Tigres no Espelho e Outros Textos da Revista The New Yorker
O Sacerdote da Traição
No verão de 1937, o crítico de arte da The Spectator, de Londres, de 29
anos de idade, foi a Paris ver Guernica, que acabava de entrar em
exposição. Uma aclamação turbulenta cercava esse grande brado de
humanidade ultrajada. A opinião do crítico, que foi publicada em 6 de
agosto, foi severamente depreciativa. O quadro era “uma elucubração
pessoal que não dá nenhum indício de que Picasso tenha entendido a
importância política de Guernica”. Em sua coluna de 8 de outubro, o crítico
Anthony Blunt comentou a série feroz das águas-fortes de Picasso sobre o
“Sonho e mentira de Franco”. De novo a crítica foi negativa. Essas obras
“não têm um alcance além do grupo restrito de estetas”. Picasso era cego à
consideração suprema de que a Guerra Civil espanhola era “apenas uma
parte trágica de um grande avanço” na luta contra o fascismo e pela
libertação final do homem comum. O futuro pertence a um artista como
William Coldstream, declarou o crítico da The Spectator em 25 de março de
1938. “Picasso pertence ao passado.”
O professor Anthony Blunt voltou ao estudo de Guernica numa série de
palestras que deu em 1966. Desta vez, ele reconheceu a estatura da obra e
a genialidade da composição. Apontou nela motivos derivados do
Massacre dos inocentes, de Matteo di Giovanni; de Guido Reni; das
pinturas alegóricas de Poussin, do qual ele se tornara a maior autoridade
mundial. Num comentário surpreendente, Blunt mostrou que o terror
apocalíptico de Guernica derivava de uma passagem do marmóreo Júpiter e Tétis, de Ingres. Se não havia na tela mais celebrada de Picasso
praticamente nenhum toque de realização espontânea ou mais imediata, se
todos os temas principais já estavam presentes na água-forte
Minotauromaquia de 1935, era apenas uma questão de economia estética.
Esta gravura havia dramatizado “o refreamento do mal e da violência pela
verdade e inocência” exatamente como faria Guernica, mas em escala
menor e mais jovial. A posição do artista em relação à Guerra Civil
espanhola, ao contrário do que sugerira o jovem Blunt, não era de
indiferença e recusa de tomar partido. E em 1945, alguns meses depois de
ter ingressado no Partido Comunista Francês, Picasso havia declarado:
“Não, a pintura não é para decorar apartamentos. É uma arma de guerra de
ataque e defesa contra o inimigo”.
O crítico de arte da The Spectator não colocaria desta maneira. Sua
estética, seu entendimento das relações entre arte e sociedade eram mais
sutis. Os inimigos eram Matisse, cuja concepção não parecia mais “ser a
do mundo real”, e Bonnard, que escolhera a experimentação e o equilíbrio
de cores formais em detrimento dos “valores humanos”. A arte, como
Blunt a entendia em suas crônicas de 1932 até o começo de 1939, tinha
uma única tarefa essencial e rigorosa: sair da abstração. A solução
surrealista era espúria. Refletindo sobre Max Ernst, em sua coluna de 25
de junho de 1937, Blunt perguntou: “Temos de nos contentar com
sonhos?”. Não, a resposta consistia num conceito que Blunt chamou de
“honestidade”. O termo cobre um amplo leque de significados. Daumier é
sem dúvida honesto em sua sátira às classes dirigentes, mas ainda mais
honesto ao mostrar aos operários que “suas existências podiam ser tema de
uma grande pintura”. Mas Ingres, o mais puro dos desenhistas e o mais
burguês dos retratistas, não é menos honesto. Sua concentração técnica, o
realismo delicado mas “decidido” de sua percepção eram, de fato, “revolucionários”. O contraste com Gainsborough é interessante. Aqui
também havia um retratista imparcial dos privilegiados. Mas é
precisamente a falta de brilho técnico que rouba aos estudos de
Gainsborough a “condescendência”, a honestidade que se encontram em
Ingres e em seus predecessores setecentistas — Fragonard, Watteau e
Lancret. Em Rembrandt (7 de janeiro de 1938), Blunt via “uma
honestidade tão evidente que nos atinge como uma qualidade moral”. A
saída “honesta” da armadilha teórica e prática da abstração só poderia ser
um retorno a alguma ordem do realismo, porém um retorno que não fizesse
nenhuma concessão ao descaso técnico. O realismo de Matisse era
meramente “vazio” e “vistoso”, como o das últimas telas de Manet.
Mas, enquanto Blunt vistoriava exposições e galerias, havia sinais de
uma mudança positiva. Espreitavam, por assim dizer, no formalismo de
Juan Gris; evidenciavam-se nas obras de vários artistas ingleses,
notadamente Coldstream e Margaret Fitton, cuja Ironing and Airing foi a
única tela digna de nota exposta na pavorosa mostra da Royal Academy na
primavera de 1937. E, acima de tudo, havia o Novo Realismo dos mestres
mexicanos Rivera e Orozco. Eram estes que atraíam o interesse crescente
de Blunt. Aqui com certeza estava um corpo artístico capaz de lidar com as
realidades da condição humana sem transigir na responsabilidade estética,
e capaz também de afetar profundamente as emoções do homem comum.
A experiência mexicana ocupa papel central no capítulo sobre “A arte no
capitalismo e no socialismo” com que Anthony Blunt, crítico de arte e
editor de publicações no Instituto Warburg, em Londres, colaborou num
volume sobre The Mind in Chains [A mente acorrentada], organizado pelo
poeta C. D. Lewis e publicado em 1937.
A natureza-morta praticada pelos mestres do final do impressionismo,
de acordo com Blunt, encarna um impulso de fuga das graves questões da vida pessoal e social. Ela “levou às várias formas de arte esotérica e
semiabstrata que têm florescido no século atual”. A arte é um fenômeno
complexo e não pode ser julgada segundo simples determinantes sociais e
psicológicos. Apesar disso, o marxismo “pelo menos oferece uma arma
para a análise histórica das características de um estilo ou de uma obra de
arte particular”. E sobretudo ele nos lembra que as próprias opiniões do
crítico são “fatos” que podem ser explicados historicamente. Usando o
instrumental do diagnóstico marxista, chegamos a uma visão clara do
dilema modernista. O impressionismo marcou a separação entre o grande
artista e o mundo proletário. Daumier e Courbet mantinham um contato
artístico com as realidades dolorosas da condição social. A despeito de
seus flertes com o radicalismo político, o surrealismo não é uma arte
revolucionária em termos sociais. Seu desdém intrínseco pelo espectador
comum encontra por sua vez correspondência no reflexo do espectador
comum de rejeitar a obra surrealista, e essas atitudes estão em forte
contraste com as interações criativas entre pintor e público na arte gótica e
no começo da Renascimento. O artista puramente abstrato e seu grupo de
espectadores se alienaram “de todas as atividades sérias da vida”. A
conclusão de Blunt é categórica: “No estado atual do capitalismo, a
posição do artista é insustentável”. Mas estão surgindo outros modelos
sociais do cadinho da revolução. “Uma cultura dos trabalhadores” está
sendo construída na União Soviética. Essa construção não significa uma
aniquilação do passado. Pelo contrário, segundo a exposição de Blunt da
doutrina de Lênin, uma verdadeira cultura socialista “tomará tudo o que há
de bom na cultura burguesa e adaptará a seus próprios fins”. No
socialismo — e é evidente a discordância de Blunt com o famoso ensaio de
Oscar Wilde sobre o mesmo assunto — o artista moderno, tal como seus
antepassados medievais e renascentistas, terá condições de desenvolver sua personalidade com uma riqueza muito maior do que lhe é possível sob o
domínio escapista e banalizante do capitalismo anárquico. “Ele ocupará
um lugar claramente definido na organização da sociedade, como um
trabalhador intelectual com função definida.” É possível que nós no
Ocidente “não gostemos da pintura feita na União Soviética, mas daí não
se segue que não seja o tipo correto de arte para os russos no presente
momento”. E a pintura mexicana, em sua fase revolucionária e didática,
está produzindo exatamente aqueles tipos de telas grandes e murais de
impacto imediato que fazem uma falta tão desesperada em Londres, Paris e
Nova York. Rivera e Orozco são mestres que, apesar de pertencerem à
classe média e serem artistas em primeiro lugar, estão “ajudando o
proletariado a produzir sua própria cultura”. Ao mesmo tempo, eles se
beneficiam com o tipo de escrutínio e apoio público dos quais o artista no
capitalismo avançado se afastou, mais ou menos intencionalmente. As
lições soviéticas e mexicanas são claras. Blunt cita favoravelmente o
comentário de Lênin a Clara Zetkin: “Nós, comunistas, não podemos ficar
de braços cruzados e deixar que o caos avance para onde quiser. Devemos
guiar este processo segundo um plano e moldar seus resultados”. A arte é
uma questão séria demais para ficar entregue apenas aos artistas, e menos
ainda a seus patronos abastados.
Durante 1938, essas firmes esperanças pareceram definhar. A opção
apresentada ao artista se tornou ainda mais rigorosa. Segundo Blunt em
seu artigo de 24 de junho em The Spectator, ou ele se disciplinava e
retratava o mundo como era, pintando qualquer outra coisa como mera
distração frívola, ou se suicidava. O exemplo mexicano estava sendo
vergonhosamente deixado de lado. “No quarto de todo jovem intelectual
de elite em Cambridge que pertencia ao Partido Comunista”, observou
Blunt em setembro, “sempre se encontrava uma reprodução de um quadro de Van Gogh”, mas nada de Rivera, nada de Orozco. Evidentemente, a
exortação individual e o jogo da sensibilidade espontânea não eram mais
suficientes. A coluna de 8 de julho esboçava um gesto quase desesperado:
“Embora o método de Hitler de arregimentar as artes seja de se deplorar
sob todos os aspectos, não há nada de intrinsecamente errado na
organização das artes pelo Estado”. O regime mexicano havia mostrado o
caminho, “e esperemos que logo possa ocorrer na Europa”. Era tarde.
