Tigres no Espelho e Outros Textos da Revista The New Yorker
Danúbio Negro
O gume da sátira é localizado. A eficácia do satirista depende da precisão,
da densidade circunstancial de seu alvo. Como o caricaturista, ele trabalha
perto de seu objeto e visa obter surpresa e reconhecimento imediato. Em
certo sentido, a sátira almeja não só a destruição, mas também a
autodestruição. Idealmente, ela consome seu objeto e assim elimina a causa
que lhe despertou raiva. O fogo se extingue na cinza fria. Karl Kraus, de
Viena, o satirista-mor de nossa época, deu a seu periódico o nome de Die
Fackel (A Tocha), mas não foi o único a recorrer ao tema do fogo; há uma
antiga afinidade entre a chama e a sátira.
Assim, poucas são as sátiras, verbais ou pictóricas, que duram. Em
Aristófanes, há uma espécie de malabarismo cômico do intelecto, uma
maravilhosa palhaçada das ideias, que lhe assegura certa universalidade,
mas mesmo suas melhores comédias só despertam o riso, em larga medida,
depois que o leitor passa por moitas espinhosas de notas de rodapé e
explicações eruditas. O grau de generalidade dos temas de Juvenal — a
guerra entre os sexos, a hipocrisia religiosa, a ostentação vulgar do
nouveau riche, a corrupção acelerada da política urbana — eleva sua fúria
a uma perene tristeza em relação ao homem. Mas é impressionante como
Juvenal aparece muito melhor em citações do que num texto inteiro. Na
acuidade do tema, no encaixe exato entre o roteiro satírico e sua
contraparte político-religiosa, “Uma história de um tonel” continua a ser a
grande obra-prima de Swift. Hoje em dia, apenas os estudiosos leem essa invenção feroz, pois ela pressupõe que a pessoa tenha um conhecimento
especializado e muitas referências sobre a política eclesiástica e partidária,
a política da Igreja e do governo, nas primeiras décadas do século xviii na
Inglaterra. Se As viagens de Gulliver perduram como um clássico, em
larga medida é a despeito de suas intenções satíricas específicas, também
políticas e partidárias — na verdade, indecentes —, que sustentam os
contos. Aqui, num caso quase único, o veneno, que exigia o
reconhecimento e a identificação exata das referências, evaporou-se na
fantasia.
O problema que qualquer pessoa encontra em 1986, procurando ler Karl
Kraus em qualquer língua que não seja um alemão vienense/antivienense
muito específico, é o do localismo, aquilo que Henry James chamaria de
“o espírito do lugar”. É o problema da extrema densidade, do
entrelaçamento de alusões efêmeras, de referências internas e da exigência
prévia de familiaridade com elementos codificados mesmo nos escritos
mais abrangentes e apocalípticos de Kraus. Viena na virada do século, no
período entre guerras e na véspera da catástrofe não é apenas o sólido
cenário de Kraus, o polo magnético de seu senso de realidade; é a
constante diária de sua reportagem moral minuciosamente observadora.
Que ele tinha dentro de si uma Arcádia ciosamente guardada — um amor
tímido e ansioso por alguns retiros alpinos e boêmios —, é inegável. Mas o
gênio que lhe animava a obra, o inesgotável combustível que alimentava
seus ódios líricos, era uma única cidade essencial — analisada, dissecada,
registrada em sua vida política, social, artística, jornalística, num escrutínio
cotidiano dos anos 1890 até 1936, ano em que morreu. A Viena de Kraus é
o ambiente total para sua sensibilidade, como Dublin é para James Joyce.
