Tigres no Espelho e Outros Textos da Revista The New Yorker

Diga a Palavra

 

Os intelectuais vitorianos precisavam dormir menos do que nós?

Consideremos os fatos. Caminhavam quilômetros em charnecas e entre

arbustos espinhosos antes do desjejum ou depois do chá da tarde. Em uma

ou nas duas refeições, consumiam umas belas fatias de bacon, rins

grelhados, umas boas rodelas de posta de carne, uma enfiada de costeletas

de carneiro, arenque e salmão defumado em profusão, e meia dúzia de

xícaras enormes de chá da Índia. Tinham mais filhos do que o patriarca

Jacó. Respiravam Homero e Catulo, Platão e Virgílio, as Sagradas

Escrituras e o Guia Ferroviário de Bradshaw pelas vastas narinas

estentóricas. Quando saíam em viagem, ou era para andar pelo Turquestão

com uma bengala na mão e uma reserva de talco antipulgas, ou para

frequentar os balneários da Europa arrastando uma montanha de baús de

viagem, escrivaninhas portáteis, frasqueiras de couro trabalhado e cestos

gigantescos. Os sermões dominicais que faziam ou ouviam sempre se

estendiam por duas horas mortais. À tarde vinha um segundo ofício, tendo

em média onze hinos, quatro homilias e um sortimento variado de bênçãos.

Então seguiam-se as “Canções sem palavras” de Mendelssohn ao piano, a

recitação de dois ou três dos épicos mais curtos de Clough ou Tennyson,

uma adivinhação de mímica encenando a célebre ocasião em que o general

Gordon desceu uma escadaria em Cartum diante das fauces arreganhadas da

morte.

No intervalo de tais atividades, nossos sábios, estudiosos, cientistas e

reformadores aprendiam línguas, ciências, literaturas e ofícios a uma velocidade e com uma maestria de fazer as gerações mais novas se

encolherem de medo. As memórias vitorianas ingeriam épicos, árvores

genealógicas bíblicas, a flora da Lapônia, verbos irregulares macedônios,

relatórios parlamentares, a topografia local e os nomes dos primos de

terceiro grau com uma voracidade insaciável. Pulsos e dedos vitorianos

escreviam sem máquinas datilográficas, sem gravadores, ao ritmo de

milhares de palavras prontas para o prelo per diem. Histórias da opinião

religiosa em seis volumes, biografias de Disraeli idem, doze tomos de O

ramo de ouro, dezoito de Darwin, 35 de Ruskin. Trollope concluía sua

tarefa cotidiana de dispor habilmente no papel vários milhares de palavras

antes mesmo que começasse o dia de trabalho profissional. Dickens

preenchia um caderno inteiro de 24 páginas de papel almaço de uma vez só

com o aprendiz da gráfica bufando na porta. Mas isso era só metade da

coisa: depois dos colossos públicos vinham as imensidões privadas —

diários que ocupavam milhares de páginas abarrotadas com uma letrinha

miúda, reflexões pessoais, máximas, exercícios de meditação piedosa que

quase estouravam a lombada dos cadernos de capa marmorizada em

tamanho fólio e, acima de tudo, cartas. Cartas de um comprimento e um

vagar que hoje em dia não conseguimos imaginar nem de longe. Cartas

literalmente aos milhares e dezenas de milhares: para o primo Hallam

sobre o Zambeze, para o reverendíssimo Noel Tolpuddle sobre os pontos

espinhosos levantados em seus nove discursos sobre a perdição infantil,

cartas de crédito e descrédito, epístolas a cada um dos parentes, à amada

do outro lado da rua. Escritas a mão. Muitas e muitas vezes com um

primeiro rascunho e uma cópia manuscrita (nada de papel carbono ou

xerox). Com penas que arranhavam. À luz amarelada da iluminação a gás,

que forçava a vista. Em aposentos que iam esfriando a cada hora que

passava.