O esforço de guerra recrutou os artistas e historiadores da arte britânicos
para a propaganda, a reportagem gráfica (os famosos desenhos de Henry
Moore dos abrigos antiaéreos) e vários projetos artísticos. Estes
representavam a colaboração programática e militante entre artista e
sociedade que Blunt defendera nos anos finais da década de 1930. Mas foi
nessa altura — em 1939 ele se tornou docente de História da Arte na
Universidade de Londres e vice-diretor do Instituto Courtauld, de grande
renome — que os escritos de Anthony Blunt passaram a ser muito
subjetivos. Seu primeiro artigo erudito tinha saído no Journal of the
Warburg Institute de 1937-38, mas a grande massa de textos publicados
era de caráter jornalístico. Depois de 1938, sua atividade jornalística se
tornou esparsa e ocasional, e foi nas páginas do Journal of the Warburg
and Courtauld Institutes, que desde 1939 se tornara tremendamente elitista
em termos culturais, e da Burlington Magazine, voltada para especialistas
e conhecedores, que ele publicou a sequência ininterrupta de artigos
acadêmicos que o converteram num dos mais destacados historiadores da
arte da época. Esses artigos — sobre Poussin, William Blake, a pintura
italiana e a arquitetura francesa dos séculos xvii e xviii, as relações entre o
barroco e a Antiguidade — constituem as bases e, em muitos aspectos, a
forma preliminar dos mais de 25 livros, monografias e catálogos
produzidos a partir de 1939 por sir Anthony Blunt (recebeu o título em 1956), titular da Cátedra Slade de Belas-Artes sucessivamente em Oxford
e Cambridge, membro da Academia Britânica (1950), membro da
Sociedade de Antiquaristas (1960) e, acima de tudo, supervisor dos
Quadros da Rainha e conselheiro dos Quadros e Desenhos da Rainha
(desde 1952 e 1972, respectivamente).
Nicolas Poussin (1594-1665) ocupava o centro dos conhecimentos e da
sensibilidade de Blunt. Mais de trinta estudos de Poussin apareceram entre
“A Poussin-Castiglione Problem”, de 1939-40, e o artigo “Poussin and
Aesop”, em 1960. Apenas no ano de 1960 foram publicados cinco artigos
importantes sobre o mestre classicista francês, e mais três no ano seguinte.
Não é exagero dizer que Blunt está tão intimamente identificado com
Poussin como outro grande historiador da arte, Charles de Tolnay, está
com Michelangelo ou como Erwin Panofsky esteve, em certas fases de sua
carreira, com Dürer. Foi por intermédio de Poussin que Blunt organizou e
testou suas reações não só à arte e arquitetura clássica e neoclássica, mas
também às composições espaciais de Cézanne, à arte religiosa de Rouault
e aos grupos de figuras e à distribuição da luz em Seurat. Essa paixão de
toda uma vida culminou num estudo em dois volumes de Poussin —
incorporando as conferências A. W. Mellon que Blunt deu em Washington
e um catálogo raisonné da produção do artista — que foi publicado pela
Bollingen Foundation de Nova York em 1967.
A prosa crítico-acadêmica de Blunt é bastante fria. Parece rejeitar
explicitamente o lirismo pessoal e dramatizado que marcava os escritos de
arte de Pater, de Ruskin e do sucessor mais fascinante de ambos, Adrian
Stokes. Salvo raras exceções, o estilo de Blunt chega a evitar aqueles
lampejos de impressionismo e retórica sinuosa que ornamentam os estudos
de arte de Kenneth Clark. A simplicidade translúcida do estilo clássico
francês, que Blunt analisava e estimava, passou para seu próprio estilo. Mesmo assim, há em suas reflexões sobre Poussin alguns indícios de sua
visão central. A arte de Poussin é enobrecida por uma intenção deliberada.
Ela encarna “uma visão cuidadosamente elaborada da ética, uma atitude
coerente diante da religião e, no final da vida, uma concepção complexa,
quase mística do universo”. Blunt vê em Poussin um mestre que contrariou
o conceito platônico que subestimava as artes de representação como
meras imitações da realidade. Uma passagem sobre Poussin mostra o
máximo de eloquência que o professor Blunt se permite:
Sua busca de uma forma racional de arte era tão apaixonada que o levou em seus anos mais avançados a uma beleza que ultrapassava a razão; seu desejo de conter a emoção dentro de seus limites mais estritos fez com que a expressasse em sua forma mais concentrada; sua determinação em se apagar e procurar única e exclusivamente a forma que se adequasse com a maior perfeição ao tema o levou a criar pinturas que, embora impessoais, também são profundamente emocionais e, embora racionais em seus princípios, são quase místicas na impressão que transmitem.
Apenas o controle disciplinado, o rigoroso apagamento de si e o absoluto
domínio técnico podem levar um artista, uma consciência humana, àquela
imediaticidade da revelação (o místico) que é gerada pela razão, mas não
está inteiramente contida nela. O sentimento intenso é protegido pela
serenidade da forma. É com evidente aprovação que Blunt cita o
testemunho do próprio Poussin: “Minha natureza me obriga a procurar e
amar coisas que têm boa ordem, escapando à confusão, que é tão oposta e
contrária a mim como o dia em relação ao mais profundo da noite”. Essa
grande tradição de nobreza austera é essencial para o gênio francês, de
Racine a Mallarmé, dos irmãos Le Nain a Braque. Pouquíssimos ingleses se
sentem à vontade em sua formalidade. Blunt, que passou longos períodos da
juventude na França, via na tradição francesa o clima essencial de sua
sensibilidade. Veio a reconhecer em Poussin um estoico tardio, um
moralista ao estilo de Sêneca, passional em sua própria racionalidade, mas cuidadosamente afastado dos assuntos públicos. Montaigne, observa Blunt,
é a voz — e uma voz da quintessência francesa — desse distanciamento
apaixonado. Embora tais qualidades se destaquem em Nicolas Poussin,
também se encontram em outros mestres e áreas: no arquiteto francês
Philibert de l’Orme (c. 1510-70), a quem Blunt dedicou uma monografia
em 1958; no grande pintor Claude Lorrain (1600-82); no arquiteto e
escultor Francesco Borromini (1599-1667), sobre o qual Blunt publicou um
estudo incisivo e elegante em 1979. Na estética de Borromini, o estoicismo
se une ao humanismo cristão para sustentar a ideia de que Deus é “suprema
razão”. Tanto quanto Poussin em seus anos finais, Borromini concebe o
homem como ser inevitavelmente fraco e infeliz, mas dotado da capacidade
de refletir — de traduzir em forma disciplinada certos aspectos da ordem e
energia cósmica. E essa reflexão infunde numa tela de Poussin, numa
fachada de Borromini, num desenho de Jean Fouquet, a luz do mistério
pensado pela razão.
Uma marca da distinção de Blunt e da sensibilidade de suas antenas é o
fato de sua autoridade se estender a alguns artistas que, à primeira vista,
parecem opostos ao ideal francês. Seus artigos sobre William Blake
remontam a 1938. O estudo The Art of William Blake saiu em 1959. Aqui
também, o critério é a concordância entre visão e técnica de execução.
Como em Poussin, embora expressa num código totalmente diferente, há
nas pinturas de Blake uma “plena integridade do pensamento e do
sentimento”. No caso de Blake, a análise era fundamentalmente política.
Blake havia se virado contra o materialismo — contra a febre dinheirista
da nova era industrial — e contra a hipocrisia de uma religião de Estado
esclerosada. Era “um combatente das minorias”, correndo sérios riscos de
isolamento e mera excentricidade. Seus talentos de artesão, a inteligência
vital de sua compreensão da arte clássica e da sociedade moderna lhe
permitiram produzir desenhos de caráter totalmente individual, e ainda
assim com um significado de inequívoca universalidade. “Para aqueles que tentam escapar do domínio do materialismo”, diz o professor Blunt, Blake
é de grande auxílio e conforto. E o radicalismo do protesto reside no
controle compositivo. Tal “mistura extraordinária de rigor e fantasia” iria
encantar Blunt em seu estudo da fachada de Borromini para o Collegio di
Propaganda Fide em Roma.
