulada pelo dr.
Yorick Wilks numa resenha recente de Linguagem e mente. Talvez caiba
notar que o dr. Wilks fez parte da Unidade de Pesquisas da Linguagem em
Cambridge, grupo cuja abordagem filosófica da linguística pode ser mais
penetrante do que a de Chomsky e cujo “método temático” tenta lidar com
unidades linguísticas mais complexas e realistas do que as em geral citadas
na gramática generativa. Wilks sugere que a querela de Chomsky com
Skinner, a despeito de toda a sua acrimônia e convicção, é totalmente
espúria. Trata-se de uma disputa não entre um modelo mecanicista e uma
visão livre ou idealista da produção da linguagem humana, e sim “entre
duas teorias mecanicistas distintas: a simples de Skinner e a mais
complexa de Chomsky”. Nos termos que venho usando, a disputa seria
entre um modelo baseado numa calculadora antiga e outro baseado num
supercomputador. Numa crítica sutil e incisiva, Wilks acrescenta que o tipo
de esquema mecanicista concebido pelos behavioristas, se fosse
suficientemente refinado, produziria os tipos de sentenças básicas e
transformações postuladas pela gramática chomskiana. Ou seja — e é uma
observação muito perspicaz —, a imagem da linguagem postulada por
Chomsky não depende necessária nem exclusivamente da teoria da
geração a partir de estruturas profundas. As regras das gramáticas ditas de
“estado finito” e de “estrutura de frase” também funcionariam: “Se alguém
chegasse e visse as duas máquinas funcionando, jamais iria dizer que
tinham sido programadas com regras totalmente diferentes”.
Que esperanças podemos ter de algum dia olhar “dentro da máquina”
(imagem tão cartesiana quão chomskiana)? As “estruturas inatas” de
Chomsky, diz o dr. Wilks, podem representar uma “retirada diante dos fatos”, uma recusa em submeter seu projeto formal a qualquer
possibilidade de investigação experimental. Como podemos esperar
descobrir o que é inato na mente? “Não podemos olhar; não podemos nos
guiar de maneira nenhuma pelo comportamento externo e, claro, não
adianta perguntar o que as pessoas pensam.” Em vista desse caráter
impenetrável das “pré-programações inatas”, é realmente um caminho
muito estranho, sugere Wilks, passar de categorias de descrição gramatical
que podem ser “naturais” e “profundas” nas línguas ocidentais para a
asserção de que existem padrões mentais universais subjacentes a todas as
línguas. O chinês clássico (e de que outras indicações dispomos?) parece
não precisar de nossa estrutura de substantivo e verbo. Como, então,
podemos lhe atribuir propriedades gramaticais inatas obviamente moldadas
a partir de nossos próprios hábitos sintáticos? Chomsky pode estar
propenso, quase com descuido, a assumir uma doutrina mecanicista dele
mesmo, tanto mais inquietante por ser determinista não só em termos
formais, mas também culturais. Wilks não aponta esse aspecto, mas uma
posição dessas seria uma grande ironia em vista do humanismo radical das
posições políticas de Chomsky.
A observação de dr. Wilks em relação ao chinês está imediatamente
relacionada com minhas principais dificuldades diante da teoria da
linguagem de Chomsky. Hoje em dia, falam-se cerca de 4 mil línguas em
nosso planeta lotado de gente. Há inúmeros territórios na África, na Ásia e
na América Latina (para não mencionar os cantões suíços) que estão
divididos por línguas distintas, incompreensíveis entre si, embora tenham
os mesmos climas, modos de vida e necessidades econômicas. Além disso,
essas 4 mil línguas muito provavelmente são as que restaram de uma
quantidade ainda maior. Todos os anos, línguas ditas raras deixam de ser
faladas e desaparecem da lembrança dos informantes mais idosos ou isolados. Essa proliferação da linguagem humana é um fato imensamente
interessante, mas também espantoso. Desde Wilhelm von Humboldt, nas
primeiras décadas do século xix, poucos foram os linguistas que dedicaram
uma reflexão séria às enigmáticas implicações desse fato. Hoje, as divisões
profissionais entre a linguística formal matemática (se é que realmente
existe), de um lado, e o estudo antropológico comparado das línguas
concretas, de outro, têm confundido ainda mais o problema. De minha
parte, não consigo considerar intelectualmente satisfatório ou adequado à
verdade nenhum modelo ou fórmula do comportamento verbal humano
que não leve em conta de alguma maneira essa multiplicidade fantástica.
Por que 4 mil ou mais línguas? Por que, num fator de mil, mais línguas do
que, digamos, raças humanas ou tipos sanguíneos? Aqui não se aplica
nenhuma analogia darwiniana da variação através da adaptação ou da
seleção natural. A imensa variedade da fauna e da flora é uma maravilha
de adaptação específica a condições locais e às exigências da luta pela
sobrevivência. Mas o contrário se dá em relação à proliferação de línguas
vizinhas, o que tem sido uma das barreiras mais evidentes e insuperáveis à
colaboração humana e ao progresso econômico. Criou cisões internas em
grandes áreas de povoamento humano, que ficaram isoladas da história.