Estamos no segundo semestre de 1866, e a Biblioteca do Museu

Britânico está com uma vaga aberta. Um funcionário de banco de 29 anos

se candidata. Escreve a mão, claro, numa caligrafia muito nítida, durante

algum intervalo numa jornada de dez horas de trabalho. Temos de ouvi-lo

na íntegra:

 

Devo declarar que a Filologia, tanto a Comparada quanto a especial, tem sido meu interesse favorito em toda a minha vida, e que possuo um conhecimento geral com as línguas & literatura das classes arianas e sírio-arábicas — não digo, na verdade, que estou familiarizado com todas ou praticamente todas elas, mas possuo aquele conhecimento lexical & estrutural geral que torna o conhecimento íntimo apenas uma questão de um pouco de aplicação. Com várias tenho um conhecimento mais íntimo, como as línguas românicas, o italiano, o francês, o catalão, o espanhol, o latim & em menor grau o português, o vaudois, o provençal & vários dialetos. No ramo teutônico, sou razoavelmente familiarizado com o holandês (tendo em minha função de correspondência comercial de ler em holandês, alemão, francês & ocasionalmente outras línguas), flamengo, alemão, dinamarquês. Em anglo-saxão e mesogótico, meus estudos são muito mais detidos, tendo preparado alguns trabalhos para publicação sobre estas línguas. Conheço um pouco o celta, e no momento dedico-me ao eslavo, tendo adquirido um conhecimento proveitoso do russo. Nos ramos do persa, do cuneiforme aquemênida e do sânscrito, conheço para as finalidades da Filologia Comparada. Tenho conhecimento suficiente do hebraico e do siríaco para ler correntemente o A. T. e a Peshito; em menor grau conheço o árabe aramaico, o copta e o fenício no ponto em que foi deixado por Gesenius.

 

James A. H. Murray, filho de um alfaiate no vilarejo de Denholm, perto

de Hawick, em Teviotdale, não conseguiu a vaga. Mas nem por isso ele

esmoreceu um só instante em sua convicção de que o conhecimento

aprofundado de praticamente qualquer coisa a que alguém se dedicasse de

corpo e alma é “apenas uma questão de um pouco de aplicação”. Dessa

convicção nasceu o maior monumento intelectual da era vitoriana, a

realização que, ainda mais do que a Versão Autorizada da Bíblia ou do que

Shakespeare, encarna o gênio da língua inglesa: o Oxford English

Dictionary, com edição a cargo de James Murray. A história de sua preparação é uma das aventuras supremas da vida do intelecto. E é

belamente narrada por K. M. Elisabeth Murray, neta de Murray, em

Caught in the Web of Words [Envolvido na teia das palavras] (Yale, 1977).

Desde seus primeiros anos na classe barulhenta de uma escola num

rincão distante da Inglaterra, Murray tinha demonstrado uma capacidade

prodigiosa de aprender e, depois, de ensinar o conhecimento de maneira

sistematizada. Quando assumiu uma escola em Hawick, como professor de

todas as matérias, o jovem Murray, então com vinte anos, anunciou com

confiança:

 

Além dos elementos usuais de ensino compreendendo Leitura, Escrita, Gramática e Composição em inglês, Aritmética, Matemática, Geografia, Desenho, Línguas Antigas e Modernas, mr. M. se empenhará em ensinar a seus Alunos, de ambos os sexos, os princípios fundamentais de Ciência Moral, Economia Política, História, Ciência Natural, Fisiologia Humana e os outros Ramos do Conhecimento que formam uma parte importante de todo Sistema de Ensino Esclarecido.

 

Logo o pedagogo de Hawick “poderia ler razoavelmente 25 ou mais

línguas”. Por trás desse gosto enciclopédico há mais do que o talento

pessoal e uma fantástica assiduidade. Murray ilustra de maneira exemplar

a capacidade vitoriana de canalizar a experiência, de fazer com que toda

sensação renda algum conhecimento sistematizado. As flores silvestres que

Murray via em seus passeios no campo se transformavam em botânica

exata. Com o olhar, fazia uma cartografia viva dos contornos de uma

charneca e seus pontos de referência. Quando recolhia uma pederneira ou

um fragmento de cerâmica medieval, contava com um sólido contexto da

história local e nacional. Não havia nada que se desperdiçasse no cérebro

ou no coração. Encontramos essa capacidade de absorção onívora, ao

mesmo tempo sensorial e abstrata, na poesia de Browning, na prosa de

Carlyle, na arquitetura pródiga de Gilbert Scott. Por trás dela há uma tremenda confiança, uma ginástica da memória e da capacidade de

concentração. Comparado a isso, nosso ensino é uma amnésia programada,

nosso trabalho é um hiato entre telefonemas.