Para seus colegas de profissão, Blunt não é apenas um historiador e
crítico analítico da arte de grande estatura. É um dos principais
catalogadores de nossa época. Para um leigo, é difícil entender e quem dirá
resumir as disciplinas necessárias, a importância dos catálogos para o
estudo e a interpretação das belas-artes como um todo. Da mesma forma
como, ao fim e ao cabo, a força vital da fala e da escrita é determinada pela
qualidade de nossos dicionários e gramáticas, o acesso às obras de grandes
artistas e sua avaliação dependem da atribuição e datação exatas. Quem
pintou esta tela? Quem fez este desenho? Qual é a relação desta gravura
com a chapa original? Quando esta estátua foi esculpida ou fundida? A que
ano devemos atribuir esta arcada ou aquele vestíbulo? Estou olhando uma
obra individual ou o resultado de um trabalho coletivo na oficina com o
mestre ou, talvez, segundo sua maquete mais ou menos completa? O
catálogo raisonné — a listagem cronológica e a descrição precisa da
produção de um artista de sua escola — é o instrumento básico de
percepção ordenada para o historiador da arte e da cultura, para o crítico de
arte e para o conhecedor. Os talentos e recursos exigidos do compilador,
como de um gramático ou lexicógrafo mestre, são dos mais rigorosos e
invulgares. O catalogador, em primeiro lugar, precisa ser plenamente
versado na mecânica do meio que está classificando. Para identificar a mão
de um gravurista, por exemplo, ele precisa ser capaz de reproduzir
mentalmente, mas também com os próprios dedos, por assim dizer, as
idiossincrasias do instrumento do gravurista. Precisa conhecer a metalurgia da época correspondente para poder julgar o estado da chapa. Ele deve ter
familiaridade com a textura particular da tinta usada, a história exata do
papel e suas marcas-d’água, as considerações estéticas e comerciais que
determinaram o número de cópias feitas. Ao datar e atribuir pinturas, o
classificador pode recorrer a técnicas de laboratório, à fotografia com raio
X e infravermelho, para revelar as camadas sucessivas de tinta; à análise
minuciosa da madeira, da tela e do metal, para estabelecer a cronologia e a
história compositiva do objeto. Mas o domínio dessas minúcias intrincadas
é apenas o passo preliminar. A atribuição correta de uma pintura, de uma
estátua, de um batistério a este ou aquele pintor, escultor ou arquiteto, a
datação e colocação correta do objeto no conjunto da obra do artista
resultam em última análise de uma aguda intuição racional. A memória, a
retenção no olho do espírito de um amplo espectro de obras de arte que
cercam, complementam, se comparam ou contrastam com a obra sob
exame, é indispensável. Igualmente indispensável é a capacidade de
imaginação histórica, o gesto de empatia precisa que permite ao
romancista histórico, ao historiador, ao grande figurinista teatral imaginar
o passado. A erudição pura e simples — isto é, uma colossal intimidade
com a biografia do artista com seus hábitos profissionais, com a
distribuição física e a sobrevivência de suas obras depois que saíram do
ateliê e iniciaram sua jornada amiúde tortuosa até o museu moderno, a sala
de leilões, o sótão empoeirado ou a coleção particular — é essencial. Mas
isso não é o principal. O que mais importa são os “valores táteis”
(expressão de Bernard Berenson), que exigem uma capacidade de aplicar
inabalavelmente a consciência sensorial e estética ao objeto de arte, tanto
no mais miúdo detalhe quanto em seu efeito geral. O catalogador mestre
tem diapasão perfeito.
O catálogo com The Drawings of Nicolas Poussin de Blunt começou a
aparecer em 1939. The French Drawings in the Collection of H. M. the
King at Windsor Castle foi publicado em 1945. Nove anos depois vieram
The Drawings of G. B. Castiglione and Stefano della Bella in the
Collection of H. M. the Queen at Windsor Castle. O catálogo descritivo de
Blunt sobre os desenhos venezianos dos séculos xvii e xviii na coleção de
Sua Majestade foi publicado em 1957. Três anos depois saiu o catálogo de
desenhos romanos do mesmo período pertencentes à soberana. Anthony
Blunt providenciou o catálogo para a grande exposição de Poussin em
Paris em 1960, e sua listagem definitiva dos quadros do artista saiu seis
anos depois. Em 1968, Blunt fez o levantamento da Coleção James A. de
Rothschild em Waddesdon Manor. Em 1971, publicou suplementos às suas
relações anteriores dos desenhos franceses e italianos. Além disso, em
todas as suas monografias, como o belo estudo do Neapolitan Baroque &
Rococo Architecture (1975) e o livro sobre Borromini, a atribuição, a
descrição exata e as datações desempenham papel fundamental. Blunt
literalmente organizou salas inteiras da casa da arte ocidental, dando-lhes
ordem inteligível. Como eu disse, apenas o especialista é capaz de avaliar
plenamente o trabalho, a escrupulosidade, o grau de concentração e
discernimento envolvidos nisso.
Vale a pena insistir na “escrupulosidade”. A questão da atribuição, da
descrição e da datação exige absoluta integridade no nível técnico. A
medição das margens tem de ser milimétrica; as sucessivas impressões do
original em chapa de metal ou em bloco de madeira devem ser
diferenciadas quase microscopicamente para se conseguir a numeração
correta da sequência. Mas, neste campo, também há pressões de ordem
moral e econômica. O preço de uma pintura, de um desenho ou uma
gravura, o valor de uma escultura no mercado ensandecido de arte dependem diretamente da atribuição do especialista. As tentações são
notórias. (Consta que, de vez em quando, Berenson se rendia a elas.) A
austeridade de Blunt estava acima de qualquer questionamento. Sua
erudição, sua docência são exemplos de critérios extremos de severidade
técnica e rigor moral e intelectual. Seus catálogos, suas críticas e estudos
de história da arte, as decisões a que chegou quanto à identificação e
avaliação de pinturas e desenhos em acervos públicos e particulares
ilustram o lema adotado por Aby Warburg, fundador do instituto ao qual
Blunt esteve intimamente associado: “Deus reside no detalhe”. Neste
patamar de especialidade e erudição, a fraude e o desmascaramento seriam
irreparáveis. Praticamente não se passava um único dia em que o professor
sir Anthony Blunt, Cavaleiro Comendador da Ordem Real Vitoriana e
conviva de honra da rainha, não deixasse isso claro a seus colegas e
alunos.
E eles responderam generosamente. Os Studies in Renaissance &
Baroque Art Presented to Anthony Blunt on His 60th Birthday (Phaidon,
1967) não são meros gestos rituais. Aqui alguns dos mais ilustres
historiadores da arte e da arquitetura renderam tributo genuíno a um mestre
na área e a um professor exemplar, publicando ensaios que refletiam os
elevados critérios e a visão universalista do homenageado. Mas, mesmo
além da honra prestada ao erudito e ao docente, há a homenagem à pessoa.
O que os pares e associados do professor Blunt em todo o mundo
acadêmico, no National Art Collections Fund, no National Trust (a entidade
mais importante de preservação da herança histórica da Inglaterra), em
museus e muito provavelmente no círculo da realeza desejavam expressar
irrestritamente era o respeito pelas “qualidades intelectuais e integridade
moral” de sir Anthony. Era evidente que caminhavam juntas.
Não sei exatamente quando Blunt foi recrutado para a espionagem
soviética. Considera-se provável que ele veio a se interessar ativamente e se
tornou simpatizante do comunismo quando fazia o curso de graduação no
Trinity College, Cambridge, entre 1926 e 1929. Eleito fellow da faculdade
em 1932, parece ter atuado principalmente como descobridor de talentos e
guru para a kgb. Há indícios de que exerceu uma influência extraordinária
num círculo de rapazes que incluía Kim Philby, Guy Burgess e Donald
Maclean, que mais tarde fugiram para Moscou. Blunt foi soldado na França
em 1939 e 1940, depois de uma tentativa, cujos detalhes continuam
obscuros, de ingressar no serviço secreto militar. Em 1940, durante o caos e
a crise desencadeada pelo avanço de Hitler no Ocidente, Anthony Blunt
conseguiu seu intento. Agora era membro do setor mi5 do serviço secreto
de guerra. Nenhum observador externo parece saber exatamente quais eram
as funções de Blunt e a que escalão ele chegou. De início, parecia que teria
monitorado as comunicações e atividades de várias embaixadas estrangeiras
e governos no exílio em Londres. Passando as informações para seu
controle soviético, ele teria ajudado os russos a planejar e aplicar suas
políticas assassinas nos países recém-libertados da Europa Oriental em
1944 e 1945. O próprio Blunt declarou que suas atividades consistiam
apenas em manter os russos a par das descobertas do mi5 sobre as redes de
espionagem alemã e em transmitir informações de rotina ocasionais sobre o
trabalho e as opiniões de seus colegas. Margaret Thatcher, em seu
pronunciamento na Câmara dos Comuns na terceira semana de novembro
de 1979 — o pronunciamento que revelou a traição de Blunt ao público em
geral —, disse apenas o seguinte: “Não sabemos exatamente quais
informações ele passou. Mas sabemos a quais informações ele teve acesso”.
O implícito era que estas últimas eram muito delicadas. Na aparência, o
trabalho de Blunt no mi5 cessou ao final da guerra. Na realidade, claro, a
comunidade da espionagem britânica, como seus equivalentes em todos os
outros países, constitui uma espécie de clube vitalício, em que os
“veteranos” e ex-ativistas continuam na lista. Em 1950, ao que parece, Blunt se ofereceu para ajudar no setor de segurança do Ministério de
Relações Exteriores, que tentava rastrear um grave vazamento de
informações confidenciais na Embaixada de Washington. Esse gesto gentil
permitiu o acesso direto de Blunt ao dossiê Burgess-Maclean. Até hoje, são
pouquíssimas as pessoas que conhecem o mecanismo exato que possibilitou
que Burgess e Maclean soubessem que este último seria interrogado dali a
72 horas, dando tempo assim para que ambos se refugiassem na União
Soviética. É quase certo que Blunt ajudou na fuga. Não está claro se agiu
como iniciador e organizador da operação, ou se simplesmente transmitiu
os sinais de urgência. O que se sabe é que foi Anthony Blunt quem
telefonou para Burgess em 25 de maio de 1951, pela manhã — uma sexta-
feira —, avisando que a rede iria se fechar sobre Maclean na segunda-feira.
