Tigres no Espelho e Outros Textos da Revista The New Yorker
III. Pensadores
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O Amigo de um Amigo
Pode ser que a erudição de primeiríssima ordem seja tão rara quanto a
grande arte ou a grande poesia. Alguns dos talentos e qualidades que ela
exige são óbvios: uma extrema concentração, uma vasta memória, mas de
grande precisão, espírito fino e penetrante, uma espécie de ceticismo
piedoso ao manusear fontes e indicações, clareza na apresentação. Outros
requisitos são mais raros e difíceis de definir. O realmente grande erudito
tem um faro especial para encontrar o documento escondido, mas
fundamental, para concatenar circunstâncias aparentemente díspares. Num
relance ele vê a carta roubada enquanto os outros fitam o papel da parede.
Como um rabdomante, ele sente o que há de importante sob a superfície
batida. Detecta a falha no cristal, a nota falsa no arquivo, a pressão
encoberta daquilo que foi falsificado ou amordaçado. Ele adere
obstinadamente ao que Blake chamava de “a sacralidade do pequeno
detalhe”, mas então extrai a aplicação, a inferência generalizadora, que
pode alterar todo o panorama de nossas percepções históricas, literárias e
sociais.
No entanto, mesmo esses talentos e sua rara combinação não
determinam o que é fundamental para a grande erudição. Tal como o
magistral tradutor, ou autor, ou intérprete musical, o erudito realmente
grandioso se torna uma unidade com seu material, por mais abstruso, por
mais recôndito que seja. Ele amalgama a força de sua personalidade e
perícia técnica à época histórica, ao texto literário ou filosófico, à trama sociológica que está analisando e nos apresentando. Por sua vez, essa
trama, esse conjunto de fontes primárias vai adquirir algo do estilo e da
voz de seu intérprete. Irá se tornar dele sem deixar de ser o que é. Agora
existe uma China antiga que é a de Joseph Needham, uma civilização
helenista que fala com as inflexões do finado Arnaldo Momigliano, um
mapeamento das gramáticas que por muito tempo trará as marcas de
Roman Jakobson. E no entanto, em cada um desses casos, a alquimia
reinstaura a força do material.
A erudição de Gershom Scholem pertencia a esse gênero raro e
vivificante. Não só seus estudos da Cabala modificaram, ainda que de
maneira controversa, a imagem do judaísmo — a compreensão que mesmo
um judeu agnóstico agora tem de sua proveniência psicológica e histórica
—, como também suas explorações, traduções e apresentações dos escritos
cabalísticos exercem uma enorme influência na teoria literária em geral, no
modo como críticos e estudiosos não judeus e totalmente agnósticos leem
poesia. Os ensaios de Scholem, muitos deles compostos numa prosa alemã
límpida e clássica (escrever mal é sinal de pouca erudição), abrangem
interesses que ultrapassam em muito a Cabala. Não existe nenhum
comentador mais arguto, mais sombriamente percuciente, do drama do
judaísmo alemão, das ambiguidades na condição da Israel moderna, do
papel dos estudos e traduções da Bíblia numa época cada vez mais
secularizada. Os gostos não raro subversivos e estranhamente irônicos de
Scholem são variados: da mesma forma que William James (e existem
outras analogias), ele tomou como campo seu o jogo entre o intelecto e as
pluralidades do sentimento humano. Toda manifestação de consciência
religiosa, de imaginação mítica, de ilusão criativa o fascinava. Mas
fascinavam-no também a matemática, a anatomia do discurso jurídico e a
antropologia. Grande parte da caudalosa produção de Scholem é esotérica não só no tema — os arcanos do misticismo medieval e hassídico, da
cosmologia gnóstica, da magia e do hermetismo renascentista, mas
também nos meios de apresentação. Várias obras-primas de erudição, de
solução de problemas, continuam inevitavelmente encerradas em revistas
especializadas e em hebraico. Mas as obras principais de Scholem, como
As origens da Cabala e o fascinante estudo de Sabatai Tzvi, o
pseudomessias místico (ambos publicados pela editora de Princeton), se
destinam ao público cultivado, como também aquelas preciosidades em
(relativa) miniatura: as recordações pessoais de Scholem, a monografia
sobre as visões místicas da criação, sua memória de Walter Benjamin. E
em alguns casos as traduções para o inglês trazem atualizações e textos de
apoio inexistentes nas primeiras edições hebraicas ou alemãs. Um grande
servidor da intuição tem sido muito bem servido.