Observando Viena, Kraus foi tomado pela clarividência. Percebeu em
seu brilho cultural febril os sintomas da neurose, das tensões fatais entre a civilização e seu mal-estar. (“O mal-estar da civilização”, expressão
famosa de Freud, o escrutinador rival de quem Kraus zombava, bem podia
ser de sua lavra.) Ele registrou no idioma do jornalismo vienense, da
conversa de salão e da retórica parlamentar uma doença que invadia os
centros vitais da língua alemã. Muito antes de George Orwell, e de
maneira muito mais abrangente, Karl Kraus relacionou a decadência da
lucidez, dos valores de verdade, da fonte pessoal do discurso público e
privado com a decadência mais ampla das sociedades políticas centro-
europeias e ocidentais. As repetidas sátiras de Kraus às falácias, ao
funcionamento da lei, em especial do direito penal, de acordo com
interesses de classe, constituem uma rejeição implacavelmente mordaz de
toda a ordem burguesa. Antes, talvez, do que qualquer outro crítico social,
Kraus enfocou e analisou a subversão das ideias estéticas na literatura e
nas belas-artes promovida pela força onipotente da publicidade, dos meios
de comunicação de massa, do preparo prévio dos materiais. Sua dissecação
do kitsch é insuperável. E, de uma maneira que desafia explicações
racionais — nisso ele se iguala a Kafka —, Kraus sentiu no declínio do
velho regime europeu e nos horrores insanos da Primeira Guerra Mundial a
aproximação de trevas ainda mais densas. Satirizando a crença ingênua no
progresso científico, pôde formular em 1909 a proposição, então
inteiramente fantástica (agora intolerável), de que o progresso de tipo
científico-tecnológico “faz bolsas com pele humana”.
Mas, por mais vastas que sejam as implicações, os acontecimentos que
motivaram as profecias de Kraus, as molas que acionaram sua fúria,
continuam a ser estritamente locais e datados. Suas paródias e críticas
numa linguagem enfurecida brotam de alguma matéria na imprensa muitas
vezes trivial, de alguma resenha literária passageira, de algum anúncio ou
resumo publicitário. As diatribes contra a miopia brutal da lei e da burocracia do final do império ou do período entre guerras são acionadas
por algum obscuro processo judicial no subúrbio ou no centro da cidade.
As polêmicas altamente ambíguas sobre o tema da homossexualidade —
Kraus deplorava a desapiedada perseguição a ela, mas ao mesmo tempo
receava sua influência clandestina na política e nas letras — supõem um
conhecimento íntimo de certos escândalos, de processos por difamação, de
suicídios sob a pressão da chantagem, tanto na Alemanha dos
Hohenzollern quanto no beau monde vienense. Hoje, quem ainda lembra
(e, menos ainda, lê) dos jornalistas, críticos teatrais, publicistas ou
pedantes acadêmicos que Kraus escolheu para fustigar incansavelmente?
Quem recorda os peritos forenses, os criminologistas cujas satisfações
bitoladas foram expostas ao ridículo nos escritos de Kraus? Mesmo seu
magnum opus — a titânica colagem teatral sobre a Primeira Guerra
Mundial, chamada Os últimos dias da humanidade, magnificamente
construída pelos moldes das alegorias da Noite de Walpúrgis, da segunda
parte do Fausto, de Goethe — não raro exige um sólido conhecimento não
só do dialeto e da gíria vienenses, mas também das minúcias dos costumes
sociais e administrativos na estrutura do Império Austro-Húngaro, que
desmoronava.
Um segundo obstáculo impede o atual acesso a Kraus. Seus textos
reunidos são vastos; os dois volumes de cartas íntimas à baronesa Sidonie
Nádherný, que foi a grande paixão de sua vida, são extremamente
reveladores. Mas a capacidade de impacto de Kraus parece ter se
manifestado melhor em suas apresentações pessoais como leitor e
declamador dos próprios escritos, de poemas e de suas traduções de
Shakespeare e outros dramaturgos. Kraus fez cerca de setecentas
apresentações individuais, com leituras de textos, entre 1910 e 1936.