Os serviços de segurança britânicos guardam o dia do descanso. Naquela
mesma noite, Burgess e Maclean tomaram a balsa de Southampton para
Saint-Malo. Foi Blunt, além disso, que revistou o apartamento de Burgess
em Londres procurando provas que pudessem incriminar a ele e a Philby.
Philby não cedeu sob o severo interrogatório. Segundo o pronunciamento
de mrs. Thatcher no Parlamento, Blunt havia admitido que ajudara Philby a
fazer contato com o serviço secreto soviético “numa ocasião” entre 1951 e
1956 — o ano em que a rainha nomeou Blunt seu fiel cavaleiro. Mas há
indícios sugerindo que Blunt serviu de mensageiro entre a kgb e o cada vez
mais acuado agente. Como disse Philby mais tarde, em seu banco
ensolarado num parque público em Moscou (em 1963, ele tinha uma
espécie de permissão de desertar em segurança), tinha recebido “pela mais
engenhosa das rotas” uma mensagem animadora de seus senhores e amigos
do Kremlin. “Aquilo mudou todo o aspecto do caso. Eu não estava mais
sozinho.”
Nem Blunt. Levados a agir devido à farsa Burgess-Maclean e à
indignação das agências de espionagem e contraespionagem dos eua, que
haviam tentado inutilmente alertar os colegas britânicos sobre a presença
de “toupeiras” nos escalões mais altos do serviço secreto, os interrogadores do mi5 viram Blunt onze vezes, a partir de 1951. Até onde se sabe, Blunt
negou todas as suspeitas com uma gélida indiferença. As supostas
revelações de Burgess eram coisas de um alcoólatra notório por suas
traquinagens e invencionices. Alguns interrogadores tinham certeza de que
Blunt estava mentindo, mas não conseguiam ligar fatos e provas. Além
disso, o prestígio de Blunt na vida pública, seu acesso à realeza e a
imunidade quase total garantida por tal acesso aumentavam ano após ano.
O período entre 1952 e 1964 foi uma época dourada para o guardião e
supervisor da arte da Coroa. Mas o clima começava a mudar. A exposição
e o julgamento em 1961 do espião soviético veterano George Blake, o
retorno de Philby a Moscou e a avalanche de revelações subsequentes, o
escândalo no fundo trivial, mas desalentador, do caso Profumo no verão de
1963 suscitaram um alarme e um sentimento de traição generalizados.
Iniciou-se uma nova rodada de investigações. Desta vez, segundo a versão
oficial, Blunt cedeu e fez um acordo com seus perseguidores. Confessaria
a traição e cooperaria com o mi5, conforme o serviço julgasse adequado,
em troca de absoluta discrição e imunidade pessoal. O que havia de
atraente nisso, claro, era a possibilidade de que a kgb, sem saber que Blunt
tinha “virado” de lado, continuasse a utilizar seus serviços e o teor dos
contatos fosse revelado à contraespionagem britânica. Essa barganha
apetitosa deveria ficar em sigilo absoluto. Entre os pouquíssimos que
ficaram a par estava sir Michael Adeane, secretário particular de Sua
Majestade. Ao que parece, ele recebeu a notícia com a devida
imperturbabilidade, tanto mais notável porque o guardião assistente dos
Quadros da Rainha era um tal Oliver Miller, ex-integrante do serviço
secreto. No desenrolar dos fatos, a kgb não mordeu a isca e a cooperação
pessoal de Blunt com seus novos senhores foi praticamente nula. Aos
olhos de seus controles tremendamente exasperados no mi5, parecia que ele os havia enganado mais uma vez. O brilho das honrarias públicas a sir
Anthony piorava ainda mais as coisas. Boatos e insinuações, muito
provavelmente plantados pela rede de espionagem enfurecida, começaram
a circular na Fleet Street, nas salas dos catedráticos das faculdades de
Oxford e Cambridge e por todo o sistema nervoso das fofocas
institucionais. Dois jornalistas, Richard Deacon e Andrew Boyle, foram
rápidos em seguir as pistas. Ameaças de processo por difamação
obrigaram Deacon a recolher o livro que tinha escrito sobre o caso. Boyle,
confiando nos fatos de que dispunha e muito provavelmente encorajado
por certos segmentos poderosos, publicou seu livro (cuja edição americana
recebeu o título de The Fourth Man) em 5 de novembro do ano passado. A
escolha da data foi uma indireta: para os ingleses, o Dia de Guy Fawkes
funciona como lembrete anual de uma conspiração mortal. Dez dias mais
tarde, o primeiro-ministro se manifestou.
Estes são, resumidamente, os fatos tais como foram entregues por mr.
Boyle e outros jornalistas a um público ávido, numa avalanche de
matérias, pelo mais variado leque de autoridades e figuras outrora
pertencentes ao serviço secreto, pelos acólitos de John le Carré (e, na
verdade, pelo próprio Mestre) após as revelações de mrs. Thatcher no
Parlamento. Uma olhada superficial nesse relato mostra que é tão cheio de
lacunas, perguntas sem resposta e implausibilidades que se torna quase
inútil. Mesmo concedendo que o recrutamento em 1940 era caótico, como
seria possível que o mi5, exatamente na mesma época do pacto Hitler-
Stálin, passasse por cima dos sentimentos políticos expostos por Blunt em
suas críticas de arte em The Spectator e em seu ensaio de 1937? Quem
escondeu ou retirou um dossiê que o general desertor soviético Walter
Krivitski já havia entregado desde 1939 ao mi5 — dossiê este que
praticamente identificava Blunt e sua ligação com Maclean (embora, provavelmente, de modo fragmentário e adulterado)? É inevitável a
suposição de que havia uma proteção muito eficiente em escalões
altíssimos. A vida dupla de Blunt tinha algum amuleto de proteção desde o
começo. Pois como foi que deixaram (deixaram mesmo?) que Blunt, que
realmente dividira um apartamento com Burgess, escapasse da rede
durante o tumulto de 1951? Toda a história da confissão e garantia de
imunidade em 1964 é implausível. Por que Blunt haveria de ceder
justamente nessa época, e de que escalão e importância eram seus serviços
para a kgb, a ponto de seus interrogadores acharem que valeria a pena
poupá-lo do desmascaramento público e de um processo por traição?
Lorde Home, o primeiro-ministro na época, e seu sucessor Harold Wilson
afirmaram que não sabiam de nada, embora, em virtude do cargo, ambos
fossem os chefes dos serviços de segurança. E por que então não sabiam?
E quem tomou a decisão, politicamente trivial, mas psicologicamente de
extrema bizarria, de informar ou deixar de informar à Sua Majestade que
seu conselheiro artístico recoberto de honrarias, convidado habitual do
palácio, era um espião confesso da kgb? Não é claramente concebível que
a confissão de Blunt em 1964 fosse ela mesma uma fraude tática, e que ele
continuou a prestar serviços como informante da kgb ou, o que é mais
provável, como um agente duplo clássico, “convertido” por ambos os
lados, mas leal apenas a um deles? De que outra maneira explicaríamos o
fato, de início revelado numa declaração um tanto oblíqua de Edward
Heath, primeiro-ministro na época, de que o dossiê Blunt tinha sido
reaberto em 1973, mas que três procuradores públicos sucessivos, nos seis
anos subsequentes, não tinham encontrado nada que pudesse servir de
prova ou indício para fundamentar um processo? As provas fornecidas por
“toupeiras” e desertores realmente levam muito tempo para percorrer os
canais dos serviços de inteligência. Mas será possível que a informação fornecida por Anatoli Dolnytsin, alto agente da kgb que procurou abrigo
nos eua em 1962 e parece ter conhecido toda a operação Philby e a
conexão de Blunt, tenha realmente sido ignorada pela contraespionagem
britânica? Aqui também é muito palpável a impressão de que havia um
anjo ou toda uma confraria de anjos da guarda em escalões muito elevados.
Um filósofo catedrático de Oxford de irrepreensível argúcia, ele mesmo
membro do círculo encantado da alta sociedade intelectual britânica, disse-
me com toda franqueza que o caso Blunt, como foi apresentado ao mundo
em geral, é em muitos aspectos uma invenção, arquitetada e revelada
exatamente para criar uma cortina de fumaça atrás da qual outros
personagens importantes do drama correriam a se esconder em segurança.
Pontos essenciais são “na verdade o exato contrário do que você foi levado
a acreditar”. Os futuros historiadores escavarão os fatos. Uma ou outra
indicação espantosa vai aparecer em cartas, memórias pessoais,
documentos ainda não publicados. O próprio Blunt terá sua ocasião e
participação nos royalties (trocadilho predestinado, este).[1] Mas é de se
duvidar que algum dia aflore alguma verdade coerente. O que é certo é
apenas isto: Anthony Blunt era um pequeno agente da kgb cuja traição por
trinta anos ou mais trouxe, com quase toda certeza, graves danos a seu país
e talvez tenha enviado outros homens — exilados poloneses e tchecos,
colegas do serviço secreto — a uma morte abjeta. O resto é mexeriquice de
mau gosto.
