Tigres no Espelho e Outros Textos da Revista The New Yorker
Wien, Wien, Nur Du Allein
Há um grande livro ainda por ser escrito. Ele mostraria que o século xx que
vivemos no Ocidente é, em aspectos essenciais, um produto de exportação
austro-húngaro. Levamos nossa vida interior dentro de uma paisagem, ou
em conflito com uma paisagem, que foi mapeada por Freud e seus
discípulos e dissidentes. Nossa filosofia e o papel central que atribuímos à
linguagem no estudo do pensamento humano derivam de Wittgenstein e da
escola vienense do positivismo lógico. O romance após Joyce, de modo
geral, está dividido entre dois polos, a narração introspectiva e a
experimentação lírica, definidos por Musil e Broch. Nossa música segue
duas grandes correntes: de um lado, a de Bruckner, Mahler e Bartók; de
outro lado, a de Schoenberg, Alban Berg e Anton Webern. O papel de Paris
foi vital, evidentemente, mas agora está cada vez mais claro que algumas
raízes do modernismo estético, do art déco à Action Painting, podem se
encontrar no Jugendstil vienense e no expressionismo austríaco. Os ideais
funcionalistas antissépticos, tão destacados na arquitetura de hoje, foram
anunciados na obra de Adolf Loos. A sátira político-social em Londres e
Nova York, a piada pesada, a ideia de que a linguagem de nossos
governantes é uma cortina de fumaça venenosa, tudo isso ecoa o gênio de
Karl Kraus. Ernst Mach teve profunda influência na evolução do
pensamento de Einstein. É impossível falar da lógica e da sociologia das
ciências naturais sem fazer referência a Karl Popper. E onde situaremos os
múltiplos efeitos de Schumpeter, Hayek, Von Neumann? A lista poderia
continuar.
A conflagração de energias artísticas, científicas, sociais e filosóficas na
Europa Central derivou de instabilidades fundamentais. Ela foi, como
dizem os físicos, uma “implosão”, uma compactação de forças conflitantes
num espaço que estava se contraindo violentamente. A decadência
imperial e a emancipação étnica, o antissemitismo e o sucesso judaico,
uma ordem familiar arcaica e uma sexualidade que permeava tudo — tais
eram as antinomias percorridas por grandes clarões e arcos voltaicos de
criatividade. Estes, por sua vez, precipitaram o clima de crise social, o
estilo nervoso, o erotismo da sensibilidade geral que, até hoje, caracteriza a
cidade ocidental, o ateliê das artes ocidentais, as convenções desregradas
da vida intelectual ocidental. Entre os anos 1880 e 1914, entre 1919 e
1938, Viena, junto com Praga e Budapeste, viveu, exteriorizou e expressou
de maneira febril e incisiva as crises mais gerais das ordens de valor
europeias e depois americanas. Nessa implosão, o componente judeu —
Freud, Mahler, Kafka, Schoenberg, Kraus e muitos outros — era
praticamente dominante. Assim, há uma sinistra lógica e finalidade no fato
de Hitler e boa parte da ideologia nazista terem nascido em solo austríaco.
(Os historiadores rastrearam a palavra-chave Judenrein, “limpo de judeus”,
até o regulamento de uma associação de ciclistas austríacos na virada do
século.) Foi em Viena que o jovem Hitler preparou seu incomparável
veneno. Como diz a valsa, Wien, Wien, nur du allein. Viena foi a capital da
era da ansiedade, o centro do gênio judaico, a cidade de onde percolaria o
Holocausto. O livro que tenho em mente teria de ser bem longo.
Talvez essa ideia nos reconcilie com a escala do livro Anton von
Webern, de Hans e Rosaleen Moldenhauer (Knopf, 1978). Algumas das
mais belas obras de Webern — três estudos para violoncelo e piano, por
exemplo — têm menos de um minuto. Mesmo suas peças completas
tendem a uma concisão extrema. O próprio homem era franzino. Mas essa biografia passa de oitocentas páginas. Ela não se resume, claro, a uma
mera apresentação da vida de Webern. Os Moldenhauer, que têm dedicado
grande parte da vida à maior glória de Webern, montaram sua obra com
uma biografia, uma exposição ligeiramente técnica de boa parte da música
de Webern e um quadro da cultura onde ele viveu e criou. Webern nasceu
em 1883 e teve uma morte trágica e absurda em setembro de 1945. Foram
as décadas da implosão vienense. O leitor paciente — mesmo aquele cujos
interesses não são basicamente musicais — encontrará materiais
fascinantes, que levam a uma compreensão do espírito da época. O
paradoxo é o seguinte: Webern é uma figura à parte, que encontrou sua
realização num ideal quase esotérico de pureza musical e na solidão dos
Alpes austríacos. Ao mesmo tempo, é um fenômeno profundamente
representativo das condições psicológicas e sociais da arte moderna. Como
declarou Boulez, existem peças de Webern, com apenas alguns compassos,
que parecem cristalizar a modernidade. E no entanto não houve músico
mais próximo de Bach.