Scholem e Benjamin se conheceram em 1915, quando Benjamin tinha 23
anos e Scholem, dezessete. A amizade dos dois se tornou matéria de lenda e
de pesquisa acadêmica. Ela mostra pontos de profunda afinidade. Benjamin
e Scholem eram judeus alemães estranhamente alertas ao ambiente
marginal, mas também criativo, das condições sociais e pessoais em que
viviam. Eram homens do intelecto — do saber, da citação e do comentário
num veio quase rabínico. Ambos eram apaixonados por livros antigos,
bibliófilos e colecionadores sistemáticos em suas áreas. Eram exímios
praticantes da prosa alemã em registros muito distintos, mas comungavam a
mesma pureza de expressão, cujo próprio domínio indicava algo não
totalmente inato, não herdado de forma inconsciente. Havia em ambos uma
propensão anárquica, uma desconfiança radical em relação às estruturas e
convenções estabelecidas. (Os dois conseguiram escapar para a Suíça
durante a Primeira Guerra Mundial, e Scholem simulou vários sintomas
neuróticos quando foi convocado pela agência de recrutamento.) Mais importante, ambos decidiram abordar problemas filosóficos, históricos e
psicológicos centrais de um ângulo exótico. Scholem revolucionou o estudo
do judaísmo com seus exames filológico-editoriais de esoterismos extremos
— de heresias às vezes desvairadas, de devaneios especulativos
patológicos. Análises de livros e brinquedos infantis, de fotos oitocentistas,
dos livros de emblemas e da dramaturgia “perdida” do barroco alemão, dos
empórios e lojas de departamentos que pipocaram em Paris no Segundo
Império levaram Benjamin a sugestões, a “iluminações” (termo que tomou
a Rimbaud), que hoje estão no centro do estruturalismo, da sociologia
cultural e da semiótica.
Mas as diferenças entre os dois homens eram marcadas.
Paradoxalmente, a imersão de Scholem no misticismo religioso se originou
de uma visão de mundo profundamente cética e irônica. Tive o privilégio
de conhecer Scholem em seus últimos anos, de vê-lo em Jerusalém,
Zurique e Nova York. Não posso me atrever sequer a arriscar um palpite
de se esse inspirado expositor da meditação cabalista sobre as autodivisões
da Unidade Divina, sobre as emanações de luz da fronte divina, sobre a
“quebra dos vasos” no momento da criação, acreditava ou não em Deus.
Os trejeitos cômicos do sorriso de Scholem, as insinuações de um
divertimento voltairiano de fundo eram incontáveis. Benjamin, por outro
lado, era aquela rara criatura: um místico moderno, um iniciado nos reinos
ocultos do vaticínio, do simbolismo hermético, da magia branca.
Benjamin, que deu ao contexto sociológico-econômico de nossa
consciência um novo grau de precisão, que respondeu prontamente à
revolução na fotografia, no cinema e na rádio como meios de comunicação
de massa, que adotou um marxismo mais ou menos pessoal e herético
como componente vital de sua perspectiva, era o verdadeiro cabalista.
(Também teve experiências com drogas — uma incursão no irracional da
qual Scholem recuou.)
O interesse pelo sionismo era um vínculo forte entre ambos, embora as
maneiras de colocá-lo em prática iriam se mostrar irreconciliáveis desde o
começo. Com uma rigorosa clarividência, Scholem sentia o potencial de
catástrofe no amálgama alemão-judaico. Para ele, tornou-se de uma clareza
fulgurante que um compromisso sério com a identidade judaica deveria
acarretar o domínio do hebraico e a vida em Israel. Há na reconquista de
Scholem do passado cabalístico para o conhecimento judaico e para a
história geral do pensamento religioso um veemente “sionismo”, um
retorno a uma Terra Santa. Benjamin manteve um flerte ardoroso com a
ideia de emigrar para a terra que então era a Palestina. Ansioso, várias
vezes informou Scholem sobre suas intenções de estudar hebraico. Em
1929, e novamente nos meados dos anos 1930, sob a égide de um
impaciente Scholem, Benjamin declarou que estava prestes a deixar uma
Europa condenada. Nada resultou desses impulsos prementes e inquietos.