A espionagem e a traição, ao que nos é dado entender, são tão antigas
quanto a prostituição. E, evidentemente, muitas vezes envolveram seres
humanos de razoável inteligência e audácia e, em certos casos, de posição
social elevada. Mas o recrutamento para este ofício nauseante de um
homem de grande capacidade intelectual, cujas contribuições visíveis à vida
do espírito são de extremo requinte e percepção e que, como estudioso e professor, fez da veracidade, da escrupulosa integridade a pedra de toque de
sua obra — isso, de fato, é raro. Em relação aos tempos modernos, não
consigo pensar em nenhum verdadeiro paralelo. A tradição e a duplicidade
do professor Blunt realmente colocam questões fundamentais sobre a
natureza da obsessão intelectual acadêmica, sobre a coexistência da máxima
verdade e da máxima falsidade numa mesma sensibilidade, sobre certos
germes de desumanidade enxertados, por assim dizer, nas próprias raízes da
excelência em nossa sociedade. Aí residem a importância e o fascínio do
caso. Não tenho competência nem interesse em contribuir em nada para a
enxurrada de especulações detetivescas de gabinete e fantasias de
espionagens que se desencadearam com o caso Blunt. Mas gostaria de
pensar por um momento sobre um homem que, de manhã, ensina a seus
alunos que uma falsa atribuição de um desenho de Watteau ou uma
transcrição incorreta de uma epígrafe trecentista constitui um pecado contra
o espírito, e à tarde ou à noite transmite aos agentes da inteligência
soviética informações confidenciais, talvez vitais, que lhe foram dadas em
plena confiança por seus conterrâneos e colegas próximos. Quais são as
origens de tal cisão? Como o espírito se mascara a si mesmo?
Os sentimentos marxistas expressos nas críticas de arte de Blunt e em
sua contribuição a The Mind in Chains são banais. Constituem a rotina
difusa de revolta de uma geração de classe média apanhada no triplo
contexto da depressão econômica ocidental, da ascensão nazista e fascista
e do que se acreditava serem os sucessos dinâmicos e libertários da
Revolução Russa. Nada do que escreve Blunt mostra qualquer apreensão
específica seja dos aspectos filosóficos do materialismo dialético marxista,
seja da teoria econômica e do trabalho em que se funda esse materialismo.
É uma conversa inofensiva de salão no estilo aceito dos anos 1930. Exceto,
talvez, num único aspecto. Blunt chegara cedo à convicção de que a
grande arte, à qual atribuía valor eminente na sociedade e na consciência
humana, não sobreviveria ao regime fragmentado, anárquico, sempre sujeito a modas, do patronato privado e da trivialização dos meios de
comunicação de massa. Para que a pintura, a escultura e a arquitetura
pudessem reconquistar estatura clássica, teria de ser sob o controle de um
estado esclarecido, educador e com senso de missão histórica. No entanto,
se observamos com atenção o reiterado apelo de Blunt a uma autoridade
central sobre as artes, a base do argumento não é muito marxista. O
precedente ideal é muito anterior. Como tantos da “elite radical”, Blunt
alimenta duas convicções possivelmente antitéticas. Considera a grande
arte com uma significação inigualável para o homem, e gostaria que essa
significação fosse acessível a toda a comunidade. A solução mais ou
menos inevitável é a de Platão: “guardiães”, escolhidos por sua probidade
e força intelectual, devem assegurar à arte sua qualidade positiva e
enriquecedora da vida e devem organizar a apresentação dessa arte à
sociedade como um todo. E essa qualidade e apresentação pública elevarão
a sensibilidade coletiva a um plano superior. Blunt parece ter sentido que
algo muito similar a este mecanismo de autoridade e difusão estava
operando nas cidades-Estado autocráticas da Itália renascentista e, acima
de tudo, no século de Luís xiv e seu sucessor imediato. O mecenato dos
Médici ou de Versalhes era ao mesmo tempo centralista autoritário e
progressista. Comandavam a produção de pinturas, estátuas e edifícios de
mérito duradouro, mas faziam dessa produção um benefício e um incentivo
político-social, com a participação ativa de todo o corpo político. Dessa
maneira, os artistas individuais estavam integrados na estrutura viva da
sociedade. Por mais pessoal e singular que fosse a inspiração deles, a tela,
o monumento, a loggia ou a fachada assim projetados e criados surgiram
sob as pressões racionalizantes e humanizadoras da ocasião pública e da
necessidade de comunicar aos grandes patronos e à cidade em geral. O
negociante e o colecionador de arte, o magnata e o jornalista crítico, tal como proliferam sob o capitalismo, não conseguem alcançar essa
integração. Pelo contrário, é o nexo monetário que fatalmente cindiu o
mundo da arte entre o esotérico num dos extremos e o kitsch no outro.
Blunt situa a crise em algum momento entre Ingres, que ainda trabalhava
em condições essencialmente públicas e hierárquicas, e, digamos, Manet.
O equivalente disponível dos Médici ou do ancien régime seria o
comissariado leninista de belas-artes, o ministério revolucionário da
cultura no México ou, muito próximo, como vimos, o departamento de
propaganda e câmara oficial das artes no Terceiro Reich. Blunt tem
perspicácia suficiente para saber que o preço pode ser muito alto, pelo
menos durante um período de transição histórica. Mas de que outra
maneira seria possível resgatar as artes, sem as quais o homem recairia na
animalidade, da prostituição mercantilista? Pode ter sido por não ter
encontrado nenhuma outra resposta a essa pergunta que Anthony Blunt
passou do marxismo estudantil e de salão para as questões práticas da
traição.
Um motivo relacionado e menos usual também pode ter contribuído,
embora eu não possa documentar meu palpite a esse respeito. Há alguns
indícios de que Blunt, quando começou a se dedicar seriamente ao estudo
das artes, sentiu uma atração por Claude Lorrain pelo menos tão intensa
quanto por Poussin. E Lorrain é possivelmente o mestre mais original e
mais constante. Porém, por razões que envolviam as relações muito
diversas desses dois pintores com seus patronos e o público, as obras de
Poussin eram muito acessíveis aos estudantes, ao passo que, na época,
grande parte de Lorrain estava em coleções particulares, muitas vezes de
acesso fechado. Aqui tocamos num problema sobre o qual sou bastante
ambivalente. A propriedade privada de grandes obras de arte, que ficam
afastadas da vista das pessoas em geral, para nem mencionar os estudiosos e diletantes interessados, é algo curioso. O literal desaparecimento de um
Turner ou de um Van Gogh em algum cofre de um banco do Oriente Médio
ou da América Latina, para ficar guardado como caução e investimento, a
sardônica decisão de um magnata armador grego de colocar um
incomparável El Greco em seu iate, onde corre riscos constantes — estes
são fenômenos que beiram o vandalismo. A grande arte deve ser posse
particular, com tudo o que isso acarreta de riscos materiais, de ganância, de
afastamento das correntes gerais do pensamento e da sensibilidade? A
pergunta é especialmente premente nos casos em que a pintura, a estátua ou
o motivo arquitetônico em questão se destinava originalmente à exibição
pública — como é o caso evidente da maioria esmagadora das obras
medievais, renascentistas, seiscentistas e setecentistas. Dizer que os
colecionadores privados, sobretudo nos eua, têm sido generosos ao permitir
que estudiosos convidados deem uma olhada em seus tesouros (e nem
sempre, na verdade) não é resposta. Às vezes sinto que a resposta deveria
ser uma enfática negativa — que a grande arte não é, não pode ser
propriedade privada. Mas não tenho certeza. Minha hipótese é que Blunt
estava certo, e que o jovem estudioso e conhecedor, impedido de ver certos
quadros e desenhos de grande gênio porque estavam trancados em algum
espaço privado, sentia espasmos de ódio e desprezo pelo capitalismo. Na
União Soviética, sabia ele, a grande arte está em galerias públicas. Nenhum
estudioso, nenhum homem, nenhuma mulher, querendo elevar a alma diante
de um Rafael ou de um Matisse, precisa esperar de chapéu na mão à porta
da mansão.
A segunda perspectiva principal para tentar compreender o fenômeno Blunt
é a da homossexualidade. Hoje em dia há uma imensidade de escritos sobre
a incidência do homossexualismo nos círculos da Universidade de
Cambridge, onde os serviços secretos soviéticos recrutavam sua galáxia de
agentes. Uma parcela das informações públicas é com toda probabilidade
fidedigna; mas grande parte não passa de bisbilhotice lasciva. Uma das principais testemunhas do homoerotismo de Blunt, o falecido Goronwy
Rees, foi uma fonte excelente, mas emocionalmente instável e nem sempre
impecável. O que é inquestionável é o fato geral da natureza de intensa
homossexualidade da elite entre a qual o jovem Blunt se desenvolveu no
Trinity College e no King’s College em Cambridge — e, mais
especificamente, do grupo dos Apóstolos, a célebre sociedade semissecreta
de almas estéticas e intelectuais que desempenhou um papel tão
inconfundível na vida literária e filosófica inglesa, desde a época de
Tennyson à de Strachey e Bertrand Russell. Nenhum campo da sociologia
ou da história cultural, nem da teoria política ou da psicologia, sequer
começou a abordar sistematicamente o vasto tema do papel desempenhado
pela homossexualidade na cultura ocidental desde a segunda metade do
século xix. O tema é tão difuso e de tamanha complexidade metodológica e
emocional que seria preciso surgir uma combinação de Maquiavel,
Tocqueville e Freud para escrever o grande livro faltante. Praticamente não
existe nenhum ramo da literatura, da música, das artes plásticas, da
filosofia, do teatro, do cinema, da moda e todos os acessórios da vida
urbana diária em que o homossexualismo não tenha participado de maneira
fundamental, muitas vezes em posição dominante. Pode-se considerar que o
judaísmo e o homossexualismo (mais marcadamente quando se sobrepõem,
como num Proust ou num Wittgenstein) foram os dois principais geradores
de toda a estrutura e características próprias da modernidade urbana no
Ocidente. Por vias que C. P. Snow nem sequer sugeriu em seu arrazoado
sobre “as duas culturas”, em termos gerais é a ausência notável de qualquer
presença homossexual que se compare nas ciências exatas e aplicadas que
tem ajudado a gerar o fosso cada vez maior entre a cultura geral e a cultura
científica. Este é um vasto processo, mas ainda não muito bem entendido,
dentro do qual o papel da homossexualidade na política e no mundo da
espionagem e da traição é, por mais marcante que seja, apenas um de seus
traços específicos. Aliás, no caso de Blunt e dos jovens Apóstolos de Cambridge e Bloomsbury, o homossexualismo pode ser um conceito
restrito demais.