Em relação ao ofício, Anton Webern — ele renunciou ao “von”, embora
mantivesse o orgulho por sua linhagem levemente aristocrática — era de
uma independência extrema. Apesar das dificuldades financeiras durante
toda a vida, que o obrigaram a trabalhar como arranjador, professor e
exímio regente em tempo parcial (o melhor desde Mahler, diziam muitos
especialistas), Webern não fazia concessões. Nenhuma crítica, nenhuma
ridicularização pública, nenhum escândalo — a apresentação de suas Seis
peças em março de 1913 gerou um tumulto comparável ao que se
desencadearia dois meses mais tarde, com a Sagração da primavera de
Stravinski — foi capaz de abrandar a decisão de Webern de impor mesmo
à mais minúscula unidade de tom, de diapasão, de ritmo, uma grande força
emocional e inevitabilidade formal. Jamais existiu inteligência musical mais rigorosa. Mas, em termos pessoais e políticos, a história de Webern
ilustra dolorosamente aquele mesmo anseio pela autoridade, por
explicações simplistas, que levou a uma grandiloquência pietista ingênua
num Bruckner e num Mahler, e que teria seu papel no desenvolvimento e
na vitória do nazismo. Como ocorre com muitos montanhistas, também em
Webern a solidão e a servidão, o ascetismo e o arrebatamento eram
inextricavelmente entrelaçados.
O relacionamento de Webern com Arnold Schoenberg representa quase
uma paródia do modelo freudiano da busca de uma figura paterna
onipotente. “Creio que os discípulos de Jesus Cristo não podiam ter
sentimentos mais profundos por seu Senhor do que nós temos por você”,
disse Webern ao Mestre. Schoenberg era o “anjo da guarda” sem o qual a
existência de Webern não teria nenhuma finalidade. “Realmente eu não
conseguiria viver com a ideia de que você não sente amizade por mim”,
declarou Webern por ocasião de uma pequena desavença, acrescentando:
“De fato mereço castigo!”. “Com ansiedade terrível, tenho pensado apenas
em você”, escreveu Webern a seu deus no momento da crise política de
1933. Os precários recursos psicológicos e materiais de Webern estavam
totalmente ao exigente serviço de Schoenberg. O caso é ainda mais
interessante porque boa parte da música de Webern, mesmo refletindo os
ensinamentos de Schoenberg e a adoção do sistema dodecafônico, tinha
diferenças marcadas e, como hoje frisam músicos e musicólogos, chegou a
assinalar um rompimento com os elementos conservadores da obra de
Schoenberg. A psicanálise adleriana, à qual Webern havia recorrido com
bons resultados numa fase de depressão aguda e bloqueio criativo, nada
fez para diminuir sua fixação na autoridade.
As consequências políticas eram previsíveis. Se Webern superou o
antissemitismo convencional e corrente em que fora criado (e que pode ter dado à sua veneração posterior por Schoenberg uma faceta de
ultracompensação), seu chauvinismo nunca diminuiu. O regime de Hitler
parecia encarnar um surpreendente renascimento do gênio germânico e
centro-europeu. Certamente tal regime se alinharia com a arte do futuro.
Bastaria apenas “tentar convencer o regime de Hitler quanto à correção do
sistema dodecafônico”. Dois dias antes que os soldados nazistas
marchassem sobre Viena, Webern informou a um amigo: “Estou
totalmente imerso em meu trabalho e não posso, não posso ser
incomodado”. A filha mais nova de Webern se alistou no equivalente
feminino da Juventude Hitlerista. Logo depois, e sob a bandeira do
Terceiro Reich, Webern deu a mão da filha em casamento a um sa de
uniforme. Ele havia providenciado prontamente todas as provas exigidas
sobre a pureza ariana da família Webern.
Webern manteve uma confiança inabalável no poder e na vitória
teutônica durante muito tempo. Em junho de 1942, ele anotou: “Às vezes
domina-me tal sentimento, tal esperança!”. No começo de 1943, um trivial
gesto de cortesia que lhe fez um cônsul alemão na Suíça despertou em
Webern arroubos de gratidão patriótica: “Jamais me acontecera antes que
um representante de minha pátria tivesse me dado qualquer atenção! […]
Vejo isso como um bom presságio e uma recompensa por minha lealdade”.