Scholem foi para Jerusalém em 1923. Morreu em 1982, cercado de honras,
cumprida sua grande obra. Benjamin, reduzido ao absoluto desespero,
perseguido, seus escritos dispersos ou fragmentados, se suicidou num
buraco sórdido na fronteira franco-espanhola em 1940. (Corria o boato de
que os refugiados isolados que tinham cruzado a fronteira seriam entregues
à polícia francesa e ficariam à mercê dos nazistas.)
Mas não poderia ser de outra maneira. Walter Benjamin foi um dos
últimos e mais inspirados centro-europeus, sendo que essa centralidade
indica uma noção geográfica — os espaços definidos por Frankfurt-Viena-
Praga-Paris para o judaísmo emancipado — e o conceito do gênio histórico
europeu tal como se expressava em francês e em alemão. Como Adorno,
como Ernst Bloch e outros fundadores e testemunhas da chamada Escola
de Frankfurt de teoria crítica e filosofia da cultura, Benjamin nunca
poderia separar sua identidade poliglota, seu papel na intelectualidade, seu próprio físico — o do sábio de botequim por excelência — da fatalidade
europeia. E adiou demais a chance de fugir para os eua — chance que seus
pares e amigos (Adorno, Bloch, Horkheimer, Brecht) agarraram com maior
ou menor senso de oportunidade.
Um fio central em Correspondência — Walter Benjamin e Gershom
Scholem, traduzida por Gary Smith e André Lefevere (Schocken, 1989), é
a diferença fascinante entre o Messias de Scholem e o Messias de
Benjamin. Para Scholem, o messiânico — cujas formas variadas e
imensamente ricas ele havia diagnosticado em monografias, em seu
magistral As grandes correntes da mística judaica e, acima de tudo, em
seu épico de Sabatai Tzvi — era inseparável de um retorno físico,
historicamente fundado, a Israel. Foi com o prazer de uma travessura que
Scholem insinuou no repertório cabalístico uma parábola que ele mesmo
tinha inventado: uma vinda do Messias que alteraria apenas muito
ligeiramente as coisas e portanto passaria despercebida — exceto em
Israel, cuja criação como Estado seria em si a melhor prova disponível do
advento messiânico. Já a visão de Benjamin, que se concentrava na
imagem do Angelus Novus, de Paul Klee — o anjo da história, que uma
ventania afasta de nós —, era totalmente diversa. O messiânico não
significava o sionismo. Implicava a recuperação das vozes dos humilhados
e vencidos, soterradas pela história e pelos historiadores. Restauraria a
língua adâmica perdida que subjaz secretamente a todas as línguas
humanas, e cuja presença generativa fazia ao mesmo tempo possível e
impossível o ato da tradução. Para Benjamin, a vinda do Messias se
revelaria como uma imagem de transparência rumo à verdade, à justiça
social, à racionalidade amorosa se estendendo além do judaísmo e do
renascimento de Israel (por milagroso que o considerasse).
A tradução dessa correspondência tem a virtude da clareza. (São 128 cartas
ao todo; algumas anteriores a 1932 parecem ter se perdido, e há um toque
de prestidigitador na descoberta de Scholem em outubro de 1966, na
Alemanha Oriental, de seu lado da correspondência.) Ela não transmite
(nem poderia transmitir) de maneira convincente as diferenças de tom dos
dois escritores — diferenças que revelam dissonâncias de índole
permanentes. Mesmo sob o tom mais afetuoso — às vezes arreliador — de
Scholem há uma ponta de autoridade, de exasperação diante da ilusão e do
que lhe parece falta de lógica. O tom de Benjamin é de faiscante sutileza, de
esforço aparentemente evasivo, mas finamente interiorizado, de dar
expressão a coisas intangíveis, a ambiguidades inevitáveis, a um vibrato de
percepções e intenções que ele mesmo denominou de “aura”.
No começo da primavera de 1934, por exemplo, a preocupação
clarividente de Scholem com a situação europeia e a incapacidade de
Benjamin de prover ao indispensável da vida quase resultaram no
rompimento da amizade. Escreve Benjamin em 3 de março:
Minha existência está chegando ao limite do precário e a cada dia depende diretamente do bom Deus — para dizer a mesma coisa de forma mais prudente. E com isso não me refiro apenas à ajuda que consigo de tempos em tempos, mas também à minha própria iniciativa, mais ou menos voltada para um milagre.