Até data muito recente, as ordens mais privilegiadas na sociedade
inglesa eram educadas nas escolas e nas faculdades celibatárias de Oxford
e Cambridge, que só passaram a admitir mulheres nos últimos sete ou oito
anos. Essa formação era reforçada por um ideal explícito de amizade
masculina, de uma intimidade e mútua confiança masculina mais radiante
e duradoura do que os valores plebeus do mundo exterior. Enemies of
Promise, de Cyril Connolly, e o refinado Friends Apart [Amigos
distantes], de Philip Toynbee, fornecem um quadro clássico dessa Arcádia
adolescente, com suas sugestões de descontraídas tardes de verão e mortes
heroicas em másculas guerras vindouras. Esse código masculino
compreendia várias etapas de contato homossexual, que iam desde a
paixão escolar mais platônica (termo ambíguo em si mesmo) até o
envolvimento completo. Mas mesmo este último era, em muitos casos,
somente uma fase transitória antes de se apagar a luz do verão, seguindo-se
o ingresso responsável do homem no clima mais frio do matrimônio e da
vida em família. Assim, o mais importante não é o homoerotismo, mas a
noção de uma pequena constelação de homens, com as almas sintonizadas
por partilhar o mesmo ensino e o mesmo cenário encantado dos claustros e
jardins de Cambridge. A força da afinidade eletiva num grupo assim é
dupla: existem os laços de afeição interior e existe uma rejeição, mais ou
menos consciente, mais ou menos agressiva, dos costumes vulgares e dos
valores filistinos dos “outros”, da multidão comum. A senha para todo esse
conjunto de atitudes e crenças é uma declaração muito famosa de E. M.
Forster, feita pela primeira vez no final dos anos 1930 e depois muito
repetida: “Se eu tivesse de escolher entre trair meu país e trair meu amigo,
espero que tivesse a coragem de trair meu país”. Demasiado superestimado como romancista — apenas Uma passagem para a Índia é absolutamente
de primeira categoria —, foi Forster quem deu para sucessivas gerações de
Cambridge o tom de afinação da consciência. Seu homossexualismo, a
cuidadosa privacidade de sua conduta, seu lugar entre os Apóstolos
fizeram dele uma espécie de tribunal de recursos em questões de escolha
ética. Aliás, fica a curiosidade de até que ponto Forster saberia da verdade
sobre Burgess, Philby, Maclean, Blunt e seus pretorianos. Mas não resta
dúvida de que sua frase sobre a traição merece um exame detido.
Pessoalmente, sinto até uma forte atração por sua avaliação implícita. O
nacionalismo é o veneno da história moderna. Não existe nada mais
bestialmente absurdo do que a disposição dos seres humanos de incinerar
ou massacrar os semelhantes em nome da nação e sob o sortilégio pueril de
uma bandeira. A cidadania é um acordo bilateral que está, que deveria
sempre estar, sujeito a exame crítico e, se necessário, a renúncia. Nenhuma
cidade do homem justifica uma grande injustiça, uma grande falsidade. A
morte de Sócrates supera a sobrevivência de Atenas. Seguramente, nada
dignifica mais a história francesa do que a disposição dos franceses de
chegar à beira da ruína comunal, de enfraquecer drasticamente os vínculos
de nacionalidade (como de fato fizeram) por causa do caso Dreyfus. Muito
antes de Forster, o dr. Samuel Johnson havia definido o patriotismo como o
último refúgio do patife. Tenho dúvidas se o animal humano conseguirá
sobreviver se não aprender a dispensar fronteiras e passaportes, se não
entender que somos todos mútuos hóspedes, como hóspedes somos nesta
terra ferida e envenenada. A terra natal é a área de espaço comum — pode
ser um quarto de hotel ou um banco no parque mais próximo — que a
vigilância e a pilhagem dos regimes burocráticos modernos, seja no
Ocidente ou no Leste, ainda permitem a cada indivíduo para que possa
trabalhar. Árvores têm raízes; homens têm pernas com as quais podem ir embora depois que, na consciência, dizem não. Assim, há na frase de
Forster um humanismo ecumênico que merece defesa. Se Anthony Blunt
tivesse renunciado a sua carreira engalanada e procurasse um árido refúgio
em Moscou ou se suicidasse, em vez de delatar seus irmãos de Cambridge,
seria condenado pelo traidor que é, mas iria reconhecer-se em seu caso um
exemplo concreto do paradoxo de Forster e ver aí uma espécie de ponto
culminante lógico de uma longa tradição de lealdade entre garotos. Blunt,
claro, não fez nada tão elegante ou quixotesco. Ele traiu o país e os amigos
com o mesmo prazer impassível.
Todavia, o motivo homossexual pode ter pesado de duas maneiras. Teria
dado ao serviço secreto soviético um elemento para chantagear Blunt e seu
círculo numa época em que as leis inglesas, mesmo em relação ao mútuo
consentimento entre adultos, ainda eram draconianas. Mais importante, o
ethos homoerótico pode ter levado homens como Blunt e Burgess a
acreditar que a sociedade convencional ao redor, quaisquer que fossem os
prêmios que ela pudesse conceder aos talentos deles, era essencialmente
hostil e hipócrita. Estava, portanto, madura para sua justa derrubada, e a
espionagem era um dos meios necessários para este bom fim. A ironia é
que a União Soviética stalinista, como André Gide relatou com amarga
desilusão, era muito mais opressora em relação à homossexualidade do que
o Ocidente capitalista. Blunt, que no prefácio de 1940 à sua Teoria
artística na Itália 1450-1600 tinha agradecido a Guy Burgess por seu
auxílio e incentivo em “pontos muito fundamentais” — a autoridade de
Burgess na estética renascentista não é imediatamente evidente —, pôde se
desenvolver dentro e fora do serviço secreto britânico. Na Rússia, eles
organizam essas coisas de outra maneira.
Mas, embora fundamentais, nem o marxismo explícito de Blunt, nem
seu compromisso com a confraria juvenil de elite nos conduzem ao núcleo do enigma, que é a duplicidade radical, a aparente esquizofrenia do
professor e erudito de irrepreensível integridade e o impostor e traidor
profissional. Quando nossa sociedade chega a se dar ao trabalho de refletir
sobre a questão, ela e as convenções de mútuo reconhecimento com as
quais organiza seus assuntos do cotidiano simplesmente tomam como dado
o estatuto, a constituição moral do acadêmico, do erudito ou estudioso.
Apenas nas velhas piadas sobre o pensador distraído, esquecido,
desajeitado e incapaz de atender às necessidades mais simples e básicas da
existência comum é que aflora um pouco da antiga suspeita e inquietação.
O intelectual absoluto é, de fato, um ser bastante esquisito. Ele é movido
por aquilo que Nietzsche formulou, a saber: que estar interessado em
alguma coisa, estar totalmente absorvido por ela, é um impulso libidinal
mais poderoso do que o amor ou o ódio, mais tenaz do que a fé ou a
amizade — não raro, na verdade, mais imperioso do que a própria vida.
Arquimedes não foge de seus assassinos; nem mesmo vira a cabeça para
olhá-los, ao ouvi-los entrar no jardim enquanto está imerso na álgebra das
seções cônicas. O ponto central dessa estranheza é o seguinte: a reputação
convencional, o valor material ou financeiro, a atração sensorial, a
utilidade do objeto não guardam absolutamente nenhuma relação com o
interesse por ele. Um homem pode investir toda a sua vida no estudo de
fragmentos cerâmicos sumérios, na tentativa vertiginosa de classificar os
estercorários de uma das pontas da Nova Guiné, no estudo dos padrões de
acasalamento dos tatus-bola, na biografia de um único autor ou político, na
síntese de uma única substância química, na gramática de uma língua
morta. Urinóis coreanos do século ix, a questão do acento no grego antigo
— prova disso é a celebração irônica, mas também rigorosa, de Browning
em “A Grammarian’s Funeral” [Funeral de um gramático] — podem
compactar os poderes mentais e nervosos de um indivíduo ao auge do furor em êxtase. Mefistófeles foi perdulário ao oferecer em tentação a
Fausto os segredos do universo: a única Orchis faltando na coleção de sua
estufa, a página arrancada do códice laurenciano de Ésquilo ou a
demonstração ainda desconhecida do Último Teorema de Fermat teria
bastado. O estudioso absoluto, o mandarim, é uma criatura acometida sem
qualquer controle pela vazia “sacralidade do pequeno detalhe”
(classificação de William Blake). Buscando o que almeja, está
monomaniacamente desinteressado das possíveis aplicações práticas de
suas descobertas, da honra ou boa fortuna que possam lhe trazer, se existe
mais alguém no mundo que se interesse, que possa minimamente entender
ou dar valor ao que ele persegue. Tal desinteresse é a dignidade de sua
obsessão. Mas ela pode se estender a zonas mais problemáticas. O
arquivista, o monógrafo, o antiquarista, o especialista devorado por
chamas de encantamento esotérico podem ser indiferentes também aos
apelos de justiça social, de afeição familiar, de consciência política e
simples humanidade que lhes distraem a atenção. O mundo exterior é o
impedimento amorfo, grosseiro, que o impossibilita de alcançar a pedra
filosofal, ou pior, pode ser o inimigo, zombando, frustrando a irrestrita
primazia de sua paixão. Para o estudioso supremo, o sono é um estorvo,
um desperdício de tempo, e o corpo uma bagagem incômoda que o espírito
tem de arrastar atrás de si. O lendário docente Alain ensinava a seus alunos
franceses: “Lembrem-se, cavalheiros, que toda verdadeira ideia é uma
rejeição do corpo humano”. Daí derivam não só as lendas que se reúnem
em torno de Fausto, o conto do homem que sacrifica mulher, filhos, lar à
criação da tulipa negra perfeita (velha estória recontada por Dumas) e
todas as fábulas de terror sobre cabalistas e cientistas loucos, mas também
os fatos sóbrios e reais sobre a vida obsessiva, de sacrifício e
autodestruição dos abstraídos, desde que Tales de Mileto caiu no poço escuro enquanto tentava calcular a conjunção elíptica do Sol e da Lua. É,
de fato, uma atividade assombrosa e assombrada.