Murray teve sorte de sua paixão pela filologia, pela fonética, pelo

desenvolvimento orgânico das formas linguísticas, pelos dialetos e pelo

singular esplendor da língua inglesa coincidir exatamente com o começo

dos estudos modernos do inglês. Em Londres, F. J. Furnivall, fundador e

editor da Early English Text Society, Walter Skeat, o grande estudioso do

anglo-saxão, e Alexander Melville Bell, pai de Alexander Graham e

pioneiro no estudo e notação científica da fonética, descobriram os dotes

fenomenais de Murray. E, embora a sociedade inglesa fosse muito

hierarquizada, nos anos 1850 e 1860 houve uma intensa liberalização nos

estudos eruditos e nas ciências. Naquela nova comunidade de interesses

intelectuais, as origens humildes e a posição social modesta de Murray,

mestre-escola e amanuense encarregado da correspondência do Chartered

Bank of India, Australia & China, não tinham importância. O autor de The

Dialect of the Southern Counties of Scotland [O dialeto dos condados do

sul da Escócia] se fizera notar. Em Paris, a Revue Celtique tomou

respeitoso conhecimento da obra.

Como mostra Elisabeth Murray, o processo que levou à concepção do

oed foi penoso e incerto. Nos eua, Noah Webster tinha desafiado e, em

muitos aspectos, superado o dr. Johnson. Na Alemanha, Jacob e Wilhelm

Grimm, com um batalhão de auxiliares, estavam trabalhando no grande

Deutsches Wörterbuch [Dicionário alemão]. Aos 61 anos, Émile Littré,

filólogo, educador, tradutor de Dante para o francês medieval, estava

prestes a se lançar à tarefa, que se estenderia por treze anos, de criar um

dicionário histórico da língua francesa (outro brilhante exemplo da paixão

oitocentista pelo trabalho). Apenas a Inglaterra se arrastava, ficando para trás. E isso numa época em que o império estava em seu auge, tendo a

expansão colonial e o comércio difundido o inglês por todo o globo, numa

escala jamais sonhada pelas aspirações ecumênicas do latim nem pela

prestigiosa mundanidade do francês. Macmillan assumiria a tarefa? Seria

organizada e financiada pela Philological Society, contando com os

talentos ativos, porém muitas vezes agressivos, do dr. Furnivall na

coordenação? Deveriam fazer uma subscrição pública? Conforme iam se

revelando os custos e a complexidade do empreendimento, as negociações

se delongavam. Foi Henry Sweet, o modelo original que serviu de

inspiração para o professor Higgins em Pigmalião, de Shaw, quem

percebeu claramente que a melhor chance para “o Dicionário de Inglês”

seria que a Oxford University Press o encampasse e que, se existia algum

homem capaz de enfrentar o projeto titânico, era James Murray, professor

assistente na Mill Hill School.

Murray hesitou. Mais do que qualquer outro associado à ideia como um

todo, ele tinha alguma noção da enorme trabalheira e dos aborrecimentos

de um projeto desse porte. Encontrou-se com os representantes da Oxford

University Press em abril de 1878. Apenas em março de 1879 finalizaram

o contrato. Mesmo para aquela época, os termos propostos a Murray eram

puxados: uma publicação de 7 mil páginas, a ser concluída ao ritmo de

pelo menos oitocentas páginas por ano. Se esse cronograma não fosse

cumprido, previa-se a possibilidade de uma prorrogação de até cinco anos,

mas sem nenhum reajuste no pagamento total ao editor, no valor de 9 mil

libras. Com essa soma, Murray financiou praticamente sozinho toda a sua

equipe, o local físico necessário para reunir os milhões de fichas de

palavras e o sustento pessoal e da família, que logo chegaria a onze filhos.

Ninguém no começo daquela primavera do 42o ano do glorioso reinado da

rainha Vitória iria imaginar que o oed alcançaria mais de 16 mil páginas, teria um custo de produção de 300 mil libras e que nem James Murray,

nem seus herdeiros jamais receberiam um único centavo de lucro.

O problema, sem dúvida, estava na visão majestosa e no perfeccionismo

do editor. Murray pensava num dicionário que abrangesse literalmente

toda a história formal e substantiva da língua inglesa, desde suas raízes

anglo-saxãs, latinas e anglo-normandas até as mais recentes cunhagens

ideológicas, literárias, jornalísticas e científicas. Os exemplos de uso

seriam extraídos não só de autores importantes e consagrados, como tinha

sido o caso de dr. [Samuel] Johnson, mas também da gama quase

incomensurável de materiais impressos técnico-literários, efêmeros,

coloquiais que expressa a existência orgânica e a câmara de ressonância de

uma civilização. Além disso, a etimologia e, quando fosse o caso, a gênese

dialetológica de cada palavra teriam de ser rastreadas e estabelecidas

seguindo os critérios mais rigorosos da erudição moderna (critérios

desenvolvidos nos estudos indo-europeus desde o começo do século xix, e

que agora tinham se tornado mais estritos com a criação da análise

fonológica, para o que, aliás, o próprio James Murray dera uma grande

contribuição). Mesmo com um pródigo financiamento e um exército

inteiro de auxiliares treinados, o projeto de Murray teria sido esmagador. E

aqui, pelo contrário, a perfeição teria de ser alcançada quase sem capital

nenhum.