Muitas culturas que estagnaram ou chegaram à ruína podem ter sido
marginais linguísticas — o que não significa que tenhamos qualquer
indicação sólida de que uma determinada língua é mais propícia do que
outra para a realização individual ou a conquista social. Não conhecemos
nenhum povo que não tenha em sua mitologia alguma variante do tema da
Torre de Babel. É uma prova eloquente da perplexidade dos homens diante
da multiplicidade das línguas que instaurou entre eles muros constantes de
aparente algaravia e silêncio. A tradução não é uma vitória: é uma
necessidade perpétua, muitas vezes baldada.
A meu ver, agora a principal tarefa da linguística, trabalhando junto
com a antropologia e a etnografia, é enfocar com clareza a condição atual
da nossa linguagem. (Nem sequer temos ainda um atlas realmente
exaustivo das línguas. Precisamos aprender a fazer as perguntas corretas
sobre o fenômeno profundamente desconcertante da diversidade
linguística. Pistas existem. Mas não apontam, creio eu, para a direção de
Chomsky.)
A questão fundamental da proliferação das línguas praticamente nem
aparece na teoria da gramática generativa e transformacional. No final de
Linguagem e mente há um comentário enigmático: “O estudo empírico dos
universais linguísticos levou à formulação de hipóteses altamente
restritivas e, creio eu, totalmente plausíveis com relação à possível
variedade das línguas humanas”. Em primeiro lugar, isso é discutível. O
exame preliminar daquilo que certos linguistas supõem ser de maneira
provisória universais sintáticos se restringe, até o momento, a um pequeno
número de línguas, e os resultados alcançados tem se dado num nível
quase intangível de generalidade (por exemplo, “em todas as línguas
conhecidas existem verbos ou partes da linguagem que indicam ação”).
Mas suponhamos que o tipo de estudo empírico que Greenberg, Hockett e
outros estão empreendendo de fato resulte em “generalizações cruzadas”
verificáveis. Isso não apoiaria necessariamente a teoria chomskiana da
gramática universal e das estruturas profundas inatas. Esse ponto é
fundamental e precisa ser colocado com muito cuidado.
Chomsky postula a existência de “pré-programações inatas”
profundamente inseridas ou impressas na mente humana. Elas “devem ser
apenas uma propriedade biológica”. Ora, tais programações poderiam
levar à produção de milhares de línguas humanas, através de regras
transformacionais. Poderiam, mas não existe absolutamente nenhuma razão evidente para que o façam. Pelo contrário: dado um esquema de
sentenças nucleares e regras funcionais, complexas mas com certeza
finitas, esperaríamos a geração de uma quantidade muito restrita e
claramente inter-relacionada de línguas humanas. O que deveríamos
encontrar, se a teoria chomskiana dos universais biológicos inatos fosse
verdadeira, é a ordem de diversidade mostrada pela pigmentação e pela
estrutura óssea dos seres humanos. Aqui, o grau de variedade é totalmente
diferente, tanto em termos qualitativos quanto quantitativos, daquilo que
encontramos na linguagem. Avançando: a linguística de Noam Chomsky
poderia explicar, e poderia explicar com grande elegância e profundidade,
um mundo onde todos os homens falariam uma só língua, diversificada, no
máximo, num leque moderado de dialetos. O fato de que a gramática
generativa e transformacional iria ter uma bela compatibilidade com um
resultado desses, e que um resultado desses se mostra de alguma maneira
óbvio e natural perante os postulados de Chomsky, parece-me suficiente
para lançar sérias dúvidas sobre todo o modelo. Como os grandes místicos
da linguagem, que vão de Nicolau de Cusa a Jakob Böhme, Chomsky
parece invocar com frequência a radiosa ficção daquela única língua falada
por Adão e seus filhos, mas que se perdeu para sempre e se pulverizou em
Babel. Em suma, traços fundamentais da revolução linguística chomskiana
parecem ir a contrapelo da situação linguística em que a espécie humana
efetivamente se encontra e na qual vive desde que o mundo é mundo, ou
até onde podem recuar a história e as conjeturas.
As controvérsias desencadeadas pela própria polêmica de Chomsky
contra o behaviorismo estavam apenas na fase inicial. Talvez as objeções
levantadas contra a gramática universal sejam respondidas e a noção de
estrutura profunda adquira maior solidez filosófica ou fisiológica.
Recentemente, foram feitas algumas proposições sugerindo que crianças entre dezoito e 24 meses de idade formulam frases de uma maneira que
mostra estruturas profundas ainda não recobertas por nenhuma língua
específica. Em particular, alega-se que há analogias chomskianas nos
modos como crianças russas e crianças japonesas adquirem suas
respectivas línguas. Tenho minhas dúvidas. Mas, sem dúvida, o tempo e as
pesquisas dirão. Uma coisa é clara: Chomsky é um pensador revigorante,
possuído, como Spinoza antes dele, por um desejo apaixonado de unidade,
de lógica e explicação completa. Há um impulso monista forte na vontade
de Chomsky de chegar à raiz das coisas, sejam políticas ou linguísticas.
Mas, adiantando uma platitude a título de prudência, pode ser que nem a
política nem a linguagem sejam assim. O irracional e a obstinada
desordem dos fatos particulares podem se demonstrar resistentes às
pretensões da justiça política ou da lógica formal. Um dos elementos que
compõem a estatura da obra chomskiana é que os temas em que ela
desperta divergências são fundamentais. Para mim, o homem parece um
animal mais bizarro, mas diversificado do que Chomsky o consideraria. E
a torre de Nimrod ainda jaz em escombros.
15 de novembro de 1969
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