E ainda, creio eu, quando o sortilégio é antiquarista. Mesmo no extremo
mais radical da entrega autista, o cientista mira o futuro, com o que ele
encerra de novo e promissor. O numismático trabalhando para identificar
uma cunhagem arcaica, o musicólogo decifrando notações medievais, o
filólogo com seu códice corrompido ou o historiador da arte tentando
catalogar desenhos setecentistas barrocos ou rococós de menor
importância não só entraram no labirinto e desceram ao mundo
subterrâneo do esotérico, mas necessariamente inverteram o tempo. Para
eles, a pulsação da mais vívida presença vibra vindo do passado. Aqui
também temos um alheamento social e psicológico a que prestamos muito
pouca atenção. Hoje, um aluno de nível secundário resolve equações
inacessíveis a Newton ou a Gauss; um estudante de biologia poderia dar
aulas a Darwin. Na área de humanas, passa-se quase o exato contrário. A
proposição de que não surgirá no Ocidente nenhum escritor que se
equipare a William Shakespeare, e menos ainda que o ultrapasse, ou que
não se repetirão na música os fenômenos da prodigiosa qualidade
manifesta em Mozart e Schubert é logicamente indemonstrável. Mas traz
um peso tremendo de credibilidade intuitiva. O humanista é um
recordador. Ele caminha, como faz um grupo dos condenados no “Inferno”
de Dante, com a cabeça virada para trás. Avança cambaleante e indiferente
para o amanhã. O fragmento lírico grego do século vi, o cânone de Dufay,
os desenhos de Stefano della Bella são os ímãs para seus passos — ou,
como no mito imemorial da fatal retrospecção, são sua Eurídice. Essa
desorientação (muitos de nós experimentam uma leve náusea e
aturdimento ao sair de um cinema para a luz do dia) pode gerar dois
reflexos. O primeiro é uma intensa vontade de envolvimento — uma tentativa, às vezes desesperada, de se ligar à densidade fervilhante do
“real”. O erudito sai de seu isolamento retrospectivo para tentar se agarrar
à vida sexual, social ou política. Salvo raros casos — “Quanto à
subsistência, deixamos isso a nossos criados”, observou um esteta francês
—, a erudição obsessiva gera uma nostalgia pela ação. É “o gesto” que
atrai Doutor Fausto para sair da prisão imposta por “a palavra”. Foi a
chance inesperada de aplicar seus talentos misteriosamente arcanos — a
análise de problemas enxadrísticos, a epigrafia, a teoria dos números, a
teoria da gramática — que levou toda uma elite de acadêmicos britânicos a
se dedicar a operações de codificação e decodificação durante a Segunda
Guerra Mundial. Todos os que relembram os dias do “Ultra” e do
“Enigma” em Bletchley Park sentem uma espécie de clima de férias. Por
uma vez a paixão hermética e as necessidades nuas e cruas da época se
encontraram.
O segundo reflexo, desconfio eu, está muito mais próximo do
subconsciente. É de bizarra violência. A prática de dedicar as horas
despertas ao cotejo de um manuscrito, à revisão das marcas-d’água em
velhos desenhos, a disciplina de investir os sonhos na elucidação sempre
vulnerável de problemas abstrusos, acessíveis apenas a uma meia dúzia de
colegas rivais e à espreita, podem instilar um raro veneno no espírito. O
odium philologicum é uma doença famosa. Eruditos irão se criticar
mutuamente com uma malignidade desenfreada sobre o que, aos laicos,
parecem ser detalhes muitas vezes ridículos. O grande Lorenzo Valla não
foi o único humanista do Renascimento a correr perigo de vida após uma
biliosa controvérsia textual. A filologia, a musicologia, a história da arte,
por terem como eixo sutilezas minúsculas da percepção e do julgamento,
mostram especial propensão a esses prazeres do mútuo ódio e
incriminação. Como o foco constante desses eruditos é arquivístico e antiquarista, podem infectar seus adeptos com uma cepa estranha e
inanimada de ódio. Num ensaio clássico sobre A. E. Housman (1938),
Edmund Wilson propôs a sagaz sugestão de que a violência macabra em
“A Shropshire Lad” [Um rapaz de Shropshire] devia ser entendida em
conjunção com a selvageria do escárnio desenfreado do professor
Housman em seus artigos e estudos eruditos sobre a filologia grega e
latina. Ambos nascem do ceticismo enclausurado, compactado, do
estudioso de Cambridge. Como o de T. E. Lawrence, uma variante de
Oxford, esse ascetismo separa o escritor das “grandes nascentes da vida” e
pode nutrir uma necessidade patológica de crueldade. Hoje, Edmund
Wilson poderia sentir-se livre para defender essa sua percepção invocando
o tema dissimulado e compartilhado da homossexualidade acadêmica.
Poetas como Pope e Browning captaram o sopro de sadismo na academia.
Alguns dramaturgos e romancistas também. O crime de Sylvestre Bonnard,
de Anatole France, aborda o tema com leveza; aparece com um terror sem
rebuços na peça de Ionesco A lição. Fantasiando sobre a ação “lá fora”, no
mundo “real”, tecendo altos sonhos sobre a magnitude secreta, sobre a
importância oculta dos trabalhos em que ele enterrou sua existência —
trabalhos que a imensa maioria de seus semelhantes consideraria
totalmente marginal e socialmente inútil, se sequer chegassem a conhecê-
los —, o estudioso puro, o mestre dos catálogos, pode se inebriar de ódio.
No nível comum, ele exorcizará sua bílis na maldade ad hominem
resenhando um livro, despejando arsênico numa nota de rodapé. Dará
vazão a seus ressentimentos nas suaves traições de uma ambígua carta de
recomendação ou de avaliação e na picada de escorpião de um comitê para
decidir a estabilidade de um colega. A violência se mantém formal. Não,
imagina-se, no caso do professor Blunt.
Aqui a minuciosa e meticulosa exatidão do estudo erudito encontrou
compensação ou contraposição paródica — pois existem sensibilidades
fortes e ao mesmo tempo obscuramente mutiladas que exigem alguma
espécie de subversão escarninha de si mesmas, para as quais é imperioso
ridicularizarem algo que é central para seu próprio ser, como quando a
língua fricciona e aumenta a dor de um dente — nas mentiras e corrupções
da toupeira. Aqui a escrupulosidade ascética do pedagogo que formou
gerações de discípulos no código impiedoso da verdade documental era
contrabalançada pela prolongada perícia magistral na falsidade e na fraude.
Acima de tudo, o professor Blunt foi capaz de traduzir em atividades
clandestinas, em mentiras dissimuladas e, possivelmente, em resultados
assassinos (os homens e mulheres marcados para a vingança soviética na
Europa Oriental) aquelas fantasias de ação viril, aqueles desejos de
violência que borbulham como gases miasmáticos das profundezas da
erudição e do pensamento abstruso. O comentário de Blunt sobre o
suicídio de Borromini em 1667 é a coisa mais próxima a um
desmascaramento de si mesmo que conhecemos até agora:
Ter estado sob uma tensão tão violenta que o levou a este ato de violência — se não de loucura — e, ainda assim, ser imediatamente capaz de ditar um relato tão lúcido do evento revela uma combinação de intensa força emocional e desprendimento racional que estão entre as qualidades que se somam para fazer dele um arquiteto tão grandioso.
“Intensa força emocional”, embora narcisista, e “desprendimento
racional”, tal como o estudioso deve cultivar na busca obsessiva de sua
meta — esses aspectos parecem caracterizar o guardião dos tesouros
artísticos da Coroa, tanto quanto o agente da kgb. A controlada dualidade é
a mesma de um agente duplo em relação a si mesmo, de um traidor do
outro que, em algum nível final de ironia ao mesmo tempo juvenil e sofisticada, se alimenta da traição a si mesmo. Um dividendo psicológico
para Blunt parece ser o seguinte: ele é a um só tempo testemunha e juiz de
si; o único tribunal que reconhece como competente é o da própria
duplicidade.