A espera de um milagre tinha um teor ao mesmo tempo terapêutico —
mantinha-o vivo — e incapacitante, na medida em que reduzia ainda mais
a utilidade, o estatuto moral e metafísico, da simples ação racional. Para
Scholem, a questão de uma possível ajuda divina era pragmática. Ele lutou
para conseguir uma colocação profissional para Benjamin em Israel;
batalhou para conseguir a publicação ou a divulgação das obras de
Benjamin. Mas sua irritação é inequívoca. “Como vai se desenvolver
realmente sua situação está ficando cada vez mais incerto para mim”, escreveu Scholem, e “Muitos fatos de nossa correspondência devem lhe ter
fugido da memória, pois você não lembra mais o que o levou a tentar
explicar sua situação. […] Estamos discutindo em posições falsas, e isso
não me agrada”.
Além disso, não eram somente as vacilações de Benjamin em relação ao
refúgio na Palestina que exasperavam Scholem, mas, a partir de 1924, o
envolvimento extremamente complicado de Benjamin com o marxismo.
Scholem sabia de seu envolvimento pessoal e erótico com uma comunista.
Sabia da viagem do amigo a Moscou em 1926. O irmão mais velho de
Scholem tinha desempenhado um papel trágico e muito importante no
Partido Comunista alemão. Scholem se ressentia muito da influência cada
vez maior da obra e da pessoa de Brecht sobre Benjamin (o qual passou
semanas cruciais com Brecht no exílio dinamarquês). A política de
Scholem, se é que havia, era a do desencantamento, da ironia ou até
sarcasmo irredutível diante do espetáculo inveterado da loucura e barbárie
humanas.
Mas Scholem interpretou mal o recurso herético e profundamente
inventivo de Benjamin às teorias marxistas da história e aos instrumentos
retóricos do materialismo dialético. Algumas amizades dentro do
comunismo ajudaram Benjamin a aclarar as sombras de sua solidão quase
anormal. Em vários pontos da enormidade política dos anos 1930, o
comunismo e até o stalinismo pareciam oferecer a única resistência efetiva
à escalada triunfante do fascismo e do nazismo. Scholem não teve acesso
ao diário de Moscou de Benjamin, publicado postumamente. Ali teria
encontrado indicações claras do ceticismo de Benjamin, de sua aversão ao
clima dominante na sociedade soviética. Mas tal aversão não negava a
força inspiradora das análises marxianas do capitalismo oitocentista nem o
estímulo a uma interpretação materialista econômica da criação e disseminação de obras artísticas e intelectuais que encontramos na estética
marxista. Os estudos pioneiros de Benjamin sobre a reprodutibilidade das
obras de arte para as massas, por meio da fotografia e do fac-símile em
cores, sua compreensão penetrante do jogo entre a alta cultura e o
mercado, suas análises preliminares para uma magnum opus que havia
planejado — uma anatomia de “Paris, a Capital do Século xix” — se
fundavam numa luta pessoal com os princípios marxistas. Daí as
afinidades com o marxismo personalizado, estrategicamente astuto, das
peças e panfletos críticos de Brecht.
E sobretudo Scholem estacava diante do que intuía a contragosto ser,
em Benjamin, uma interpretação do marxismo como variante natural da
escatologia messiânica judaica — da concentração judaica na esperança
milenarista. Rigorosamente informado, Scholem via a opressão política, a
miséria humana a que o marxismo-leninismo e seus companheiros de
percurso estavam levando. Não quis perceber as dimensões trágicas dessa
degeneração dos ideais messiânicos, do apelo utópico, porém incessante, à
justiça social, como já era eloquente nos Profetas. A anunciação em parte
mística de Benjamin quanto a uma “recuperação da história” — da
imposição de critérios morais à história — tinha nascido justamente de um
sonho de Moscou-Jerusalém. Sem esse fatídico híbrido, ele não teria
produzido muitos de seus melhores escritos — em especial sua última
produção, obra-prima de elegância e concisão, “Teses sobre a filosofia da
história”. Muito depois, refletindo sobre o gênio de Benjamin e a sucessão
de milagres que permitiram a sobrevivência dos textos “perdidos”,
Scholem iria reconhecer (ouvi ao vivo) que a sinuosa dança de seu amigo
com o marxismo e ao redor dele tinha sido de algum proveito. Na época,
parecia-lhe uma traição e um desperdício vulgar de dotes raros.