Temos inúmeros relatos, todos eles igualmente entusiásticos, de testemunhas oculares e auriculares dessas apresentações (mais
recentemente nas memórias de Canetti). Ao que parece, de suas
declamações e leituras emanava uma força pura do pensamento, um
carisma intelectual histriônico do mais singular virtuosismo. Entre 1916 e
1936, ele adaptou em alemão treze peças de Shakespeare para
apresentação solo. Os presentes na plateia (ainda entre nós) falam de uma
multiplicidade de vozes, de um ritmo e uma tensão dramática sem igual no
teatro de nossa época. Entre as artes da apresentação direta de Kraus estava
a música: com o acompanhamento de um piano, ele fazia mímicas,
cantava, declamava musicalmente as operetas de Offenbach, que trouxe ao
primeiro plano da literatura e da sátira social, junto com o dramaturgo
oitocentista vienense Johann Nestroy e o contemporâneo escritor de peças
de cabaré Frank Wedekind. Era Kraus em sua tribuna, em seu Teatro da
poesia e do pensamento, que exercia o máximo fascínio. Como outros
grandes profetas e vigias da noite, ele mantinha uma relação com a
linguagem mais física, mais imediata, do que com qualquer outra capaz de
ser posta por escrito. Desses dramas da palavra restaram uma ou duas
fotografias amadoras. Não há nenhuma gravação.
São essas distâncias do homem e de seu meio que tornam quixotescas
as tentativas do professor Harry Zohn de angariar um público leitor mais
amplo para Kraus, em inglês. Half-Truths & One-and-a-Half Truths
[Meias verdades e verdades e meia] procura apresentar aos leitores de
língua inglesa “um mosaico das opiniões, atitudes e ideias de Karl Kraus,
apresentadas em forma de aforismos”. Ora, é absolutamente verdade que
Kraus criou máximas lapidares e aforismos afiados. Mas falta-lhes,
sobretudo fora de contexto, a intensidade persuasiva, a pressão
avassaladora de sua retórica. Como os poemas de Kraus, muitas vezes os
aforismos sofrem de um maneirismo deliberado, da presunção do sábio.
Há momentos densos, sugestivos: “Sátiras que a censura entende devem
ser mesmo proibidas”; “Não se deveria aprender mais do que o
estritamente necessário contra a vida”; “Não tenho mais colaboradores.
Costumava invejá-los. Eles afastam aqueles leitores que eu mesmo quero
perder”; “A psicanálise é aquela doença mental para a qual ela própria se
considera uma terapia” (tirada famosa e irrefutável); “Não gosto de me
meter em meus assuntos pessoais”; ou este achado, tão consoante com as
máximas de La Rochefoucauld: “A ingratidão costuma ser desproporcional
ao benefício recebido”. Mas os ditos escolhidos e reunidos pelo professor
Zohn são, em grande parte, pouco memoráveis. Existe coisa mais banal do
que “Considera-se normal consagrar a virgindade em geral e desejar sua
destruição em particular”? Precisamos que o demolidor do
sentimentalismo venha nos dizer que “O amor e a arte não abraçam o belo,
e sim o que se torna belo pelo abraço”? Como é vazia a autodramatização
nessa bravata de Kraus: “Eu e a vida: chegamos a um acordo de
cavalheiros. Os adversários se separaram sem ter se reconciliado”. Como é
forçada essa declaração: “Muitos compartilham minhas ideias comigo.
Mas eu não as compartilho com eles”. E existe alguma generalidade mais
fácil de refutar do que “Um poema é bom até que se descobre o autor” — e
isso vindo de um tradutor fervoroso, embora canhestro, dos sonetos de
Shakespeare? Sem o contexto, o que o leitor há de fazer com algo que não
é de fato um aforismo krausiano, e sim uma variação da citação mais
universal de todas: “Senhor, perdoai-os, pois eles sabem o que fazem!”?