Um artigo de Goebbels em 1943, no outono após a derrota alemã em
Stalingrado, fez Webern indagar numa carta: “Enfrentamos algo totalmente
inesperado?”. Em fevereiro de 1945, os bombardeios dos Aliados sobre
sua amada Viena atingiram o auge, e seu filho foi mortalmente ferido em
combate. Mas quase até o último minuto Webern não acreditou que o
espírito germânico, cujas realizações dominavam a história da música
ocidental, cuja poesia lírica e metafísica idealista haviam dado ao ser de
Webern seu cerne mágico, poderia sucumbir à barbárie e à ruína. Tal certeza, expressa em agosto de 1914 — “Tenho dentro de mim uma fé
inabalável no espírito germânico, que realmente criou quase sozinho a
cultura da humanidade” —, continuava a lhe animar o coração e o
intelecto. A fuga desesperada de Viena e o fim brusco de Webern
representam a queda num abismo imprevisto.
Os Moldenhauer apresentam os elementos de prova com absoluta
escrupulosidade. O desconforto deles é palpável. Perguntam a si mesmos e
aos leitores se a presença judaica do exilado Schoenberg teria ido
assombrá-lo no casamento da filha. Talvez a pergunta devesse ser outra: o
que teria acontecido se os nazistas não tivessem rejeitado, e sim aceitado,
os talentos e o prestígio do dr. Anton Webern? Como reagiria ele se sua
música tivesse sido executada no Reich, em vez de ter sido banida como
lixo decadente, fatalmente conspurcada por sua associação com
Schoenberg e o erotismo degenerado de Berg? Webern procurou várias
vezes romper o círculo de silêncio que as autoridades lhe haviam imposto.
E de fato arriscou alguns gestos de solidariedade e apoio aos amigos
judeus perseguidos, quando mesmo o mais ínfimo gesto dessa natureza
exigia grande coragem. Mesmo assim, o fato é que o ostracismo salvou o
caráter moral e a reputação posterior de Webern. Nas semanas anteriores à
morte, ele estava sendo convocado para presidir à reconstrução da vida
musical pulverizada de Viena. Mas o problema vai além da miopia de um
indivíduo, de um mestre da grande arte distanciado do mundo. A dualidade
quase esquizofrênica entre a faceta autoritária e a faceta radicalmente
rebelde no caráter de Webern, entre a coerção inflexível e a absoluta
inovação em sua música, é como um símbolo do autodilaceramento da
cultura vienense. Nossa sensibilidade é herdeira direta dessa tensão
criativa.
Além disso, se houve muita cegueira e muita dor na carreira de Webern,
houve também uma consolidação firme e constante. Por volta de 1920,
estavam terminando os anos de descaso. A famosa Passacaglia e os
primeiros ciclos de canções começavam a ganhar fama. O primeiro
concerto composto exclusivamente de peças de Webern ocorreu em abril
de 1931. O quinquagésimo aniversário do compositor foi uma espécie de
ocasião comemorativa: a bbc transmitiu um quarteto, a sinfonia foi
transmitida pela rádio em Praga, o quarteto de saxofone foi tocado em
Winterthur. Em Viena mesmo, que por tanto tempo havia se mostrado
virulentamente hostil a ele, houve um pequeno festejo na casa de um
patrono americano, com a apresentação de um quarteto de jovens (judeus
poloneses, como notou Webern).
Webern nunca duvidou da justeza de suas doutrinas musicais nem da
aceitação que acabariam tendo. Numa época em que suas peças eram tidas
como cacofonias absurdas ou impossíveis de ser executadas, Webern
assegurou com calma a um aluno: “Em algum momento do futuro até o
carteiro vai assobiar minhas melodias!”. Em vista do estado atual de
nossos serviços postais, dificilmente será este o caso. Mas o
reconhecimento tem sido mundial. Entre 1962 e 1978, realizaram-se seis
Festivais Internacionais de Webern. Stravinski veio a considerá-lo “o
homem justo da música”, o tom de afinação pelo qual os compositores
contemporâneos precisam testar sua integridade. É ao ouvido de Webern
que grande parte da música de Stockhausen, de Boulez, de Elliott Carter,
de George Crumb parece se dirigir.
Webern não poderia saber dessas confirmações enquanto agonizava,
atingido pelo tiro de um soldado das forças aliadas num obscuro episódio
em que houve um disparo precipitado ou um engano de identidade num
vilarejo dos Alpes austríacos. O episódio, que continua quase inacreditável em sua aura de puro acaso e desperdício, foi esclarecido pela pesquisa
incansável de Hans Moldenhauer. Mas a aclamação póstuma de Webern
foi exatamente como ele previra. “Nunca desanimei por um único
momento.” Os céticos, os detratores, os filistinos “sempre me apareceram
como ‘fantasmas’”. Assim, Webern aprovaria a devoção deste livro
monumental. Reconheceria seu estilo levemente pedante e também sua
franqueza como elementos típicos de Viena.
25 de junho de 1979
OceanofPDF.com