O que manteve o andamento do diálogo, entre seus altos e baixos, o que lhe
dá estatura duradoura são as sucessivas discussões de Kafka. Talvez de
maneira subconsciente, toda vez que suas relações estavam tensas,
Benjamin e Scholem voltavam a Kafka. O resultado é uma série de leituras
— de delineamentos críticos — de originalidade muito penetrante. Em
comparação, os truques interesseiros do atual desconstrucionismo ou do
pós-estruturalismo chegam a criar constrangimento. Incansavelmente,
Scholem e Benjamin põem a operar na esquiva inesgotabilidade de Kafka
um poder de imaginação quase equivalente ao de seu objeto. A vontade é de
citar uma página após a outra. Limito-me a dois exemplos. Aqui está
Scholem escrevendo para Benjamin em 20 de setembro de 1934 (sobre O
castelo):
E no entanto as mulheres de Kafka trazem os sinais de outras coisas a que você não presta quase atenção. É evidente que o castelo ou a burocracia com a qual elas mantêm uma relação horrivelmente indefinível, mas exata, não é o mundo primal de que você fala, se é que ele existe. Se fosse o mundo primal, que necessidade então haveria de transformar a relação das mulheres com ele num enigma? Tudo ficaria claro, enquanto na realidade nada é claro e a relação delas com a burocracia é muito instigante, ainda mais porque a própria burocracia chega a advertir contra elas (por exemplo, pela boca do capelão). Em vez disso, o castelo ou burocracia é algo com que o “mundo primal” deve primeiramente manter alguma relação.
Você pergunta o que eu entendo pelo “nada da revelação”. Entendo por ele um estado em
que a revelação aparece sem significado, em que ela ainda afirma a si mesma, em que tem validade, mas nenhuma significação. Um estado em que a riqueza de significado se perdeu e o que está em processo de aparição (pois a revelação é esse processo) mesmo assim não desaparece, embora esteja reduzido ao ponto zero de seu conteúdo.
A distinção entre validade e significação é da máxima pertinência a
todas as obras de Kafka.
Ou tome-se a grande carta — um ensaio de extrema densidade — de
Benjamin, datada de 12 de junho de 1938. Mesmo uma longa citação não
faz jus à sua profundidade:
Kafka entreouviu a tradição, e quem ouve dificilmente deixa de ver. A principal razão pela qual esse entreouvir exige tanto esforço é que apenas os sons mais indistintos chegam ao ouvinte. Não há nenhuma doutrina que se possa aprender, nenhum conhecimento que se possa preservar. As coisas que o ouvinte quer captar enquanto passa não se destinam aos ouvidos de ninguém. Isso supõe um estado de coisas que caracteriza negativamente as obras de Kafka com uma grande precisão. […] A obra de Kafka representa o adoecimento da tradição […].
Disso Kafka tinha absoluta certeza: primeiro, que, se for para ajudar, o sujeito deve ser um idiota; segundo, apenas a ajuda de um idiota é uma verdadeira ajuda. A única coisa incerta é: tal ajuda ainda pode ter alguma serventia para um ser humano? […] Assim, como coloca Kafka, há uma quantidade infinita de esperança, mas não para nós. Essa declaração realmente contém a esperança de Kafka; é a fonte de sua serenidade radiante.
Note-se — e isso é típico das alegorias de Benjamin sobre a leitura — como
a própria análise se torna uma parábola ao estilo de Kafka.
Uma imensa tristeza sombreia mesmo a carta mais informal e
momentaneamente otimista. Elas foram enviadas quando a Europa
ingressou no pesadelo. Além disso, na Palestina, Scholem não só viveu
diretamente a violência dos primeiros choques entre árabes e judeus, mas
teve também claras intuições das inimizades intratáveis que se estendiam à
frente. E no entanto, à sua maneira, é um livro jubiloso. Celebra o elixir da
paixão intelectual — a capacidade do cérebro e do sistema nervoso dos
homens de mergulhar em interesses abstratos, especulativos, mesmo ou
principalmente diante da dor e da adversidade pessoal. Demonstra com
prodigalidade a força por trás da aparente fraqueza, que muitas vezes é a
senha que permite a sobrevivência do humanismo e dos perseguidos. Aqui,
por fim, e não na placa lacônica num austero muro de cemitério, Walter
Benjamin tem seu in memoriam. E é totalmente indissociável da
maravilha, talvez mais profunda do que o amor, que é a amizade.
22 de janeiro de 1990
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