Pode ser que o dito mais celebrado de Kraus seja também o mais
controvertido: “Sobre Hitler não me ocorre nada” (“Mir fällt zu Hitler
nichts ein”). O profeta ficou sem palavras diante do pesadelo de
materialização de seus piores receios. Formulada no final da primavera ou
no começo do verão de 1933, essa abstenção do discurso, esse adeus à eloquência, expressa uma terrível exaustão. As centenas de apresentações
públicas, os 37 volumes de Die Fackel, a saída atormentada e o retorno
marginal de Kraus ao judaísmo (a questão permanece obscura) tinham sido
inúteis. Um inferno filistino estava prester a engolir a civilização europeia
e, mais especialmente, a língua alemã, que Kraus havia amado e pela qual
lutara. “A língua é a única quimera cujo poder ilusório é infindável, é a
inesgotabilidade que impede que a vida se empobreça”, tinha escrito ele.
“Que os homens aprendam a servir à língua.” Agora o instrumento seleto
de Kraus, a única vara divinatória da verdade disponível ao indivíduo
pensante, ia se tornar o megafone roufenho do inumano. Diante de Hitler,
um antimestre da palavra mais implacável do que ele — um ator,
charlatão, declamador mais hipnótico —, Kraus caiu no silêncio. Em
algum nível muito profundo da semiconscência, talvez tenha percebido em
Hitler a imagem monstruosamente distorcida, mas também paródica, de
seus próprios talentos. Agora estava entre o espelho e a bola de cristal, e
ficou mudo.
Na verdade, os miasmas do nazismo tinham nascido na Áustria. Foi nas
ruas de Viena, antes de 1914, que Adolf Hitler abasteceu seu suprimento de
teorias raciais, ressentimentos histéricos e antissemitismo que iria compor
sua demonologia. Quando o nazismo voltou ao lar em Viena, na primavera
de 1938, teve uma acolhida até mais fervorosa do que tinha recebido na
Alemanha. Formas espectrais do nacional-socialismo, um veio pulsante de
antissemitismo, uma singular fermentação de obscurantismo, em parte
eclesiástico, em parte rural, continuam a caracterizar o estado de espírito na
Áustria de Kurt Waldheim. É esse caldeirão das bruxas que provoca as
denúncias e sátiras implacáveis de Thomas Bernhard.
À diferença de Kraus, Bernhard é acima de tudo um autor de ficção —
de romances, contos e peças radiofônicas. Prolífico e desigual, em suas melhores obras é o artesão supremo da prosa alemã, depois de Kafka e
Musil. Amras (ainda não traduzido para o inglês), The Lime Works [As
obras de cal], em tradução de Sophie Wilkins (e recentemente relançado
pela University of Chicago Press, que também publicou dois outros
romances de Bernhard), o ainda não traduzido Frost criaram uma
paisagem de angústia como nenhuma outra na literatura moderna,
pormenorizada, imaginada detidamente. As matas escuras, os cursos
d’água velozes, mas amiúde poluídos, os vilarejos malignos e insalubres
de Carinthia — a região remota da Áustria onde Bernhard leva sua vida
totalmente reservada — foram transformados no palco de um inferno de
segunda categoria. Aqui a ignorância, os ódios arcaicos, a brutalidade
sexual, a vaidade social prosperam como víboras. De forma sinistra,
Bernhard estendeu essa visão noturna e friamente histérica aos píncaros da
cultura moderna. Seu romance sobre Wittgenstein, Correction [Correção]
(disponível em brochura pela Vintage), é uma das maiores obras da
literatura pós-guerra. Seu Der Untergeher [O perdedor] (sem tradução para
o inglês), narrativa centrada na mística e na genialidade de Glenn Gould,
examina os poderes obsedantes da música e o enigma de um talento de
execução suprema. A musicologia, a obsessão erótica e o tom dominante
de autodesprezo que caracteriza Bernhard conferem uma força
contundente ao romance Concrete [Concreto] (outro dos volumes que
saíram pela Universidade de Chicago). Entre esses pontos altos estende-se
um excesso de roteiros e enredos de ficção que apenas imitam a si
mesmos, automaticamente sombrios. Mas, mesmo quando Thomas
Bernhard não faz jus a si mesmo, o estilo é inconfundível. Herdeiro da
pureza ebúrnea da prosa de Kleist e da trepidação de terror e surrealismo
em Kafka, Bernhard fez da frase curta, com uma sintaxe impessoal e de ar
burocrático, e do desnudamento das palavras até o osso instrumentos totalmente adequados à sua finalidade de denúncia veemente. Os primeiros
romances de Beckett podem dar ao leitor inglês uma ideia aproximada da
técnica de Bernhard. Mas mesmo no mais desolado Beckett há riso.