É a condescendência de Blunt, sua armadura intata de amor-próprio, que
tem impressionado as pessoas que o procuraram desde seu
desmascaramento público. Espíritos calejados no jornalismo recuaram
diante dos sofismas impassíveis do homem, diante da ponta de satisfação
consigo mesmo com que saboreou os sanduíches de truta defumada que lhe
foram atenciosamente servidos por uma equipe de entrevistadores no
santuário editorial do Times de Londres. Ele pintou seus longos anos a
serviço da inteligência soviética como coisa marginal, quase amadorística
em sua insignificância. Negou ter passado informações de qualquer
importância efetiva. Seu envolvimento no caso escabroso Philby-Burgess-
Maclean era apenas de amizade pessoal, de atitude decente que se tem entre
almas afins. Sua apresentação na tevê na terceira semana de novembro
passado foi um clássico. Ela mostrou o efeito sensacionalista não só de
Blunt, mas também, e ainda mais inquietante, do próprio veículo de
comunicação. Aqui estava, como disse mais tarde um jornal, “um homem
com uma capacidade infinita para a duplicidade” executando um leve e
suave pas de deux perante milhões de espectadores. As mãos elegantes
traçavam arabescos sugerindo uma cumplicidade cordial com os
entrevistadores e um amplo público que Blunt, com muita razão, deve ter
julgado sequioso e lascivo. Os lábios se moviam com afetação, soltando
frases na aparência hesitantes, porém finamente floreadas, numa voz em
tom menor característica dos salões de Cambridge dos tempos de outrora.
Mas os olhos do professor Blunt permaneceram o tempo inteiro gélidos e
inexpressivos como vidro. Foi seu companheiro mais jovem que,
pressionado pela imprensa e pela sordidez de tudo aquilo, caiu ou saltou da janela do apartamento de Blunt. Este, por sua vez, visto em Roma em
meados de setembro, consta que estaria trabalhando em suas memórias e
justificativas num refúgio ensolarado.
Essa pantomima não tem importância. O que os historiadores vão olhar
é o espectro das reações que o desmascaramento público de Blunt
provocou no establishment social e cultural inglês. Durante semanas, a
página das cartas dos leitores no Times foi tomada por um coro de
manifestações. O franco asco ou o anátema foram esparsos. O mandarinato
intelectual e a “gente do alto” (expressão semidepreciativa do próprio
Times) acorreram em apoio a Blunt. Suas justificativas seguiam três linhas
principais, isoladamente ou em conjunto. Uma delas era que a pobre
criatura já tinha sido castigada o suficiente com o desmascaramento no
Parlamento e a perseguição de uma matilha de jornalistas vulgares. Já não
havia confessado e recebido garantia de imunidade muitos anos antes?
Deveria um personagem tão distingué ser julgado duas vezes pelo mesmo
crime? A segunda modalidade de argumentação tinha mais conteúdo. A
conversão de Blunt ao comunismo, alegaram algumas das vozes mais
representativas nas letras, nas artes e no pensamento político da atualidade
inglesa, tinha sido parte de um movimento muito difundido. Apoiar
Moscou nos anos 1930, fugir da destruição do capitalismo decadente e da
ameaça de Mussolini, Franco e Hitler, era, na época, fazer a coisa certa, a
coisa decente. Se fosse para atirar pedras em Anthony Blunt, quem, como
disse Shakespeare, “escaparia ao açoite”? Por que um Auden partiria
envolto em olor de santidade enquanto um Blunt era perseguido? Que a
grande maioria dos intelectuais pró-soviéticos tinha repensado sua posição
na época da aliança Hitler-Stálin e que praticamente nenhum deles traduziu
suas simpatias em traição e espionagem eram pontos que até poderiam
conceder, mas tratados com ligeireza. A terceira linha de defesa, apresentada, por exemplo, pelo historiador A. J. P. Taylor, era a seguinte: o
desmascaramento de Blunt se baseou em provas pouco confiáveis, mais
notadamente as revelações de um americano que tinha sido agente da cia.
Não se podia atribuir muita credibilidade ao material, e nenhum indivíduo
deveria ir para o pelourinho a partir de elementos tão inconsistentes.
Taylor tem razão quando aponta a fragilidade e o teor forjado do caso tal
como foi oficialmente revelado. Apesar disso, não há dúvidas sobre a
questão de fundo, que é a traição de Blunt. O sentimento pressionando em
seu favor, além disso, não era basicamente judicial ou sequer racional.
Nascia daquele ethos da amizade inabalável proclamado por E. M. Forster
em seu emblemático aforismo. Mesmo quase vitimado pelos trotes, Tom
Brown, na Arcádia infernal de seus dias de escola, não irá delatar nem
mesmo o valentão da turma. Os cadetes navais de Henty, os subalternos de
Kipling, a juventude dourada de 1914 seguem para suas variadas mortes
cercados pela aura da lealdade masculina. Um cavalheiro não denuncia o
amigo; não lhe vira as costas quando, por qualquer razão que seja, está em
dificuldades. Quando lhe perguntaram o que faria se agora Blunt lhe
aparecesse à porta, um acadêmico de Cambridge falou por muitos: “Eu lhe
ofereceria uma bebida e diria, ‘Mau negócio. Azar, Anthony’. Penso que
em Cambridge as amizades e lealdades pessoais contam muito, e com
muita razão. E isso ainda vale. Certamente não aconteceu nada que
diminuísse a amizade”. A linguagem coloquial estudantil da passagem —
“mau negócio”, “azar” — e a fatuidade melosa da última frase
exemplificam bem o tom dominante.
Tendo sido previamente avisado do pronunciamento que mrs. Thatcher
iria fazer, o professor Blunt, que pertencia a dois clubes em Londres,
renunciou ao menos prestigioso. Presume-se que continua a ser bem
recebido no outro. Perdeu seu título de sir por decreto real — procedimento muito raro, que tinha sido adotado pela última vez, se não
me engano, em relação a sir Roger Casement, quando tentou instigar
distúrbios na Irlanda durante a Primeira Guerra Mundial. (Casement, claro,
foi enforcado.) Sob extrema pressão, Blunt renunciou a seu cargo
honorário no Trinity College, antes que o conselho da faculdade tivesse de
enfrentar uma votação que certamente seria angustiosa. Não se ofereceu
nem lhe pediram que renunciasse a seus títulos honorários, notadamente
em Oxford. Quando a Academia Britânica se reuniu em 3 de julho
passado, em meio a um considerável interesse público, foi tema da pauta
se Blunt continuaria a ser membro, mas a augusta instituição logo passou
para outro assunto. As letras “fba” [Fellow of the British Academy]
continuaram a acompanhar o sobrenome de Blunt. No dia seguinte ao da
reunião, encontrei vários membros da Academia e lhes perguntei que
atitude teriam adotado se Blunt tivesse sido agente dos serviços secretos
nazistas. Não recebi nenhuma resposta clara. Alguns admitiram que, de
fato, estavam se guiando por um duplo critério mal definido, que a traição
pró-nazista era de uma sordidez que a traição pró-soviética, especialmente
se iniciada nos anos 1930, não possuía. Mesmo o mundo do gulag e dos
perigos atuais não era capaz de apagar inteiramente a diferença quase
estética. Outros achavam que se negariam a excluir Blunt da Academia,
mesmo se tivesse espionado para Himmler. Quando perguntaram a mim,
não consegui, por minha vez, dar uma resposta simples. Uma cadeira na
Academia Britânica rende homenagem à erudição eminente. As
realizações de Blunt como historiador da arte continuam grandiosas. Os
“monumentos de imorredouro intelecto” — orgulhosa expressão de Yeats
— podem ser negados por razões morais ou políticas? Eu também tomei os
votos do sacerdócio. E, abrindo o Times Literary Supplement um ou dois
dias depois — o TLS é a caixa de correio da intelectualidade britânica —, leio uma resenha de convincente autoridade de Anthony Blunt sobre uma
recente obra a respeito da arquitetura neoclássica francesa. O editor
deveria não ter encomendado a resenha? Blunt deveria ter sentido
vergonha, necessidade de discrição, e não a ter escrito? Mais uma vez, não
sei. Pressões devem ter aparecido. Blunt apresentou sua renúncia à
Academia em 18 de agosto.
Aninhado na gaiola de seu cárcere em Pisa, Ezra Pound, cujas traições
parecem amadorísticas e essencialmente histriônicas em comparação às de
Blunt, escreveu um dos grandes lamentos sobre o homem em toda a
literatura. E, apesar disso, o Canto lxxxi salta da lúcida abjeção para a luz
da manhã, para a convicção de que existe na arte, no pensamento elevado,
uma redenção para o que há de infernal em nossa condição:
Mas ter feito ao invés de não fazer
não é coisa vã
Ter, com modéstia, batido à porta
E que um Blunt abrisse
Ter colhido do ar uma tradição viva
ou de um belo velho olhar a chama indômita
Não é coisa vã.
Pound se refere, com quase toda certeza, a Wilfrid Scawen Blunt, o
esteta, viajante e poeta lírico que morreu em 1922, e de quem o irmão mais
velho de Anthony Blunt, conhecedor de arte e apaixonado por Paris,
recebeu o nome. Mas não importa. Com este nome, Pound queria designar
tudo o que há de radioso e verdadeiro em nosso amor e estudo da arte. Para
todos os que acalentam esses versos como pedra de toque de nossas
esperanças, e para todos os que irão lê-los nas gerações vindouras, o estrago
está feito. Agora “Blunt” queima e deixa uma marca derrisória no tecido
brilhante do poema. Ao fim e ao cabo, pode ser este o principal direito do
professor Anthony Blunt à lembrança. Maldito seja.
8 de dezembro de 1980
OceanofPDF.com