Apesar do estilo reticente, Elisabeth Murray fala detalhadamente do

“triplo pesadelo” que veio a cercar a labuta de Murray e quase levou à

interrupção do oed. Cerca de 5 milhões de fichas com palavras

encaminhadas por leitores voluntários tinham de ser classificadas e

armazenadas, para ser usadas nos verbetes de compilação que arrolavam a

primeira ocorrência conhecida de um termo na língua e exemplos dos usos

posteriores, sempre mutáveis, por onde se mostraria a história daquela palavra. Tanto em Mill Hill quanto, a partir de 1885, em Oxford, o nome

Scriptorium (que logo adquiriria fama em todo o mundo letrado) designava

um barracão de quintal inadequado, geralmente úmido e insuportavelmente

lotado. Em momento algum o editor e sua equipe tiveram sequer os

recursos físicos que, hoje, seriam considerados requisitos mínimos para

qualquer empreendimento do gênero. E logo o tempo se tornou um fator

angustiante. Quando começou a se evidenciar o escopo totalmente inédito

do projeto de Murray, com um objetivo de excelência sem precedentes, os

representantes da editora universitária assustaram-se. Aquele gigante veria

a luz do dia dentro de uma década, dentro do prazo de vida de qualquer um

dos participantes daquela empreitada? O próprio Murray tinha sido

otimista demais a esse respeito. A Parte i, “a-ant”, apareceu apenas em

janeiro de 1884; levaram até 1888 para terminar o “B”; o “C” entrou no

mundo em 1895, três anos depois da data inicialmente estabelecida para a

publicação do dicionário completo. Naturalmente, a tremenda proliferação

do material de Murray e os atrasos concomitantes na publicação se

revelaram uma catástrofe financeira. Os assinantes se amotinaram e,

enquanto os custos subiam, as vendas definhavam. Em 1897, o déficit

ultrapassava as 50 mil libras, aumentando a um ritmo de cerca de 5 mil

libras por ano. Se alguém soubesse que o oed levaria cinquenta anos para

ficar pronto, provavelmente a empreitada teria sido cancelada.

Nas condições dadas, James Murray teve de travar uma batalha

constante em duas frentes. Milhares de voluntários na Inglaterra e nos eua

atenderam a seu pedido para enviar fichas de palavras, mas era excessiva a

proporção de coisas malfeitas no material que remetiam. Durante o meio

século de gestação do dicionário, havia cerca de 65 assistentes efetivos.

Entre eles, apenas uma meia dúzia tinha a capacitação filológica e o

discernimento crítico necessários para a tarefa. Volta e meia, às vezes já na fase da primeira prova, o editor tinha de refazer pessoalmente o trabalho de

seus assistentes. Os representantes todo-poderosos da editora, por seu lado,

se revelaram capatazes impiedosos. Apenas em 1896 as relações entre

editor e casa editorial melhoraram. Somente então Murray ganhou sua

batalha pela perfeição e a Oxford University Press começou a entender a

glória que havia nessa meta. Aqui também os escrúpulos da autora são

quase vitorianos, mas o que lemos entre suas linhas sóbrias é um episódio

daquela condescendência muito típica do tratamento que Oxford e

Cambridge gostam de dar aos que têm demasiado amor por elas. Nenhuma

faculdade ofereceu uma bolsa a Murray. Não se abriu nenhum cargo de

pesquisa ou docência para ele na Inglaterra. Potentados, eruditos,

escritores de todos os cantos da terra podiam ir ao Scriptorium numa

fascinada peregrinação; para os nababos de Oxford, Murray era um

cabeçudo, um empregado que talvez tivesse recebido privilégios

indevidos. Quando ele recebeu o título de sir, em 1908, a universidade deu

os parabéns com ar muito superior.

Não admira que Murray vivesse à beira de um colapso e da desistência.

Em 1887, e depois em 1889 e 1890, a saúde robusta e o intelecto

incansável quase cederam. Em novembro de 1892, os representantes

comunicaram ao editor a dolorosa impressão de que, “quanto mais

financiam o Dicionário, mais devagar proporcionalmente ele caminha”.