Nascido em 1931, Bernhard passou a infância e a adolescência na
Áustria pré-nazista e nazista. A hediondez, a mendacidade gritante dessa
experiência lhe marcaram toda a visão de mundo. De 1975 a 1982,
Bernhard publicou cinco estudos de autobiografia. Eles cobrem o período
do nascimento aos vinte anos de idade. Agora reunidas numa sequência
contínua, essas memórias formam Gathering Evidence [Obtenção de
prova] (Knopf). Narram os primeiros anos de um filho ilegítimo criado por
avós excêntricos. Relatam os medonhos anos de escola num sistema
sadicamente repressor, primeiro dirigido por padres católicos, depois por
nazistas, então de novo por padres, em que o ponto evidente é que não há
muito o que escolher entre os dois. A seção chamada “O porão” narra com
detalhes paralisantes as experiências do jovem Bernhard em Salzburgo,
quando a cidade estava sob os bombardeios das Forças Aéreas dos
Aliados. Os anos imediatos do pós-guerra foram um oásis para Bernhard,
que foi trabalhar como aprendiz e ajudante de vendedor numa mercearia
vienense, presenciando a derrota temporária dos nazistas, agora
democratas após uma súbita e surpreendente conversão. Fazendo serviços
de rua para o avô moribundo, o velho tigre anarquista e anticlerical a quem
Bernhard tanto amava, mais do que a qualquer outra pessoa próxima, o
rapaz de dezoito anos fica doente. No hospital, é encaminhado para a
enfermaria dos senis e moribundos. (Essas enfermarias vão adquirir
presença constante em seus romances posteriores e na inspiradíssima obra
— em parte fatual, em parte inventada — O sobrinho de Wittgenstein.) Na
enfermaria, Bernhard contrai tuberculose. Quase ingressando na vida
adulta, recebe uma sentença de morte. É na expectativa constante da consumação dessa sentença e, ao mesmo tempo, em desafio a ela que
Bernhard se refugia na cidadela fortificada de sua arte.
Escrupulosamente traduzido por David McLintock, que também
traduziu Concrete, esse retrato do artista como menino atormentado e
jovem assombrado pela morte não é de fácil leitura. O tom é de uma dor e
uma repugnância sem fim:
Logo se confirmou minha suspeita de que nossas relações com Jesus Cristo, na verdade, não eram diferentes das que tínhamos tido com Adolf Hitler seis meses ou um ano antes. Quando avaliamos os cânticos e coros que são cantados em honra e glória de qualquer personalidade dita extraordinária, não importa qual — cânticos e coros como os que costumávamos cantar na pensão durante e depois do período nazista —, temos de admitir que, tirando leves diferenças nas letras, os textos são sempre os mesmos e são sempre cantados à mesma melodia. Tudo em todos esses cânticos e coros é simplesmente uma expressão de obtusidade, de baixeza e de falta de caráter por parte dos que os cantam. A voz que se ouve nesses cânticos e coros é a voz da inanidade — da inanidade universal, planetária. Todos os crimes educacionais perpetrados contra os jovens nos estabelecimentos de ensino em todo o mundo são perpetrados em nome de alguma personalidade extraordinária, chame-se Hitler, Jesus ou o que for.
Os médicos, tanto quanto os professores, são torturadores autorizados.
O desprezo deles pela vida interior do paciente, pelas necessidades
complexas do moribundo, é exatamente proporcional à sua arrogância, a
suas pretensões altaneiras, mas vazias, a um saber especializado. O relato
minucioso de Bernhard sobre os momentos de quase asfixia durante as
injeções de ar no peito é deliberadamente insuportável. Representa uma
alegoria mais ampla do estrangulamento: pelas circunstâncias familiares,
pelo ensino, pela submissão política. “O professor apareceu no hospital de
imediato e me explicou que o que havia acontecido não era nada fora do
normal. Continuou repetindo isso enfaticamente, com os modos agitados e
uma expressão maligna no rosto que transmitia uma clara insinuação de ameaça. Meu pneumotórax agora tinha se estragado, devido à discussão do
professor sobre o menu de seu almoço, e tiveram de pensar em alguma
coisa nova.” Segue-se uma intervenção pior, ainda mais brutal.
Dentro dessa “inanidade planetária”, a inanidade da Áustria é, de longe,
a mais repulsiva. Bernhard investe contra o untuoso sepultamento
austríaco de seu passado absolutamente nazista; contra o provincianismo
megalomaníaco da cultura vienense; contra o pântano da superstição, da
intolerância, da avareza em que o camponês ou montanhês austríaco
conduz seus assuntos. Bernhard lança um anátema contra um país que
criou uma prática sistemática de ignorar, humilhar ou banir seus maiores
espíritos, fossem eles Mozart ou Schubert, Schoenberg ou Webern; um
mundo acadêmico que se nega a homenagear Sigmund Freud, mesmo
postumamente; um código crítico-literário que exila Broch e Canetti, e
relega Musil praticamente à inanição. Existem muitos círculos do inferno,
traçados pela estupidez, pela venalidade e pela cobiça humanas. Viena e
Salzburgo são os piores. Somente na província de Salzburgo, anualmente 2
mil seres humanos, muitos na juventude, tentam o suicídio. Um recorde
europeu, mas, a crer em Bernhard, praticamente compatível com os
motivos: “Os habitantes da cidade são totalmente frios; a mesquinharia é o
pão de cada dia e o calculismo miserável é seu traço característico”. Num
romance muito recente, Old Masters [Mestres antigos], os louros da
infâmia são concedidos, sem direito a recurso, à “mais estúpida”, à “mais
hipócrita” de todas as cidades: Viena.
O problema do ódio é que ele tem fôlego curto. Quando o ódio gera
uma inspiração verdadeiramente clássica — em Dante, em Swift, em
Rimbaud, vem em surtos, por curtas distâncias. Prolongando, torna-se uma
serra monótona e sem fio zunindo e arranhando interminavelmente. A
misantropia obsessiva e indiscriminada em Bernhard, as filípicas ininterruptas contra a Áustria ameaçam malograr seus próprios objetivos.
Ele não admite o fascínio e o genuíno mistério do caso. O país, a sociedade
contra os quais ele vitupera com tanta razão devido a seu nazismo, a seu
fanatismo religioso, à sua ridícula vaidade própria, por acaso vêm a ser
também o berço e o cenário de muitas das coisas mais férteis e mais
significativas em toda a modernidade. A cultura que desovou Hitler
também gerou Freud, Wittgenstein, Mahler, Rilke, Kafka, Broch, Musil, o
Jugendstil e tudo o que há de mais importante na música moderna.
Extirpemos a Áustria-Hungria e a Áustria do período entre as guerras da
história do século xx, e faltar-nos-á não só o que há de mais demoníaco,
mais destrutivo, naquela história, mas também suas grandes fontes de
energia intelectual e estética. Faltar-nos-ão as próprias forças, a violência
autodilaceradora do espírito, que geraram um Kraus e um Bernhard. O que
outrora foi central para a Europa passou a ser central para a civilização
ocidental. Sob muitos evidentíssimos aspectos a cultura urbana americana
atual, e especialmente a cultura urbana judaica americana, é um epílogo
coruscante à Viena fin-de-siècle e àquele dínamo de genialidade e neurose
definido pelo triângulo Viena-Praga-Budapeste. Para chegar a esse grande
núcleo, o simples ódio é um guia caolho.
21 de julho de 1986
OceanofPDF.com