Com certeza poderiam reduzir o número de citações, poderiam estreitar o

leque de termos técnicos. (Que justificativa podia haver para incluir um

termo tão extravagante como “appendicitis”?) Murray estava disposto a

renunciar. A imprensa noticiou rumores de que a publicação seria

suspensa. Poderia retornar após o “F” em alguma data futura, sob

condições mais favoráveis. Foi um clamor público, houve uma enxurrada

de cartas e reuniões de subcomitês. Murray levou a melhor. Mas a um custo altíssimo. Desde 1883, ele vinha trabalhando 77 horas por semana:

vinte como mestre-escola, 57 como lexicógrafo, além de escrever a mão

até quinze cartas por dia. No verão de 1895, estava trabalhando de oitenta

a noventa horas semanais. Olhando retrospectivamente seus labores de

Sísifo, ele falaria em “problemas e amarguras dos quais o mundo não sabe,

nem precisa saber, nada”.

O fruto de tais labores, claro, está nos detalhes concretos de A New

English Dictionary on Historical Principles [Um novo dicionário inglês

em princípios históricos]. Mas é na simples estatística que o drama e a

concepção transparecem. Com Webster, a etimologia de “black” ocupa

cinco linhas; com Murray, 23 (e elas, em si, um primor de concisão). No

oed, “do” ocupa um espaço dezesseis vezes maior do que lhe concede o

Webster. O trabalho sobre esse monossílabo ubíquo se estendeu do Natal

de 1896 a junho de 1897. O verbete mais longo de todos é “set”, e aqui o

tratamento de Henry Bradley, que viria a suceder Murray como editor,

resulta quase num minitratado sobre aspectos sociais, filosóficos e

científicos fundamentais da imaginação ocidental. “Point”, palavra sobre a

qual Samuel Johnson tinha suas próprias ideias, consome dezoito colunas;

“put”, trinta. Há alguns toques pessoais comoventes: sentado ao lado da

esposa na cama, logo após o nascimento de Elsie Mayflower, em 1o de

maio de 1882, corrigindo as provas da primeira seção do dicionário,

Murray acrescenta na primeira coluna da página 2, como exemplo do

emprego de “a” seguindo um adjetivo precedido por “as”, a frase “as fine

a child as you will see” [“a criança mais linda do mundo”]. Poetas e

romancistas são fontes de fecunda aflição. Que cargas-d’água lorde

Tennyson quer dizer com “balm-cricket”? De onde mr. Thomas Hardy

desencavou “terminatory”? Browning “contribuiu muito para as

dificuldades do Dicionário”, mas foi de valia no uso feito por sua esposa de “apparitional”. James Russell Lowell contribui com o misterioso

“alliterates”, que no fim se revela uma gralha de impressão para

“illiterates”. O Grande Rabino é instrutivo quanto a “Jubilee”. O

Departamento da Índia tem uma carta de 1620 com a primeira menção a

“punch”. De Nova York, The Nation colabora com termos políticos,

inúmeros dos quais estão começando a cruzar o Atlântico para o lado leste.

Um registro inicial de “jute” precisa ser checado com o administrador das

Ilhas Andaman.

Milhares de cartas a escrever e responder; milhões de fichas de leitores

a solicitar, dar entrada e conferir. James Murray trabalhou serenamente até

a morte. Em abril de 1915, estava concluindo a letra “T” e planejando

como iria lidar com a quantidade ensandecida de palavras começadas por

“un-”. A última vez em que esteve trabalhando no Scriptorium foi em 10

de julho; no dia 26, morreu. O oed foi concluído em 1928. Mas,

evidentemente, um trabalho desses jamais termina. Nos anos 1970, foram

publicados dois volumes maciços de um suplemento planejado para quatro

volumes. E agora está-se falando em refazer todo o conjunto.

Mas, seja qual for o futuro, o monumento de James Murray e seus

derivados — o Shorter Oxford English Dictionary, o Concise Oxford

Dictionary e a edição em dois volumes em formato de bolso lançada em

1971 — continuam inigualados. São a história viva da língua inglesa e a

encarnação dinâmica de sua difusão pelo mundo. Os mestres artífices da

palavra nas letras modernas — Joyce, Nabokov, Anthony Burgess, John

Updike — são devedores de Murray. Onde a linguagem é vital e precisa,

brota do oed e a ele volta, enriquecendo-o. Para quem conhece e ama o

inglês, a velha pergunta “Que livro você levaria para uma ilha deserta?”

não requer sequer um átimo de reflexão. O oed encerra entre as capas azul-escuras as bibliotecas dos fatos e dos sentimentos. Mergulhe em qualquer

passagem dele e a própria vida lhe afluirá numa torrente.

 

21 de novembro de 1977

 

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